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Eduardo Batarda (2001)

Eduardo Batarda nasceu em Coimbra em 1943. Estudou na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, depois de ter marcado passo três anos em Medicina. Era para ter sido um académico reputado. Acabou pintor de merda, diz ele. (Eu, por acaso, gosto muitíssimo, mas o facto, além de não interessar nada, não interessa nada ao visado). Mesmo assim, num tempo em que talvez não se sentisse pintor de merda, frequentou o Royal College of Arts em Londres, no virar dos anos 70. Foi nesse período que nasceu a sua única filha, Beatriz. Vive entre Lisboa e Porto. Na invicta, ou embicta, como preferirem, é, já agora, o maioral das Belas Artes – embora ele diga que não tem poder nenhum e que foi nomeado por vingança. Diz de si que é um manganão, o que significa que se enrodilha em meias verdades e meias mentiras. (Não julgo que saiba com exactidão onde começa uma e acaba outra. De resto, nunca se sabe).

A 111, sua galeria de sempre, exibiu há semanas uma montra dos trabalhos mais recentes chamada «Cataventos - Paisagens - Suburra». Para não fazer fraca figura, consultei enciclopédias ranhosas e amigos dedicados à cata do significado da coisa Suburra. Bebíamos um Porto a seguir ao almoço quando lhe confidenciei a ignorância. Subura era um bairro de putas em Roma. (Ah ah ah)

Era o primeiro dos nossos encontros. (Se exceptuarmos o primeiro primeiro, num dia de chuva, no inaugurar da exposição). O segundo correu mal porque o meu gravador foi acometido de uma síncope. E o terceiro é o que a seguir vão poder ler.

  

Gostava de começar pelas meias verdades e pelas meias mentiras.

Então está a falar-me das respostas do outro dia, que eram sobre histórias verdadeiras e a interpretação dessas histórias. Uma das quais não tinha nunca pensado que pudesse ser importante. E de repente apareceu-me como hipótese, para além da vergonha académica do filho que não tem boas notas – o que motivaria a expulsão de Coimbra – haver um motivo extra por parte dos meus pais: uma eventual fezada na minha orientação sexual como coisa imprópria da terra.

 

Acredite que ocorreu realmente em mim um processo de obnubilação e por isso não retenho...

Disse obnubilação?

 

Disse.

Ena.

 

Eu gosto do som da palavra, além do mais. É demasiado pomposa?

Na pintura dizemos obliteração.

 

Obliteração significa anular, impedir a possibilidade de ser novamente usado, não é?

Sim.

 

Mas obnubilação era mesmo o que queria dizer. Obnubilei as histórias que me contou da outra vez. Mas era relevante ou não falar dessa orientação sexual que os seus pais lhe imputavam?

Não totalmente, mas relevante porque estávamos a falar de um processo de formação: da passagem de uma adolescência para uma segunda adolescência, do liceu para a faculdade. De uma entrada muito novo na faculdade, na companhia de colegas mais velhos perante os quais eu estava calado. Da timidez que tinha. Sair à noite, não sair à noite, «O que é que o gajo anda a fazer à noite?»; andava sentado num café pelo preço de três cigarros e um café, a conversar ou a ouvir conversas. E metido em quase tudo o que havia de teatros e jornais académicos. Depois havia umas quantas particularidades pelo facto de ser Coimbra, pelo facto de serem os anos 60.

 

Pelo facto de os seus pais serem quem eram, cientistas?

Pelo facto de ter sido muito gordo até um ano antes. E era o miúdo novo demais para o sítio em que estava. Estava com 16 anos, a parecer 15 ou 14, na faculdade. Para certas pessoas lembrava algumas coisas... Ou então, outro raciocínio, «Rapazito, bonitinho, deixa cá ver o que anda a fazer...».

 

O que lhe queria perguntar era se isso o apoquentava.

Na altura não percebia muito. Era tão estúpido que vi o tal senhor várias vezes, a horas e desoras...

 

O tal que o seguia.

Hum, enfim encarregado de «Se pudesse, se se cruzasse comigo».

 

É mesmo verdade que os seus pais contrataram uma pessoa para conferir o seu comportamento?

