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Eduardo Barroso

Em Março deste ano (2009), a equipa do cirurgião Eduardo Barroso fez o seu milésimo transplante hepático. A comemoração faz-se dias 20 e 21 de Novembro, na Gulbenkian.

Barroso convidou “os muito bons no mundo” a virem a Lisboa assinalar o facto. Mas convidou apenas “aqueles que os ajudaram”. Por “os” entenda-se o seu serviço, no Hospital Curry Cabral.

A comemoração serve de pretexto a um retrato na primeira pessoa.

Eduardo Barroso tinha decidido que não dava mais entrevistas. Mas deu. Queria falar dos mil transplantes. Não queria falar especialmente da distinção de que foi alvo, na China, apesar de ela ser muito recente. Como se isso não lhe interessasse. Não estava a fazer o número do modesto. Uma distinção na China afaga o ego e tal. Mas ele já sabe, e há muito, que é um dos melhores do mundo. Mas do seu serviço, da sua equipa, de como funciona esta máquina afinada, disso ele queria falar.

“Se for ao meu hospital, que é um hospital do Serviço Nacional de Saúde, eu não tenho desculpa. Tenho tudo para fazer bem. Tenho um bloco operatório que é dos melhores do mundo, uma equipa que é das melhores, uma tecnologia que me foi oferecida. O que é que me falta? Camas, e que o Governo (qualquer que ele seja) perceba que é um crime que a minha equipa não esteja só a fazer estas coisas. A minha equipa não devia estar a fazer hérnias e apendicites. Obrigam os meus cirurgiões a fazer urgências normais! É como ter um fórmula 1 para ir fazer compras no Chiado”. 

Comecei por outro lado. Esclareci, na conversa introdutória, que esta pretende ser uma entrevista-retrato. Ele não queria que se falasse apenas de ser um membro do clã Soares, dos charutos, do futebol. Não queria que se potenciasse um lado apatetado com que por vezes aparece. Nem com a língua demasiado destravada. Mas falou de quase tudo, e com grande naturalidade. Do pai ausente e jogador, da miséria sexual que se vivia no Portugal fascista, da amizade fraterna com Marcelo Rebelo de Sousa, de como sempre soube que ia ser um dos melhores, dos pesos na consciência.

Eduardo Barroso tem 60 anos. Só agora está a doutorar-se. Ganha muito dinheiro. Podia ganhar mais. Tem um ordenado líquido de dois mil euros líquidos. “Vai ser a minha reforma. Preocupa-me”.

Conversa em sua casa, no centro de Lisboa.

 

 

Porque é que não usa o apelido do seu pai, Garcia da Silva?

Boa pergunta. Na escola primária era o Eduardo Garcia. Durante o liceu fui o Eduardo Garcia da Silva. Na faculdade fui eleito delegado de curso e começaram a tratar-me por Barroso; por causa do meu irmão [Mário], do [meu primo] Alfredo, por causa da parte associativa e política – era sobrinho da Maria Barroso, que ia ler poemas. Até que um dia o Professor Jorge Horta disse: “Ninguém te conhece por Garcia da Silva. Tens de passar a ser Barroso”. No anfiteatro, em frente a 300 pessoas. O Professor Jorge Horta tinha sido professor do meu pai. O meu pai, que foi um pai ausente, costumava dizer na brincadeira: “Vocês são todos uns filhos da mãe”.

 

Furioso, porque não usavam os apelidos dele?

O Mário, [cineasta], é Barroso. A Graça – não sei se a viu dançar? – era Barroso. Para a minha mãe era simpático. Foi ela que nos educou e ajudou. O meu pai foi para a Índia e ficou lá até à invasão. Quando regressou já trouxe uma nova mulher. Os meus filhos são Garcia da Silva. Há uns tempos criticaram-me: “Ele usa o Barroso por interesse”. É inteiramente falso! Até ao 25 de Abril, Barroso não era [um apelido] brilhante. Não era o sobrinho do primeiro-ministro e do presidente da República. Era o sobrinho de um proscrito. Não era um cartão de visita que trouxesse benefícios no Portugal da ditadura. Tentei tudo para ser Garcia da Silva.

 

Porquê? No fundo, é a sua relação com o seu pai que está em causa.

