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Fernando de Mascarenhas, Marquês de Fronteira

«O verdadeiro aristocrata tem consciência de que tem uma história atrás de si e é essa própria consciência da história que tem atrás de si que o faz ter uma consciência igualmente clara de que também tem uma história à sua frente. Respeitar a tradição é saber que se é um elo na cadeia e que tanto conta o que está para trás, como o que está para a frente».

Este é o pensamento de Fernando de Mascarenhas, 12º Marquês de Fronteira, expresso no «Sermão ao meu Sucessor – Notas para uma Ética da Sobrevivência». O sermão escrito e lido na Sala das Batalhas do Palácio de Fronteira em 1994, era dirigido ao futuro 13º Marquês de Fronteira, o seu sobrinho António, (que em breve atingirá a maioridade).

O que é ser um aristocrata? Quem é este aristocrata? Qual é o legado de um nobre que é, antes de mais, um elo numa cadeia?  

Fernando de Mascarenhas explicita nas próximas páginas o que o faz ser o que é, o que o faz pensar como pensa.   

No sermão lê-se igualmente: «Sê primeiro um homem e, depois, só depois, mas logo depois, um aristocrata». 

 

«Casaram, tiveram muitos filhos e foram felizes para sempre» é o epílogo das histórias da realeza. Teve a noção de ser um filho desejado pelos seus pais?

Não posso dizer que tenha tido essa noção. Os meus pais separaram-se, eu teria dois anos e meio ou três. Vivi com a minha mãe em casa dos meus avós na Rua da Emenda. O meu pai vivia aqui. Via-o três ou quatro vezes por ano. Era uma pessoa com quem fazia muita cerimónia. Que a minha mãe gostava muito de mim, era evidente. Gostava e gosta – ainda está viva. [A noção de ser desejado] foi um problema que nunca se me pôs. O que se me pôs foi o seguinte: o meu avô dizia de brincadeira que eu tinha sido comprado num jardim zoológico ou nos ciganos!

 

É uma coisa horrível de se dizer a uma criança! Normalmente são os filhos mais velhos que dizem isso aos mais novos por causa dos ciúmes.

É horrível! Eu afinava com aquilo!

 

O seu avô materno gostava do seu pai?

Tinha onze anos quando o meu pai morreu. Não faço ideia das relações que teriam tido. Fazia gosto na linhagem do neto. Devo dizer que grande parte da minha educação aristocrática vem do meu lado materno. Quando a minha mãe voltou a casar, o meu avô teve um desgosto enorme. Depois deu-se lindamente com o meu padrasto, o arquitecto Frederico George, que era um homem encantador a quem fiquei a dever muito e de quem gostava muitíssimo. Foi muito mais meu pai do que o meu pai. Conheci muito pouco o meu pai. Só no último ano começámos a almoçar juntos de quinze em quinze dias.

 

Iam almoçar onde?

À Gôndola, sempre. Entretanto o meu pai teve o desastre e morreu.

 

O que quer dizer para si fazer cerimónia?

O que quer dizer para toda a gente: era uma pessoa com quem não estava à vontade. Não era natural estar com ele.

 

Com a sua mãe, tinha uma relação de profunda intimidade.

Houve uma altura em que conseguia estar à mesa com a minha mãe e falar com a minha mãe sem mais ninguém perceber o que estávamos a dizer! Há sempre códigos de família, linguagens, expressões; era frequentíssimo meter o francês na conversa. Obviamente quando havia pessoal falava-se em francês – coisas da época e do meio. A cerimónia; tem de ser muito bem doseada, mas é necessária e útil mesmo com pessoas de quem se está muito próximo.

 

Uma espécie de decoro?

Exactamente. Não temos de nos impingir aos outros, com os nossos problemas, preocupações. Tinha essa tendência. Vivi a adolescência nos anos 60, período de grande efervescência, e lembro-me que em relação ao casamento e às relações advogávamos uma total sinceridade. Que continuo a advogar. Mas reconheço que em termos de eficácia, essa total sinceridade, que é muito bonita e desejável no plano teórico, no plano prático não é tão eficaz quanto isso. As pessoas da geração da minha mãe diziam que uma senhora não devia despir-se em frente do marido e vice-versa. Não é que tenha mudado de opinião, mas reconheço que não é tão disparatado como julgávamos na altura. Uma proximidade excessiva pode ter os seus inconvenientes.

