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David Ferreira (2003)

Andou no Liceu Francês três anos, e não gostou. As melhores recordações de ensino pertencem ao Liceu Camões, que frequentou entre os 10 e os 17 anos, e onde teve como professores Mário Dionísio, Vergílio Ferreira, Marina Pestana. Um luxo, diz ele. Do pai, o poeta David Mourão Ferreira, herdou uma relação íntima com as palavras. Um luxo superlativo. A mãe levava para casa os singles editados pela companhia da família, a Valentim de Carvalho; esses e outros. Deste cruzamento, resultou uma convivência com Amália Rodrigues, com Natália Correia. Com gente que importa e que deixa marca. Envolveu-se em política, estudou História. Acabou por tomar em mãos o negócio da música. Começou por baixo, a vender discos atrás de um balcão. Hoje é o patrão da EMI-Valentim de Carvalho em Portugal; queixa-se que passa muito tempo a comunicar com Londres, enredado em mails e telefonemas. Mas inventa tempo para andar de bicicleta na hora do almoço.

David Ferreira tem 48 anos, é casado e tem quatro filhos. Trabalha virado para o Tejo, em frente ao Oceanário.  

 

 

No escritório do Restelo tinha emoldurado um poema do seu pai, «A Casa». Trouxe-o para aqui?

O meu gabinete tem só caixotes! Estamos aqui há 15 meses. Era um cartaz de uma acção da Câmara Municipal de Lisboa, «A poesia está na rua». É um poema de que gosto muito.

 

Sabe-o de cor?

«Tentei fugir da mancha mais escura que existe no teu corpo e não consegui/ era pior que a morte que antevi...». É assim, não é?

 

O que é que lhe fica desse poema?

Não estava nada à espera disto... [Silêncio] O mais estritamente visual, a pulsão erótica. Uma extrema atenção ao lado físico da relação amorosa, um lado físico que se transcende; a partir de uma fascinação ou prisão entre duas pessoas, já estamos a falar de outras coisas. Irrito-me quando oiço apressadamente chamar ao meu pai o poeta do amor. Não é que não o seja, mas as obras têm várias camadas. É impressionante a quantidade de poemas que são sobre a morte.

 

A morte como a outra face do amor?

Ou como um pano de fundo que irrompe.

 

E daí a urgência do amor.

E uma necessidade de transcender as limitações físicas. Na maior parte dos casos, na descrição das relações eróticas, ou há um pudor ou há uma opção entre o espírito e o físico, que nesse poema não há. Num outro poema, o meu pai pergunta: "Por que há-de sob a pele o sangue amotinar-se quando apenas a pele havemos convocado?".

 

Essa amotinação significa sair da casa, sair dos limites?

O meu pai era um poeta com uma grande presença da cultura clássica; a dicotomia equilíbrio-desequilíbrio era um tema recorrente. Há uma enorme necessidade de equilíbrio e a noção da inevitabilidade do desequilíbrio. Há um poema cuja ideia é esta: temos 5 sentidos com 5 asas, como poderemos desejar o equilíbrio? Ao mesmo tempo, há um equilíbrio formal incrível. Um domínio extraordinário da língua, de todo o arsenal de recursos técnicos. Um permanente jogo do todo e da parte. A mancha não é a mancha, é tudo mais. A mancha já é a mulher, a mulher já é a morte.

 

Essa iniciativa da câmara assinalava os 25 anos do 25 de Abril.

Voltamos ao facto de termos várias camadas. Quando me pediram autorização para publicar o poema, o que me ocorreu foi: tenho o meu pai na parede e tenho o 25 de Abril.

 

O pai e a libertação, é isso?

Nem é a libertação, é o 25 de Abril! Andei na rua com bandeiras no primeiro 1º de Maio. No dia 26 de Abril de 74 belisquei-me para ter a certeza de que não era um sonho. Gosto de tomar partido. Há uma parte assustadora da população que em 75 tinha medo de passar por anti-comunista primário e agora tem medo de passar por anti-americano primário. Os medrosos é que são primários. Quem é a favor e quem é contra ajuda ao esclarecimento das coisas.

 

Como era a sua vida há 30 anos?

Namorava, sobretudo. Era a minha ocupação maior.

