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Eduardo Paz Ferreira (2013)

“A Austeridade Cura? A Austeridade Mata?” O lançamento do livro que ausculta dezenas de pessoas sobre o tema coincide com uma conferência de Mark Blyth, na Universidade de Lisboa. Sem que seja explicitado desta maneira, o livro e a vinda do economista (que considera a austeridade uma ideia perigosa) são a forma de Eduardo Paz Ferreira, professor no Instituto de Direito Económico, Financeiro e Fiscal, provocar agitação. Fazer pensar. Provocar. Corroer a apatia.

Esta é também a interrogação dominante na entrevista. Nela se fala das palavras que deixaram de se usar, nas pessoas de quem se voltou a falar. A dada altura, o catedrático da Faculdade de Direito traz uma canção de Sérgio Godinho. Só há liberdade a sério quando houver... a paz, o pão? Não, não é dessa canção que ele fala. Mas podia ser.   

 

Comecemos por uma palavra que se usa pouco por estes dias (e mais à frente falaremos das palavras que apareceram e desapareceram do glossário colectivo): “desejo”. Existe espaço para ela num país deprimido como o nosso?

No estrangeiro, quando se fala em Portugal, fora dos mercados financeiros, há desejo. Se eu fosse estrangeiro desejava imenso vir a Portugal. Quem vive em Portugal tem visto a sua vida ficar de tal forma amargurada, apertada, assustada, que desapareceu qualquer espaço para o desejo. Estamos prisioneiros. O desejo maior que conseguimos ter é o de vermo-nos livres da prisão. Não é o desejo de que fala.

 

A ausência de desejo tem que ver com a ausência de futuro? Estou a pensar no slogan do movimento Que se Lixe a Troika “Queremos a nossa vida de volta”. Quando se diz isto está a dizer-se: queremos ter um horizonte de futuro. As duas coisas estão ligadas?

Seguramente. Todos sentimos que nos foi roubado esse futuro, que esse futuro está a ser roubado aos nossos filhos e aos nossos pais. Muitas vezes penso numa velha música do Sérgio Godinho. “Que força é essa, amigo, que só te manda obedecer, que torna os teus dias azedos...”. Estamos nesta situação em que as pessoas não reagem e se sentem esmagadas por qualquer coisa que as ultrapassa. Foi vendido o discurso da inevitabilidade [destas medidas] e muitas pessoas sentiram que não havia nada a fazer, que não havia alternativas políticas credíveis, e daí este desgosto em que vivemos.

 

Sublinho um aspecto: as pessoas sentem-se esmagadas mas não têm ânimo ou força para incendiar o seu destino e operar uma mudança. Como se estivessem sob o jugo da apatia.

É. Os executores das políticas de austeridade criaram uma situação de vulnerabilidade total. As pessoas deixaram de sentir que têm coisas garantidas. Sentem que podem estar no desemprego amanhã, na miséria amanhã. Que estão à mercê de tudo e que nada os defende. Isto cria uma situação em que as pessoas só tentam salvar-se individualmente, só tentam descobrir como aguentar, como sobreviver. Perderam a noção da acção colectiva.

 

Como é que perderam essa noção?

Há uma decepção com a política, que é grande. Não percebo bem quando é que isto começou. Acho que a democracia precisa absolutamente dos partidos, não existe sem os partidos, mas são os partidos, também, que estão a afastar as pessoas da democracia com todos os seus vícios. Os movimentos alternativos aos partidos (por exemplo o Que se Lixe a Troika) têm tido um efeito curioso. As pessoas descem à rua, centenas de milhares, com um ar muito triste, terminam a sessão, cantam a Grândola, o hino nacional e vão para casa pacatas. Fizeram uma espécie de exorcismo. Dura uns meses. Ao fim de uns meses farão outra.

Se eu estivesse nesses movimentos, não cantaria a Grândola e o hino nacional. Se eu fosse dessa linha fazia qualquer coisa de espectacular.

 

O quê?

Sei lá. Por exemplo, ocupar o Ministério das Finanças. Daria a ideia de uma acção efectiva. [A entrevista é anterior às manifestações em vários ministérios esta semana] Outro dos problemas destes movimentos é que não têm líderes visíveis. Não há interlocutores que se apresentem perante o Governo a capitalizar, a dizer: “Tenho 500 mil pessoas na rua. Negoceie comigo”. Porque é que não usam esta força para o day after?

 

Qual é a sua opinião?