Não contrataram. Havia um funcionário que tinha alguns trajectos comuns. Seria normal pedir-lhe, seria normal vê-lo. Talvez não fosse normal vê-lo tanto... Este facto foi confirmado pelos meus pais anos depois. Hoje negariam, ou a minha mãe que está viva, a pés juntos. Retrospectivamente as pessoas nunca fazem mal. É história que vem hoje nos jornais: as famílias não são uma coisa boa, e toda a gente sabe isso. Não fazem coisas boas o tempo todo, e quando fazem, fazem o que acham ser o bem. No caso, os estudos eram o bem. Ou seja, as classificações, as notas, os tempos de estudo antes de tudo o resto. Eu lia um bocado às escondidas...

 

O quê?

Livres de poches. Durante uns tempos o meu pai cometeu o erro de abrir uma conta na melhor livraria em Coimbra. Quando descobriu a conta acabou por fechar aquilo, mas abasteci-me de tudo. Lia romances, teatro, poesia. Lia em francês, lia em inglês.

 

Não é imediato que pessoas como os seus pais não o introduzissem nesse tipo de leituras, e que elas fossem feitas mais ou menos à socapa.

É evidente que havia muitos livros em casa. O que não me era dado oficialmente era tempo para os ler. Donde, batota a estudar o tempo todo! Debaixo do mata-borrão, das gavetas. É só simbólico que o primeiro livro tenha sido dado por uma amiga da mãe quando fiz 12 anos: «L’espoir», do Malraux. Tanto quanto acontece aos miúdos, mudei radicalmente: se tinha amizades semi-impostas pelas turmas de liceu, gente tradicionalista e militante católica, aí foi, que me lembre, o primeiro distanciamento. Eram preferências que não podia discutir, eram preferências que o outro lado não tinha.

 

Frequentou sempre escolas oficiais?

Sim, tirando o jardim-escola João de Deus – aprendi a ler relativamente cedo. Fui ao Instituto Britânico, mas isso eram coisas laterais. Tive durante um ano, quando estava ainda matriculado em medicina, explicações com um senhor padre que me habilitou em latim e grego, quando estava a pensar mudar para História – bem, estudava História e Literatura por conta própria. A ruptura aconteceu em 63, e fui fazer, sem saber ler nem escrever, o exame de admissão às Belas Artes de Lisboa.

 

Não consigo situar as Belas Artes no rapaz dedicado ao estudo, que é suposto ter uma carreira académica brilhante.

As expectativas que a minha família tinha para mim eram as de uma carreira académica. O brilhante..., talvez não passasse por essas expectativas. Na flor da idade, eram pessoas muito conscientes a sintomas e sinais de cociente de inteligência; por isso me faziam estudar tanto. Ou seja, os meus pais tiveram acesso aos testes psicotécnicos que fiz pelos 14 anos, e que recomendavam fosse o que fosse de cursos artísticos, fosse o que fosse de cursos de letras.

 

Cursos artísticos?

Suponho que por ter citado o Gershwin como compositor favorito!, por não me lembrar de mais nenhuma e ter achado Beethoven banal de mais.

 

Armou-se ao pingarelho e a coisa resultou.

Possivelmente. E mostrei uma inadaptação mecânica, que ainda mantenho, e outras formas de estupidez. Os meus pais já tinham notado que só o tempo e a repetição me podiam ajudar em certas coisas.

 

De que gostava verdadeiramente?

De História. Ler livros de História e de História de Arte. Tínhamos o manual do Mattoso, e o livro adoptado em França, e o livro de inglês, livros únicos que partilhávamos como livros únicos de outros países. Tudo isto era ilustrado a granel! Sobretudo os franceses eram ilustrados, a preto e branco, ‘tá claro, em nome do episódio da personagem histórica, com reproduções de pintura. Tornou-se indissociado do gostar de ler História, e mesmo tramóias – quem herdou não sei quê, quem casou com. Depois havia os livros de arte e sobre museus que havia em casa. E desde o meu ano de caloiro alguém me ensinou que a biblioteca da Universidade de Coimbra e mesmo a da Faculdade de Letras tinham a sua quota de livros de arte. As primeiras reproduções do Jackson Pollock que vi, vi-as na biblioteca da Universidade de Coimbra em 1960, tirando as fotografias da Life que tinha comprado num apeadeiro entre Figueira da Foz e Coimbra. Não me lembro se foi em 57/58.

