Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Deserto do Atacama (Chile)

Puras piedras viejas. Esta frase deve ler-se com vagar, como quem soletra, fazendo uma pausa entre cada uma das palavras. Com algum desdém. Deve ler-se com a intensidade de quem pronuncia “puras piedras” como se as duas palavras formassem um sopro, um hálito acidulado, e a aliteração de “piedras viejas” fosse uma música.

Experimente dizer outra vez: Puras piedras viejas. Agora com um arrastamento poético, enrolando a língua, como se sentisse a espessura de um tecido grosso e quente (por exemplo, alpaca). Como se estivesse refém de um feitiço, emudecido pelo espanto, sem palavras. Pode resumir-se esta indicação de leitura no seguinte verbo: balbuciar. Experimente dizer puras piedras viejas como quem balbucia.

As primeiras pedras foram ditas por uma senhora chilena, que passava dos 80 anos, diante do altar de Pérgamo.

O mundo inteiro acorre à ilha dos museus, em Berlim, onde o altar se encontra, ou vai à cidade de Pérgamo, actual Bergama, na Turquia. Demora-se frente à estrutura desmesurada, uma escadaria que vai da terra até ao Olimpo, quase sente na ponta dos dedos as histórias esculpidas no friso de mármore. Zeus, Apolo, Dioniso, todos os deuses, todas as desventuras, todas as ilusões e todas as tragédias (Medeia também está lá) cabem num baixo-relevo e são ali narradas. Do século II antes de Cristo, explicam os explicadores.

Mas a senhora arruma tudo numa frase: puras piedras viejas. Desinteressada.

As segundas pedras não dizem a história, não têm dramatismo (aparentemente), não foram esculpidas por mãos e escopro e imaginação. São uma massa inerte, abandonada há milénios, uma estranha e singular forma poética. O que é que há neste nada que parece ser tanto? Porque é que estas pedras, ridiculamente pequenas ou absurdamente grandes, nos impressionam e comovem, para lá do dizível ou do compreensível?

Talvez a sensação de absoluto seja dada pela imensidão. Para onde quem que se olhe, há sempre mundo.

Sou eu que digo as segundas puras piedras viejas, em pleno deserto do Atacama. Esmagada pela emoção. Nenhum desdém. Estou no Valle dela Luna ou no Valle dela Muerte. Já não me lembro. Também posso estar na laguna onde se vêem flamingos que esvoaçam como se o seu peso fosse o de uma pluma. (Bela plumagem têm.) Ou estou, simplesmente, a olhar para o Licancabur, o vulcão que se vê de todo o lado e que tem seis mil metros de altura. Outra maneira de o dizer: que se vê de todo o lado porque tem seis mil metros de altura. Maravilhoso vulcão. Há mais quarenta (quarenta!) nas imediações, mas nenhum é tão imponente e fabuloso quanto este. Percebe-se que a Jenny, que encontrei na aldeia de Tulor, adore Deus e a Natureza, e que, ao dizer isto, desvie o olhar para o Licancabur.

É a primeira vez que estou no deserto e lembro-me de um título de Raul Brandão. “A pedra ainda espera dar flor”. Aquelas pedras são tão bonitas como se pudessem dar flor a qualquer momento, como se tivessem vida.

É difícil dizer estas coisas sem que isto pareça uma tonteria, um artifício literário, uma frase presumida. Não sei explicar porque é que uma pedra, sem especial brilho ou beleza, pode comover. É mais fácil compreender que o deserto desperte em nós essa sensação de estarmos desorbitados, fora do mundo, de casa. Nem que seja porque nos reconduz a uma inaugural desprotecção e insignificância. Mas uma pedra, como compreender o feitiço de uma pedra? Uma pedra que não é sequer uma rosa do deserto, aquelas lindíssimas pedras que abundam em Marrocos, por exemplo, e que são tal qual rosas petrificadas. O nome não podia ser mais exacto. Porém, dias mais tarde, atravessei o Atlântico carregada de pedras. Como quem transporta um tesouro.

O deserto do Atacama não é um deserto de areia. Tem a grande duna, que se avista do Valle dela Luna, e que tem o tamanho de um prédio de dez andares. Vista a uma distância de poucos metros, crê-se, em todo o caso, que ela é inacessível, que nenhuns pés a podem trilhar. Mas isso deve resultar do facto de estar sem mácula, sem rugas, sem movimento. É uma duna que ao fim da tarde fica cor de ouro e para onde se olha em adoração.