Falei com alguns. Têm a noção de que isso iria dividir as pessoas. Esta passividade que há nestas manifestações de protesto é talvez o preço para elas se fazerem. Resta saber até quando. Porque a sensação que temos é a de viver num barril de pólvora.

As palavras do Dr. Mário Soares [na Aula Magna] foram muito criticadas, mas o que ele diz corresponde a uma sensação que perpassa em todos nós – que isto pode rebentar. Voltando ao Sérgio Godinho: que força é essa que te faz obedecer – até ao dia em que se deixa de obedecer. Este Governo tem conseguido ter toda a gente contra ele. Agora até os polícias. Os magistrados, os professores, os estudantes, os trabalhadores em geral, os reformados.

 

Quem é que apoia o Governo?

Só aqueles que de alguma forma beneficiam do aparelho partidário, que conseguiram lugar graças a isso. Ou, é preciso dizê-lo, as pessoas muito ricas que têm vindo a aumentar a sua fortuna nestes anos de crise. Portanto é um governo isolado.

 

Voltemos à ideia de que vivemos num barril de pólvora. Pode rebentar por onde?

Não sei. Mas algum dia vai acontecer. É impossível não acontecer. Os últimos meses foram, apesar de tudo, um pouco melhores para a economia portuguesa. Nas ruas parecia que tinha voltado uma certa vida. Atribuo grande mérito disso ao Tribunal Constitucional, que é culpado pelo Governo de tudo, mas que foi o travão de algumas medidas de austeridade, e que, por isso, criou alguma folga. Com o novo orçamento para 2014, estou convencido de que o presidente da República não o mandará para apreciação...

 

Apesar de ter mandado os anteriores? E apesar de ter mandado na semana passada para apreciação o diploma das pensões?

Parece ser o único tema que o comove, o das pensões.

 

Está a ser irónico.

A interpretação é sua. Mas é verdade que tem manifestado sensibilidade para isso e que contrasta com a insensibilidade que tem demonstrado para os problemas sociais. Não é antipático que pelo menos se preocupe com os problemas dos reformados. Li no Negócios que 127 mil reformados foram penhorados; e não foram por gastarem dinheiro à toa. É porque não têm dinheiro, porque tiveram que ajudar filhos. Esta cegueira da máquina burocrática está a rebentar com o quotidiano das pessoas.

 

O Tribunal Constitucional tem sido uma força política activa?

Não penso [que o seja]. Mas como a oposição não faz oposição, como o presidente da República não existe, a única força que se pronuncia sobre as medidas do Governo, é o Tribunal Constitucional. Não se tem pronunciado de um ponto de vista político. Tem-se pronunciado de um ponto de vista da análise da conformidade com a Constituição.

 

Essa crítica – a de que representa uma força política activa –  tem sido feita nomeadamente por sectores da direita.

Há um discurso mais ou menos histérico contra a Constituição de 1976 e as malvadezas que por lá andam, os resquícios do socialismo...

 

Caminhamos para o socialismo, como se escreve na Constituição?

Todos sabemos que, desse ponto de vista, a Constituição é letra morta. Temos na Constituição a garantia de um sector público empresarial que foi violada. Esse sector é residual e o pouquíssimo que existe está na grelha de partida para ser privatizado. Digamos que a Constituição, na prática, na sua parte mais ideológica, não está a ser questionada pelo TC. O que o TC está a fazer é a defender valores que a Constituição tem. Valores de proporcionalidade, de igualdade, de defesa da confiança no Estado.

 

São valores de esquerda ou de direita? Isto apesar de uma Constituição não dever ser apreciada à luz disto.

Nem de esquerda nem de direita. São valores fundamentais que estruturam qualquer pacto social. Uma das coisas mais graves que este Governo tem feito é destruir qualquer pacto social. É colocar as classes umas contra as outras, os funcionários públicos contra os privados, o interior contra o litoral...

 

Dividir para reinar?

Sim. Para usar uma expressão de um jornalista espanhol, Joaquín Estefanía, do El País, instalou-se a economia do medo. E nem se percebe a lógica de coisas que o Governo faz, a não ser a lógica da prepotência, se pensarmos em demissões ou em pessoas que não puderam continuar nos lugares, como a Maria João Seixas na Cinemateca, o José Pedro Ribeiro, presidente do ICA, o presidente do Instituto de Medicina Legal, (Duarte Nuno Vieira), pessoa competentíssima que foi exonerada. Este decapitar da administração pública dos seus quadros de melhor qualidade e substituí-los por pessoas que não têm passado contribui para diminuir qualquer força da acção que o Governo pretende ter.  

