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Francisco Allen Gomes

Francisco Allen Gomes é psiquiatra. Num país de supostos brandos costumes, dedicou-se a estudar o tema do sexo.

Há trinta anos, regressava de África com uma mulher e uma filha prestes a nascer. Punha-se o que ia fazer à vida. Concluiu a especialidade e ouviu o conselho de um amigo; nos consultórios, era o pânico, ninguém sabia nada de nada sobre o assunto. Fez do relatório de Masters e Johnson a sua bíblia. A sua consulta, no hospital da Universidade de Coimbra, teve assim início. A reputação de que goza, também.

Há uns meses reformou-se do hospital. Dedica-se em exclusivo aos doentes que acorrem ao consultório. Pára quando morrer ou quando deixarem de o procurar. Entretanto tem tempo para os seus livros e permite-se luxos como o de saber melhor quem o procura e porquê.

Eu fui procurá-lo porque já sabia que é um óptimo conversador. Além de saber que é um técnico excelentíssimo. Mas isso, toda a gente sabe.

Entre uma coisa e outra, ficam histórias de uma vida.

O Chico Allen gosta de datas. As datas, concluo eu, assinalam com mais precisão os factos da nossa vida, delimitam o que somos. Situam-nos, para não andarmos sempre aos papéis.

Anda pelos 60 anos. É casado e tem duas filhas. Vive em Coimbra. É um homem bom.

 

Porque é que o sexo é um assunto tão recorrente e apetecível?

Porque o sexo é sempre uma novidade. É inerente às pessoas. É uma pele que nunca se despe, que está permanentemente a sentir-se, e que preside às relações humanas.

 

Tem que ver com uma parte puramente pulsional, animal?

Não direi que é pulsional e animal. Direi que em nós ela é sempre pulsional, mas é sempre, ao mesmo tempo, cognitiva, intelectual e emocional. É um todo que está sempre a fazer-se sentir. E há alguma angústia. A angústia de saber se sexualmente se é normal, se sexualmente se é desejável, se sexualmente se está de acordo com o que é esperado. A graçola, a piada, é a maneira de falar de qualquer coisa que, no fundo, mexe com a pessoa.

 

Esta conversa fácil sobre o sexo não resulta do equívoco e da dificuldade de falar daquilo que verdadeiramente importa?

Muita desta conversa é uma forma de esbater receios, ansiedade, e de tornar a comunicação mais simples. Vai sempre um misto de brincadeira, de jocoso, um falar de outras pessoas. É muito característico falar do seu comportamento como sendo o comportamento de terceiros. A tentar perceber o que é que os outros acham.

 

De que é que lhe falam os seus pacientes? Trabalha sobretudo com as disfunções sexuais, não é?

Este ano dei-me ao luxo de investigar melhor quem me procura no consultório e porque é que me procura. A primeira coisa que constatei foi que quem me procura por assuntos de sexualidade anda entre os 10 e os 20%. Trabalho como psiquiatra com 80% das pessoas que me procuram. Mas aparecem todos os problemas ligados à sexualidade. Ultimamente até me despertam mais a atenção os assuntos relacionados com formas de sexualidade menos comuns, digamos.

 

Pode esmiuçar?

Problemas de orientação sexual, de identidade sexual, ou ligados a formas mais minoritárias de comportamento sexual.

 

A homossexualidade deixou de estar confinada a um gueto. A visibilidade e a assunção da homossexualidade são cada vez mais evidentes. Há reflexo disso no consultório?

 

Ah, uma diferença enorme, não tem comparação com o que se passava quando comecei a trabalhar. Não há mais homossexuais, mas há mais pessoas a saber que são homossexuais. Não é só a revelarem-se. É a saber que são ou que podem ser. E há uma gama mais ampla de orientação. Antigamente era simplissíssima: heterossexualidade, homossexualidade. Agora há heterossexualidade, há homossexualidade, e depois há muitas coisas. Que também não são fáceis. É fácil a pessoa identificar-se com heteros ou com homos. Se não é nem uma coisa nem outra, tem muita dificuldade em identificar-se. E os dois polos rejeitam tudo o que não é como eles. Esta plasticidade que existe em relação à orientação, existe em relação à identidade. Dantes era muito simples: homem, mulher. Agora há homem, há mulher e há muita coisa que já não é nem homem nem mulher. Tudo isto tem neste momento um espaço, que não tinha, e que é uma forma privilegiada de identificação: a inter-rede.

 

Pelo anonimato que garante?

Pelo anonimato mas também pela identificação que proporciona. E pelo esclarecimento que proporciona. Há milhares de sites. Se num motor de procura põe a palavra «Transgender», [transsexual], por exemplo, aparecem-lhe assim três mil sites. E aparecem organizações que permitem muitíssimo bem à pessoa identificar-se e perceber o que é. A informação é óptima porque é brutal. Eu tinha uma visão médica destes fenómenos; uma visão extremamente empobrecida se através da internet não tenho tido oportunidade de encontrar uma quantidade de informação que não tem nada que ver com medicina. Tem que ver com as comunidades transgender, com a sociologia transgender.

 

O sexo deixou definitivamente de ser um assunto tabu?

Apesar de se falar muito de sexo, de os media estarem enxarcados de sexo, de haver uma descompressão em termos sexuais, ainda há muita pessoa a sofrer com problemas sexuais que não pede ajuda. Eventualmente vai à internet, como há uns anos ia a uma revista. Claro que podemos fazer especulações várias: numa sociedade aparentemente tão livre, em que há tão poucos constrangimentos a nível sexual – na heterossexualidade, houve tabus que desapareceram: a virgindade, o pecado_, em que há muito mais aceitação das diferenças, porque é que não procuram ajuda.