 

Esbate o mistério?

Esse lado do mistério tem uma certa importância, porque mantém o interesse. O que as senhoras têm de fascinante é exactamente o serem incompreensíveis.

 

Tem mesmo essa ideia? Observadas do exterior não é possível encontrar a sua conexão íntima?

Tenho, tenho. É um mundo onde há pontos aos quais nunca temos acesso. Uma relação muito previsível, não tem graça nenhuma. Uma relação muito imprevisível, é difícil de viver. Duas vezes me casei, duas vezes me divorciei. Se calhar é falta de jeito da minha parte. Não foi falta de vontade de que as coisas dessem certo. As mulheres parecem compreender-se muito bem umas às outras, e eu também acho os homens de uma simplicidade infantil.

 

Quando a Maria João Seixas lhe pediu que se definisse, na entrevista que lhe fez para o Público, disse que é um sentimental. Sentimental é tradicionalmente um adjectivo do feminino. Com quem é que aprendeu a ser um sentimental?

Ah, não sei se isso se aprende.

 

Nem que seja observando.

Nasce-se sentimental e depois aprende-se a deixar de ser. Eu aprendi, aprendi à minha custa e conscientemente. Na minha adolescência dei-me conta de que se não tomasse a minha vida em mãos, facilmente nunca chegaria a ser gente.

 

O que é que isso quer dizer?

Que aos 18 anos imaginei como possível virar boémio e passar as noites nas casas de fados, bêbedo, a nunca fazer nada na vida. Eu era tão vulnerável a qualquer ligação emocional, ficava tão dependente, que deixava de existir para mim. Percebi que não tinha solidez para viver com esta minha maneira de estar. E comecei intencionalmente a cortar todos os meus afectos, a criar distâncias em relação a tudo, até chegar ao ponto em que apanhei um susto porque já não conseguia sentir nada!

 

Nessa fase em que se inibiu de amar intensamente as pessoas e as coisas, sentiu-se menos feliz?

O que acontecia na minha adolescência, é que eu era um bocadinho maníaco-depressivo: alternava entre achar que era extraordinário e achar que era uma merda. O que me criava angústia. De maneira que o que me afligiu, quando comecei esse processo, foi não sentir nada. Criou-me angústia estar excessivamente anestesiado e não conseguir voltar atrás. Mas depois consegui e de maneira bastante feliz. O controlo é quase automático. Arranjei um esquema mental e emocional em que as coisas funcionam automaticamente. Posso embarcar numa relação, entregar-me, porque sei que tenho a resistência necessária para voltar a estar de pé.

 

A não se perder de vista a si mesmo?

A não me perder de vista no outro.

 

Deixar cair as defesas quer dizer ficar refém dessa pessoa, desse sentimento?

É estar completamente à mercê. É um deixar de estar em mim. Por isso tenho muitas dúvidas sobre a importância do amor no casamento.

 

O que é o casamento?

O casamento é duas pessoas saberem viver juntas. E é dificílima, a coabitação. São muito sensatas as pessoas que vivem cada uma na sua casa. As relações têm de ser quotidianamente construídas. Não é uma coisa que se põe ali uma semente, um bocadinho de água e pronto. Bem sei que tenho tendência para escolher mulheres difíceis...

 

São as que dão luta, e são as misteriosas.

Pois é. São as que têm graça! [risos] Se a pessoa está com uma pessoa que é muito fácil, a pessoa torna-se mais egoísta. Se o outro lhe facilita a vida, tem tendência a acomodar-se. Quando somos miúdos, os nosso pais fazem tudo por nós. Enquanto fizerem, não fazemos o esforço de fazer as coisas. Quando dizem: «Agora não faço nada, fazes tu se quiseres», então vamos para a luta e aprendemos. Numa relação a dois é a mesma coisa. Uma relação muito fácil também é destrutiva neste aspecto.

 

E esvai-se a admiração e a possibilidade de potenciar no outro o seu melhor e o seu pior.

As relações que tive foram extraordinariamente estimulantes: sempre me puseram em questão. É fundamental darmo-nos com pessoas que nos põem em questão. Senão, ficamos numa torre de marfim, que não tem sentido, que não é real.