É. O meu pai teve outro filho de outro casamento, o José Manuel Marinho. Havia aqui uma coisa quase de destino.

 

Destino? E porque é que tinha pena?

Eu nasci em 49. Só aos 12 anos é que conheci o meu pai. Foi para a Índia tinha eu um ano. O meu pai era médico militar e médico do Governador. O meu avô tinha sido reitor do liceu de Goa, e o meu pai nasceu lá. Eu tinha um desgosto enorme. Andei numa escola conservadora. Não era conservadora…, não é justo dizer isso da melhor escola de Lisboa, o Lar da Criança, da Bertinha Ávila de Melo. Foi onde fiz a primária e onde conheci o Marcelo Rebelo de Sousa. 

 

E aí era um Garcia da Silva.

Tenho uma história espantosa com uma colega, por quem tive uma paixoneta aos nove, dez anos, e que reencontrei na faculdade. “Ó Barroso, tens o mesmo nome que um colega meu da escola, de quem gostava muito, o Eduardinho”. “Eu sou o Eduardinho!”. Ela foi a melhor aluna do país na admissão à faculdade. Ana Maria. Foi uma pessoa de quem gostei muito.

 

Uma introdução ao primeiro amor?

Foi uma paixão muito duradoura. Durante anos, o meu sonho era que íamos os quatro, eu, o Marcelo e ela, passear.

 

O que é que o Marcelo estava a fazer nesse triângulo?

O Marcelo era o meu melhor amigo. Daqueles que ficam para a vida inteira. O quarto…, eu arranjava uma namorada para o Marcelo! Até ao quinto, sexto ano do liceu, pensei na Ana. Depois acabou por morrer no meu imaginário. Mas na faculdade percebi logo que era ela. Pareceu-me demasiado sofisticada, bonita. Já não era para a minha pedalada. Nenhuma namorada gira, com 16, 17 anos, olhava para os rapazes da mesma idade.

 

Excepto quando eles eram giros.

Olhe que eu não era mau. Nunca me correu mal a vida. Depende de para que se quer uma namorada.

 

Para quê?

A relação que o meu filho tem com a namorada (ele tem 24 anos e namoram desde os 17) era impensável no meu tempo. A nossa sexualidade era muito reprimida. Ninguém pensava fazer alguma coisa com uma namorada. Tinha-se uma namorada e depois tinha-se outras coisas.

 

Como é que era? Com estrangeiras?

Era com o que havia. Sim, com estrangeiras. Ia a Paris visitar o meu irmão Mário, que tratava de mim. Não imagina o que foi a minha ida a Paris em 68. Quando, em Portugal, contei as histórias do que me aconteceu, pensavam que estava a exagerar – e não contei metade! O meu irmão Mário tem só mais 16 meses do que eu, mas tem a mania que tem mais dez anos. Ele sabia que a vida sexual do irmão era uma tragédia. Estar em Paris, com o meu irmão e os amigos, e no fim de dois ou três jantares, as coisas surgirem com naturalidade, foi o deslumbramento.

 

Na sua cabeça, as mulheres que se “preservavam” eram as sérias, eram as mulheres para casar?

Só tinha um amigo que ia para a cama com a namorada. Era uma inveja bestial! Nós andávamos sempre à espera que houvesse algumas abébias. Contam-se pelos dedos de uma mão as namoradas que tive com essa idade e com quem tive uma relação semelhante à que têm hoje os nossos filhos. Entrar nos jardins da Sorbonne e ver dez pares a fazer amor, era uma coisa impensável! Aqui, não havia sítio para estar, sequer. Não havia dinheiro para hotéis. Passava-se o tempo nas filas de trás do cinema.

 

Onde estávamos era na ausência do seu pai, na infância.

Na escola, era o único que tinha os pais separados. Os pais do Marcelo e da Ana Maria tratavam-me com muita ternura. A Bertinha tinha uma preferência pelo Marcelo e por mim. Mas eu tinha muito desgosto por não ter o pai que eles tinham. Durante o liceu, quando foi a invasão de Goa, lembro-me de chorar por pensar que o meu pai tinha morrido. Mas era um pai que eu não sabia quem era.