 

Era já com a Margarida [Mercês de Mello]?

Não, não. A Margarida era casada e não nos conhecíamos. Tinha 19 anos e estava em História; tive um desgosto de amor e passei uma noite a ler «A Capital» do Eça de Queirós em vez de estudar para os exames de Setembro. Passei o ano lectivo de 73-74 em férias sabáticas. Arranjei uma namorada em Fevereiro ou Março. Portanto, no 25 de Abril namorava. Em 74-75 fiz sobretudo política. Era um militante do PS, cheguei a fazer segurança no comício da Fonte Luminosa...

 

Segurança?

Sim, era preciso. Falei em sessões de esclarecimento, guardei quartéis, dei o nome para receber treino militar, se fosse preciso, em Setembro ou Outubro de 75.

 

Os seus pais separaram-se quando tinha 13 anos e ficou a viver com a sua mãe. Que tipo de relação mantinha com o seu pai?

Não falávamos todos os dias, mas havia uma grande camaradagem. Tinha na casa do meu pai um estatuto que era meio de filho, meio de visita. O que não é inteiramente mau. Significava que a partir dos 13 anos estava nas conversas dos adultos. Ouvia as anedotas picantes dos adultos, ouvia as discussões políticas dos adultos... Lembro-me de estar à conversa com os amigos do meu pai desde muito cedo, com escritores, com a Natália Correia, por exemplo.

 

Como era a sua casa, como eram os diferentes espaços que habitava? Onde quero chegar é ao sentimento de estar em casa, e de estar em paz.

Várias casas, sim. A casa dos meus avós. O pai do meu pai era republicano e tinha muitos livros. Chegou a ser agente de ligação do Afonso Costa, fazia parte do Grupo da Biblioteca. Participou na primeira tentativa revolucionária contra o Estado Novo, em 1927, e, para não ser preso, teve de andar escondido. O meu pai nasceu prematuro.

 

Na casa do seu avô, a memória é a dos livros.

Havia duas zonas da casa: a zona do meu avô, que eram os livros, e a zona da minha avó, que era o chá, com lanches fantásticos. A casa dos meus pais, que depois passou a ser a casa da minha mãe, era uma casa com muitos livros e muitos discos. E era uma casa grande onde eu e a minha irmã nos movíamos completamente à vontade.

 

Os discos eram a parte da sua mãe, cujo apelido é Valentim de Carvalho. Havia também nessa casa uma demarcação clara dos universos?

A zona do escritório e dos livros, até se separarem, era claramente do meu pai. Aliás, havia um odor...

 

Do cachimbo do seu pai?

Sim. Ainda hoje, se entrar num sítio qualquer e alguém fumar cachimbo, penso automaticamente no meu pai.

 

Os discos aparecem por via da sua mãe. Em casa, os singles eram à borla.

A minha mãe levava à borla os da casa [editados pela Valentim de Carvalho], mas havia muitos outros que comprava. Muitos franceses. Aznavour, Bécaud, também o Brel, o Léo Ferré. Eu gosto muito da energia do Chevalier. Tinha muito talento, mas não era grande rês. Foi bastante acomodatício com os alemães durante a ocupação e os franceses não lhe perdoam.

 

O que é queria ser na vida?

Quis ser cowboy. Depois quis ser artista; cantor. Mas não canto nada, tenho uma voz horrível. Tentei aprender a tocar piano, mas a professora teve um ataque de riso e disse que nunca tinha visto ninguém com tão pouca vocação. Também pensei em fazer carreira política; não quer dizer que goste da maioria dos políticos, mas gosto de política. E queria trabalhar numa editora de discos. Aos 16, 17 anos ameacei o meu tio: se não me desse trabalho, ia para a concorrência.

 

O seu tio Rui?

Rui Valentim de Carvalho. Irmão da minha mãe e sobrinho do Valentim de Carvalho fundador.

 

Ele tinha uma relação muito próxima com a Amália e foi o grande responsável pela vinculação da Amália à Valentim de Carvalho.