 

Ainda nessa entrevista à Maria João Seixas, dizia que como tinha os ecos da relação tempestuosa dos seus pais, prometia a si mesmo nunca tratar as mulheres como o seu pai tratava a sua mãe. Essa promessa infantil permite adivinhá-lo cuidadoso? Que tipo de homem é nas relações amorosas?

Procuro ser uma pessoas atenta, e não só nessas relações. Se eu vir que acende o cigarro, (por sinal, se quiser fumar, esteja à vontade), pego no cinzeiro e chego-o mais para ao pé de si. Não me custa nada. Mas vejo muita gente a quem isto não acontece naturalmente.

 

Essa atenção, a que podemos chamar delicadeza, é o tipo de coisa que se aprende?

Ter uma base de boa educação, é importante; mas há muita gente que tem este treino e não tem esta atenção, e o contrário também é verdade.

 

Importa-se de definir boa educação?

A boa educação é estar atento aos outros. Procurar não magoar os outros, (a não ser quando se entende que é absolutamente necessário). Depois há algumas regras que se aprendem e que ajudam a conviver em sociedade. A boa educação é o que permite às pessoas viverem em sociedade. Quem vive sozinho não precisa de ser bem educado.

 

Mesmo quando está sozinho, dá por si a fazer coisas que já não são puramente instintivas, que já estão polidas?

É capaz de me dar um exemplo?

 

Se vou na rua, ainda que não conheça as pessoas de lado nenhum, se bocejo, ponho a mão à frente da boca.

Se estiver sozinha, põe? Eu acho que não ponho. Não posso jurar, mas penso que não.

 

Foram a sua mãe e os seus avós maternos que o educaram. O que é que recorda da sua infância?

Não tenho memória da infância como período áureo da vida, mas também não tenho a ideia da infância, ai que horror! Fiz a instrução primária no Liceu Francês. O meu pai queria que eu fosse para o Colégio Militar. Eu era um menino da mamã, vivia com os avós, e o meu pai teve a percepção de que podia não ser muito saudável um ambiente excessivamente resguardado, que era importante que me confrontasse com a vida real. A minha mãe propôs um conselho de família, e chegou-se a um compromisso: fui para o Liceu.

 

Foi criado para ser o quê?

O facto de ser o representante de uma casa, e de, com a morte do meu pai, herdar um título, foi uma coisa importante na minha educação. Fui educado para ser o quê? Olhe, para ser gente. Para ser digno dos nomes que tinha, do passado da família. Não num aspecto muito formal; ou, pelo menos, depois soube libertar-me. Era mais uma coisa vista de dentro, como um padrão de comparação; a gente sabe que deve ter um comportamento sério, honesto, honroso, digno. Basicamente é isso.

 

Há sempre uma expectativa em relação ao futuro dos filhos. Não será por acaso que os filhos têm muitas vezes as profissões dos pais.

Em miúdo quis ser engenheiro de pontes.

 

Mas porquê, fazia construções com legos?

Não, na altura não havia legos. Pelo menos em Portugal não havia legos.

 

Deixe-me abrir um parêntesis e perguntar como eram os brinquedos da sua infância.

Ah, tive coisas extraordinárias. O meu padrinho [José Melo e Castro] dava-me presentes estupendos, completamente inesperados. Nos meus anos a minha mãe ofereceu-me,uma vez, uma farmácia fingida, posta num cantinho do quarto: um balcão com uma estante por trás, cheia de frasquinhos com doces e rebuçados, de cores variadas. Uns tempos antes, a minha mãe tinha remodelado o quarto e posto uma mobília verde-turquesa; (deve ter sido por isso que o primeiro carro que tive foi um Volkswagen verde-turquesa!, horrível, horrível, não tem explicação!). Havia nesse quarto uma mesa com duas rodas, e então, o meu primo e eu, virávamos a mesa ao contrário e fazíamos como se estivéssemos num automóvel.

 

Brincava sobretudo com esse primo, ou com outros meninos?

Havia um grupo, tinha uma série de primos. De manhã estava muito sozinho...; mas havia uma criada que tomava conta de mim, a Carminho. Mais tarde, a Carminho engravidou, e foi um desgosto horrível quando se foi embora. Além disso, a partir dos três anos tinha a Mademoiselle. Aprendi a ler em francês.

 

A sua mãe brincava consigo?

