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Eva Raimann Cabral

Esta é a história da diáspora de uma família judia, perseguida pelo nazismo. Eva Raimann Cabral nasceu em 1937 em Viena, dois anos depois estava com pais na Bolívia. A partir da sua árvore genealógica, feita anos mais tarde, sabe que perdeu 33 familiares nos campos de extermínio. Aqueles que sobreviveram, da geração dos seus pais, e que trocaram cartas durante décadas, legaram aos vindouros elementos para reconstituir uma história. Uma “saga familiar”, chama-lhe Eva no livro Árvore com Asas, Passarinho com Raízes.

Houve um tempo em que Eva e a sua família foram refugiados. As circunstâncias eram outras, diferentes daquelas que se vivem actualmente na Europa. Os elementos comuns: a ameaça, a perda, o desmembramento.

 

Há no seu discurso a nostalgia de um passado perdido. Há, sobretudo, a dor de não ter tido uma grande família. Avós por perto, tios e primos com quem brincar. Eva Raimann cresceu sozinha com os pais em La Paz, viveram no Brasil, casou-se com um português em 1965, adoptou o apelido Cabral.

O discurso denota esta vida de um lado para o outro. Ora fala num português de Portugal, ora mantém expressões do português do Brasil. O português foi a sua quarta língua.

Depois da morte do pai, em 1974, começou a reunir material disperso, maços de cartas, fotografias que contam histórias, a procurar ramos de uma árvore que se tinha espraiado pelo mundo. Viu-se sempre como um passarinho, vida fácil de transplantar, apesar das saudades. E a criar raízes, com os filhos, os netos, o livro Árvore com Asas, Passarinho com Raízes.

Em 2005 promoveu uma festa, onde estiveram familiares da geração dos seus pais, da sua, das seguintes. Fizeram um mapa dos países onde nasceram e viveram: Estados Unidos, México, Brasil, Bolívia, Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra, Áustria, República Checa, Polónia, Israel, Austrália. Se a sua família é uma árvore, a copa é frondosa, as raízes intermináveis.

Eva Raimann Cabral estudou engenharia electrotécnica. É uma senhora de 78 anos, sorriso vivo. Gostava de deixar um testemunho de tolerância.

  

Que história contaram os seus pais da vossa fuga? Saíram de Viena depois da anexação da Áustria pela Alemanha nazi, em 1938.

Não foi uma história contada, foi vivida. Eu tinha um ano quando houve o Anschluss, era uma criancinha. Os meus pais aperceberam-se de que a coisa não estava bem. O meu pai foi posto fora do trabalho, segundo as leis de Hitler. Os jovens casais [da família], os irmãos, cunhados, emigraram todos. A árvore com raízes [de que falo no meu livro], uma família enraizada no império austro-húngaro, de origem judaica, espalhou-se pelo mundo.

 

O que é que fazia o seu pai? Como é que foi o episódio do seu despedimento?

O meu pai formou-se primeiro em Farmácia. (Foi quando conheceu a minha mãe. Não era muito comum as raparigas tirarem um curso superior.) Depois fez um doutoramento em Química. Começou a trabalhar na indústria farmacêutica, em pesquisa. Sempre gostou muito do trabalho. Um dia foi chamado... “O senhor está despedido, sem direito a indemnização”. Foi um desgosto muito grande. Anos mais tarde, encontrei, em folhas soltas de um diário, o desabafo do meu pai.

Mas esse despedimento salvou-nos a vida! Ele percebeu que as coisas estavam a ficar complicadas. E procuraram sair.

 

O seu pai tinha que idade? E a sua mãe?

Ele tinha 31 e a minha mãe 30. Saíram, assim como os irmãos, de cada um deles, cada um de forma diferente. Cada um para onde pôde.

 

A maior parte das pessoas da família estava localizada em Viena?

Sim. A família próxima estava em Viena. O meu pai nasceu em Praga, mas mudou-se pequeno para a Áustria. O nome dele é Egon Raimann. E no meio Zdenko, nome checo. A minha mãe: Margaretha, Schlesinger de solteira, Raimann de casada.

