Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Diogo Pires Aurélio (sobre Maquiavel)

A imoralidade em política ganhou o nome de maquiavelismo. Usa-se, com o intuito de denegrir alguém, a expressão “fulano é maquiavélico”. Mesmo que seja reduzida a franja de público que conhece o texto de Maquiavel, escrito há 500 anos, de onde a palavra deriva. Uma franja reduzida se pensarmos na vulgaridade com que o adjectivo é usado.

Previsivelmente, o seu significado original foi deturpado. Fenómeno semelhante sucedeu com Kafka e a forma adjectivada “kafkiano”.

Diogo Pires Aurélio fez uma tradução de O Príncipe com a qual recebeu uma menção honrosa do Prémio de Tradução Científica e Técnica em Língua Portuguesa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e da União Latina. Recebeu também o grande prémio para a tradução que fez do Tratado Político de Espinosa.

Na nossa conversa, concentrámo-nos em Maquiavel.

Pires Aurélio é professor de Filosofia Política na Universidade Nova de Lisboa. Foi administrador da Imprensa Nacional Casa da Moeda, presidente da Comissão da Unesco, director da Biblioteca Nacional, é consultor de Cavaco Silva para os assuntos culturais.  

 

 

O que é que hoje outorga poder a um indivíduo? Um indivíduo que actua na esfera política, na esfera das empresas, na esfera mediática.

O que confere poder é qualquer tipo de ascendência sobre o grupo. Penso que não será um princípio antropológico, mas é uma dedução que se pode retirar da História e da experiência comum: num grupo estabelecem-se distinções, assimetrias. Essas assimetrias tendem a cristalizar-se em formas de mando e de obediência.

 

O que é que é determinante?, é a inteligência, é o poder que emana da função, é o saber mais, é o dinheiro, são as relações familiares?

Tudo isso são elementos que podem contar. Não se pode definir previamente um modelo de poder ou um tipo de carisma. Primeiro, porque ele se revela de formas muito distintas. Segundo, porque depende do grupo em que se manifesta. Num grupo de universitários o tipo de requisitos para exercer eficazmente o poder será um, num Governo será outro, num grupo de amigos será outro.

 

Por que é que Cavaco Silva e Sócrates foram líderes e têm inegavelmente carisma? Por que é que adquiriram ascendente sobre os outros?

Visto a posteriori, é um facto que o adquiriram. O conjunto de qualidades e de recursos que tinham produziu as marcas simbólicas que o agregado – neste caso, o país – naquele momento, pretendia ver em quem exerce o mando. A variação das condições depende da natureza do grupo, das relações e das circunstâncias, incluindo as temporais.

 

Significa que esses dois líderes, num tempo diferente, poderiam resultar de outra maneira na sua comunidade?

Maquiavel diz isso muito claramente. Diz que as mesmas pessoas, as mesmas qualidades, em circunstâncias diferentes, produziram efeitos diferentes. E qualidades completamente opostas, em circunstâncias diferentes, produziram os mesmos efeitos.

 

Então, é indispensável saber interpretar o espírito do tempo.

Exacto. Desconfio muito de um discurso que se generalizou em relação à situação europeia, que vê a salvação através de um imaginário sebastianista, que consiste em dizer que faltam à Europa os líderes que tivemos há 20 anos ou há 30 anos. Não sei como é que seria a Europa do Sr. Delors, do Sr. Miterrand ou do Sr. Khol; como é que qualquer desses líderes actuaria, qual seria o seu grau de sucesso na Europa que temos hoje. Que é profundamente diferente da Europa que tínhamos.

 

Os desafios e as questões são radicalmente novos, na Europa e no mundo – é um facto.

Não estou a pensar apenas de Economia nos países emergentes, em todos esses fenómenos que conhecemos, mas noutro fenómeno: o do exercício do poder numa sociedade comunicacional como aquela em que vivemos, onde o escrutínio é feito com uma acutilância e uma velocidade com que não era feito há 20 anos. Dizer – “eles venceram, portanto agora venceriam também” – como norma, é errado, porque não se verifica historicamente. Maquiavel ensina-nos isso quando diz que o Papa Júlio II triunfou sempre, pela sua natureza impetuosa, carismática, que se impunha pela intuição, até militar; mas acrescenta: “Por sorte morreu antes de chegarem tempos em que seria preciso mobilizar características diferentes para triunfar”. Claro que os recursos que se trazem à partida, algumas vezes à nascença, contam.