 

Lembra-se de ter gostado do Pollock?

As fotografias eram esplêndidas. A revista era maior que eu! Em 57/58 tinha 13 ou 14 anos, «Olha o que agora se faz». O Pollock não me impressionou senão como memória. Também na biblioteca em Coimbra passava os dias a olhar para os bonecos – não sei porquê havia imensos! – do George Grosz, alemão. Foi certamente importante, citei-o muitas vezes, e batia certinho com a nossa imagem de rapazinhos do contra, politizados, modernos, potencialmente dadaístas, anti-burgueses. Uma imagerie feita à medida.

 

Como se dá a revolução quando troca a Medicina pelas Belas Artes?

Não há revolução.

 

Fez uma reorientação. Porque não foi logo para aquilo que lhe interessava?

Primeiro não podia. Belas Artes era uma coisa fora de questão quando se me pôs a hipótese de escolher. Tive que ir para Medicina, e lá continuei até os meus pais se convencerem de que não fazia nem mais uma cadeira.

 

Andou a marcar passo três anos.

Andei um ano no qual cumpri o contrato, e fiz três cadeiras. O meu pai tinha a esperança que apanhasse o gosto e o entusiasmo. Mas no segundo ano nem apareci e no terceiro muito menos.

 

O que é que fazia nesses anos?

Ah, parece o meu pai e a minha mãe!

 

Eu tenho realmente curiosidade. Bom, imagino que os seus pais também tivessem.

De manhã dormia. Às onze dirigia-me ao bar da faculdade onde encontrava pessoas. Depois de trocar impressões sobre qualquer coisa, almoçava em casa e saía a seguir. Ia para o Café Mandarim. A partir daí, actividades associativas várias. Ou Tipografia Atlântida, onde havia o jornal de composição manual «Via Latina» – o encaixar, o fazer caber e coisas de última hora pressupunham quase dois full times a ver se a coisa saía a tempo. Na redacção, discutir a cor do título e do cabeçalho, ou as cavaqueiras normais de estudantada, «Vem aí a polícia», «Há crise não sei quê». Ou os ensaios dos grupos de teatro – estava em dois.

 

Já era magro, nessa altura?

Já. Aos 15 tinha dado o salto e feito uma dieta brutal que me deu cabo de algumas entranhas, e deu-me vaidade, acne, as coisas do costume. Mas estava sempre ocupado. A outra coisa, quando estava em casa, lia. Sobretudo ficção, poesia, teatro. Nunca tive uma cabeça de grande densidade para a filosofia, lia poucos textos da teoria marxista, ouvia a Rádio Moscovo de vez em quando e todo o tipo de emissoras estrangeiras até as quatro, cinco da manhã se não tivesse nada que fazer fora de casa, (Rádio Praga ou Voz da América, essa coisa toda). Houve um amigo que foi muito importante porque emprestava livros que obtinha travando relações epistolares com secretários de casa de edição francesas.

 

Coisas de que tipo?

Coisas relativamente desconhecidas na altura, como os romances policiais do Boris Vian, ou os primeiros livros do Boris Vian, tout court, que conhecia, particularmente, por causa das críticas no Jazz Hot (jazz magazine).

 

E as raparigas?

Raparigas havia pouquíssimas. Os liceus não eram mistos. As mesas de café eram mistas mas as relações eram extremamente controladas. As mulheres que tinham opções de Esquerda normalmente provinham de famílias de Esquerda, a seguir vinham as que tinham namorados de Esquerda, e havia poucas histórias. Quando histórias havia, aconteciam com tipos de Direita que tinham carros de sport _ dificilmente perdoado! Era preciso um certo grau de «Deixar passar o tempo» para os namorados terem acesso a certas coisas que alguns estranhos conseguiam rapidamente.

 

«Ter acesso a certas coisas» é uma muita boa expressão!