[Depois do despedimento], foi tempo de arrumar as coisas e entrar nas filas onde davam vistos. O meu pai começou, não sei porquê, por tentar a África do Sul. Depois soube que havia facilidades para a Bolívia e arranjou logo um visto para a Bolívia.

 

Quantos meses depois de ter sido despedido?

Poucos meses depois. Quando nasci, a minha mãe deixou de trabalhar. Estava passeando comigo no Belvedere [palácio e jardim em Viena], que era perto da casa onde morávamos, e viu a Gestapo a entrar no prédio, onde morava também o irmão dela. Então deu uma volta, e quando retornou a casa, a Gestapo tinha levado o meu tio. O único irmão. Mais um sinal de que as coisas estavam mal. Nunca soube bem como é que o tinham libertado, mas um primo que conheci recentemente contou que havia meios, e com isso conseguiram que o pai [dele] saísse.

 

Esses familiares escaparam para onde? E os outros ramos da família?

Esses, como tinham família nos Estados Unidos, tiveram a sorte de poder emigrar para lá. Outro irmão do meu pai, [tinha cometido, segundo a lei alemã], um crime tremendo: era casado com uma ariana. Tinha conspurcado uma ariana. Saiu rápido e foi parar ao México. Uma outra tia, cujo marido era socialista e jornalista, no dia em que Hitler entrou por um lado, saiu de bicicleta pelo outro. Parece que foi até à Finlândia, de bicicleta.

Toda essa geração de irmãos e cunhados, no mesmo ano, saiu. Ficaram 33, do lado do meu pai – que morreram depois nos campos de concentração.

 

Voltaremos mais tarde a falar da diáspora. Para já, os seus avós, quer maternos, quer paternos: ficaram em Viena?

Os meus avós maternos já tinham falecido. Os paternos não quiseram sair. Há um álbum que o meu pai fez com fotografias, que eu achava patéticas, do último dia em que foram visitá-los. Em Maio de 1938. Não sei se os meus avós saberiam que era uma despedida do filho. Angustia pensar nisso. No momento, eles não quiseram sair.

 

Porque já estavam numa idade avançada?

Não acreditavam que fosse resultar numa coisa assim. Mas depois, o meu avô tinha um estabelecimento comercial. Quando os nazis entraram por lá, “compraram” o equipamento, as máquinas, por um preço irrisório. Aí deram-se conta do que estava a acontecer e quiseram sair. Já foi tarde. Foram para os campos de concentração.

 

Alguns elementos da família não integraram imediatamente a dimensão do perigo. E outros, sim. Depois da guerra, falavam disso, das diferentes motivações, do que cada um compreendia?

Dentro daquele círculo mais fechado, de irmãos do meu pai, e o irmão da minha mãe, já todos casados, não sei dizer. Porque não falavam muito. Meu pai, então, falava-me muito pouco. A sorte é que a irmã querida dele, que foi parar primeiro a Londres, onde passou a guerra, e depois à Austrália, escreveu para os netos dela. A Tante Hanna. A minha tia, sabiamente, deixou um escrito sobre a família, que eu traduzo no meu livro, e que foi importante inclusive para mim. Fui tendo memórias muito antigas, pontuais, mas não conhecia esses detalhes.

 

Partiram em 1939. Como chegaram à América do Sul? Qual foi o trajecto?

Fomos de barco a partir da Holanda. Aí tem cenas heróicas, não se podia levar quase nada. Os meus pais conheceram uns holandeses, amigos de amigos, que nos levaram jóias, algum dinheiro. Embarcaram num navio, foram de Amesterdão até Arica, no Chile. E de lá de trem [comboio] até La Paz. O destino era La Paz. Havia visto de entrada para os três.

 

O que é que os seus pais conseguiram levar com eles?

Uns baús. Me lembro que havia um enxoval bordado da minha mãe. O meu pai levou o acordeão. Livros, objectos de cozinha. A minha cama de grades de metal, pintada de vermelho, onde cabia eu com minha mãe nas noites de insónia.

