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Daniela Ruah

Ela agora vive numa cidade que nunca dorme. É uma entre milhões de actrizes. É uma entre milhões de judeus. É uma entre milhões de emigrantes. Daniela Ruah tem 24 anos. Estuda no Lee Strasberg Institute, estudou na London Metropolitan University. Fez toda a formação, em Portugal, no colégio inglês St. Julians. Nasceu nos Estados Unidos, não tem sangue português. Sente-se portuguesa, mais que tudo, porque aprendeu a amar em português.

Tem uma beleza exótica. É uma entre milhões que acreditam que podem chegar longe. E se ela for a próxima Angelina Jolie?

 

Vamos assumir que esta entrevista se faz em véspera de partir para Nova Iorque, onde vive há cerca de um ano. O que é que separa a vida de Lisboa da vida de NY?

Sou a mesma em Lisboa ou em NY. Pode haver diferenças no estilo de vida. Cá, as pessoas reconhecem-me na rua e tenho em consideração o que digo, ou faço, ou mostro. Nos Estados Unidos não sou uma cara conhecida e por isso levo uma vida mais relaxada. Mas eu sou eu, não mudo. Fico contente quando me dizem que não fiquei arrogante depois de começar a trabalhar em televisão. Não fiquei com manias de starlett.

 

Em Lisboa tem um quadro social, familiar e religioso de uma menina burguesa. Em NY, é uma emigrante. Judia.

Há quem chamam àquilo Jew York. São tantos os judeus nas ruas, tantas as pessoas que andam com kipá, (os chapeuzinhos que os homens usam). Aqui em Portugal, quase não se vêem. Em termos religiosos são mais abertos. Mas há tantas nacionalidades, é uma misturada de pessoas…

 

Esse aspecto foi importante para se sentir em casa?

Ajudou, mas não foi essencial. Eu cresci habituada a ter a vida religiosa só em casa ou na comunidade judaica, e não nos outros ambientes que frequento. Mais do que o judaísmo, foram as pessoas de culturas completamente diferentes que me fizeram sentir em casa. Lá na escola, no Lee Strasberg [Theatre and Film Institute], a maior parte das pessoas são europeias, mas há muitos israelitas e árabes. E cada pessoa também é uma misturada. Eu sou meia portuguesa, meia americana. Tenho uma amiga que é da Bósnia, cresceu na Argélia, a família vive no Canadá.

 

Em Portugal, sempre se sentiu meia estrangeira?

Não. Nasci em Boston, no Massachussetts, a norte de NY, onde vivi até aos dois anos. Depois os meus pais mudaram-se para o Minnesota. No ano em que ia fazer seis anos voltámos para Portugal. 

 

Aprendeu a falar as duas línguas ao mesmo tempo?

Sim. No infantário falava-se em inglês e em casa em português. A minha mãe conta que me recusava a falar português. Ela dizia: “Vai perguntar ao pai o que é que ele quer para o pequeno-almoço”. E eu dizia: “Daddy, what do you want for breakfast?”. Ele respondia em português e eu traduzia.

 

Isso potencia, emocionalmente e culturalmente, uma identidade mista. A língua na qual aprendeu a amar foi o português. Os afectos, do pai e da mãe eram transmitidos em português.

Por algum motivo me sinto portuguesa... Aprendi a amar em português – a família, para começar. Mas os amigos ou um namorado não foi forçosamente em português. Os meus amigos do coração vêm do [colégio] St. Julians, conheci-os com cinco anos. Nós começávamos uma frase em português e terminávamos em inglês. “What time tu disseste que me vinhas buscar?”. Penso que a razão porque me sinto portuguesa é também porque Portugal foi um refúgio para a minha família. Para os meus bisavós. Houve qualquer coisa que a minha família encontrou em Portugal para ter ficado. Não tenho sangue português sequer.

 

Qual é a história da sua família?

Do lado da minha mãe, o meu avô nasceu no que é agora a Polónia. A minha avó tem ascendência russa. O pai da minha avó, que era engenheiro, vivia na Alemanha e foi convocado para trabalhar nas vias ferroviárias do Porto. Gostou tanto de aqui estar que mandou vir a família. Do lado do meu pai, o pai da minha avó era inglês, a mãe argentina. O avô do meu avô morreu com 117 anos e tinha ascendência marroquina. Parece que temos raízes fenícias.

 

Parece mergulhada numa imensa torre de Babel. Como se ser estrangeira já estivesse no seu código genético.

É isso. Há momentos em que sinto que não pertenço a lado nenhum. Como se no meu código genético, de facto, tivesse um estrangeirismo. Não importa onde estou, tenho sempre vontade de estar noutro lugar.

 

A par do estrangeirismo, o facto de ter a religião judaica, que é minoritária em Portugal, tem a mesma força no seu código genético?

Somos cerca de 1000 judeus, em Portugal. Somos pouquíssimos. Da família do meu avô só sobreviveu ele e uma prima, que vive agora em Israel. Ela viveu o Holocausto, os horrores que lemos nos diários de pessoas como a Anne Frank, mas não fala disso.

 

Como é que o judaísmo marcou a sua vida?

Uma vez fiz um summer camp judaico. Temos seminários, palestras, actividades, conhecemos judeus europeus da nossa geração – em Portugal conhecemo-nos todos, temos sempre uma relação ou através do sangue ou do casamento. Uma coisa tínhamos em comum: aquilo a que se chama identidade judaica.

 

Que pode traduzir-se como?

É um sentimento de grupo, de união, que não tem que ver com quem come porco ou marisco, quem faz as rezas da manhã ou não. Fomos um povo perseguido. Apesar de as pessoas da minha geração não terem sofrido isso [perseguição], conheço um judeu e fico toda contente! É uma forma de vida, de educação.