 

Se tivermos um terreno fértil, é mais fácil fortificar; mas a semente tem de ser boa. Se Sarkozy e Merkel, Passos Coelho e Cavaco não tiverem determinadas características, não vingam.

Não vingam. É preciso, continuando no registo maquiavélico, que a ocasião não chegue em vão. Se não se tiver a capacidade de aproveitar a ocasião, impor a sua liderança, a ocasião será perdida. É necessário dispor de características que dominem as circunstâncias e o seu tempo. O que não posso dizer é quais são essas características para cada tempo.

 

a posteriori se pode perceber isso?

Sim. Se comparar três ou quatro líderes que em Portugal, nos tempos da democracia, tiveram poder e ascendência – a prova está em que venceram eleições –, pensemos em Sá Carneiro, Mário Soares, Cavaco Silva, José Sócrates, não vejo que se possa isolar um conceito de carisma a partir destas quatro personalidades tão diferentes entre sim.

 

O que é que será esse grão de carisma que faz que essas pessoas sejam aquelas que nos marcaram e que evocamos quando pensamos nos últimos 35 anos da história política portuguesa?

Quando diz que elas nos marcaram, convém, no plano político, pensar sempre que elas marcaram a maioria das pessoas. Esse é outro aspecto importante a ter em conta. Fazer política é fazer inimigos.

 

Porquê?

Tomar uma decisão é ir ao encontro de algumas, de muitas pessoas, de muitos grupos, de muitos interesses, de muitas expectativas, mas é também ir contra muitos interesses individuais ou de grupo. Uma decisão política é essencialmente isso – produz-se hostilidade.

 

Hostilidade e apoios?

Sim. Qualquer desses líderes tomou decisões muito nítidas que marcaram o tempo. Marcaram o tempo porque geraram muitos apoios, muitas amizades, e, em simultâneo, muitas hostilidades. Abanaram o seu tempo. É o carácter inovador da decisão que, pelas reacções extremas que provoca, afirma um líder. Não tomar decisões dessa natureza, manter as coisas tal como estão – não fazer política – é agradar a muita gente por algum tempo, mas a prazo é estar condenado.

 

Estava a ouvi-lo e a pensar em Guterres, cuja via foi a do diálogo e consenso. Indo ao encontro do que estava a dizer, é como se tivesse produzido menos hostilidade, feito menos inimigos, mercê dessa tentativa de conciliação. Foi menos marcante por isso?

É curioso que essa via confirme aquilo que acabei de dizer. Talvez não por acaso, [Guterres] nunca teve uma maioria absoluta. Não estou a dizer que a via do diálogo, em certas circunstâncias, não seja a via recomendável. Estou só a dizer que líder é aquela pessoa que gera sentimentos fortes. Um líder tanto pode corresponder às características típicas que a população está habituada a ver nos líderes, como vir com características novas, e surpreender por esse lado.

 

Quais são algumas dessas características?

Não pode tipificá-las. A diferença que Maquiavel introduz é exactamente dizer que não se explica o fenómeno político através da tipificação de modelos, seja de indivíduos seja de situações (que é o que se faz com frequência na literatura dedicada a esta matéria). Quais são as qualidades que deve ter um rei? Quais são as qualidades que deve ter um líder político? Ele diz que isso é um exercício que acabará sempre por definir tipos, e que na primeira situação se podem desmentir.

 

Portugal, a Europa não podem definir, a priori, o tipo de líderes de que precisam?

Não. A posteriori os historiadores podem dizer isso. E nessa altura têm, não só o tipo de líder, como a prova dos factos.

 

Como é que lemos um livro como O Príncipe, escrito por Maquiavel há cerca de 500 anos, e conseguimos encontrar nele o nosso tempo (fazendo uma transmutação obrigatória)?

Há muito a tendência perante estes livros de os admirar como se admiram peças de museu. Notáveis, mas notáveis no seu tempo, e fechados numa redoma. Levo muito a sério a designação de clássicos que lhes atribuímos. E se são clássicos é porque continuam a ter uma capacidade de dialogar connosco.

 “Como é que isto foi dito já há 500 anos?”, é a pergunta que as pessoas fazem. Não creio que na análise do fenómeno político ou social as grandes questões que se punham a Maquiavel sejam muito diferentes daquelas que se põem hoje em dia.