Exactamente. O negócio tinha uma série de aspectos fascinantes, românticos. Os discos, espectáculos de vez em quando. Muitas vezes tem-se uma fascinação pelo território dos pais e, de facto, este negócio não é inteiramente mau, há coisas bastante piores... Estamos a trabalhar com músicas de que gostamos, estamos a contribuir para o sucesso de pessoas de quem gostamos. Quando sabe bem, sabe mesmo bem. Mas hoje em dia, sobretudo nas multinacionais, gasta-se um tempo disparatado a comunicar com a sede.

 

Gostou particularmente de vender discos, de aprender as minudências do negócio. Mas sabia que o seu futuro não seria passar oito horas atrás de um balcão.

Nunca faço isso, em nada. Ou estou, ou não estou. Não tenho essa atitude de estar de passagem, embora tenha a noção que tudo é de passagem. É capaz de ter a ver com as peças do Sartre que li aos 18 anos: em relação a determinadas coisas não se é, está-se. Não se é director de uma editora. Está-se director de uma editora.

 

Mas então é-se o quê? Refiro-me à noção de compromisso para a vida toda.

O nosso compromisso é em relação as pessoas de quem gostamos e às ideias em que acreditamos. Tive do lado do meu pai e do meu avô uma formação humanista e republicana muito forte, de esquerda, no sentido de que se deve reduzir os privilégios e aumentar as oportunidades para o maior número de pessoas. Isto, apanhei-o aos 12, 13 anos, e não mudei.


E do lado da sua mãe, qual era a inspiração?

Embora não houvesse o republicanismo encarniçado que o meu avô paterno tinha, também havia uma tradição liberal. O Valentim de Carvalho foi um homem que gravou a obra do Lopes Graça. Um editor que se preze tem que ser no sentido político um liberal. Um editor é uma pessoa que só faz sentido se viabiliza a afirmação de expressões artísticas diferentes, de pontos de vista diferentes. A edição, seja a livreira, seja a discográfica, são vitais para o exercício da liberdade. Portanto, do lado da minha mãe, havia a mesma abertura. Não tinha nada na minha família a puxar-me nem para o autoritarismo do regime, nem para a direita.

 

Mas para as artes...

Por todos os lados.

 

Ok, vendia discos na loja Valentim de Carvalho da Avenida de Roma. E depois?

Ouvia o máximo de música possível. Considerava fundamental a música que se punha na loja. Quer para atrair pessoas lá para dentro, quer para revelar coisas a quem estava lá dentro. Ficava todo contente quando alguém me vinha perguntar: «O que é que está a tocar?». E, se tivesse tempo, mudava música a música. Estávamos na altura do vinil. Falava com as pessoas, tentava ajudá-las a encontrar o que queriam, mas também ficava interessado no que me diziam. Passados quase seis anos, ouvia muito jazz, comprava música árabe... O meu universo cresceu. E isso é muito bom.

 

Estudava ao mesmo tempo? Que dimensão tinha aquilo?

Comecei a trabalhar duas horas, depois passei para quatro e quando acabei estava a trabalhar 12 ou 14 horas por dia. Já não estudava, já não namorava, já não fazia política. Continuava a viver em casa da minha mãe.

 

Insisto no projecto de vida. Nenhum filho de boas famílias considera estar atrás de um balcão como modo de vida.

Para todos os efeitos, eu era um privilegiado. A minha mãe era sócia de uma empresa de alguma notoriedade, isso tornava-me menos preocupado com as questões financeiras. Tenho uma relação adolescente com o dinheiro. Ainda hoje, volta e meia, tenho a conta careca.

 

A sério?!

A sério. Gosto do conforto, mas não invisto, não aplico, não sei.

 

Significa que não sabe a quantas anda?

- Financeiramente? Sei quando ponho o cartão na máquina para tirar dinheiro. Não sou nada de amealhar. Resquícios de ser um menino rico... E também uma coisa geracional.

 

E essa confiança de menino rico, tinha-a? Se acontecer alguma coisa, a mãe ajuda.