 

Voltemos ao glossário. Confiança foi outra palavra que deixou de ser usada?

Totalmente. Deixou de se usar confiança e passou a falar-se, apenas, de austeridade, de dívida, de pecadores, nas cigarras que fomos anos e anos. Mas o essencial de qualquer sociedade é a confiança. Confiança em quem nos governa. Confiança num futuro.

 

Falou da ausência de alternativas. Estamos, além da agonia económica e financeira, numa agonia política? O discurso reinante: estes partidos não nos servem, estes líderes não nos servem. Estamos num hiato em que não nos revemos em ninguém?

É. Sobre o PC havia a ideia de que era um partido estalinista. Que não dava qualquer liberdade de opinião ou escolha aos seus manifestantes. Hoje em dia, todos os partidos portugueses estão transformados em partidos estalinistas.

 

O que quer isso dizer?

Que são partidos sem debate interno. Basta olhar para o PSD e para as expulsões de quem apoiou candidatos independentes. No PS é evidente a marginalização de toda a gente em relação à qual há a suspeita de que tem um pensamento autónomo. No Bloco de Esquerda as coisas passam-se da mesma forma. Os partidos tornaram-se puros aparelhos. Aparelhos que não dão lugar a reflexão.

No PS (a mim é o que me dói mais porque é o que se situa mais próximo de mim), António Guterres, na iniciativa Estados Gerais, procurou chamar independentes a discutir com o partido. Vê o PS a fazer hoje alguma coisa dessas? Não. Está só a cerrar as suas fileiras. Tem o seu feudo, espera subir nas sondagens pelo desgosto com o Governo. Subida pequena. O resultado nas autárquicas é mau (tirando o resultado do António Costa em Lisboa e pouco mais). Seria de esperar que o PS desse uma banhada ao Governo. Neste contexto, obviamente, as pessoas tendem a afastar-se dos partidos. 

 

Podem aparecer mais partidos como o Partido Livre de Rui Tavares? Estamos na emergência de novos partidos que congreguem algumas das pessoas que manifestam o seu descontentamento?

Tenho uma enorme estima pelo Rui Tavares e gostaria muito que continuasse como deputado europeu. Mas tenho as maiores dúvidas que o Rui Tavares consiga montar um partido com o mínimo de expressão ou sequer ser eleito. Oxalá me engane.

A sensação que tenho é que o desbloqueamento desta situação [política] não vai sair tanto das eleições legislativas, da criação de partidos, mas das eleições presidenciais. Se for possível avançar com uma candidatura que não seja saída do aparelho partidário...

 

Já apareceu publicamente a apoiar a candidatura de António Sampaio da Nóvoa.

É um candidato com uma característica especial: pode ter votos de todos os partidos de esquerda e reunir esses descontentes. É provavelmente a única pessoa que está nestas condições.

 

Quando diz que a diferença estaria nas presidenciais, está a pressupor uma mudança para um regime presidencialista?

Acho que o Dr. Mário Soares fez muitas coisas estimáveis. Também fez outras menos estimáveis. Seguramente uma das menos estimáveis foi a revisão constitucional de 1982 em que, por retaliação com o general Eanes, alterou o equilíbrio de poderes e abandonou o semipresidencialismo que caracterizava a Constituição.

Embora o presidente tenha poderes reduzidos esses poderes têm sido usados de uma forma muito mitigada pelos vários presidentes. O presidente Mário Soares usou-os mitigada mas habilmente. O presidente Jorge Sampaio...

 

Usou a bomba atómica.

Usou. Surpreendeu toda a gente, porque [esse gesto] não estava nas suas características. Este presidente (Cavaco) não usará nem uma bomba atómica nem qualquer espécie de bomba.

 

Isso tem a ver com as suas características pessoais?

Não sou capaz de análises psicológicas. Havia o velho slogan de Sá Carneiro: um Governo, uma maioria, um presidente. Houve sempre a ideia na direita portuguesa de que era preciso ocupar todos os lugares de comando para poder, a partir daí, impor uma alteração radical das regras de jogo. Sá Carneiro não o conseguiu. Este Governo, sem esse slogan, conseguiu-o. Creio que as pessoas estavam um pouco esquecidas de quem tinha sido Cavaco Silva como primeiro-ministro quando votaram nele. E temos um presidente com características que não são aquelas de que precisávamos neste momento. Podíamos ter um presidente que, de vez em quando, dá um sinal ou outro...