 

Ele tinha dinheiro? Quem é que pagava a escola, esse estilo de vida?

A minha mãe trabalhava, era engenheira química. Tinha três filhos no Lar da Criança. Não tinha dinheiro para aquilo. (O meu pai era muito irregular a mandar os dinheiros. Vivíamos com desequilíbrio económico). A Bertinha disse: “O Eduardo fica, com uma bolsa”. Nunca paguei. Vim a saber depois que o meu pai, quando veio da Índia, trouxe uma jóia à Bertinha. De gratidão. Ela só me contou isso há poucos anos. Fiquei tão contente que o meu pai se tivesse lembrado de dar um alfinete à Bertinha.

 

E como era a relação com a sua mãe?

A minha mãe era o sustentáculo daquilo tudo. Um poço de ternura, mas um pouco deprimida. Chorava à noite. Punha-se a ouvir fados. Eu adoro fados. Havia um que ouvia repetidamente, da Lucília do Carmo. “Agora que entre nós tudo acabou, depois de tantas zangas e castigos, agora que tu estás vivo e eu também estou, podemos afinal ser bons amigos”. Era complicado não ter uma família feliz.

 

Durante esses anos, a imagem do pai era ocupada em parte por Mário Soares?

Também. Mas tinha outro tio, esse sim, que foi como se fosse meu pai (o José Manuel Duarte). Ia lá jantar uma ou duas vezes por semana, tinha o meu prato à mesa. O tio Mário tinha a sua vida própria; também esteve muito tempo no exílio e preso. Só mais tarde nos aproximámos muito. Sou da idade do João [Soares]. Entre o primeiro e o quinto ano de liceu, fomos colegas de carteira.

 

Esteve entretanto no Colégio Moderno. Experiência marcante?

Quando passámos para o liceu, a minha mãe trabalhava e fazia ginástica no Sporting – tinha uma vida muito ocupada –, e internou-nos no Colégio Moderno. Eu queria ter ido para o Pedro Nunes com o Marcelo. Fizeram uma turma com os grandes alunos. Eu era muito bom; devo dizer que foi a única vez que fiquei à frente do Marcelo. De estar internado, até gostei. Da coisa gregária. Do desporto. De ter sido delegado de turma – fui sempre.

 

Foi sempre esta criatura solar, egocêntrica, para quem os outros olham?

Egocêntrica? Você não me conhece!, porque é que eu hei-de ser egocêntrico? Eu tenho uma carta com o meu perfil psicológico aos meus oito anos. E está lá tudo. Dizia que eu me tornava antipático porque não gostava de perder. Que era muito competitivo e queria ser sempre o melhor. Que tinha grandes qualidades de líder. Que tinha facetas de alguma vaidade e narcisismo.

 

Reconhece-as como sendo características fundamentais?

Acho que sim. Entendo que devemos fazer um esforço para ser melhor do que os outros. Isso é que nos mantém ao nível dos mais altos standards. A ambição, neste país, é tida por coisa pejorativa. Eu sempre fui muito ambicioso. Claro que ao ler aquilo – quando tenho a mania que sou desportista e sei perder – percebo que provavelmente não sei desde os oito ou nove anos. Também lá estava o brio.

 

E a capacidade de liderança.

Coisa esquisita: a Bertinha criou umas casas e os alunos eram organizados em casas. O equivalente a grupos. As casas competiam com jornais de parede, estrelas para os melhores alunos, no desporto. Os melhores eram os presidentes de cada casa. Eu preferi ser tesoureiro da casa de S. Roque, que tinha o Marcelo como presidente, do que ser presidente da casa de S. Pedro.

 

Preferia ser o número dois dele do que tentar que ele fosse o seu número dois.

Ele ser o número dois era impensável. Ele não quereria. Um teve que ceder, cedi com naturalidade. Do que me lembro, até aos dez anos, não é da minha casa: é do Lar da Criança. Na minha casa não havia ninguém: eram duas empregadas e a minha mãe que chegava a seguir ao jantar.

 

A sua mãe foi atleta do Sporting. A sua relação com o Sporting vem daí?