Embirrava com os meninos ricos. Ainda embirro. Quando os meus filhos são complacentes em determinadas coisas, zango-me e digo: «Não te armes em menino rico». A minha estrutura mental é muito mais de classe média. Sou pessoa para ficar irritada perante certos sotaques reveladores de uma determinada origem social ou de uma pretensa origem social. Essa coisa de falar à queque deixa-me nervoso, como me deixa nervoso a coisa de as pessoas se reconhecerem umas às outras em função dos apelidos. Por exemplo, uma expressão que sou incapaz de utilizar é «novo rico». Porque faz presumir que os velhos ricos são melhores que os novos. Não estou seguro que seja assim. O que quero dizer é: a nível consciente nunca pensei que alguém me poria a mão por baixo. Acho que se as pessoas tiverem valor intelectual, viram-se.

 

Tem confiança em si?

A esse nível, tenho. Há pouco dizia que tudo me puxava para as artes. Um artista não deixa de ser um trabalhador liberal. Tenho a noção de que se fizer aquilo que faço bem feito, hei-de arranjar saída.

 

O que é que significa ser um dos 200 homens mais influentes do país, (índice da revista «Visão»)?

[gargalhada]

 

O que é que significa ser presidente da companhia e estar aqui?

A palavra poder tem duas leituras. Uma é o substantivo, que tem muitas vezes uma leitura desagradável, mais usado para impedir do que para viabilizar, usado como lápis de censura, exercício vazio de autoridade, jogos de poder. Depois há o verbo, que é muito simpático. Poder é bom, não é? É bom poder fazer, apostar numa música completamente inesperada, ajudar as pessoas a compreender um artista, ajudar uma obra a chegar às pessoas. Como é bom poder andar de bicicleta, que é uma das coisas de que mais gosto!

 

Passa do exercício do poder para o andar de bicicleta!

Dia sim, dia não, monto a bicicleta e vou almoçar. Levo num bolso o telemóvel, noutro um livro e um bloco de notas. Às vezes vejo aqueles tipos muito importantes, de fato escuro, aquelas procissões de galos a que se assiste nos restaurantes, e apanho os olhares irónicos...

 

Pelo facto de aparecer de bicicleta?

Posso ir de jeans ou de fato e gravata. A visão que muitas pessoas têm do que é o poder, levá-las-ia a sobrevalorizar os símbolos convencionais de poder.

 

Seria mais previsível chegar com um carro potente, ou mesmo com chauffer.

Além da riqueza, são todas as convenções. Ocorreu-me a bicicleta, porque quando a desmonto, penso sempre: «Bestial!, posso andar de bicicleta. Posso trabalhar numa coisa onde não me impedem de ter um bocadinho de pancada se me apetecer ter um bocadinho de pancada, e de fazer uma coisa que me dá prazer». Tenho ali três sacos com discos para ouvir; ter discos de borla, bestial. Poder andar de bicicleta, bestial.

 

O exercício do poder permite dizer sim e não. Basicamente é isso: faz-se ou não se faz.

Tenho obrigação de dizer que não a uma coisa que me pareça financeiramente desastrada ou até artisticamente desastrada. É muito fácil dizer que sim e depois dizer que o escritório de Londres mandou despedir não sei quantos artistas... Se uma coisa não faz sentido, se é um desperdício... Por exemplo, discuti longamente com o Sérgio [Godinho] a embalagem deste disco, «O Irmão do Meio». O Sérgio tinha razão quando defendia que devia ser uma embalagem especial, bonita. Eu insisti em não meter as letras. Se as pusesse, não ia acrescentar um grande valor para o consumidor, que já conhece estas canções, e ia perder margem para o marketing. Aí, tenho obrigação de dizer que não.

 

Continua a ouvir o material que chega em bruto? Imagino que lhe façam uma triagem.

O meu forte não é A/R. O Paulo [Junqueiro] é um bom A/R, o Chico [Francisco Vasconcelos] é que era o A/R quando cá estava.

 

A/R quer dizer Artistas e Repertório. Como é que definiria este lugar, que é tão importante numa companhia?

Descobre os artistas, discute o repertório... O A/R está mais ligado ao lado artístico. Não venho daí, venho da promoção. O A/R sabe ouvir maquetes, sabe ouvir o que está em bruto. É um bocadinho como uma equipa de futebol: há os que jogam mais atrás, a preparar o jogo, há do meio campo, que distribuem o jogo, e os que marcam os golos, os vendedores, os promotores. Eu jogo a meio campo.

 

Então não é o treinador?