Viajávamos muito e levava-me à praia, com um grupinho de cinco ou seis meninos. Começámos por ir para a praia da Torre, depois Santo Amaro de Oeiras, depois Carcavelos. Ir a Carcavelos?, era um percurso louco, uma distância enorme! E passávamos muito as férias em grupo na herdade, andávamos a cavalo, fazíamos cabanas na mata.

 

Foi então uma infância muito solta. Não havia sobre si uma pressão adicional?

Uma pressão muito difusa, não se pode facilmente concretizar; mas havia uma pressão, nitidamente. Aos 14 anos comecei a criar uma certa distância em relação à família do meu pai por causa disso, para poder afirmar-me como eu próprio. Sentia que estavam à espera que fizesse qualquer coisa, que não sabia muito bem o que era. Anos mais tarde, aos 40 ou coisa assim, iniciei o processo inverso. Já tinha afirmado a minha autonomia, já não havia o perigo de quererem influenciar-me, e houve uma reaproximação.

 

Quando disse que foi educado para ser gente, quer dizer que foi educado para para ter sentimentos nobres. Uma pessoa bem educada e merecedora da história que o antecede.

Estou em contacto com um antropólogo americano que me diz que aos americanos faz muita confusão quando se olham ao espelho e vêem coisas do pai ou do avô; que isso lhes provoca uma crise de identidade. Achei muito curioso porque na minha experiência isto simplesmente não existe. Para mim é perfeitamente natural ter coisas do meu pai ou do meu avô. Apesar de terem passado 250 anos, penso que o facto de os Marqueses de Távora terem sido decapitados, ainda teve influência na minha vida.

 

Pode concretizar essa ideia?

Não é uma influência directa, é evidente. Por exemplo, [a decapitação dos Távora], que aconteceu quando a Marquesa de Alorna tinha oito anos, possivelmente contribuiu muito para o lado independente que ela tinha. A Marquesa de Alorna é a poetisa Alcipe, avó de Trazimundo e neta dos Távora. O Trazimundo tem consciência de que a sua opção política, (o lado liberal e não o absolutista), tinha a ver com esse facto. O eu ser uma pessoa de Esquerda, de alguma maneira, ainda tem a ver com isso. A minha ideia do que é a relação com o poder, (de que não deve haver excesso de proximidade), tem a ver com o facto de os meus sétimos avós terem sido decapitados.

 

No «Sermão ao meu Sucessor» fala da distância em relação ao poder. Num sistema monárquico ou republicano, o que move os homens é justamente o desejo de poder.

Sem dúvida que uma convivência muito próxima com o poder tem perigo. O poder não é uma coisa que me interesse muito.

 

Não é inebriante?

Deve ser. Nunca tive poder suficiente para o achar.

 

Há sempre os pequenos exercícios...

Claro. Mandar fazer uma coisa e ela ser feita, é útil, é agradável. Mas se o pusermos ao nível de um país, que é quando essas coisas começam a ter significado, eu sei lá o que é melhor para o país! Eu gostava que o país estivesse melhor, que a educação e a saúde tivessem outro nível, que as pessoas fossem atendidas de outra maneira, etc. Agora, como é que isso se consegue? Não tenho a pretensão de saber. Voto, voto sempre, nunca deixei de ir às urnas, às vezes para votar em branco, cada vez com menos convicção, mas não deixo de votar. Governar um país deve ser uma coisa dificílima. E deve dar um trabalho horrível. E um país como o nosso, que não é muito fácil... Não imagino o que seja governar uma coisa como a Rússia!!

 

Quando é que se descobriu de Esquerda?

Quando olhei a realidade à minha volta e pensei que vivíamos num regime opressivo. O primeiro interesse político que tive, aí pelos 16 anos, foi pela social-democracia nórdica. Estava no sétimo ano do liceu quando foi a primeira grande crise estudantil; depois entrei para a universidade e liguei-me à associação de estudantes.

 

Não era inusitado ver um nobre partidário da social-democracia?

Se calhar não era muito frequente. E fazer reuniões de oposição cá em casa... Causou um escândalo enorme! Levou a que as pessoas do meu meio me olhassem durante anos com muita desconfiança. 

 

Fazia isso como uma espécie de afronta?

Também. Mas não era essencialmente por isso. Era porque tinha obrigação. Se tinha determinados privilégios, determinadas facilidades, tinha de dar de certa maneira o corpo ao manifesto. Nunca dei muito, não fiz nada de especial, mas fiz as pequenas coisas que estavam ao meu alcance.