Também. Quando nasci, o meu pai fez-se sócio do Sporting. Podia ter sido um médico brilhante… Mas habituou-se à vida das colónias. Uma vida de desbunda. Era novo, gostava da vida, era mulherengo. Quando o fui ver pela primeira vez, não sabia quem ele era. Só das fotografias. Ele estava aos pulos no aeroporto. Com uns calções brancos e os galões militares. Os filhos estavam a chegar, entregues a um amigo, numa viagem que demorava 30 horas. O meu pai jogava muito. Bridge.

 

Dizia-me que o Público não tem o bridge ao domingo, o que é uma maçada. Aprendeu com o seu pai, presumo.

Aprendi a jogar bridge na Índia. Quando o meu pai regressou a Lisboa, só o via em duas ocasiões: quando precisava de um parceiro para jogar bridge, ou para o futebol.

 

O Bridge era uma forma de estar com o pai?

Sim, isso e o Sporting. Depois íamos comer um bife ao Nicola. No quinto ano da faculdade tive uma apendicite e tinha um exame no dia seguinte. “O pai veja lá, não quero ser operado, quero fazer o exame”. Começaram por me pôr uns sacos de gelo, atrasar a operação – já fiz isso com um jovem que ia casar no dia seguinte e que tinha uma peritonite. Fiquei a jogar bridge, com o meu pai, o José Gameiro e outro, e fiz directa até ao exame. O meu pai ainda me chateou porque só tive 18. Fiz o exame aflito com dores. Acabei às 11 e fui operado às 11 e meia.

 

Exigia tanto assim de si?    

Tinha um lado louco. Quando se é novo, não se gosta muito disso… O meu pai morreu num dia em que foi ao casino e lhe correu mal. Morreu de enfarte. Ia ao casino todas as noites – uma tragédia. Não bebia. Fumava muito, cigarros. Era um jogador compulsivo, estragou a sua vida com o jogo. Eu, aliás, tenho esse gene.

 

Chegou a jogar?

Sim. Proibi-me de jogar a mim próprio. Há dez anos que não entro num casino. Gostava muito daquilo. Ainda agora fui à China e fui mostrar Macau à minha mulher; eu não queria ir ao casino, mas o guia insistiu. Fiz quatro lances, ganhei, e parei! Inacreditável. Não parei por forretice. Parei porque aquilo não me estava a dar gozo. Para dar gozo tinha de estar ali umas horas e jogar à fartazana.

 

Alguma vez sentiu vergonha do seu pai?

Vergonha, não. Mas grandes problemas económicos, sim. Grandes dívidas de jogo. Percebi que também gosto daquilo, daquela adrenalina – sobretudo roleta. Perde-se o dinheiro, trama-se a vida. No dia em que ele morreu, depois de fechar a igreja onde esteve a ser velado, fui ao casino jogar nos números dele. Apetecia-me comunicar às pessoas que o meu pai tinha morrido. Toda a gente sabia. “Vou fazer-te esta homenagem”. Sete, 17, 27, 31. Perdi tudo.

 

Foi para se despedir dele.

Sim. O meu pai, quando morreu, tinha 75 anos; foi há 12 anos. Percebia, quando era tão generoso a dar-me dinheiro, que as coisas tinham corrido bem. Outras vezes, estava teso. Continuava a fazer consultório, tinha uma clínica enorme. Geralmente cravava o último doente para o pôr no casino. [pausa] Mas você só tem a família, o jogo, o Édipo!

 

Estou só a tentar compreendê-lo. Já vamos aos transplantes.

Eu não me queixo disto. Eu adorava jantar em casa dos meus amigos…

 

Adorava a normalidade?

Exacto. E os meus amigos adoravam o meu pai. Já viu o que é jantar fora com o meu pai e os meus amigos, o criado não vir e o meu pai pegar fogo à cortina? O meu pai não era pai. Os outros pais diziam: “Não fumes, não bebas”. O meu pai dizia: “Então, namoradas? Essa não presta. Não bebes um copo?”. É verdade que sempre fui um grande estudante.

 

Ele gostava disso?

Eu pensava que ele não ligava, mas quando fiz exame de anatomia, tive 18. Fazer Anatomia era tão formal que nesse dia fui ao barbeiro, e usei um fato com colete que a minha mãe mandou fazer num alfaiate do Conde Redondo. Havia uma balaustrada e o meu pai estava em cima, sem eu sonhar que o meu pai ia ver um exame meu. Deu-me cinco contos – “Vai festejar!”. E desapareceu. Penso que até estava comovido.