Sou as duas coisas... Às vezes não resisto a jogar!

 

É muito centralizador, não é?

Às vezes. Tenho alguma familiaridade com as várias áreas _ o que é importante quando se dirige uma empresa. Normalmente percebo antes dos sectores mais agressivos da empresa (promoção e venda), mas depois dos sectores artísticos. E não consigo quase nunca ouvir uma música cá de casa sem pensar como é que a vou vender.

 

O que é que significa exactamente EMI-Valentim de Carvalho? A Valentim de Carvalho era a editora dos grandes nomes da música portuguesa. A associação à internacional EMI representou uma anulação desta, ou não?

Valentim é uma empresa, EMI é outra. Em 1983 fizeram uma empresa conjunta chamada EMI-Valentim de Carvalho. Em 94 o Valentim vendeu as suas quotas à EMI, mas a EMI decidiu manter o nome EMI-Valentim de Carvalho. Esta empresa é 100% EMI, mas temos uma mentalidade EMI-Valentim de Carvalho. Somos muito diferentes de uma filial normal na EMI. O Chico dizia-me: «Isso é uma abstracção, só existe na tua cabeça». Se calhar. Mas as empresas são sempre abstracções. É sempre um enredo, e o enredo apenas faz sentido enquanto tiver actores e público para ele.

 

Em todo o caso, a designação Valentim de Carvalho aponta para a sua família. Não sente que isto é seu?

Dizem-me: «Isto é teu, aquilo não é teu»... A propriedade é uma coisa super-fluída. A única coisa que verdadeiramente temos são as nossas ideias e convicções. As empresas hoje têm um patrão, amanhã têm outro. Posso amanhã chegar aqui e a EMI ter comprado outra empresa ou ter sido vendida a outra empresa. Não é nada que assuste.

 

Como é que se constroem os sucessos? Peguemos no exemplo da Norah Jones, cujo cartaz tem colado na parede. Quanto a mim, o disco é competente, mas bastante anódino. A ausência de uma personalidade vincada fez-me estranhar o sucesso no mundo todo. O marketing operou especialmente bem?

Há sempre três coisas a considerar. A qualidade intrínseca das coisas. A campanha que se possa fazer. Os dois agem sobre um sobre o outro como um multiplicador. Quem diz: isto é tudo uma questão de marketing, está completamente enganado; 100 vezes 0, continua a ser 0. Agora, se tivermos um repertório com potencial, se lhe juntarmos uma divulgação bem feita, pode obter um excelente resultado. Nunca se esqueça do terceiro factor, a que costumo chamar a conjugação dos astros. Há alturas em que o espaço não está lá, alguém o ocupou. Lembro-me de um disco que achávamos que ia ser um grande sucesso e que foi atropelado pelo [Pedro] Abrunhosa, que submergiu toda a gente.

 

Esta pergunta já lhe foi feita mil vezes: porque é que a música portuguesa raramente vinga lá fora?

Primeira questão: somos periféricos. Numa cultura dominada pela língua inglesa, os sucessos que vêm da periferia são excepção. Segundo ponto: ainda temos raízes mais profundas que os escandinavos; os escandinavos mais depressa cantam em inglês sem soar a postiço. Das duas uma: ou temos coisas em inglês _ e na minha opinião, salvo raríssimas excepções, é tudo sub-produto; e se é sub-produto, para que é que o querem lá fora?; ou fazemos em português, e estamos a dirigir-nos a um público reduzido. Isto não quer dizer que não apareça um artista português a cantar em inglês e a debater-se com as mesmas armas. Com toda a franqueza, gosto do David Fonseca, tem uma voz muito bonita...

 

E é muito bonito. Porque é que ele não é uma star internacional? Esta combinação (ser muito bonito e cantar em inglês) pode dar frutos?

Não lhe sei dizer. Nunca trabalhei a música do David Fonseca para me pôr a questão. Como consumidor, comprei o primeiro disco dos Silence Four e achei lá coisas muito bonitas. Mas é uma raríssima excepção, há mais duas ou três.

 

O que quer dizer quando diz nas reuniões, mais ou menos irado, «Esta editora tem de ser exemplar, tudo nesta editora tem de funcionar de modo exemplar».