Julgo que era assim que se dizia! As relações sexuais completas, (como também se dizia), não eram frequentes e faziam-se em segredo. E quando não, faziam-se sob a forma de marmelada em parques públicos, sob assistência de uma inúmera quantidade de mirones, espreitas e polícias, que eram uma instituição.

 

Até que ponto era importante para si, esta coisa das raparigas e da sexualidade?

Era tão importante que ocupava o tempo todo. A sexualidade e as raparigas e as mulheres eram o assunto principal de toda a literatura, para começo de vida. Depois, estava também nos estatutos que era preciso ler três ensaios sobre..., como é que era? Teoria da Sexualidade? Estávamos em 60, o tal grupo que gostava de jazz admitia que o Freud era inevitável. Na literatura, era o que era, e entre os autores havia alguns maníacos, o Roger Vailland, e outros assim. E alguns de nós arrogavam-se o direito de usar slogans (cómicos!): «O Marxismo-Leninismo como método da actuação revolucionária e a Libertinagem consciente como meio de desagregação da sociedade burguesa!» Mas pronto, as meninas eram uma coisa inatingível, essencialmente uma coisa dos romances do Júlio Verne, não direi da Gata Borralheira porque era ligeiramente mais evoluído.

 

Presumo que as coisas se tenham alterado em Lisboa.

Em Lisboa era preciso que as colegas fossem do Júlio Verne, ou não. Se houve algum assédio, era tão discreto que não dei por ele; ou se dei, não queria, na base do «Guardar-me para coisinha melhor». Fazia-me de esquisito. Além disso, mantinha a tal moral e comportamento que tinha herdado da educação burguesa, que serve para abrir as portas às pessoas, homens e mulheres; e uns zuns-zuns que a igreja católica me tinha dado nos quais nunca tinha sido integrada a superioridade do macho. Todas essas racionalizações foram mais importantes que a força da minha líbido ou a minha confiança _ não se esqueça que era um ex-gordo.

 

Já tinham passado uns anos.

Mesmo assim.


Quando é que passou à confiança?

Nunca.

 

Guardemos o capítulo da auto-estima para mais tarde. Estamos em Lisboa nas Belas Artes. Quando é que se começou a atentar em si, a criar expectativas em relação a si?

Havia uma situação muito caracterizada nas Belas Artes: a maneira como o sistema académico, medíocre e desacreditado, correspondia ao sistema político, igualmente caduco. A escola não era problemática, era preciso ser feita, como as pessoas queriam, com ligeiras subversões das quais nem sempre o professor dava conta. Desde muito cedo se punha o problema: Quem quer fazer coisas, as suas coisas, tem de ir para outro lado. O que só era feito depois de se atingir um mínimo de autonomia.

 

Isso aconteceu pelo meio do curso?

No segundo ano eu já dizia, «Sou capaz de fazer qualquer coisa». A meio do primeiro ano alguém me deu generosamente um lugar num atelier. Dois ou três anos depois o atelier foi abandonado, não pela mesma pessoa, que já tinha saído, mas pelos herdeiros, eu e um grupo de colegas, porque a renda tinha subido para aí para mil setecentos e cinquenta escudos!, e não podíamos pagar. Vizinhos de porta no atelier, o Eduardo Nery, a Ana Vieira, o Martim Avillez.

 

O Martim Avillez é o seu melhor amigo, não é?

É a pessoa de quem sou mais amigo, embora à distância, (vive em Nova Iorque). Para o fim do segundo ano, e depois de ver que a vida no atelier não era muito simples, aconteceu uma descoberta sensacional: a tinta acrílica que tinha acabado de chegar à Casa Ferreira e da qual fui o primeiro freguês. Os acrílicos não cheiravam e secavam num instante. Eu morava num quarto andar no Largo do Carmo, tinha esta distância [mínima] para pintar, mas podia pintar em casa. A partir daí descurei muito o atelier. Escola, Leitaria Garrett, quarto alugado no Carmo, atelier em Campo de Ourique, era complicado.

 

A descoberta do acrílico foi fundamental para si.