 

Comove-se?

Sim, qualquer coisa e fico logo com um nó na garganta. Tive algumas tragédias na vida, mas não lhe vou falar disso. Já tive ocasião de chorar muito.

 

Além do bridge e do Sporting, outra coisa o ligava ao seu pai: a Medicina. Decidiu ser médico por causa do seu pai?

O meu pai tinha um desprezo profundo pelos cirurgiões. Quando escolhi a especialidade, os bons alunos não escolhiam cirurgia. Sempre quis ser cirurgião. Acho que tem a ver com o [facto de ser] manual. Em criança, abria os ursos de peluche da minha irmã. O meu pai achava que não éramos médicos, que éramos magarefes.

 

O interesse pela cirurgia tem que ver com o extirpar a raiz do mal?

Sim, sim. Houve uma fase da minha vida em que estava dependente da cirurgia. Ao cabo de dez dias de férias tinha umas saudades de operar… uma coisa patológica.

 

É um compulsivo.

Sim, só que aí foi bom. Nunca experimentei cocaína, heroína, coisa nenhuma. Nunca passei de uns charros – em Paris, no Maio de 68. Mas nunca gostei.

 

Fez-se um cirurgião de sucesso. O seu pai assistiu a isso?

Assistiu. Esteve no meu último exame da carreira hospitalar. (Os meus exames sempre tiveram anfiteatros cheios). Um dos elementos do júri fez-me um elogio que o meu pai detestou. O Dr. Jorge Girão, que eu admirava muito. “Nunca conheci um cirurgião que tivesse a capacidade de se relacionar com os doentes da maneira brilhante com que você se relaciona – isto sem sacrificar os valores científicos”. À saída, o meu pai dizia: “Foi um elogio mixuruco!”. Eu achei que foi o maior elogio que me fizeram na vida profissional. Não estava em causa a capacidade técnica. Eu já tinha estado em Cambridge, já era um cirurgião destacado.

 

Porque é que esse elogio o comove tanto?

Estou sempre a atirar isto à cara aos meus colaboradores. Às vezes, numa visita, mais importante do que propor uma intervenção, está a festa na mão de uma senhora de idade. Um colega dizia-me: “Ó Eduardo, tu tocas muito nos doentes”. Sempre foi o meu estilo. Dou muitos beijos na testa das minhas doentes. Sai-me.

 

Com quem aprendeu essas coisas?

Por mim. E com o meu chefe, Câmara Pestana. Foi meu mestre na cirurgia. Ensinou-me que é proibido tratar um doente pelo número da cama. Nenhum dos meus colaboradores se atreve a dizer: “O doente da cama 15 tem febre”. O senhor Joaquim, que está na cama 15, tem febre. Doentinho? Não. Só se tiver seis ou sete anos. Ensinou-me a relação delicada e cuidadosa com os doentes. Nisso, não tenho rival. Não há-de ouvir-me um elogio técnico a mim próprio ou à minha equipa.

 

Porquê?

Tenho sete cirurgiões a trabalhar comigo a quem ensinei tudo o que é importante. Alguns já são melhores do que eu. Isto é que é um elogio técnico. Não há no mundo – não estou a dizer na Europa, estou a dizer: no mundo – nenhum serviço de transplantes e cirurgia do fígado que tenha os sete cirurgiões que eu tenho. Na China, mostrei os nossos números…

 

Foi à China receber um prémio pelo “extraordinário contributo” nesta área.

Eles já me conhecem. Se apresento 140 transplantes feitos por ano, nos últimos anos, sabem que é verdade. Quando começámos, diziam: “Lá está o bazófias do português”. Disseram: “Mas tens sete cirurgiões seniores?!”. Se em Portugal fôssemos maiores, estaria condenado a que alguns fossem saindo, a que fossem convidados para ir para outro sítio. Um, agora, vai sair. Percebo que tem que ter as suas asas.

 

Partilha o que sabe porque não teme a concorrência? Não teme que sejam melhores e que o suplantem?