 

E as jóias e os objectos que depois podiam ser trocados por dinheiro, foi através de amigos?

De uns amigos de amigos. Não podiam levar com eles mais do que aliança, um relógio e talheres de prata, um serviço para seis pessoas.

 

Isso quer dizer que o conteúdo dos baús era passado a pente fino?

Era provável. Eu tenho a lista, assinada pelos nazis, da compra dos artigos [da minha família, que ficaram]. Ouro ou jóias, era ao preço bruto, do grama de ouro. Podia, depois da guerra, ter reclamado várias coisas. Por ter tido que sair, por não me ter criado lá. Mas deixei essas coisas de lado, envolvia muitas diligências. A única coisa que ainda me interessou, e tive vontade de fazer, foi [recuperar] uma casa perto de Praga, em Senohrab.

 

Que casa era essa? Porque é que era importante?

Era uma casa de Verão que o meu avô comprou. Reunia lá a família toda. Percebi que os daquela geração, na Bolívia, no México, na Austrália, sonhavam com aquela casa. E aquela casa foi tomada, primeiro pelos nazis, depois pelos comunistas.

Pensei que compraria aquela casa, junto com família que ainda tenho lá, e que faria uma casa de Verão para crianças desfavorecidas. Em homenagem às boas lembranças [da geração do meu pai]. Mas era um bocado utópico, precisava de deixar tudo para fazer isso.

 

Era uma família abastada. As casas tinham um recheio que não cabia nesses baús.

E que não cabia nas licenças. Fomos parar na Bolívia. Lembro-me da primeira casa, muito modesta.

 

Os três, sozinhos, do outro lado do mundo. Sem conhecerem a língua. Uma cultura completamente diferente. E a viverem a quatro mil metros de altitude. Imagino que para um austríaco...

Um austríaco, judeu, com formação superior, habituado a muita família. Mas outros emigrantes (austríacos, checos) foram parar na Bolívia, também.

 

Com quem é que se dava quando era criança?

Com filhos de emigrantes, amigos dos meus pais. Depois fui para um colégio americano. As minhas primeiras línguas foram alemão em casa, inglês na escola e espanhol da Bolívia. Português foi a quarta língua. Meu pai estudou espanhol já lá, em poucos meses.

Vou contar como é que o meu pai, financeiramente, enquanto outros tinham mais problemas, se deu bem. Pelo menos não passámos muito aperto. Naquele clima da Bolívia, eu e a minha mãe sofremos bastante. No meu primeiro problema de garganta e nariz, mal chegámos, chamou-se um médico. Começaram a conversar: “O senhor é doutor em Química? Eu estou na universidade...”. Desde que chegou até que saiu, o meu pai foi professor da universidade de La Paz. Além disso, como havia falhas nessas áreas na Bolívia, foi contratado para a escola militar, também como professor de Química.

 

E com isso, nunca passaram mal. Mas não tinham a vida confortável de Viena.

Não. A primeira casa era praticamente uma divisão. É das minhas primeiras lembranças na Bolívia: o meu pai fazendo móveis. Uma mesa. Achava que o meu pai era o máximo. Rapidamente mudámos para um andar maior, com quarto para toda a gente.

 

Os outros amigos, como é que viviam?

Convivi muito com os filhos de um casal misto (um católico, o outro não). Ela era médica, trabalhava num hospital, os filhos andavam numa escola pública. A filha deles queixava-se de que nós vivíamos bem: tínhamos um gato. Nunca pensei que ter um gato pudesse ser um luxo, mas, pelos vistos, era. A filha escreveu numa carta: “Nós só tínhamos ratos”.

 

Lembra-se do momento em que lhe deram o gato?

Lembro do gato, há fotografias.

 

Durante os anos da Bolívia, era a guerra. Como é que tinham conhecimento do que se passava na Europa? Como é que contactavam os restantes elementos da família?

