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Filipe Belém Ferreira - 40 anos do 25 de Abril

Sabes qual é o símbolo do 25 de Abril? “São cravos”, respondeu Filipe. Nasceu em 2004. Constança nasceu em 1994, Sérgio em 1974, Maria João em 1954. São pessoas iguais a nós, percursos anónimos, retratos de um tempo. Pedimos-lhes que olhassem para a revolução dos cravos e para o país em que cresceram, tão diferente do dos seus pais e avós. Portugal deixou de estar encafuado no seu mundo. Os desafios mudaram, mudou o conforto, a educação, o estatuto da mulher. Mudou a liberdade de dizer. Se o tempo fosse o da ditadura, muitas das coisas que aqui são ditas seriam queimadas por um lápis azul.

  

Sabes o que é um auto-retrato?

Um auto-retrato é sobre nós. Tenho nove anos, moro em Lisboa. A minha mãe é pintora mas já não pinta; faz livros sobre artistas no computador. O meu pai foi médico, mas desistiu por causa da sua paixão pela fotografia. Tenho uma avó que passou pelo 25 de Abril. A outra, também. Os meus dois avôs já morreram. Ando num colégio. Faço natação no Técnico. Faço judo no Lisboa Ginásio Clube. Tenho dois irmãos, o Bernardo e a Beatriz. O meu irmão tem 25 anos, a minha irmã vai fazer 20.

 

Disseste que as tuas avós passaram pelo 25 de Abril. Sabes o que foi?

Foi uma revolução nacional. Antes vivíamos numa ditadura e numa censura. Não se podia dar a opinião. Também não se podia contrariar a opinião dos governantes. O chefe da revolução é o Salgueiro Maia, das tropas. Ninguém morreu. Mas conseguiu-se [cumprir] o objectivo: a liberdade.

 

Onde é que aprendeste tudo isso?

Também aprendi na escola. Mas a minha mãe contou-me. Fui às manifestações com cinco anos e isso. Numa estava a chover, foi a pior de todas. Fui também às manifestações do 1 de Maio. Fui a outra, não sei qual era o nome, no Terreiro do Paço.

 

Quando vais nas manifestações, o que é que te impressiona mais?

É aquela multidão, as bandeiras. Estarmos a andar (que faz bem). Também queria que se conseguisse atingir o objectivo. Mas nunca se consegue.

 

Porque é que achas que as pessoas se manifestam se nunca se atinge o objectivo?

Porque têm esperança. E porque estão descontentes com o Estado, com os seus ordenados (ganham pouco, vivem mal).   

 

Estavas a dizer que aprendeste na escola e com a tua mãe sobre o 25 de Abril.

Sim, ando no quarto ano. Havia pessoas que estavam ausentes – porque não concordavam com o Governo. O Mário Soares, o... alguma coisa Cunha...

 

Cunhal.

Outro importante: o Spínola.

 

Os teus pais já tinham nascido no 25 de Abril. Que idade têm, antes de mais?

A minha mãe tem 46 anos, o meu pai tem 56.

 

Eles falam de como era antes do 25 de Abril?

É mais a minha avó. Os meus pais nunca falam em casa do 25 de Abril. Nas manifestações dizem que se conseguiu viver melhor [depois da revolução]. Agora voltámos à crise, está mais ou menos como estava.

 

O que é que a tua avó conta? Fala de como era quando tinha a tua idade?

Ah, sim. Diz que passavam fome. Com muito pouco dinheiro. Ela nunca passava fome porque tínhamos família no norte. A minha bisavó trazia muitos chouriços. Partilhavam com os vizinhos. Por isso os vizinhos do prédio não estavam tão afectados como as outras pessoas. Se calhar os vizinhos também ajudavam outras pessoas. Agora a minha avó conta mais isto porque estamos numa época que faz relembrar os tempos [passados]. E quando não tem nada para fazer, vai contando.

 

Já percebi que ouves tudo muito atentamente. Mas sabes que não é comum um menino da tua idade interessar-se por esses assuntos, não sabes?

Não, não. Todos aprendem na escola. Tenho uma turma de onze alunos, por isso as professoras têm mais paciência. Nas outras escolas, não. Algumas turmas têm 40 alunos e não estão para recapitular as dúvidas. Conta-se uma vez e não há mais. Tenho amigos que ainda estão na História de Portugal. Eu já dei os fenómenos da água, o ciclo da água... já dei tudo, a Estudo do Meio.

 

Quem são os teus melhores amigos?

O meu melhor amigo é o Guilherme, tem seis anos. É o filho do Pedro, que namorou com a minha mãe, mas já não namora. Agora é amigo. A minha melhor amiga é a irmã do Guilherme, [Carolina], que também é filha do Pedro. É como se fôssemos família. Passamos quase todos os fins de semana juntos. Às vezes eles vão para casa da minha avó. Vou muitas vezes jantar a casa deles e eles à minha casa.