Mas eu quero que eles me suplantem! Tenho jovens com 35, 37 anos, que já fizeram 400 cirurgias do fígado! Eu, com a idade deles, tinha feito 20, 25 e já era um expert. Já viu?, eu tenho ali a nata da cirurgia portuguesa para os próximos anos. Dá-me um orgulho brutal.

 

Como é que se transformou no cirurgião que é?

A mim, não me espantou. Sempre achei que naquilo em que me metesse havia de ser um dos melhores. Alguém que na escola primária já era dos melhores alunos, que fez o liceu e continuou a ser dos melhores, que jogou futebol e era dos melhores (fui convidado para jogar na Académica e no Oriental, profissional, mas o meu pai não me deixou); na faculdade, continuei a ser dos melhores; no internato de cirurgia, fui dos mais novos do país a fazer os concursos. E depois ia chegar a cirurgião e não era dos melhores?

 

Podia ser o melhor e não ser capaz de montar esta equipa que tem. Esta máquina.

Para se ser melhor, é preciso [praticar]. Quando trabalhei no Amadora-Sintra, o outro director de serviço tinha trabalhado com um grande cirurgião hepático. Nunca tinha feito – ele – uma cirurgia ao fígado, e tinha 50 e tal anos. Está tudo dito, não é? O que comecei por fazer foi… fazer, e quando fazia, ensinava, e quando ensinava, deixava as pessoas andar para a frente. Quando me fizeram aquele ataque miserável [na revista Visão], insinuando que eu não fazia as cirurgias e que depois as recebia… Apresentaram-me como um pária, como um chulo do trabalho dos meus colaboradores. Quando, na minha opinião, aquilo devia ser enaltecido.

 

“Aquilo” é dar-lhes a possibilidade de fazerem sozinhos. Mas não fez sempre isso.

Houve uma altura em que não deixava ninguém operar. Foi a fase da minha formação. Quando vim de Cambridge queria fazer tudo, sozinho. Ninguém sabia fazer, tinha de ser eu a ensinar. Mas depois, percebi que tinha de promover os melhores. Hoje, tenho os três melhores europeus a trabalhar comigo.

 

Foi para Cambridge em 1983. Foi lá, verdadeiramente, que aprendeu o que sabe?

Aprendi a fazer transplantes. O meu professor em Cambridge é um candidato ao prémio Nobel. É um cientista, também.

 

Cambridge reforçou a sua auto-estima?

Em Cambridge percebi que era muito melhor do que os gajos. Já era. Fui para lá com 35 anos. Eles – os gajos que me formaram – eram melhores do que eu no transplante – que eu não sabia o que era. Fora o transplante, eu era muito melhor. Porquê? Eu tinha números de cirurgia em que eles nem acreditavam. “Lá está o gabarola!”. Só mais tarde perceberam que era verdade. Tínhamos uma escola de cirurgia de urgência, única na Europa. Que destruíram. A Unidade de Urgência Cirúrgica de S. José, onde me formei. Chegávamos a fazer 20 a 23 operações por dia. Hoje, no meu serviço, fazem-se uma a duas por dia. 

 

Mas onde é que radica toda essa confiança?

A confiança vem de perceber que somos iguais aos outros, quer cá dentro, quer lá fora. Com trabalho, com estudo, com o prazer que eu tinha a aprender… O Dr. Câmara Pestana deu-me muitas oportunidades; uma vez veio à sala onde eu estava a fazer uma cirurgia complicada. “Precisas de mim?”. Como eu hoje faço com os meus. Ficou meia hora atrás de mim, a ver como eu fazia, e saiu com ar trombudo: “Já não precisas de mim!”. Ficou-me gravado. Claro que eu precisava dele! A estes jovens, às vezes apetece-me dizer: “Não estou cá a fazer nada!”. Estão na força da destreza física, do prazer de operar… 

 

Ainda tem prazer em operar?

Tenho menos. Tenho mais prazer, agora, em que me chamem por uma dificuldade, e eu resolver a dificuldade.

 

Ser o velho mestre.

Talvez. Às vezes acho que me chamam para me manter a auto-estima. Também já me chamaram em situações em que fui fundamental. Quando eu fiz o primeiro transplante, você não imagina a situação dramática em que eu estava!