 

Mesmo que as circunstâncias sejam completamente diferentes?

Mudaram-se as circunstâncias, mas os actores não mudaram tanto como gostaríamos.

 

Ou seja, não mudou a natureza humana, o modo de reagir perante uma situação?

A natureza humana não será uma essência metafísica imutável, mas muda muito mais lentamente do que podemos imaginar. Há aquilo a que eu chamaria o preconceito iluminista. É a crença em que a divulgação do ensino e da discussão pública iria injectar uma racionalidade nos processos de decisão e de actuação política a uma velocidade muito maior do que aquela que essa racionalidade produz.

 

Não deixa de ser paradoxal que sendo O Príncipe uma carta com determinados ensinamentos e princípios seja um texto tão enigmático. Os ensinamentos não são tão claros e inequívocos quanto parecem. Se calhar por isso, continuamos a surpreender-nos com a obra.

Há uma parte do enigma que deriva da nossa distância no tempo. Diria que o que existe, e existiu desde sempre, é a estranheza que o livro provoca. O que Maquiavel traz ao de cima são aspectos dos comportamentos humanos – não direi da natureza humana. Nunca temos em Maquiavel aquelas afirmações: “Os homens são maus”. Ele diz de forma muito mais pragmática que há indivíduos que não obedecem àquilo que esperaríamos; e basta que haja um ou dois para que isso induza atitudes de cautela, de desconfiança ou de agressividade no resto do grupo, que têm que ser tidas em conta. Aquilo de que Maquiavel fala são aspectos como a violência. O mando sobre os outros é uma atitude que representa sempre uma perda.

 

Perda daquele sobre quem é exercido o poder? Perda de território, influência, privilégios?

O poder tem sempre um lado de perda para o outro – no mínimo de liberdade. [Retomo a ideia de Maquiavel que diz que] a política produz sempre inimigos; além dos inimigos que faz quando conquista o poder, e afasta aqueles que lá estavam, é preciso contar com as inimizades que cria naqueles que tinham grandes expectativas sobre ele.

 

Não é possível nunca preencher essa expectativa? Por melhor que seja o líder, por mais que se esforce, o defraudamento é inevitável?

É. É da natureza do ser vivo nunca se satisfazer com aquilo que tem. E não estou a falar de recursos materiais, podem ser recursos espirituais. A vida é por natureza essa projecção no momento seguinte. A acção política traduz-se em tentar conquistar amizades – para usar a linguagem de Maquiavel – que compensem as inimizades que se produzem actuando politicamente.

 

A propósito da criação ou da manutenção de amizades, há um excerto que diz assim: “Extinguiu a milícia velha e ordenou nova; deixou as antigas amizades e granjeou novas; e, assim que teve amizades e soldados que fossem seus, pôde sobre tal fundamento edificar todo o edifício, tanto que lhe deu bastante fadiga a adquirir e pouca a manter.”

Maquiavel é uma carta fora do baralho do pensamento político. Aquilo a que chama “virtude política” não é algo que se possa definir previamente. Diz a célebre frase, tantas vezes comentada, mas mal interpretada e mal traduzida: “É melhor ir atrás da verdade efectiva da coisa”. O que está a dizer é que em política não há verdades que se possam fixar, cristalizar previamente. A política, por natureza, é uma verdade que só se apura nos efeitos. E os efeitos da política são os afectos que o exercício do poder gera. Afectos de hostilidade ou de simpatia.

 

Por isso é tão fundamental ter as nossas hostes, as nossas simpatias? É isso que nos vai ajudar, de uma forma mais sólida, a lidar com a adversidade?

O poder e essa ascendência podem-se exercer induzindo dois sentimentos: o de medo ou de amizade. O medo é algo que tem custos muito grandes em política. Pode ser eficaz, mas exige gastos militares, gastos em segurança, que são, por exemplo, a manutenção das ditaduras. Mas mesmo as ditaduras mais agressivas funcionaram sempre a partir de uma aproximação entre as lideranças e o público – aquilo que designamos por manipulação de sentimentos e de expectativas.

 

“A melhor fortaleza que existe é não ser odiado pelo povo”, lê-se n’O Príncipe.

Maquiavel, quando está a discutir uma questão militar concreta – “É possível ter fortalezas ou não ter fortalezas à volta de uma cidade?”, uma pergunta geoestratégica – diz: “Nuns casos será necessário, noutros casos será menos necessário. O que é absolutamente necessário é ter o apoio dos que lá estão dentro. Se não se tiver o apoio dos que lá estão dentro, da população, com ou sem fortalezas, o poder vai-se em três tempos”.