 

O que é a sua mãe achava?

A minha mãe não achava nada bem. Tinha muito a noção do não dar escândalo. Eu percebo; não é uma coisa que me dê prazer, dar escândalo. A pessoa deve ter uma certa discrição. Mas há certas alturas em que temos de afirmar as nossas convicções, e se der escândalo, paciência.

 

Essa militância derivava do sentimento de justiça, fundamental no modo como considera um título nobiliárquico.

Absolutamente. Se se nasce com certos privilégios, nasce-se também com certas obrigações. Toda a gente sente muito vivamente quando a injustiça é em relação a nós próprios. Alguns têm a capacidade de reflectir sobre isso quando se passa para outros.

 

Como é que sentiu na pele a injustiça?

São coisas muito miúdas... Lembro-me de um mau exemplo, porque era justíssimo. Devia ter sete ou oito anos e bati a uma criada – era uma criança um bocado arrogante. A minha mãe obrigou-me a pedir desculpa, e fez muitíssimo bem, estou-lhe muito grato. Mas custou-me os olhos da cara. Outra coisa: havia uns gémeos, filhos do cavalista da herdade; a minha mãe obrigou-me a dar-lhes uma bola de futebol. Tinha estimação naquela bola e achei aquilo uma injustiça muito grande; podia ter dado outra, podia ter comprado uma na loja, mas teve de ser aquela.

 

O dinheiro e o poder normalmente demarcam as classes sociais. Qual a importância do dinheiro na sua vida?

O dinheiro, quando se tem, tem a grande importância de não se ter de pensar nele. Foi essa a grande vantagem de ter nascido com à vontade económico: é não tertido de me preocupar muito com essas coisas. É claro que facilita: a gente tem dinheiro, pode convidar, dar bons presentes. São coisas que tornam a vida agradável, para nós e para os outros. Ter dinheiro e uma posição social de uma maneira geral facilitam as relações. Mas em certos casos dificultam.

 

No amor, há as clássicas oportunistas, a história mítica do golpe do baú.

Estive sempre consciente, desde pequeno, dessa possibilidade. Não sei se era o facto de estar consciente, e por isso atento, mas nunca tive esse problema. Não tenho a consciência de ter tido pessoas que se aproximaram por motivos interesseiros.

 

Que coisas conquistou a pulso? Imagino que tenham sido mais saborosas?

Claro que sim. Por exemplo, isso que para mim é importante de procurar não me zangar com as pessoas, de estar sempre disposto a aceitar as pessoas. Mantenho quase todas as minhas relações.

 

Ainda que tenha sido uma vida de facilidades, parece inquieto.

Acha? Mas isso é porque me está a provocar, e eu, como sou bom espectador, reajo bem a provocações. Já fui angustiado, na adolescência.

 

A psicanálise, que fez entre os 22 e os 25 anos, foi um processo determinante?

Utilíssimo. A psicanálise ajudou-me a perceber que os outros são um espelho. A grande lição que a vida tem para nos dar é essa: se a gente olhar para os outros, vê-se. E se souber ler, depois ajeita-se.

 

Porque é que escolheu o seu sobrinho António como seu sucessor?

É aquele que a transição nobre determina.

 

Tem um afecto particular por ele? O sucessor, normalmente, é o filho. E quando não é o filho, é alguém que se considera como um filho.

Quando nasceu, já sabia que seria o meu sucessor. Não é tê-lo escolhido. É prestar-lhe uma atenção particular por isso. Não tenho uma relação muito próxima, exactamente porque não é meu filho. Gosto muito do António, acho que ele gosta de mim, mas os pais são os pais. Tenho muito pudor em entrar pelas pessoas adentro, sobretudo se a relação não for de igualdade.

 

Aconteceu não ter filhos ou escolheu não ter filhos?

Aconteceu. Sabia muito novo que provavelmente seria assim. Desde pequeno que tenho um problemo endócrino. Aos 14 anos um médico nos Estados Unidos disse-me que era provável que não tivesse filhos. Foi uma coisa para a qual tive tempo para me preparar.

 

Mas dolorosa?

Sim. Houve uma altura em que tive muito o sonho de ter um filho. Se a evolução da ciência tivesse estado 30 anos adiantada, era bem capaz de me clonar. Ai sim, sim, fazer um clone. Bem, é preciso ver que sou um leitor de ficção científica...