 

Em suma, precisamos de um sistema presidencialista?

Pois. Com todos os riscos que tem saber quem é o presidente... Votaria num sistema semipresidencial que reatribuísse ao presidente da República alguns poderes. Agora, o presidente não pode fazer o que este presidente está a fazer, de facto, que é tomar partido por uma das partes no jogo. “O presidente de todos os portugueses” não é só um slogan. Não penso que, além de um ou outro episódio, este presidente tenha feito isto.

 

Está a dizer que o presidente dá caução a este Governo e o sustém?

Ou sustêm-se reciprocamente. Quando penso nisso admiro o Papa Ratzinger.

 

Ratzinger? É inesperado.

Ratzinger foi capaz de perceber que não conseguia, não tinha forças, não tinha capacidade para resolver os problemas da Igreja. Optou, num gesto de grande humildade, por retirar-se e abrir caminho para um novo Papa.

 

Por quem estamos todos apaixonados. Inclusive os ateus.

Foi o nosso milagre! [riso] Estamos sempre à espera de milagres. O milagre Obama. Depois o milagre Hollande (custa muito recordar...) que ia salvar a esquerda europeia, e que sai este flop. O Papa Francisco, pelo contrário, surge como uma figura extraordinária. Não sei se o Papa Francisco tem uma Igreja que o acompanhe, e se tem uma sociedade [católica] que o acompanhe. Tocou-me muito quando foi a Lampedusa (e disse: “Temos um problema que envergonha a Humanidade”) e à Sardenha (onde disse que o trabalho, que devia ser o centro da vida, deixou de o ser, para passar a ser o dinheiro e o poder e a glória).

 

Estava a insinuar, mencionando com ironia Ratzinger, que Cavaco (era dele que falávamos) devia seguir os passos do antigo Papa?

É uma solução que nunca devemos descartar. É verdade que Cavaco disse que raramente se engana e que nunca tem dúvidas. Eu tenho ideia que devemos ter dúvidas e questionar-nos a todo o momento. Estamos a ser úteis na nossa função? Se todos os políticos, de vez em quando, fizessem essa reflexão...

 

No fundo, está a acompanhar o discurso considerado incendiário de Soares quando o ex-presidente diz “Obviamente demita-se”.

Em versão bastante mais católica, como se vê...  

        

As pessoas manifestam-se para exprimir o seu descontentamento. Por outro lado, quando uma pessoa – que não é uma pessoa qualquer – verbaliza desta maneira o seu descontentamento, é considerada incendiária. Como é que se resolve este nó?

Achámos incendiário [o discurso de Soares]? Quem achou incendiário foi a generalidade do Governo, claro está, e uns quantos jornalistas. E a população? Terá achado tão incendiário? Não sei. O Dr. Mário Soares está a mostrar uma coragem cívica admirável. Pela idade que tem, pelo que fez pelo país, já tinha direito a descanso. Mas tem sido o foco maior de resistência a esta situação.

 

Concorda com o que ele disse?

Se as palavras foram as mais justas, se precisava de usar aqueles termos exactos?, não sei. Que é preciso energia, que é preciso não ter receio de palavras mal-entendidas, é. Há a ideia de que a direita pode sempre acusar a esquerda de ser sanguinária. E quando a direita cria uma situação em que as pessoas vivem na miséria, em que os suicídios aumentam, isso não é sanguinário?

 

Sampaio da Nóvoa, que já mencionou, e Ramalho Eanes apresentarem o seu último livro, no qual coligia “Crónicas de Anos de Chumbo – 2008/2013”. Ramalho Eanes tem sido especialmente falado nas últimas semanas.

Estou muito contente mas totalmente espantado com este unanimismo em torno do general Ramalho Eanes. Quanto a mim fez uma presidência exemplar, é uma pessoa por quem tenho a mais profunda admiração e respeito. Mas quando saiu da presidência houve uma tentativa de ostracização. Lembro-me de quinze dias depois de ter deixado o cargo o encontrar num concerto no São Luiz, onde estava também o presidente Mário Soares, e de Eanes estar sozinho com a mulher. Todas as pessoas que uns meses antes o estariam a rodear, estavam a rodear Mário Soares.

