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Filipa Lowndes Vicente

Filipa Lowndes Vicente nasceu em 1972. É historiadora, investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. É a autora do livro A Arte sem História, sobre a presença das mulheres no mundo da arte. 

 

Há 40 anos tivemos um Verão Quente, com o país a rasgar-se. Que lhe contaram os seus pais sobre esse tempo?

Tinha dois anos e um mês no 25 de Abril. Os meus pais contaram-me mais sobre o antes do que sobre a revolução em si ou sobre o depois. Contaram-me a história de duas famílias com experiências políticas distintas. Do lado do meu pai, um avô candidato às presidenciais de 1958, Arlindo Vicente. Preso primeiro no Aljube e, depois, em Caxias. O meu pai que não conseguia ter empregos públicos por ser filho de quem era. Também esteve preso em Caxias por ter participado em movimentos estudantis.

 

Do lado da sua mãe...

O pequeno mundo cosmopolita e privilegiado do Estoril. A avó inglesa, jornalista e escritora, o avô português, correspondente do Daily Telegraph em Portugal, onde também tecia elogios às políticas firmes de Salazar. O Palmeiral, casa onde viviam, foi a casa onde num dia de 1967 uma carrinha da Pide veio buscar a minha mãe para a levar para Caxias, junto com o Teótonio Pereira e outros que estavam do lado errado do catolicismo.

 

A sua mãe, Ana Vicente, integrou o grupo dos católicos progressistas.

Só passou um fim de semana em Caxias, mas a sua politização persistiu num catolicismo crítico e participativo, e numa vida profissional dedicada à luta contra as discriminações vividas pelas mulheres portuguesas – que só depois do 25 de Abril é que conheceram a igualdade perante a lei.

 

Que sequelas temos dessa fractura ideológica?

As minhas amigas e amigos de quarenta e tal anos tanto são filhos da esquerda como da direita, com as mais diversas origens sociais e políticas. Crescemos com as marcas que essa fractura deixou nos nossos pais e, inevitavelmente, nas nossas vidas. Temos muitas outras coisas que nos unem.  

 

Diz o guerreiro Aquiles ao rei Agamémnon, na “Ilíada”: “Ah, como te vestes de vergonha, zeloso do teu proveito”. Os portugueses estão divorciados dos políticos? Que parte ocupa neste divórcio a acusação ou suspeição de que são corruptos (demasiado zelosos do seu proveito...)?

Tendo vivido metade da minha vida fora de Portugal, tenho a percepção de que existe uma cultura de desconfiança e cepticismo, mais individualista do que centrada nos interesses do bem público. Por um lado, o poder tende a atrair muitas pessoas pelas piores razões – demasiado zelosos do seu proveito; mas os portugueses também se desresponsabilizam demasiado do exercício de cidadania. Falo por mim, que, entre as pressões da minha geração de investigadores científicos – 100% de produtividade, 100% de precariedade – e as exigências da minha vida familiar, faço pouco ou nada pela comunidade.

 

Acha o discurso: “Eles são todos iguais!” uma consequência banal do estado a que isto chegou?

Eles não são todos iguais. Mas gostava que “eles” incluíssem mais “elas” e mais “nós”. Penso que muitas das pessoas que têm poder económico e político vivem alheadas do quotidiano de grande parte dos portugueses, aqueles que têm pouco poder e quase nenhuma voz. Como as mulheres de origem africana que chegam nos comboios suburbanos de Lisboa para limpar os escritórios do centro (onde muitos de “eles” trabalham); os sem-abrigo que fazem fila para comer em Xabregas e em Santa Apolónia; os que vivem em condições indignas nas pensões pagas pelo Estado; as crianças institucionalizadas a crescerem a olhos vistos enquanto tantas pessoas esperam anos para ser pais adoptivos; os que vivem em casas frias e degradadas e a ter que pensar na sobrevivência diária; aqueles que têm graves doenças mentais, muitas vezes misturadas com álcool, drogas; os que vivem com doenças terminais, sozinhos, e que morrem sem dignidade

 

Se pudesse escrever uma carta a alguém, gritar alguma coisa (um insulto, uma advertência, um conselho, uma declaração) seria o quê e a quem?

Pediria àqueles que têm poder político que fizessem da pobreza, da desigualdade, da violência doméstica e sexual, da discriminação contra as mulheres, do racismo, da xenofobia, da homofobia, da exclusão social, as suas batalhas do quotidiano. E que pensassem na qualidade da educação e da saúde em todas as fases da vida não como banalidades mil vezes repetidas e ideologicamente vazias, mas como principais objectivos e obrigações da sua missão política.

Para me concentrar apenas numa: pediria uma maior consciência feminista. Acredito que a sua prática suprimiria outras formas de desigualdade e injustiça social.

        

Matilde Campilho disse que a poesia não salva a vida, mas que pode salvar o instante. O que é que salva o seu instante?

Subir a feira da ladra ao amanhecer. Uma conversa entre duas velhotas dentro do autocarro. Uma imperial com o meu amor e/ou amigos a olhar para o Tejo ou o Atlântico ao fim da tarde. A carta da minha filha mais nova a dizer que sou a “melhor mãe alface da terra”. A minha filha mais velha a contar-me os seus segredos, quando à noite me deito ao lado dela a conversar. Os abraços amigos nas horas dificeis. O Caetano a cantar a Cajuína. O Camané a cantar os poemas de David Mourão-Ferreira. A Luz Casal a cantar desgostos de amor sul-americanos. A Virgínia Rodrigues a cantar a Bahia. A minha imaginação.    

 

Férias de Verão: dê-me uma recordação das férias de quando era criança. São um dos seus maiores tesouros?

A ronca do Farol da Barra de Aveiro a anunciar o nevoeiro nocturno. O bando de cães vadios que nos acompanhavam (a um bando de crianças) à praia porque os tratávamos bem. A piscina Paraíso do Palace da Curia, de 1934, que metia medo porque tinha cor de crocodilo. Os meus tesouros são mais pessoas e experiências do que recordações. As minhas filhas. Os meus amigos. A minha mãe, que perdi há três meses, mas que sinto e sentirei sempre em mim.  

 

Pode fazer um curto auto-retrato?

Prefiro descrever os auto-retratos de algumas das minhas artistas preferidas: Louise Bourgeois, num torso esculpido de formas estranhas; a pintora portuense Aurélia de Sousa, vestida de Santo-António; a norte-americana Alice Neel, a autorretratar-se em 1980, velha, nua, e de pincel na mão; a alemã Paula Modersohn-Becker, grávida, em 1906; Nan Goldin, Nova Iorque anos 80, a fotografar-se a si própria com as marcas da pancada que levara do namorado; Elizabeth Vigée-Lebrun, francesa do séc. XVIII, abraçada à sua filha; Amrita Sher-Gil, pintora indiana, num auto-retrato de 1934; Lavinia Fontana, retratada a escrever, entre as suas colecções, em 1579; Artemisia Gentileschi, num fabuloso "La Pittura"; e uma das minhas preferidas, a italiana Sofonisba Anguissola, no seu auto-retrato de 1556, de pincel na mão e tela acabada, a olhar para nós.  

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2015

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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