É normal e expectável que alguém que chegue a uma empresa, que forme um gabinete, leve os seus? Porque precisa de ter aqueles que são da sua confiança, aqueles que têm por ele simpatia e não hostilidade. Mas então, que fazer com os inimigos? Há quem considere que o melhor é mantê-los por perto.

Não é assim tão líquido. Temos exemplos no livro que alertam para os efeitos da actuação desses amigos – da linha intermédia que se escolhe. Há casos de governadores que são nomeados e que o príncipe, o líder, pouco tempo depois, tem que matar, destituir.

 

Quando olhamos para os líderes de que há pouco falávamos, somos capazes de apontar pessoas da entourage, da linha intermédia, que por uma razão ou outra caíram em desgraça aos olhos da opinião pública. Isso macula o líder? Dias Loureiro macula Cavaco? Armando Vara macula Sócrates?

O exercício da política traduz-se sempre num conjunto de actuações, de gestos, de palavras, naquilo a que posso chamar uma produção de sinais, que são percebidos de uma ou de outra forma no imaginário colectivo. Se o político escolhe colaboradores cuja actuação não está de acordo com os sinais que pretende dar, essa actuação de segunda linha produz efeitos nele próprio. Porque a escolha de colaboradores é um sinal que se dá. Esses sinais, considerados de um ponto de vista objectivo e racional, podem ser irrelevantes se tivermos em conta toda a obra que um líder já desenvolveu em relação à comunidade. Mas se olharmos à História verificamos que sinais desses podem ter efeitos muito mais fortes, seja positiva, seja negativamente, do que uma obra consolidada.

 

A História está cheia de grandes derrotas e quedas improváveis que resultam de episódios que consideraríamos insignificantes, gratuitos, inconsequentes. Mas caem, apesar de tudo.

Maquiavel nunca disse esta frase, mas disse coisas muito parecidas: “Em política, o que parece, é”. Isto não é o elogio da hipocrisia, se bem que se tomarmos o significado etimológico de hipocrisia, a política é de facto hipócrita. Hipócrita, em grego, é o actor. Não é que os fins justifiquem os meios, como habitualmente se interpreta, mas é correcto dizer-se que os princípios não justificam os fins. Os melhores princípios, sejam morais, sejam técnicos, podem produzir efeitos devastadores.

 

Em todo o caso, queremos acreditar que o político está animado das melhores intenções e que procura o bem comum. Queremos acreditar que esses são os seus bons princípios.

A vontade comum é a sua vontade, é a minha, é a dos desempregados, é a dos empresários. Quem diz a vontade comum diz a vontade popular. A política é uma aproximação disso. Mas é também uma forma de camuflar algo que é próprio da política: a conflitualidade intrínseca ao grupo. Vivemos permanentemente no pressuposto de que essa conflitualidade é ultrapassada, seja através de mais educação, seja através de maior moralização.

 

De negociação. A política vive disso, as empresas vivem disso. (Sei que estou a falar com um professor de Filosofia Política e que os leitores são, mais que tudo, pessoas das empresas e da política. Estou sempre a tentar puxá-lo para esta realidade, também.

Também vivo nela [riso].)

 

Hoje as empresas têm capitais de várias proveniências, têm várias sensibilidades políticas. A negociação, a cedência mútua, parecem ser a única maneira de se levar o barco a bom porto.

Diria que sim. Mas há movimentos que vivem do pressuposto de que é possível ir mais além do que a negociação. A utopia de uma sociedade sem poder – chamo-lhe utopia, há quem não chame –, do povo a encontrar-se consigo próprio e a prescindir da mediação, continua latente. Infelizmente não podemos dizer que o compromisso é a via, nem que os resultados sejam satisfatórios. Temos que argumentar dizendo que os resultados das alternativas que têm surgido têm sido piores. Continuamos a funcionar no registo “do mal, o menos”.

 

Cada vez mais, com o descrédito progressivo na classe política, as pessoas dizem que votam “do mal, o menos”.

É uma atitude racional, e mais do que isso, é uma atitude democrática.

 

A democracia é o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros, como dizia Churchill.