Eanes fez uma transição no deserto. Com coragem. Fez um doutoramento (impressionante, num ex-presidente). Na crise tem tomado posições não tão explosivas quanto as de Soares mas extramente justas, com grande preocupação social. O que não consigo perceber é porque é que pessoas que toda a vida foram ferozmente anti-eanistas se reúnem nesta homenagem. Ainda bem que são capazes de reconhecer que as qualidades do general Eanes são superiores às divergências que possam ter tido. 

 

Não deixa de ser curioso que as pessoas apontadas como referência ou foco de resistência sejam Eanes e Soares.

Um país que não tem referências... Sampaio da Nóvoa teve um papel importante quando organizou as sessões de doutoramento honoris causa dos ex-presidentes. Mostraram ao país que tivemos três presidentes com características muito diferentes mas dos quais nos podemos honrar. Souberam servir a República. 

 

Estamos falhos de figuras de referência? Há uma recuperação de figuras do passado. E uma sociedade precisa sempre de heróis, líderes, ídolos. Olhamos para trás, e à volta, e pensamos: quem é que temos à mão?

A isso pode acrescentar outra coisa: algumas das figuras mais importantes que aparecem no comentário político são pessoas com muita idade. Adriano Moreira, Eduardo Lourenço. O estatuto dessas pessoas não tem paralelo numa geração mais nova.

 

Outra palavra que deixou de se usar: herói. Há quanto tempo não diz a palavra herói?

Estes tempos de acomodação que vivemos (e o tempo em que já não havia uma ditadura para derrubar) fizeram-nos perder a noção de herói. Herói era o Salgueiro Maio, o Melo Antunes, as pessoas que lutaram contra qualquer coisa. Que foram capazes desses gestos. Havia também anti-heróis, vilões. Pode transpor o problema para fora de Portugal. Quem são os heróis contemporâneos?    

 

Papa Francisco? Está a ser transformado num herói.

Ou, pelo menos, sentimo-lo como tal. Mas repare como é deplorável, todos os anos, a procura de um nome para o prémio Nobel da Paz. A lista é cada vez mais pindérica. A questão que se coloca é se um herói não é alguém que tem de saber equilibrar a possibilidade de inovar com a capacidade de negociar. (Estou a pensar em Barack Obama, que foi a minha grande alegria e que tem desiludido a generalidade das pessoas.) Ou seja, fazer aquilo que pode e não se coibir de fazer o que pode gastando-se em lutas que vai perder. Não é muito estimulante. Não é um herói dos westerns da nossa adolescência. O mundo em que vivemos já não permite heróis puros.

 

A vilã, a má da fita da História contemporânea, sobretudo quando pensamos na Europa e neste clima de austeridade, é Angela Merkel?

Sem dúvida. Há quem diga que os alemães estão nesta posição malgré eux. Que não foi uma posição que tivessem procurado. O que é certo é que se colocaram numa situação de tal forma arrogante... Quando isto ainda não era tão nítido, o general Loureiros dos Santos (outra pessoa admirável, e mais uma vez estamos a pensar nas pessoas de há 40 anos) previu que Angela Merkel ia conseguir o que Hitler não conseguiu: dobrar a Europa sem precisar de ser por canhões. Foi o que fez. Impôs a todos os países europeus a lógica da austeridade, fez-nos sentir a todos pecadores. Agora já nos passou um bocadinho... Mas havia uma passividade inicial em relação à austeridade e uma noção de pecado [que incorporámos]. Esse discurso de que vivemos acima das nossas posses cola muito bem em Portugal porque vivemos décadas em austeridade.

 

Que é que quer dizer?

Vivemos o Estado Novo em austeridade. Pelo menos até tempo de Marcelo Caetano, que mostrou alguma abertura. O que é que essa austeridade salazarista, assente naquela ideia da casa portuguesa, muito feliz, trouxe a Portugal? Um país na cauda da Europa, sem educação, sem saúde, sem protecção social.

 

Com as contas arrumadas, mas...

Com as contas arrumadas, mas. E agora, não é a mesma coisa? Estamos a arrumar as contas, mas estamos a destruir a educação, o interior do país... Esta austeridade que está a ser imposta em democracia acaba por não ser muito diferente da austeridade imposta em ditadura e de ter resultados semelhantes.

 

Recentemente o Libération apresentava um relatório assinado por um economista proeminente da Comissão Europeia que dizia que a austeridade não funciona. Meses antes o FMI fez mea culpa em relação à Grécia e a Portugal dizendo que a receita aplicada não era a adequada. A Troika, as entidades que nos emprestam dinheiro, reconhecem que o modelo não funciona. Então porque é que se mantém?