Fora a grande duna e as dunas mais pequenas, onde se faz sandboard, e que não são muitas, o deserto do Atacama é constituído por puras piedras viejas, cordilheiras intermináveis, salares (isto é, superfícies salgadas), terra gretada, terra que parece Marte (a NASA faz aqui experiências quando quer ter uma ideia de como é Marte), terra que não parece desta Terra (extraterrestres: que los hay, los hay, diz qualquer atacamenho), formações rochosas esculpidas pelo vento ao longo de milhares de anos, formações rochosas daquilo que parece ser um barro mole, por secar, mas que o tempo tornou rijo, rijo como pedra, oásis no lugar onde correu o rio San Pedro e onde hoje se planta milho ou se ouvem pássaros, os já referidos vulcões, géiseres que entram em erupção às quatro da manhã, a Bolívia do outro lado de uma qualquer montanha. E poeira. E uma ou outra aldeia andina. E índios com uma tez curtida pelo sol e pelo trabalho.

Eu nunca tinha estado no deserto nem tinha visto um vulcão tão simétrico quanto o Licancabur. Sabia que os vulcões são uma estranha presença. Sabia-o do Vesúvio, do Etna, do Stromboli. Por onde quer que avancemos no caminho, seguem connosco. Como uma sombra que nos acompanha, mas que não tem o nosso recorte. Tinha sentido de perto o magnetismo destes vulcões (e tinha trazido pedras de todos eles, sim). Mas não tinha ideia que um deserto de pedras pudesse ser tão poderoso. Ou que o Licancabur fosse tão imenso. A que é que correspondem seis mil metros de altura? Saber que o Etna, que já parece monumental, tem pouco mais de três mil metros, ajuda. Contudo, talvez só se perceba o que são seis mil metros quando se chega perto, ou, melhor ainda, quando se começa a fazer uma preparação especial para subir (há gente valente, parece que não muita).

Ao contrário de Itália, onde Goethe, magnífico geólogo, me apresentava às pedras e às plantas como uma pessoa apresenta a outra as pessoas do seu tempo, no Atacama só tive o que os meus olhos viram. Isto é, o impacto da natureza. Puras piedras viejas, e subitamente flores. Flores de um vermelho sangue, esparsas, que rebentam em meia dúzia de semanas e depois se eclipsam. Os tufos onde nascem ficam tão ressequidos que deles se pode fazer uma coroa de espinhos.

Mas para já eram flores, indubitavelmente flores, a interromper a aridez e a secura. Flores que podiam ser as de um verso de Pablo Neruda: “En mi tierra desierta eres la última rosa”. Talvez sejam ambas uma declaração de amor: a Matilde, mulher de Neruda, e ao deserto.

A imagem da coroa de espinhos surgiu-me de uma canção de Violeta Parra que aprendi naqueles dias. Run-Run se fue pal Norte foi composta pela artista chilena para mitigar a tristeza da partida do amante, Run-Run. “Así es la vida entonces,
espinas de Israel, amor crucificado,
corona del desdén”. Ela ficou no sul, ele foi para o norte. Entre eles “un abismo sin música ni luz, ay ay ay de mí”.

Eu não estava no mesmo norte de Run-Run. A letra fala de Antofagasta, uma cidade do norte-litoral, mas não do deserto.

E não tinha deixado exactamente o sul, mas Santiago, que fica a meio do Chile. Não é sul porque no sul fica a Patagónia e a Tierra del Fuego. Mas é um sul quando pensamos que entre o deserto e Santiago estão duas horas de avião. Ou que atravessar longitudinalmente o país é como ir de Lisboa a Moscovo. Atravessá-lo entre a cordilheira dos Andes e o oceano Pacífico, ou seja, em largura, é um instante: são entre 100 e 300 quilómetros (números redondos).

Uma parte considerável dos chilenos não chega nunca a conhecer o seu país, dada a sua extensão. Jenny, que encontrei na aldeia de Tulor, tinha ido apenas uma vez a Santiago. De camioneta, uma saga interminável, um entusiasmo superior. Admirou a agitação da cidade, a beleza das avenidas, as árvores que espreitam em cada rua. Verdadeiramente espantou-se com o preço da água! Com o barata que era. Uma garrafa de água custava metade do que custa numa mercearia do Atacama.

(A todo o momento lembram-nos que a água é um bem escasso. No hotel pedem que os banhos não sejam demorados e que as toalhas não sejam trocadas a não ser que seja indispensável.)

Por esta altura, já deve ter nascido o filho de Jenny, que tem 40 anos e três filhas mulheres. A mais velha chama-se Milady Nicole e gosta do seu nome. O rapaz na barriga ainda não tinha nome.

É Jenny que apresenta a aldeia de Tulor, que significa lugar de descanso. Aparentemente o seu trabalho é vender bilhetes para visitar este espaço arqueológico. Não percebi se ser guia fazia parte das suas atribuições ou se foi por simpatia que enfrentou, grávida de sete meses, o calor das três da tarde. Mostrou as escavações e o que resta das construções redondas de Tulor. Têm 2600 anos, são anti-sísmicas e resistentes, a despeito de serem construídas de barro e areia. No caminho até elas, passa-se por uma série de arbustos, alguns com um cheiro intenso e agradável quando se tocam entre os dedos, outros com propriedades salvíficas.