A política é escolher o mal menor. Admito que haja votos que sejam indefectíveis, e de uma sintonia absoluta com os eleitos – aí serão duplamente eleitos, na urna e no coração dos eleitores. Mas não acredito que isso seja o mais comum. E não vejo sequer que haja necessidade disso. Tenho muito receio de uma política que induza magmas sentimentais, em que não há distância entre quem governa e é governado.

 

Fica-se a um passo do totalitarismo?

Exactamente.

 

Na negociação, o que faz que uma voz prevaleça sobre outra, nos tempos que correm? Quem tem dinheiro é quem manda mais?

Não sei se quem tem o dinheiro é quem manda mais.

 

Olhemos para a Europa: quem manda é a Alemanha?, que é quem tem mais dinheiro?

A forma política em que vivemos, com mais ou menos deficiências, é aquela a que tecnicamente se chama Estado, que prevaleceu nos últimos 300, 400 anos, e que produziu os efeitos e a eficácia que conhecemos. E está muito sólida. Vide a China, vide os Estados Unidos. Sou céptico relativamente a toda a literatura que desde há dez ou 15 anos vem dizendo que este modelo está morto. Direi apenas que ele conhece as maiores dificuldades precisamente no continente onde foi inventado, na Europa.

A ideia desta Europa surgiu logo a seguir à [Segunda] Guerra. Os primeiros encontros são para fazer os Estados Unidos da Europa. O desenvolvimento económico e a passagem à unidade monetária deu-se na convicção de muitos de que seria uma forma de chegar à unificação política. Hoje em dia temos uma circulação de capitais, não só na Europa, mas também a nível intercontinental, e assistimos a sucessivos fracassos da organização política, da gestão desses mesmos conflitos económicos. Na Europa muita gente deita mão a um recurso que me parece demasiado fácil: “Vamos para a união política e isto resolve-se”.

 

Porque é que diz que é demasiado fácil?

A união política por decreto é algo em que não acredito. E não sei se terá tantos efeitos positivos como os negativos que pode suscitar. As pessoas evocam a ideia dos Estados Unidos da Europa, inspirada na América, mas esquecem-se com muita frequência que a união americana nos termos em que existe, desde há cento e tal anos, foi conseguida através de uma guerra de cinco anos. Não creio que se esteja a sugerir isso para conseguir união política. Costumo ironizar dizendo que a minha opinião nessa matéria é leninista [riso].

 

Como assim?

Lenine dizia, muito sagazmente, contra a Rosa Luxemburgo e muitos dos líderes do partido bolchevique que eram internacionalistas, e que estranhavam o apoio que ele dava aos movimentos nacionalistas russos, sobretudo durante os anos da Primeira Guerra, que ao apoiar os nacionalismos russos obtinha dois resultados. Primeiro, evitava ter questiúnculas nacionalistas no interior do partido bolchevique. Segundo, fazia com que os nacionalistas caucasianos, georgianos, ao trabalharem juntos em causas nacionalistas, fossem cada vez menos nacionalistas. Quando subiu ao poder, Lenine usou de soluções menos especulativas, foi menos magnânimo. Mas em relação à Europa, não vejo que haja muitas vias de acelerar a construção política. Vejo com alguma preocupação a situação em que estamos.

 

Independentemente dos líderes? Independentemente de ser Angela Merkel, Nicholas Sarkozy?

Não seria tão crítico relativamente a Merkel, para não falar de Sarkozy. Não sou um especialista em Economia, mas não sei se a sua actuação terá sido tão negativa para a Europa como certos europeístas pretendem fazer crer. Não sei se a modificação dos impostos alemães que tanta gente requer, e a que a Sra. Merkel se tem oposto, não levaria imediatamente ao poder os opositores da Sra. Merkel, que são tanto ou mais desconfiados do apoio aos países periféricos do que ela. A forma como Merkel tem sido denegrida resulta em grande parte da vontade de soluções que se imaginam mais fáceis do que seriam realmente.

 

A famosa frase: “É melhor ser amado que temido, ou o contrário? A resposta é que se quereria ser uma coisa e outra, mas, uma vez que é difícil acumulá-las, é muito mais seguro ser temido do que ser amado”. Parece uma questão retórica, pífia; contudo, andamos às voltas com ela há séculos.

Não é tão retórica, mesmo ao nível dos sentimentos. A gestão do amor é muito mais complicada do que a gestão do medo. Ao nível político, onde a segurança é um elemento fundamental para que se produzam os efeitos pretendidos, o ser temido é uma condição muito importante.