Foi. Permitiu-me inventar muito mais depressa. É óbvio que não vou dizer que inventei uma coisa, ou que essa coisa era a minha coisa. Era certamente com muitos bocadinhos disto ou daquilo. É desse tempo o «Laboratório Encarnado», de 65, e também este, e este. [Mostra-os no catálogo da retrospectiva do CAM] Tudo isto pintado no Largo do Carmo, corresponde a menos de dois anos depois de estar em Lisboa. Escolarmente já era um aluno razoável. Eu tinha assim, umas leituras, e isso finalmente começava a render. Nem toda a gente na escola tinha lido, lido, lido. Descobri então que, comparando com um estudante de liceu em França, tinha lido pouco, com um menino de uma public school inglesa, de clássicos, tinha muito pouco; mas com o que havia para comparar, era como se fosse um homem culto.

 

Havia por isso uma expectativa à sua volta?

Não. Com um pincel na mão era pior que os outros. As pessoas da António Arroio sabiam trabalhar, quem vinha do liceu mal sabia pegar num pincel. Diria que precisei de um ano para me pôr manualmente a fazer as habilidades que os outros sabiam fazer. Era muito estúpido mecanicamente.

 

Do preconceito que eu trazia há duas semanas, do rapaz de boas famílias, erudito, talentosíssimo, cheio de massa...

Repare que nem sou erudito nem cheio de massa. Pelo contrário.

 

Era o preconceito que eu trazia e que foi desbastando.

Os meus pais eram universitários, viviam dos seus ordenados. Isso explica a fezada quase absoluta no currículo escolar como maneira de estar na vida, e, mais tarde, a função pública como única forma de existência. Em termos de imagem social, se tivesse de ter alguma coisa, em miúdo tinha até uma espécie de vergonha.

 

Vergonha?

Sim, sim. Basta ser filho de um lente de Botânica para comparativamente com um lente de Medicina ou Direito ser socialmente inferior, e financeiramente inferior.

 

Não sendo elegante falar de dinheiro, não me parece que seja um elemento despiciendo na sua vida.

Era determinante na altura. Sempre fui um teso. Vivia com uma mesada que espatifava ao cabo de dez dias, depois tinha de recorrer aos amigos. O Manuel Costa Cabral e a Graça, jovem casal, fui lá muitas vezes comer-lhes um jantar, na base do «Já agora mais um».

 

Dizia que não era despiciendo porque, mais tarde, em 75/76 vai dar aulas para o Porto invocando necessidades financeiras. Ainda hoje mantém esta dupla vida, este duplo estatuto: Lisboa/Porto, Pintor/Funcionário Público. Até onde o dinheiro é fundamental?

O dinheiro é fundamental na vida de todas as pessoas. A falta de dinheiro mais fundamental é. A sua pergunta deu é um grande salto no tempo.

 

Podemos fazer inflexões.

A ida para o Porto implicou uma queda para dentro de um poço, sem fundo. Quanto mais caio, mais hei-de cair, e mais difícil é voltar cá para cima. Se está a querer dizer que eu podia ter uma espécie de sucesso financeiro ou comercial...

 

Também está implícito.

A pergunta deve ser feita ao meu galerista. O meu prognóstico e a minha análise são pessimistas. Vendo de vez em quando alguma coisa porque apareço muito pouco. Calculo que, very much for the very wrong reasons, haja um público meu que é público meu e um público da galeria que é também meu. Noutra galeria não teria esse público. [pausa] É a primeira vez que respondo a perguntas sobre dinheiro.

 

Prefere não o fazer?

Quando um jornalista nos entrevista, normalmente é a primeira coisa de que fala. O que quer dizer que não sabe de arte, não sabe de outro assunto, e a primeira pergunta, desde os anos 70, é «Mas isso dá?, Quanto é que?, E porque é que dá aulas?». Sempre visto por este aspecto. O facto de ter vindo depois de não sei quantas perguntas e depois da história da minha infância remediada, faz que mereça ser respondida.

 

Obrigada.