 

Nunca tem medo de falhar?

Ah, imenso. Ainda agora, este jovem, testemunha de Jeová, a quem fizemos um transplante, e que não aceitou que fizéssemos transfusões, fez-nos [medo]. Não me pergunte o que faria se ele precisasse de sangue; acho que não lhe faria transfusão, porque aceitámos essa condição.

 

Como é que vive com os seus falhanços?

Pessimamente. Um doente morre-nos, não por um erro – o erro em Medicina tem muito que se lhe diga – mas por uma opção que tomámos, e que se revelou não ser a correcta, tenho meia dúzia desses casos na minha consciência.

 

Na consciência?

Sim. Que a opção foi errada. Na altura, com a convicção de que era a correcta. Mas que conduziu à morte do doente.

 

E depois, vai-se abaixo? Como é que é?

Vou-me abaixo. Quando comecei o programa [de transplante] com o Dr. Pena, correram-nos bem os três primeiros. No quarto, correu bem, mas o doente já estava em morte cerebral – não avaliámos bem. O quinto, correu bem, fomos jantar à Portugália, mas o doente morreu-nos dois dias depois. Eu não queria fazer mais. Queria desistir. O Dr. Pena aguentou aquilo, e fizemos 22 bem. Não quero imaginar o que teria sido se o sexto também tivesse sido uma tragédia.

 

Achou que não era bom?

Achei que não tínhamos condições estruturais. Quando vim de Cambridge, eu sabia que sabia fazer transplantes. 

 

Esta entrevista está a acontecer sobre a hora do jantar. A seguir vai fazer um programa de televisão. E às seis da manhã vai fazer um transplante. Tem a cabeça muito arrumada.

Pensa que tenho de me concentrar para ir dizer umas boutades sobre futebol? Nem me lembro que estou no programa! 

 

Não há nada que interfira na concentração de que precisa para operar?

Não. Não.

 

Uma crise em casa, nem isso?

Eu tive a prova de fogo: tive uma crise familiar, a mais grave que se pode ter na vida, e consegui continuar a trabalhar e a dirigir um serviço. Às vezes sabe Deus como? Sim. Se toda a gente percebeu que eu não estava a 100%? Toda a gente percebeu. Uma vez fui ter com o meu director do Amadora-Sintra e disse: “Vou parar, vou desistir da Medicina”. Dois ou três dias depois, disse: “Desculpe aquela fraqueza”. Claro que tudo influencia. Até o Sporting perder um jogo decisivo – o meu estado de espírito não é o mesmo. Se no dia a seguir à morte da minha mãe fui operar com o mesmo estado de espírito? Não fui. Há coisas em que ainda sou imprescindível. Por exemplo, uma re-intervenção em vias biliares.

 

Porquê o fígado?

O meu mestre era perito em vias biliares. Veio o fígado por acréscimo. Achei que precisava de aprender a fazer o transplante, e fui para Cambridge.

 

Em que condições foi?

Era um jovem cirurgião da clínica privada, florescente, a começar a operar muito, a ganhar muito dinheiro. Chegava ao fim do mês e tinha para charutos, para carro. Aos 35 anos, decidi que ia deixar aquilo tudo, e ia para um sítio onde ia ser tratado como um cão. Nos primeiros seis meses em Inglaterra, chegava a casa e dizia à Manuela [mulher]: “Vamos fazer as malas, não estou para aturar isto”. É-se tratado como um cirurgião de quinta. Eu tinha vendido o meu Alfa-Romeo (giríssimo), tinha deixado casa própria (um duplex), o consultório…

 

Esses brinquedos já não o entretinham. Precisava de se superar?

A razão é essa. Eu precisava de aprender. Tinha a convicção de que o transplante viria a ser uma rotina. E na altura, havia um centro na Europa e outro nos Estados Unidos, com resultados mixurucos.

 

Qual é o papel do dinheiro na sua vida?

Em Cambridge arruinei-me. Comi o volante, as jantes e tal. Tive muitos apoios, e esgotou-se o dinheiro que tinha. Não é impunemente que se está dois anos, apenas, com uma bolsa de 300 libras. Nessa altura, troquei. Hoje, se fôssemos fazer isto que fazemos na privada – era assim [estala o dedo], amanhã. Quando deixei a CUF Descobertas, abdiquei de muitos milhares de euros por mês.