Quem é que lhe disse isso? Quem é a sua fonte? [risos]

 

Há um lado óbvio, que obriga as empresas a funcionarem bem. Mas a sua exigência requere mais do que isso. Remete para o brio.

É uma questão de brio, com certeza. Hum... «A gente não devia ter aprovado aquele vídeo. A gente não devia ter saído com o disco naquela altura. A gente não devia ter feito o spot assim». Com a melhor das intenções, cometem-se erros! Se não estivermos sempre com o objectivo dos 100%, é tão pior ainda... Brio, sim, claro. Brio. E serviço, também. Parto do princípio que a maioria dos artistas, quando nos dá uma canção, põe-se lá dentro. Não temos o direito de pegar na canção, andou, passa para outra.

 

Que temas ocupam as conversas com os seus filhos e amigos? Falam sobretudo de música, de política, de afectos?

Gosto de falar de música. Gosto de falar de futebol. Depende as pessoas e depende as horas.

 

Conversas íntimas, tem com várias pessoas?

Não. Isso não.

 

É muito reservado.

Sou? Nunca ninguém me tinha chamado reservado. Até sou bastante espalha brasas.

 

Vai delimitando o seu espaço.

Se calhar sou uma pessoa aberta, que não deixa de dizer «daqui não passas». Sou capaz de ser reservado, não sei... Quando tinha vinte e poucos anos, assim com os meus amigos, não tinha vergonha de me expôr, de falar nas namoradas que me deixavam cair... Eu acho que tenho relativo à vontade. As experiências que se vivem quando se é solteiro e se tem 20 anos não são as mesmas que se vivem aos 48. Tenho uma mulher bestial, com quatro filhos bestiais.

 

Introspecção é uma palavra que me lembra outra vez casa, o que se passa dentro de portas.

Mas olhe que «A Casa» do poema é uma casa que expõe imenso o locatário. Ou seja, a sua ideia de que a casa do poema é um refúgio, é um refúgio muito particular...

 

Ainda não me falou da casa onde hoje vive.

É muito desarrumada. Tem quilos de papel que não devia ter, revistas e jornais. Estão a faltar-me estantes para livros. Compro livros e discos demais para o tempo que tenho para os ler e ouvir. Mas tenho uma fascinação pelos objectos. Se entro numa discoteca ou numa livraria estou bem, sinto-me bem.

 

Sente-se em casa. Mas então qual é o seu refúgio? É Deus? Porque é católico, não é?

Sou um mau católico e seria pretensioso achar que era capaz de falar com Deus. Acho a figura do Jesus Cristo extraordinária. Acho o Cristianismo uma revolução radical em relação a tudo. Começa por que o povo escolhido são todos. E São José, que é uma figura em que as pessoas não pensam devidamente, o pai de Jesus, não é o pai natural. A cena do presépio leva-nos a crer que a família natural não é a família do sangue, é a família do coração. É uma lição de tolerância fantástica. Quando se vê o mundo dividido em fundamentalismos religiosos ou racismos de toda a espécie, aquela relação do São José com Jesus é a maior lição de tolerância.

 

O que é que significa para si ser pai? Dê-me um sinónimo de pai.

A primeira coisa que me vem à cabeça é a responsabilidade. Quando algum dos meus filhos passava pela fase de perguntar se há morte, incapaz de entender a morte ou a eternidade, sentia a grande responsabilidade de ter de os tranquilizar.

 

Para que é que serve a música? A sua vida, o seu trabalho, o grosso do seu tempo, é quase em função da música.

A obra de arte em geral oferece-nos pontos de equilíbrio, mesmo que sejam formas precárias de equilíbrio. Ordenam as nossas sensações no sentido mais lato, não apenas sensações físicas. Sensações, emoções caóticas. A obra de arte – podemos falar da pintura, da música, da literatura – dá-nos uma casa. Acabámos por dar a volta completa à conversa. Por outro lado, no caso da música popular, as canções vivem connosco, fazem-nos companhia.

 

É-se com elas, além de se estar com elas.

É. E quem gosta realmente de canções vive em permanente diálogo com elas. Com elas, com quem as escreveu. A música em geral e as canções em particular fornecem-nos uma forma superior de comunicação.

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 2003

 

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