Os primeiros vestígios da aldeia, de dois quilómetros de extensão, foram encontrados em 1958 pelo padre belga Gustavo Le Paige (o museu de San Pedro onde se encontram achados da cultura indígena leva o seu nome). A aldeia foi desenterrada pela arqueóloga Ana María Barón nos anos 80.

Barón é uma mulher exuberante, loura. Intrépida, dirigiu incontáveis expedições aos vulcões da região, inclusive ao Licancabur. Um fascínio pelo deserto mais seco do mundo fê-la radicar-se ali em 1977. Entre 1992 e 94 foi alcadesa de San Pedro.   

Perto dali, a uma distância curta da aldeia, há lamas. Têm um ar manso, lento e terno, e ruminam. São tão antigos quanto a paisagem, fazem parte do quadro atacamenho. Uma série de lamas desenhados numa pedra atesta-o. Há várias inscrições deste tipo, mas esta, para que fui levada por um guia peruano, é o tipo de jóia descoberto há pouco e que em breve estará rodeado de cercas e admiradores.

A rocha tem uma superfície lisa, propícia à gravação. Ou então foi desbastada para facilitar o trabalho. É muito fácil identificar os bichos pelo pescoço muito alto e a altivez que têm os camelos (são da família). As camisolas e os cachecóis que se vendem na rua Caracoles, em San Pedro, são de lã de lama e alpaca, têm uma macieza boa de tocar e são um bom aconchego para as noites frias do deserto.

Era o início do Verão quando estive no Atacama. A terra estava mais gretada do que é costume, mas o calor era suportável. À noite, o vento cortava e a temperatura descia até aos dez graus. Os meus Birkenstock foram eficazes para enfrentar a poeira e as rochas (há duas lojas em San Pedro que vendem calçado apropriado: custa uma fortuna). Verdadeiramente indispensável é um chapéu, que comprei por 50 cêntimos, e um creme gordo, porque a pele desata a gretar (como a terra) um dia depois da chegada. (Ninguém tinha noção de quando tinha chovido pela última vez.)

A vida de San Pedro corre em função do turismo. Seria um lugarejo sem história se não funcionasse como epicentro da região. É a partir dali que se percorre o que globalmente se designa por deserto do Atacama.

Não vi lá, como em Tuconao, uma freira a agitar o sino da igreja de 1750, ou miúdos em idade escolar a jogar à bola na praça central. San Pedro tem uma bela igreja, um campo de futebol, uma praça. Não parece é ter uma vida de todos os dias, própria, à margem do turismo. Mas posso ter sido eu a não conseguir ver.

O número de habitantes ronda os dois mil, as casas são de uma argila de tons róseos, os cactos têm os braços mortos pelo calor (como um membro caído, decepado). Não se encontra um lagarto, nem em San Pedro nem na vastidão do deserto. Encontram-se cães, às dezenas, que se estendem no chão, indolentes. Em San Pedro, Valparaiso, Santiago, como nos filmes passados na América Latina. Parecem confirmar o ditado que diz que cão que ladra não morde. Estes ladravam como se uma tragédia estivesse a acontecer ao raiar do dia. Mas garantiam-me que eram inofensivos.

San Pedro fica a uma hora e meia do aeroporto de Calama. Quase a chegar, sobrevoa-se a imensa mina de cobre que garante ao Chile um crescimento de 6,6% ao ano. A Chuquicamata é uma das maiores minas a céu aberto do mundo e tinge de um tom acobreado boa parte da paisagem. Também se sobrevoa o que começa por ser uma fortaleza inexpugnável e que se percebe ser a cordilheira dos Andes.

O mais fácil, apesar de não ser o mais barato, é alugar um jipe ou carro robusto. Há quem desbrave (o verbo não é excessivo) o deserto de bicicleta (eu acho que preferia fazer exercícios de respiração e subir ao Licancabur). A oferta de excursões é interminável, os hotéis e restaurantes de diferentes preços, também.

Na véspera da partida, soube, por um jornal brasileiro que um hóspede deixou no hotel, que Dona Canô, a mãe de Caetano e Bethânia, a avó de Moreno, tinha falecido. Não consegui não pensar nela como uma rosa do deserto que tinha seguido o seu caminho. Em Santo Amaro, num mapa diferente daquele em que me encontrava, uma flor seguia em direcção a um lugar que não se sabe onde fica. Uma senhora, pura e vieja, cuja solidez se encontrava assim que se viam os seus olhos. Ou se percebia no modo como cantava com os filhos. A luz deles deriva da dela, e essa não se extingue.

Para mim o Atacama ficou ligado a Dona Canô. No friso que percorre aqueles dias, esculpido na minha memória, a última imagem é dela.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2013

 

 

 

 

Em destaque

Entradas recentes