A informação era a dos jornais. E a dos cinemas. Antes do filme, passavam as notícias. Uma semana depois. Telefone, nunca. Telegrama, para coisas importantes. As cartas eram em papel fininho, escritas dos dois lados. Mandar cartas era muito caro. E levava muito tempo. O meu pai, muito metódico, fazia cópias em papel químico das cartas que mandava à Tante Hanna. Quando ele morreu, encontrei um dossiê com as cartas trocadas ao longo dos anos.

 

Em resumo, os seus pais foram para a Bolívia, a Tante Hanna foi primeiro para Inglaterra e depois para a Austrália. O irmão do seu pai, para o México. A outra tia foi directamente para a Austrália. O irmão da sua mãe, para os EUA. Quando é que souberam que os restantes familiares (avós e primos) tinham morrido nos campos de extermínio?

Há dois sobreviventes, os primos mais novos dos meus pais. Um deles trabalhava na cozinha, se calhar tinha mais facilidade, por isso, de sobreviver. Os reencontros e a informação, entre os que sobreviveram, fez-se através de carta. Dos que faleceram, não sei. A Tante Hanna, depois da guerra, casou com um oficial judeu da Polónia (a quem tinham morto a mulher e o filho). Refez a vida com este senhor, teve uma filha já bastante tarde. A outra irmã do meu pai, que foi directo para a Austrália, era casada com um judeu. Teve uma criança nascida em Viena, que tem um mês de diferença de mim. Para as outras pessoas, não é nada de extraordinário, porque cresceram com os primos; mas eu só fui encontrar essa prima 50 anos depois! E nos rimos muito.

 

Aos olhos das instituições bolivianas, eram considerados refugiados?

Nós éramos.

 

Tratavam-nos como refugiados políticos, religiosos?

Não lembro de expressão nenhuma. Além de um respeito muito grande pelas pessoas (mas isso não precisa ser específico judeu, devia ser de todas as religiões, de todas as pessoas), não tive grande educação religiosa. Porém, o nosso certificado de nascimento vinha da Jüdische Gemeinde, da comunidade judia. E era legal.

 

Nunca frequentou a sinagoga?

Não. Fui para conhecer. E também se havia alguma solenidade, um casamento.

 

Semanalmente não ia, não tinha uma prática religiosa. Em todo o caso, davam-me especialmente com judeus?

Havia um clube austríaco na Bolívia, para refugiados, onde a minha mãe queria se inscrever. Mas o meu pai era avesso a qualquer tipo de associação. Se achasse que tinha que entrar por razões políticas ou de sobrevivência, assim que podia, saía. A única onde entrou foi o Iate Clube da Bahia, porque eu já era mocinha e gostava de dançar. E o Clube de Xadrez, porque gostava de xadrez.

 

Têm pesos diferentes, as palavras emigrante ou refugiado. Quando pensamos nelas hoje, não é de todo a mesma coisa.

Tenho pensado nisso ultimamente, é terrível ver o que se passa.

 

Sendo a circunstância diferente, temos agora refugiados como nunca desde a Segunda Guerra. O que é que tem pensado quando vê aquelas imagens?

Muitas pessoas fogem sem passaporte. Umas por perseguições e outras por razões económicas. Se nos colocarmos na pele deles, é natural. Mas naquela altura ninguém saía por razões económicas, era tudo por perseguições. E as pessoas só podiam sair com visto de entrada no país [que as recebia], era bem diferente.

É facílimo o Estado Islâmico imiscuir-se... O que não invalida que aquelas pessoas precisem de [apoio]. A gente não pode ficar impassível ao ver aquele sofrimento. Agora, solução?, não sei, não sei dizer-lhe mais nada.

 

A sua família saiu com vistos. Constava neles alguma menção específica à vossa condição?

Não sei se constava “refugiados”. Tinham que acrescentar o nome Israel, os homens, e Sara, as mulheres. E havia um carimbo, a vermelho, com um “J”, de jude [judeu]. Havia uma discriminação nas saídas e nos vistos. E mais tarde, já não deixavam sair.