Merece ser respondida dizendo também que há uma coisa, problemática, que devia solucionar: Todos os dias, há muitos anos, eu digo «Devia demitir-me». E todos os dias, há muitos anos, eu digo «Se calhar ainda vou servir para alguma coisa». Suponho que toda a gente tem direito, pelo menos, a esta ilusão. Fartei-me de ver um sítio onde não só ninguém fez nada como ninguém quis fazer, como houve gente que fizesse premeditadamente para desfazer. No Porto sou muito desprezado, como pintor e como artista. Estou num cargo para que me elegeram por vingança, porque conjunturalmente sou o mais graduado, «Sofre tu, apanha tu no focinho com o desprestígio de seres o velho das Belas Artes, dá tua a cara por esta porcaria». No entanto, e desculpe se são todas as frases feitas, mantenho a ilusão de que posso ajudar a fazer qualquer coisa, a ilusão de que posso ajudar meia dúzia de pessoas mais novas a não perder já as ilusões. As coisas fazem-se mesmo que sejam feitas devagar, fazem-se insistindo.

 

Quando é que trabalha para si?

Cada vez menos, desde que me elegeram para a tal coisa, há cerca de um ano [Presidente do Conselho Científico].

 

Referia-me ao tempo para pintar.

Sempre fui muito preguiçoso. Sempre tive aquelas coisas que os artistas contemporâneos dizem que os pintores, enquanto excluídos da arte contemporânea, têm: crises. Os artistas contemporâneos não têm crises, têm um projecto de carreira: a seguir a isto faz-se isto, e depois faz-se aquilo. O meu planeamento de carreira é caótico, é muito influenciado por três coisas: alcoolismo, boémia, timidez.

 

Alcoolismo?

Não sou crónico. Mas o suficiente para estar preocupado com o facto de só poder ir ao médico daqui a uns 15 dias e de ter provavelmente um caso de fígado que me põe fora do combate para mais pinturas uns dois ou três anos _ se for cirrose.

 

O que me está a dizer é que o problema com o álcool é sério e o faz pensar em cirrose?

Sim. Sempre fui muito excessivo. Ou não bebo de todo ou bebo demais. O meu padrão de consumo vê-se pela média e conta-se no fígado. Mas a falta de confiança, a falta de estímulo, a falta de popularidade, a falta de compreensão são as coisas de que todos os artistas frustrados como eu se queixam.

 

A sua atitude é a de uma pessoa particularmente ofendida.

Não é ofendida. Sei que sou frustrado, pronto.

 

Não se sente suficientemente reconhecido?

Sou um artista de merda num país de merda. Qualquer artista português deve começar assim para começo de vida. Depois, querer ser o melhor da minha rua não posso, aliás nem sou, e muito longe de ser considerado como tal. Sou mal visto, e aparecer uma nota sobre uma exposição minha é um acto de simpatia, de caridade.

 

Está a fazer género?

Não.

 

Há dois anos, por exemplo, teve uma exposição retrospectiva no CAM, teceram-lhe rasgados elogios.

Não é verdade.

 

O texto do Alexandre Melo...

Mas é um texto de catálogo, ao menos que dissesse bem de mim! Que é que queria que o homem dissesse?

 

De quem é que gostava de ter o reconhecimento?

Os artistas em geral querem ter reconhecimento universal. As pessoas querem tudo e não se contentam com menos do que tudo. As pessoas querem tudo e não têm nada. A mediania não faz parte de uma coisa desejável para os artistas. Quando não se pode ter tudo, as pessoas estão frustradas ou muito frustradas. Ter-me metido no tremendo buraco de carreira, na coisa desprestigiante que consome muito..., as pessoas no princípio riam-se muito, achavam que era uma graça, «Ah foste para o Porto, eh eh»; depois, o «Coitadinho»; depois, o «Velho de merda». Os jovens querem tudo, fama, fortuna, querem isso depressa. Em Portugal não o vão ter. Haverá menos do que um por geração. Temos um ou dois artistas razoavelmente recebidos lá fora.

 

O Julião Sarmento, que vive cá, tem uma carreira internacional bem sucedida.