 

O que é que gostam de fazer?

Gostamos de brincar, de correr. Eles também sabem andar de skate, de bicicleta. Ao ar livre, sempre! Os meus pais combinam com os deles vir aqui ao jardim da Parada [Campo de Ourique, Lisboa]; estão num café, a beber um copo, e nós aproveitamos e brincamos à apanhada.

 

É preciso que os pais confiem nos filhos, que saibam que não vão fazer travessuras, atravessar a estrada sem olhar...

Eu já estou habituado. A minha avó manda-me fazer recados. Manda-me ir ao Aníbal, ao café, em São Pedro do Estoril. Também quer que eu dê comida aos gatos, que ponha o lixo, que ponha a mesa.

 

Pequenas tarefas importantes para ti. Fazem-te sentir responsável?

É um dever. Também me mandam acender fósforos. Foi a minha mãe que me ensinou. Também me ensinou a descascar batatas. Nunca se sabe o dia de amanhã. É bom saber algumas coisas.    

 

Por falar nisso, o que é que imaginas que vai ser o teu dia de amanhã?

Vou tirar um curso. Primeiro vou fazer os ciclos todos. Se for médico especializo-me; sou dentista, oftalmologista ou fico na medicina geral. Depois, muito depois, quando for velho, vou-me reformar. Ah, e também espero que a crise acabe.

 

Pensas nisso? Porquê?

Porque dificulta muito a vida! As pessoas dizem que daqui (e eu tenho nove anos) até quando for velho, a crise vai durar.

 

Imaginas que vais casar e ter filhos?

Não sei. Sabe-se lá... Sei que vou tirar um curso e isso, mas não sei adivinhar o meu futuro.

 

Viajaste? Saíste de Portugal? E em Portugal, passeaste?

Já fui ao Porto, passei por todos os distritos [de Lisboa] a Braga. Também fui ao Alentejo e ao Algarve e passei por todos os distritos até lá.

 

No Verão, fazes férias no Algarve?

Faço férias em São Pedro, na casa da minha avó, e na Carrapateira, na costa vicentina. Fora de Portugal já fui a Madrid; é muito quente, 43 graus. Andorra é neve, mas nunca fui lá. Já fui a Itália, a Creta, à Grécia.

 

Viste o Parténon?

Vi umas colunas, um templo. Não me lembro muito bem. É bonito porque foi feito há muitos anos atrás. Em Itália, fui ao vulcão Etna [na Sicília], ao sopé. Foi muito giro. Nunca fui a Roma, mas sei que o Coliseu ainda hoje é magnífico. É muito difícil construir igual. Tinha alçapões para saírem os tigres, os gladiadores lutavam lá.

 

Sabes onde viviam os deuses?

No Olimpo, que é o céu dos gregos. É um monte de nuvens e tem um palácio por cima das nuvens. Mais ou menos.

 

Tens algum deus preferido?

O deus dos deuses é o Zeus. O filho dele é o Hércules. Gosto do Poseidon.

 

Esse é o deus dos mares, também chamado Neptuno.

Sim, mas isso é nos romanos [na mitologia romana]. Já não sei como se chama o do ar. Também conheço o mensageiro de Zeus. Há muitos mais deuses.

 

Sabes que as pessoas religiosas acreditam em Deus.

Que é mais ou menos Zeus.

 

Acreditas?, tens uma educação religiosa?

Não. As pessoas pensam que Deus é uma pessoa que toma conta e faz milagres. Mas se existisse não havia tanta morte de crianças boas.

 

Quem é que te disse isso?

O meu pai, que também não acredita. Mas é [uma questão de] lógica, não é? Há pessoas que acreditam, não podemos contrariar, mas na minha opinião se Deus existisse o mundo não seria o que é. Há pessoas pobres, que passam fome, que acreditam em Deus. Deus nunca lhes dá nada. Há pessoas que não acreditam, como eu, mas não sou pobre, tenho uma vida razoável, com comida. Antigamente as pessoas acreditavam em Deus e na altura da peste morriam. Se Deus existisse, isso não teria acontecido.

 

Se Deus não existe, como é que o mundo se formou?

O mundo não se formou de Deus. Foi de meteoritos e isso, rochas a bater há milhões de anos. Não sei lá muito bem, mas foram muitos anos a formar-se.

 

O que é que faz a tua felicidade?

Ter uma mãe de quem gosto, um pai de quem gosto, uma avó boa, ter amigos. Há pessoas que sofrem muito, com fome, e eu nunca sofri com fome. Por isso não sou infeliz, sou feliz.

 

O que é que te faz sofrer?

Se eu passasse fome ou se tivesse peste... Agora já não há.

 

Queres dizer mais alguma coisa? Gostaste da entrevista?

Gostei. Pensei que íamos falar só do 25 de Abril. Já disse o que tinha para dizer. Estiveste a gravar?

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Abril de 2014

 

 

 

 

  

 

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