 

Quando tinha nove anos, mudaram-se para o Brasil. Começou outra vida. Porquê a mudança?

Do ponto de vista social, havia muita instabilidade na Bolívia. Um filho de judeus amigos nossos morreu dentro de casa, com uma bala perdida. Vimos o presidente ser morto, Villarroel, pendurado pela gravata na praça pública [1946]. E durante alguns dias era proibido usar gravatas. Outra lembrança dessa instabilidade: ia para a escola, sozinha, e passava pela casa de um político chamado Víctor Paz Estenssoro, que era também do MNR, Movimento Nacionalista Revolucionário. A casa tinha sido revistada, papéis pela rua. E ouvia-se uma música: “Muerto el movimento, muerto Villarroel, e a Paz Estenssoro le espera el cordel”.

 

O que é que foi o Brasil para si?

Ceará, Fortaleza, clima quente, contrário ao da Bolívia. Primeira sensação: a liberdade de poder andar descalça e com pouca roupa. Estava sempre agasalhada [em La Paz], a minha mãe tinha feito umas calças que eu usava tipo collant, de lã de lama. Não saía da cama sem ser já calçada. E no Brasil, os banhos de mar, a água quentinha! Eu não conhecia a praia (até essa altura). Na Bolívia fazíamos passeios, bem agasalhados, uns cantis com chá. Em Fortaleza, fizemos logo amizade com os vizinhos. O meu pai construiu uma mesa de pingue-pongue.

 

E de repente, a Áustria parecia uma coisa distante.

A Áustria significava o lugar onde eu tinha nascido, onde os meus pais tinham casado. Coisas boas, não da guerra.

 

Quando se referiam à Áustria, quando falavam da vida anterior à guerra, só contavam coisas boas?

Muito adiante, a primeira vez que fui a Viena, já com vinte e poucos anos, fiquei em êxtase. Vi uma strasse [rua] e desatei a chorar. Escrevi para os meus pais e o meu pai respondeu: “Bom, eu não posso dizer que tenha lembranças assim tão boas de Viena”. Essa frase significa tudo.

 

O que quero perceber é se a poupavam nas descrições que faziam, nos relatos da guerra, na ameaça.

Eu sabia que havia guerra, que havia perseguições, mas assim ao longe. Na Bolívia, uma vez voltando da escola, ouvi um menino insultando outro: “Indio, judío”. Cheguei a casa e contei à minha mãe, divertida, os dois nomes feios. Foi aí que a minha mãe me disse: “Bom, nenhum deles é pejorativo. Você, índia não é, mas é judia”.

 

A sua relação com o passado, a compreensão do muito que havia ficado calado, é alterada pela morte do seu pai? Há, desde então, um desejo de restabelecer laços.

O meu pai morreu em 74. Anos antes, fez uma árvore genealógica. Reuniu documentos, foi a Praga e a Viena, não localizou ninguém. A partir da correspondência com a minha tia sei que queria rever os irmãos. Mas não deu resultado. Ele e a Tante Hanna nunca mais se viram.

Eu estava em França, na altura em que ele fez a árvore genealógica.

 

Formou-se em Engenharia Electrotécnica, no Brasil. Fez logo depois uma especialização de um ano em França.

Em França conheci um português com o qual sou casada já há mais de 50 anos. Daí a minha vinda para Portugal, em 1965.

 

Porque é que o seu pai fez essa árvore?

Fê-la para a minha mãe, para as filhas (tinha nascido a minha irmã Ruth, já no Brasil, em 1950). É uma forma de rever a nossa vida, intensamente. Foi o que tentei fazer no meu livro: continuar a olhar para as nossas raízes.

 

O seu marido é judeu? Ser ou não judeu era uma questão?