De um ponto de vista intelectual, a austeridade tem sido fortemente atingida. Saíram livros interessantes, entre eles o de Mark Blyth, “Austeridade – A História de uma Ideia Perigosa”, o livro de Robert Kuttner, “The Depths Prison”. Houve o descrédito da bíblia Kenneth Rogoff/ Carmen Reinhart (“Growth in a Time of Debt”) e dos rapazes da escola Bocconi, como lhes chama pejorativamente Paul Krugman, e que são um conjunto de economistas italianos largamente responsáveis por aquilo que se considerava ser a austeridade virtuosa.

 

E essa, existe?

A austeridade amiga do crescimento – é a forma como foi vendida... À medida que foi sendo posta em prática foi-se verificando, e responsáveis do Fundo Monetário Internacional, sobretudo Olivier Blanchard, assumiram-no, que tem tido muito mais consequências negativas do que tinha sido previsto. A Comissão tem sido mais resistente a reconhecer isso. Houve o erro global de fazer a austeridade em todos os sítios ao mesmo tempo.

 

Vários economistas têm sublinhado esse aspecto, nomeadamente Stiglitz no livro “O Preço da Desigualdade”, mas também Krugman.  

Sim. Dito isto, porque é que a austeridade se mantém? Porque como Martin Schulz, o presidente do Parlamento Europeu, dizia recentemente a um jornal português, esta política está colocada ao serviço da banca e não das populações.

Ter austeridade no sentido de conseguir que as finanças públicas se vão equilibrando (e o equilíbrio em Portugal é muito duvidoso e pequeno), e que isso permita aos credores a perspectiva de serem reembolsados, parece interessar mais do que as consequências sobre a vida das pessoas.

 

Estamos reféns dos bancos, é isso?

Dos bancos. Dos chamados mercados financeiros. Dessas entidades sem rosto que estão na origem de tudo isto. Chama-se a isto a crise das dívidas soberanas, mas esta crise foi sobretudo provocada pelos resgates aos bancos. Os bancos tinham feito operações financeiras loucas. Eram too big too fail e os Estados gastaram fortunas a salvar os bancos. Com isto, a dívida pública subiu imenso. Em Portugal há este aparente paradoxo: a dívida pública continua a subir apesar da austeridade.

 

Mark Blyth, que traz cá, faz uma conferência hoje na Universidade de Lisboa. Blyth tem um discurso que muitos consideram de extrema-esquerda. O seu discurso nesta entrevista não é de extrema-esquerda mas é talvez mais à esquerda do que seria não há muitos anos. Virámos “todos” mais à esquerda depois da crise?   

Há casos de conversão mais espectaculares! O do Pacheco Pereira, seguramente. Mas o que lhe estou a dizer, hoje em dia, é quase consensual. Virámos todos muito mais à esquerda, por um lado. Por outro, ninguém acredita na austeridade. Mesmo quem a está a pôr em prática sabe que os resultados são desastrosos.

 

E prosseguem?

Estão a fazer uma coisa como ganhar tempo.

 

Até o barril de pólvora rebentar?

Será que têm consciência de que o barril rebenta?

 

Ainda sobre Mark Blyth: a vinda do economista acompanha a edição de um livro sobre a austeridade.

Publica-se no mesmo dia um livro colectivo “A Austeridade Cura? A Austeridade Mata?” Ouço cerca de 80 pessoas e a opinião quase unânime é que mata. Claro que temos João César das Neves e mais alguns nomes que dizem que cura. Tentei que o livro fosse pluralista. Mas no essencial as pessoas afastam-se da ideia de austeridade. E muitas dizem uma coisa com que simpatizo: a austeridade em si, como recusa do consumismo desenfreado e como controle da boa utilização dos fundos públicos, com certeza. Agora isto que para aí vai... Não.

 

Terminemos com o glossário. Qual é a palavra (não sabemos quando vai aparecer nem quando se vai impor) que vai substituir no vocabulário comum austeridade?

Suponho que terá que ser crescimento. Toda a gente percebe que tem de voltar a haver crescimento económico. É fundamental não só para acabar com o desemprego. E se não houver crescimento económico nunca vamos conseguir pagar a dívida, pelo menos nos termos em que ela está, e tudo acabará por correr mal.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2013

 

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