O Julião teve uma grande gestão de carreira e é um bom artista. Merece absolutamente. Não só merece como artista, mas merece porque soube ser um artista. Soube começar por dizer que não a isto, ou, como se costuma dizer, a esta merda. E o mínimo que se lhe pode fazer é tirar o chapéu. Uma pessoa rodeada de invejas, odiado por toda a parte. Admiro-o não só pelo trabalho como pela boa gestão. Que é aquilo que aprendi a não ser. Eu. treinei-me a mim próprio para encarar a falência, a despromoção, a decadência..

 

Refere-se a si insistentemente nesses termos, «A carreira que não tive», «A marcha retrógrada».

A carreira artística que podia ter tido e não tive. Comparada com quê? Com aquela que todo o artista deseja. Não vou dizer que o meu trabalho mereceria melhor. O meu trabalho merece o que tem, merece o que as pessoas dizem. Ter lido mais livros do que a média dos meus colegas de profissão, não faz de qualquer risco que eu faça uma coisa melhor. É uma ilusão que vem do Alberti – mas quem é o Alberti? – que dizia que a boa qualidade do intelecto se reflectiria no. Está claro que desde o Alberti mudaram umas quantas coisas.

 

Mudaram?

A diferença fundamental entre a minha atitude e a dos meus contemporâneos um bocado mais velhos da Pop, é que eu entrava como um serigaito, pretensioso, vazio, que falava não sei quantas línguas, que era consciente de ter lido isto e aquilo, e que fazia arte como um acto de cultura. Para todos os efeitos, eu era mais um entre muitos europeus que faziam esta espécie de Pop Europeia – porque era muito engraçado alguém culto, entre aspas, trabalhar com imagens de retretes públicas, ou grafitis, coisas do mais baixo e do mais banal. Metia alusões às artes de massas e às coisas de gente rasca, uma fina graça, numa forma que acreditava ser culta e erudita, multiplicando alusões, esperando que viesse outro de fina graça ver as piscadelas de olho todas. Pronto, desde o princípio talvez tenha tentado coisas a armar-me exageradamente em esperto, em espertinho, em espertalhaço.

 

Qual foi o efeito que Londres provocou nesse menino espertinho?

Foi fazer isso mais ainda.

 

Poderia, ao contrário, tê-lo diluído na multidão.

Aumentou a carga. Se as coisas eram criticadas por serem literárias e ilustrativas, aumentar as alusões a linguagens de ilustração e as citações literárias. Tive de estudar mais para aguentar este nível. Se os colegas não percebiam boi de literatura, os professores percebiam.

 

Em Londres vivia com a sua mulher e filha. Ocorre-me que em nenhum dos nossos encontros o ouvi falar uma vez de afectos e do peso que os afectos têm na sua vida.

Decidimos, se calhar por minha causa, ir para lá. A decisão era complicada, e a razão última era o facto de que fui chamado para a tropa, (fiz mais de dois anos e meio de tropa), e um ano e meio depois, já casado, descobri que ia ser chamado segunda vez para capitão. Como é que é? Tenho um curso, tenho boas críticas, tenho todas as condições para me candidatar a um sítio com um prestígio do caraças.

 

Na altura ainda acreditava na tal carreira.

Não, na altura acreditava que me podia pirar daqui para fora! Mais tropa, não. Acreditava que podia ficar fora de Portugal e que três anos em Londres num sítio que tinha o seu prestígio – o David Hockney tinha andado no Royal College... Lá fui eu. Foi muito difícil, 900 candidatos para 30 lugares, mas fui aceite. A bolsa da Gulbenkian lá se arranjou.

 

Quanto aos afectos.

Afectos. Não discuto o meu cometimento amoroso.

 

Não estava a pedir-lhe que falasse das relações pessoais ou amorosas. Estava a falar da ausência da palavra afecto em todo o seu discurso.

Ah, também não me tinha perguntado por isso, nem as entrevistas aos pintores são sobre isso!

 

É um homem infeliz, não é?

Feliz?

 

Infeliz.

Não faço a mais pequena ideia. Quando se vai parar a um buraco, como descrevi, que não nos dá nenhuma das compensações com que os outros se satisfazem _ prestígio, dinheiro, relações _ e quando essa coisa está de tal maneira metida naquilo que poderia ter sido a carreira...