Não, é de uma família tradicional, católica. Eu tenho uma prima que me convidou para um casamento em Israel, da neta. Vi que eram muito praticantes. Na sexta-feira não podíamos pegar carro. Era uma criatura amorosa, mas muito estrita na religião. Quando ganhei mais intimidade, perguntei: “Kate, eu não fui educada assim, você foi?”. Ela disse: “Eu fui educada como você, como seu pai foi educado. Mas casei com um homem muito religioso. Se eu não passasse a observar [este comportamento religioso], íamos ter problemas”. Pensei: “Engraçado, casei com um homem católico e se há um lugar onde nunca tivemos problemas foi na religião.”

 

Como foi a cerimónia do seu casamento?

Casámos no religioso porque o meu marido fazia questão. Eu só tinha uma objecção, não me baptizava. Havia os casamentos mistos, foi difícil encontrar um padre que o fizesse. Depois ficámos muito amigos dele.

 

Gostava de voltar ao momento em que mergulha nas coisas do seu pai, depois da morte dele, à informação com a qual passa a ter contacto.

O primeiro contacto foi com a Tante Hanna. Passámos as duas 48 horas, eu dando testemunho do irmão querido depois da separação, e ela me dando do antes. Isso foi maravilhoso.

 

Imagino que nessas cartas devia transparecer uma grande nostalgia em relação ao passado, à vida que deixaram para trás. E por outro lado, uma ansiedade em relação ao futuro, à maneira como iam levar a vida para a frente.

Essa ansiedade não aparecia muito. Era mais do presente que contavam. Fotografias dos filhos, o como é que viviam. O meu pai a contar como é que construiu a primeira casa dele. A minha tia a dizer que na Austrália isso era inconcebível, pagar uma casa daquelas.

 

Aparece em algum momento, naquelas cartas, uma culpa por ter sobrevivido?

Na minha tia, sim. Não sei se nas cartas, mas a mim, ela disse: “Porquê eu? Porque é que eu posso visitar esta casa na República Checa e os outros não podem mais? Porque é que eu tive essa oportunidade e os outros morreram?”

 

Fez uma grande festa em que reuniu a família. A primeira reunião em décadas. Conte como foi.

Houve várias na Austrália com a família do meu pai. A festa grande com descendentes das famílias do meu pai e da minha mãe foi em 2005, aqui em Lisboa. Uma semana com conversas. Foi uma festa que eles [os meus pais, os da geração dos meus pais] mereciam ter e que ninguém teve.

Esse primo dos Estados Unidos, eu procurava desesperadamente [mostra fotografia]. Depois descobri que eles também andavam à nossa procura. Uns dez anos à procura. E então, através de uma rapariga brasileira que o encontra na galeria do Metropolitan [museu]!, faz-se a ligação entre as duas famílias. Ele tinha tios e avós, mas não tinha primos. Eu não tive primos nem avós.

 

Depois deste trabalho que tem feito, e que os seus familiares têm feito também, de maneiras diferentes, de restabelecimento de memórias, de raízes, consegue identificar o maior sofrimento, aquele que é comum à maior parte das pessoas?

Na geração do meu pai e da minha mãe, é o sentimento de perda. A perda da família, da cultura, dos amigos, das posses. Do que lhes tiraram por tuta-e-meia. Da perda e da separação. Deles todos e nossa, também.

 

E para a sua geração, qual foi o grande sofrimento?

Eu fui sempre fácil de integrar. Sinto-me um passarinho com raízes. O maior sofrimento é o de não ter uma grande família.

 

Podemos chamar-lhe a ausência de uma grande família?

A ausência de uma grande família – que sabíamos que existia, com muito amor e muito carinho, bem estabelecida. E talvez esse sentimento de culpa de que falou. Nós temos uma vida boa e eles tiveram sofrimento.

Quando há relativamente pouco tempo voltei à Bolívia, senti uma angústia enorme. Pensei nos meus pais, em 1939, a chegar, sem ninguém, sem sobrevivência assegurada. A minha mãe que ainda trabalhou em farmácia e que conheceu os funcionários do Freud. Que vivia num ambiente cultural bom. E chegar na Bolívia, com aquele clima frio, aquela cultura...