 

Está sempre implícita a ideia de protecção e entreajuda?

Não é tanto a entreajuda. É mais uma sensação de nos sentirmos em casa. Temos formas de pensar similares, maneiras de ver a vida similares. No primeiro instante há uma atracção.

 

O que é que é similar?

Estou a generalizar muito… Mas posso falar da componente internacional. Quase todos os judeus que conheço vêm de todo o lado, e podem sentir-se sempre estrangeiros. O meu avô, que é mais tradicionalista em relação ao casamento, sempre me disse que gostava que eu casasse com um judeu. A minha resposta começou por ser: vou casar por quem me sentir apaixonada, a religião não entra no assunto, quero é ser feliz e ter filhos com uma pessoa saudável, que seja um bom pai. Mas ao mesmo tempo percebo-o. Há um conforto diferente [se casar com um judeu]. É um reconhecimento de coisas que se fizeram em casa e que quero que os meus filhos façam. Mesmo que não seja muito religiosa, eu sei o que é o sabbath

 

Mas é verdade que se estivesse apaixonada por um palestiniano e disputassem a educação dos filhos, não seria fácil chegar a um consenso…

Nesse caso, e em qualquer outro com uma pessoa que não fosse da religião judaica, tinha de falar sobre a educação dos filhos antes mesmo de pensar em ter filhos. O que ensinarei aos meus filhos, basicamente, é a ter respeito por toda a gente. Uma das minhas melhores amigas em NY é muçulmana. Não sou contra as outras religiões.

 

O seu pai e avô são médicos famosos, a sua mãe é médica também. Esta tradição de Ruahs médicos caiu sobre si como uma pressão?

Nunca tive pressão nenhuma. Os meus pais sempre me disseram: faz o que quiseres desde que sejas a melhor ou uma das melhores.

 

O que já representa, também, uma forma de pressão.

Só comecei a sentir essa pressão na universidade. Foi um investimento muito grande que fizeram – por estar longe e em termos financeiros – e o mínimo que eu podia fazer era regressar com um diploma a dizer que fui a melhor ou uma das melhores. Foi o que fiz. Fui a primeira do meu ano.

 

Como é que, no seu meio, o espectáculo aparece como uma coisa tão atraente?

Eu, aos três, já dizia: “Mãe, olha esta dança, avó, olha esta música”. Sempre tive paixão pelo espectáculo. A minha mãe pôs-me no sapateado, depois no ballet; numa escola de dança, já em Portugal, comecei a ter aulas de teatro. As minhas avós e os meus pais são pessoas extremamente artísticas. A minha avó Vera: um realizador americano quis levá-la para Hollywood; a minha bisavó é que disse: “Nem pensar nisso”. Os meus pais sempre fizeram teatro na comunidade judaica. O meu pai toca acordeão, o meu tio toca órgão.

 

Não passou pelas fases de querer ser professora, hospedeira, veterinária – que é o que todas as meninas sonham ser?

De todo. Desde pequena que dizia: quero estar em palco.

 

Aos 16 anos, estreou-se numa novela. Como é que aconteceu?

Cheguei a casa e vi um anúncio a dizer: casting para a Teresa de “Jardins Proibidos”. Fui no dia seguinte, de comboio. Passei à segunda fase, depois à terceira, etc; não fiquei com o papel da Teresa, mas com o da melhor amiga, a Sara. Antes disso, tinha 14 ou 15 anos, uma amiga mostrou-me um prospecto do Actors Sudio. E, “Mãe, Pai”, anunciei que ia para NY! Quando acabei o liceu aconselharam-me a ir para Londres, onde a educação era igualmente boa, e ficaria mais perto de casa. Fiz o bacharelato na London Metropolitan University.

 

O que é que foi irresistível no prospecto do Actors Studio?

Não foi a parte da fama, nem o glamour do cinema – era um prospecto a preto e branco. Foi talvez um brilho no olhar dos que estavam lá… Não sei se posso falar em chamamento…

 

A verdade é que NY “chamava” por si. E passados uns anos foi, não para essa escola, mas para outra igualmente reputada.

A minha mãe disse-me uma vez: “Tiveste uma educação tão internacional que é um desperdício ficar só num sítio”. Não é em Portugal, especificamente; é um desperdício ficar num sítio apenas. Posso trabalhar aqui, posso trabalhar nos Estados Unidos. Ainda por cima, nasci lá, tenho passaporte americano, não tenho problemas com visto, não tenho sotaque a falar inglês. Já que a família e a sorte me deram tantas vantagens, porque não tentar?

 

Os seus planos são ficar em NY?

Se correr mal, tenho 50 anos, estou em Portugal, tenho uma vida estável, faço novelas ou filmes ou teatro, olho para trás e digo: “Tentei”. O pior que podiam fazer-me era cortar-me as asas. Estou a viver a minha vida de um modo aventureiro, mas responsável, e estou a investir numa coisa que, sinto, tenho possibilidades de fazer. Se não acreditasse em mim própria, não poderia fazê-lo. Mas acho que tenho alguma chance de fazer uma carreira internacional. Estou à procura de um agente e de um manager.

 

Descreva a sua vida lá.

Não posso ficar em casa à espera que me liguem… Durante o dia, ou noite, estou nas aulas, vou conhecendo pessoas, faço peças que podem ser vistas por agentes, mando head shots – é o nosso cartão de visita, com a fotografia de um lado e do outro, agrafado, o currículo. A palavra de ordem é construção. E devagarinho. Não gosto de quem aparece de um dia para o outro. É como um castelo de areia: se pusermos areia, palparmos, mais um bocadinho de areia, fica mais sólido. Podemos construir qualquer coisa sobre isso.

 

Publicado originalmente na revista Máxima em 2008

 

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