 

No meio disso tudo pintar faz-lhe bem?

Faz-se em cada vez menos tempo. O que fica é uma certa coisa suicidária. Eu sei que alguns quadros se vendem, mas sei também que por cada exposição em que apareço menos pessoas dizem que isto presta para alguma coisa. Quanto mais o tempo passa, sou o velho pintor da merda – isto é líquido.

 

É assim que se sente?

Não necessariamente.

 

E talento?

Fora de questão, não há talento – será possivelmente a posição dos meus pais. O meu pai era um cientista brilhante, não sei que responderia a isso: talento para ser investigador?

 

É o que pensa?

Talento era uma coisa na qual se acreditava quando cheguei às Belas Artes. Os talentos, nesses termos, são uma expressão caída em desuso, socialmente pouco estimada, e o talento para planear, para saber o que fazer a seguir, são, desculpe se me repito, o talento actual. Talento, hoje como ontem, é uma combinação justa e razoável e corajosa de inteligência, de informação utilizável, de oportunidade. O talento no sentido do risco fácil foi uma deformação episódica de uma tradição em que o talento sempre foi mais do que isso. O talento é a tal coisa do Alberti: saber usar uma cabeça que seja boa, uma cabeça bem formada: educação, cultura, e ser capaz de transpor isso. O que faz a diferença entre os medianos talentos e os talentos verdadeiros não é necessariamente o melhor planeamento ou o melhor agente, mas uma maior dose de coragem.

 

Gostaria de retomar o primeiro fio da entrevista, o das meias verdades e mentiras. A parte de já não se saber muito bem o que é a ficção e o que é a realidade.

Em quê?, na pintura que faço?

 

Também.

A pintura é a realidade. Há a realidade da pintura e há a realidade possível das interpretações da pintura. Verdades ou meias verdades na pintura; eu fui talvez criado demais com literatura desse tipo. Pós-adolescente, mesmo antes de ler o Proust, o que estava em moda era o Lawrence Durrell, muito sofisticado por ter vários níveis de entendimento: a mesma coisa não ser a mesma coisa. Como se isso fosse vanguarda!

 

E as outras meias verdades.

As meias verdades, quando interpreto o que foi a minha vida ou a raio da carreira, são necessariamente meias verdades. Porque são fruto de confusões. É uma situação de sobreposição, sem solução. É evidente que aí entram uma série de noções relativas. Um certo primeiro-ministro, em 85, entrevistado na televisão sobre a crise em que estamos permanentemente, disse: «Minha senhora, mesmo assim não estamos na Etiópia». Com esse tipo de argumento, não estou afogado no poço, mas há melhores vidas e melhores carreiras.

 

O que podia ter sido diferente?

É impossível dizer agora. Quanto ao sair em andamento do comboio da escola onde agora estou, entre outras coisas, é capaz de ser por machismo e vã glória que não o faço, «Deixa cá ver se ajudo». Quanto ao resto, o cálculo sórdido do dinheiro, não está nada, mas mesmo nada garantido. Ao contrário do que dizem as pessoas que dizem mal do meu trabalho, e são muitas, só vendo esporadicamente, a pouca gente, e sendo as minhas coisas relativamente raras e de um velho, também não podem ser vendidas ao desbarato. Portanto, nem toda a gente lhes pode pegar.

 

O que é que gostaria de poder comprar?

Gostaria de coleccionar desenhos, de preferência do século XVI, e XVII. Qual seria a medida da minha desmesura? Imprevisível. Para comprar um desenho antigo, decentezinho mas baratinho, precisava de vender quatro quadros grandes. Se eu vendesse regularmente, e pudesse medi-los em meses de trabalho... O pior é que um quadro tanto pode demorar quinze dias, se tiver um acesso de grande sorte, como três meses, se contarmos as interrupções com o Porto e o resto. E há a preguiça. Eu preciso de um certo ritmo que não é lento, mas que implica olhar para as coisas. Idealmente as tais interrupções deviam ser evitadas. Devia haver um período de seis horas diárias, no absoluto total, para que, em paz e sossego, duas horas dessas seis fossem para olhar.

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 2001

 

 

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