Leo Spitzer, que já nasceu na Bolívia, em 1939, escreveu sobre esse sofrimento. Hotel Bolívia, The Culture of Memory in a Refuge From Nazism é um livro de gratidão para com quem os acolheu. A maior parte das pessoas re-emigrou. A família dele foi para os EUA. Tenho duas amigas de infância que consegui localizar e que estão lá. De qualquer forma, isto também enriqueceu a cultura boliviana.

 

Tinha uma saudade grande do que deixava para trás?

Eu tive muita saudade de um lugar para o outro. Gostava do lugar novo mas tinha sempre saudade. Minhas netas, por outras razões, também estão transplantadas. Nasceram no Porto, viveram em Inglaterra e agora estão no Brasil.

A minha prima, como morou sempre na Austrália, não tem essas angústias. A minha irmã tem a família estabelecida em São Paulo; também casou com um católico. Mas a filha dela (minha sobrinha) casou com um católico-árabe! Gosto imenso dele. Casaram no religioso e pediram-me para fazer uma palestra. Na véspera fomos conversar com o padre, que não queria muito [que eu falasse]. “Isto não é costume na Igreja Católica, não se faz. Bom, leia lá o seu discurso.” Comecei a ler e quando acabei ele comentou: “Eu não vou fazer homilia, quem vai fazer homilia é você”.

 

Durante a sua vida activa, jovem mulher a formar família, este era um assunto premente? Ou só passou a ser quando começou a unir as pontas do passado?

Na verdade, o primeiro objectivo do meu livro, foi reunir todos os preciosos testemunhos e documentos recebidos após minha primeira ida à Austrália, em 1982. Senti uma enorme necessidade, obrigação, e também prazer, em reunir todos esses elementos.

A partir de então, comecei a conhecer membros da minha família que estavam espalhados pelo mundo todo. Tive encontros felizes, só ensombrados pela tristeza de estes não terem sido vivenciados pelos meus pais.

Na infância, adolescência e vida adulta, não era um assunto inquietante, até porque passei grande parte da minha vida no Brasil, onde havia muitos brasileiros da “geração zero” – como costumo dizer – ou seja, imigrantes de diversas origens.

 

Que contou aos seus filhos e netos sobre a fuga da sua família? Fê-lo em conversas, continuadas, ou sobretudo através do livro? E como é que eles reagiram? Foi diferente com filhos e netos? Os netos mais distantes do assunto, imagino… Ou não?

Para mim, crescer em época de guerra era um dado adquirido. Criança, ia tomando conhecimento dos acontecimentos, de forma esparsa, através dos comentários que ouvia dos meus pais, quando chegavam cartas, quando conferiam nos mapas dos atlas o movimento de tropas. Os meus pais iam contando algumas coisas, mais a minha mãe, e escondendo outras, designadamente o assassinato dos meus avós.

Ao longo do tempo, e sem dramatismos, fui contando aos meus filhos, e depois aos meus netos, a história da mãe e da avó. Aos meus netos, contei-lhes que estava escrever um livro para eles, mais tarde, saberem as suas origens. Fiquei muito sensibilizada com a carta que a minha neta Maria me enviou, na altura com 13 anos, e resolvi introduzi-la na segunda edição. Termina desta forma: “Pode ter a certeza que o seu objectivo de fazer as pessoas da nossa família se informarem sobre o nosso passado e sobre a nossa sorte na vida, foi completado, em todos os sentidos”.

 

No livro, editado pela primeira vez em 2012, tenta passar uma mensagem de tolerância. Foi também, e muito, para isso que o escreveu?

Sim, uma mensagem de respeito pelo próximo, herdada do meu pai, apesar do que sofreu e das perdas que teve. Não conheci ninguém mais respeitador do próximo! Este foi o segundo objectivo do livro. Gostaria que os relatos contribuíssem para fazer sentir como o mundo poderia ser melhor, se houvesse mais tolerância, mais respeito pelo próximo, mais interesse em conhecer e comunicar com os outros.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2015

 

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