 

O que resulta da reportagem da Visão é que estava deslumbrado com o dinheiro.

Que é que posso fazer? Aquilo fez-me chorar convulsivamente! Eu que tinha deixado de ganhar metade do que ganhava para ir para os hospitais [públicos], e apresentarem-me como um mercenário que só fazia isto por dinheiro… Quando comecei, cheguei a vir da Madeira, pagar o meu bilhete de avião e voltar. Os transplantes não eram pagos. Não fui eu que inventei o regime de pagamento dos transplantes. Apareceu quando o Governo da altura, há 15 anos, resolveu criar um regime de incentivos para que as pessoas fizessem transplantes, e não estava previsto que chegasse a este volume.  

 

Como é que tudo se processa?

Com o dinheiro que o Hospital me dá por transplante, que não chega a metade do que o Hospital recebe, eu pago a mais de 150 profissionais. Ninguém recebe uma hora extraordinária. Só ganhamos se fizermos, mas estamos sempre prontos. E se estivéssemos dois meses sem fazer, estava toda a gente de prevenção na mesma. Aquilo foi uma coisa deliberada, para me atacar.

 

Atacá-lo pessoalmente?

Sim. Aliás, a “cacha” foi oferecida a uma colega sua da SIC, que me ligou. “Vamos lixar o Barroso”. Sei exactamente quem vendeu aquilo ao jornalista [da Visão]. Quando ele me perguntou: “Não faz um transplante de rim há cinco anos?”. Eu, que fiz mais de 350 transplantes de rim, e que ensinei a fazer transplante de rim a imensa gente, caí na ingenuidade de dizer: “Não, talvez há dez”. Eu não percebi que ele ia pôr: “Não faz um transplante renal e recebe o dinheiro”. Não percebi que o que estava em questão era o dinheiro. Aquilo foi também porque eu estava na ASST [Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação], e era para atingir o Correia de Campos. Feriu-me muito. Espero não encontrar essa pessoa na rua…

 

É do estilo de dar bengaladas?

Sim, tenho uma no carro. Também por causa de um colega seu e de uma coisa que escrevi n’ A Bola. Tenho essas duas coisas para resolver. O Marcelo disse-me: “Não o processes”.

 

Continua próximo do Marcelo? Foi a única pessoa de quem não se importou de ser número dois.

É verdade. Espero que ele seja só candidato a presidente da República. Porque vou ter que apoiá-lo. Quando ele foi presidente do partido, eu ia votar pela primeira vez PSD. Chegou a sair n’ A Capital: “Sobrinho do clã Soares apoia Marcelo”.

 

A política, nunca o seduziu?

Não.

 

No PREC foi com o José Gameiro para Cuba, no Alentejo, trabalhar como médico.

Isso foi na infância. Criámos o serviço médico à periferia. Na altura, tudo era político. Foi uma fase muito generosa, ingénua. Eu era do MES, mas não me deixaram ser deputado. Fui para o MES porque me fui oferecer ao PS, com o Daniel Sampaio, e não nos aceitaram. Éramos uns perigosos… sociais-democratas! A política nunca foi o meu campeonato. É verdade que eu nunca fui daquela esquerda. A destruição da hierarquia da competência e do valor individual era para mim uma contradição inultrapassável. Achava que não somos todos iguais. Você tem um Figo, um Ronaldo, um Quaresma, e tem mais 700 jogadores; alguns, não prestam para nada. Aceitamos isto para os jogadores de futebol, mas na carreira médica achamos que todos podem fazer tudo e o doente que se lixe. Não é verdade! 

 

Como são as suas mãos?

Normalíssimas. Fui operado em 75. Cortei os tendões a jogar futebol no Alentejo. Achei que não ia ser cirurgião. Se não fosse um grande cirurgião, era aí um grande internista, um grande psiquiatra.

 

Um grande.

Claro, tinha de ser dos melhores. Sabe que a cirurgia não está aqui [nas mãos]. Está aqui [na cabeça].

 

 

Publicado originalmente no Público em 2009

   

 

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