 

Um filho não é um clone.

É como se fosse. É melhor ainda: com um clone, como somos nós próprios, fazemos menos cerimónia. Sou um bocadinho narcisista, tenho de confessar que sim... Ah, achava divertidíssimo conhecer e relacionar-me com uma pessoa que fosse igual. Mas mesmo que seja geneticamente igual, nunca é exactamente igual. A educação tem imensa importância. Se esta notícia que saiu agora [relativa ao nascimento de Eva, o primeiro bebé clonado], tivesse sido há 30 anos...

 

Não acha eticamente reprovável?

Se me disser que vai produzir uma raça de homens todos iguais, que vai produzir centenas, milhares de pessoas iguais com determinadas características, acho horrível, reprovabilíssimo. Ao nível individual, não me choca muito. Não me parece óbvio que essas pessoas não tenham identidade. 

 

Nesse caso, a clonagem seria uma maneira de contornar a dificuldade endócrina que o impossibilitou de ter filhos?

Exacto. Mas seria um desafio extraordinário a pessoa confrontar-se consigo própria... 

 

Há um Fernando Mascarenhas e um Marquês de Fronteira?

É difícil responder em rigor. Se me perguntar se seria o mesmo se não tivesse nascido marquês, não seria com certeza. Penso que teria tido uma vida diferente, teria feito muito mais para me salientar. Porque não tive necessidade. Teria sido muito mais determinado, cedido menos a uma indolência natural. Não sei o que teria feito como estudos, mas no que tivesse sido, teria sido muito melhor do que aquilo que fui.

 

Não teria ido para Filosofia, curso que apanha uns quantos diletantes...

Teria feito provavelmente outra coisa. Primeiro quis ser, como disse, engenheiro de pontes. E depois... Mas isso é que seria socialmente impensável: gostaria imenso de ter sido bailarino. Também não tinha físico para isso.

 

Lidou sempre bem com a sua imagem física?

Dentro do possível, penso que lidei bem. Em criança passei muito tempo em médicos e em hospitais, muitos exames, muitas coisas, até aos 14 anos. Tenho um sentido de adaptação muito grande. Consigo adaptar-me muito bem aos locais onde estou e consegui adaptar-me bem à pessoa que sou e ao físico que tenho. Gostaria de ser esbelto, alto, não sei quê... Se tivesse continuado a ser marquês e se, além disso, não tivesse tido os problemas endócrinos que tive, seria insuportável!, vaidosíssimo, um cagão!, uma pessoa absolutamente detestável!

 

É como se Deus escrevesse direito por linhas tortas?

Exactamente. A humildade é uma coisa que tem de se trabalhar, estudar, procurar. Poucas pessoas haverá que sejam naturalmente humildes. É uma virtude difícil de conseguir. Tenho feito alguns progressos, mas... [risos], estou longe de chegar à perfeição.

 

Qual acha que é a sua herança?

Nestas coisas das famílias e das nobrezas há dois princípios: o da casa e o da linhagem. O princípio da linhagem é um princípio mais antigo, vem desde os tempos medievais, e não exige grandes coisas: desde que se tenha filhos, a linhagem continua. Em relação ao princípio da casa, que é do século XVI, XVII, para além de manter a casa e alguns bens, é preciso também trazer de tantas em tantas gerações algum lustre à casa. Penso que trouxe algum lustre à casa, e isso faz parte do meu legado. Faço gosto nisso.

 

Tem uma forte sensação de pertença em relação a esta casa? Sente estranheza quando está muito tempo fora?

Não. Estou sempre muito bem onde estou. Depois do 25 de Abril saí daqui, pensando que não poderia voltar. Fui para Marrocos, depois para Inglaterra. Em Marrocos aluguei uma casinha, estive lá dois meses. Em Londres estive em casa de uma tia, aluguei um quartinho.

 

Custou-lhe viver com menos mordomias durante esse período?

Não. Foi um período relativamente curto. Em Londres comecei à procura de emprego, fui a uma entrevista na embaixada do Brasil. Tinha algum dinheiro, mas ia ter de começar a ganhar a vida. Gosto de voltar a casa, mas também estou sempre sem angústias fora de casa.

 

Sabe tomar conta de si?

Sei. 

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 2003

 

 

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