 

O impor respeito (traduzido em linguagem corriqueira), é isso o ser temido?

Ser temido é levar as pessoas, colaboradores e outros dependentes, a recearem as consequências de não actuarem de acordo com aquilo que está estabelecido. Estamos a falar de um temor interiorizado. Um grupo que não teme é um grupo onde a obediência tem de ser obtida pela força. Tanto o medo como o amor, como a amizade, a admiração, o consentimento, permitem que a sociedade funcione com um mínimo de exercício da força. E permitem que a força seja, para a maioria dos cidadãos, única e simplesmente uma ameaça potencial.

Isso aplica-se aos métodos pouco ortodoxos com que Maquiavel lida, como se aplica à mais elementar legislação sobre condução nas estradas. Se sabe que a probabilidade de encontrar um polícia é reduzidíssima, a transgressão é mais fácil. A partir do momento em que se interioriza a possibilidade de encontrar um polícia, a obediência verifica-se mesmo sem encontrar o polícia.

 

Nas notas que Napoleão fez ao texto de Maquiavel, e que não contempla na sua edição, lê-se: “Ingenuidade de Maquiavel. Poderia ele conhecer tão bem como eu o domínio pela força?”.

Napoleão vai mais forte que Maquiavel, apelidando-o de ingénuo! O domínio pela força é um recurso último?

É um recurso último não só porque é aquele que encontra as maiores resistências, mas também porque é o que tem custos mais elevados. A organização social, mais de esquerda ou mais de direita, assume a necessidade de existir um determinado número de forças que mantenham a segurança. Não porque se tenha qualquer devoção pela força, mas porque se sabe que a força é um elemento necessário para esse outro bem que é a liberdade de actuação. Para além dessa força que as sociedades comummente consentem, existe a força que em certas circunstâncias estala, seja numa guerra civil, seja numa guerra internacional. Existem todas as estratégias de como deslocar as tropas e obter determinados objectivos. Mas é difícil pensá-la [a força] em confronto com uma outra aspiração maior, que é a de Justiça. Há uma pressão enorme de imaginar, por exemplo, a ONU como uma espécie de justiça com pernas, uma espécie de justiça concreta. O que verificamos é que as actuações militares da ONU são no mínimo controversas. Não compreendo o que se está a passar neste momento na Líbia.

 

Em nome de quê se faz a intervenção?

Neste caso, não foram sequer anunciados os objectivos da intervenção. A comunidade internacional possui princípios, possui uma proto-constituição, uma série de órgãos em que se revê a maioria dos Estados, mas falta-lhe algo para ser um sujeito político em pleno sentido da palavra.

 

Conseguiria definir numa linha o conceito de democracia?

A democracia é o regime da contestação permanente.

 

O regime onde há espaço para a contestação permanente?

É o regime onde existe um poder, desejavelmente por representação, que define o que é o interesse comum. Mas é por esse interesse comum ser algo com uma componente de abstracção enorme…

 

E diverso, e heteróclito.

… que tem que estar sistematicamente em discussão. A democracia, desde a Antiguidade, foi sempre vista com muita suspeita por todas as camadas que se sentem com direito ao poder. Seja a aristocracia (o poder por herança, o poder por condição social), seja o poder do conhecimento. A democracia vai ao arrepio dessa convicção que temos de que quem sabe mais deve estar a mandar.

 

Lula foi alvo dos dois preconceitos. A sua condição social era pobre e o conhecimento reduzido (tem a quarta classe).

Lula conheceu todas as desconfianças. Não me refiro só às críticas objectivas aos governos dele, mas às críticas que vêm desse preconceito. As críticas de Platão à democracia derivam deste raciocínio: como é que vamos entregar aquilo que é mais precioso para uma sociedade – a sua condução – a analfabetos?

 

Depois, no séc. XX, temos episódios monstruosos que nos fazem desconfiar desse pressuposto: uma nação letrada e educada como a alemã foi capaz de perpetrar os maiores horrores.

Ter consciência das fragilidades e das limitações da democracia é um pensamento muito útil, porque evita essa convicção beatífica de que a democracia é o melhor dos mundos e que a democracia se pode implantar em toda a parte e em qualquer altura (o que o séc. XX demonstra que está longe de ser verdade).

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2011

 

Em destaque

Entradas recentes