 

Que explicação dá?

Provavelmente sentem-se tão infelizes, tão infelizes por ter problemas que não deviam ter, que até têm vergonha de pedir ajuda.

 

Já não há a culpa católica?

Muito, muito menos. No sentido em que a minha geração a viveu, seguramente que não. Pode haver um desconforto, pode haver pessoas a alinhar num tipo de sexualidade que não lhes dê muito prazer, mas supõem que toda a gente faz assim, e também fazem. Há pessoas jovens sexualmente desiludidas. Depois de uma euforia inicial, rapidamente chegam à conclusão que aquilo afinal não é uma coisa tão, tão, tão.

 

O que é que o fez decidir-se por este tema há 30 anos?

1969, estava a fazer serviço militar em Chaves, antes de ir para África; vinha a descer a Rua de Santo António, no Porto, passo por uma livraria e vejo um livro intitulado «La réaction sexuelle», autores: Masters e Johnson. Lembrei-me de uma viagem que tinha feito dois, três anos antes, com paragem em Bordéus, onde fui a uma livraria de medicina comprar livros. Vi nessa livraria uma revista lindíssima chamada «Planette», onde se escrevia que estava para sair nos Estados Unidos um relatório sobre comportamento sexual, que iria ser um segundo Kensey. [O relatório] Kensey tinha sido publicado em 48 e 53, o masculino e o feminino, e este era, de facto, o primeiro grande trabalho que iria complementar Kensey. Fiz a associação com a «Planette» e comprei o livro. Fui com a Ana [a mulher] passar o fim-de-semana a Monfortinho e comecei a ler o livro.

 

Numa primeira leitura, o que é que o surpreendeu?

A primeira coisa que concluí foi que tudo o que sabia sobre sexualidade não tinha nada que ver com o que estava ali escrito. E foi importante até em termos pessoais!, eu estava casado há seis meses! Mas depois, dali tive de ir para África, e na bagagem iam os clássicos da psiquiatria; o Masters e Johnson ficou esquecido em Portugal continental. Entretanto regressei em 1972 e punha-se o que é que eu ia fazer: acabar a psiquiatria, acabar a especialidade. Falei com um amigo meu, um psiquiatra que admiro, que me aconselhou: «Estuda coisas relacionadas com a sexualidade. É um pavor quando alguém entra no consultório com um problema sexual, a gente não sabe o que é que há-de fazer. Comprei um livro que dá montes de respostas e que te permite, estudando o livro, organizar um esquema terapêutico».

 

O livro era o de Masters e Johnson?

O segundo. O primeiro tinha sido publicado em 66 nos Estados Unidos, traduzido para francês em 68 e tinha-me vindo à mão em 69. O que era extraordinário!, não tínhamos bibliografia nenhuma! Em 72 vinha-me parar à mão um livro que tinha saído em 70. O primeiro livro era a fisiologia, o segundo era a terapêutica. Como bom aluno, estudei aquilo. Achei que era uma forma terapêutica perfeitamente possível de ser feita. E com uma colega, montámos os primeiros protocolos de tratamento e começámos a tratar os primeiros casos, exactamente no esquema Masters e Johnson, com entrevista diária com os casais – entrevista diária!, tudo gravado!

 

É incrível pensar que tudo isto aconteceu apenas há 30 anos. Quando é que mudou realmente o comportamento dos portugueses em relação ao sexo?

Tenho um bocado a mania das datas... Datas que marcam isto ou aquilo. Claro que não marcam completamente, mas as cronologias ajudam muito a compreender as coisas. A mudança significativa direi que ocorreu nos anos 90. Dou-lhe um exemplo. Ainda no início dos anos 90, colaborei num programa de rádio da TSF sobre sexo, o «Caleidoscópio Sexual». Fiz um programa sobre homossexualidade e não arranjava ninguém, ninguém; as pessoas não queriam revelar-se. Nessa altura exacta, o PSR funda um núcleo homossexual e deram-me o telefone do líder do grupo, que veio de Lisboa; no programa a seguir veio uma lésbica, catalã, foi o que se arranjou. Hoje não teríamos qualquer dificuldade.

 

Para além da oportunidade, sentiu que era um tema apaixonante?

Sim. Houve uma altura, que coincidiu com 1987, em que comecei a sentir algum incómodo. Já levava 12 anos de trabalho, já era bastante conhecido na área, e pensei em pegar noutras coisas da psiquiatria.

 

Porque é que sentiu o desconforto?

Havia a ideia de que a sexualidade era assim uma coisita, que a sexologia não era uma coisa assim muito importante, que as pessoas podiam ser um bocado mal vistas ou vistas de maneira sensacionalista.

 

Sentiu que não o reconsideravam enquanto académico?

Não, não, nunca tive problemas. Além da consulta, tinha um curso de introdução à sexologia médica na faculdade de medicina, com autorização do conselho científico e colaboração de parte significativa do corpo docente. De 76 a 86, no mês de Maio, o curso era aberto, intensivo, livre, cinco noites por semana. Não havia um lugar livre no anfiteatro, nem nas escadas! Hoje está tão às moscas como os outros... Mas achei que precisava de outro apelo, que aquilo se me estava a colar demasiado à pele. Que o sexologista estava a abafar o psiquiatra. Mas depois, ao contrário, achei que a sexologista era vastíssima.

 

Os cursos estão às moscas porque a realidade é completamente diferente. Vivemos submergidos pela presença do sexo.

Nos últimos quatro anos houve uma mudança aparatosa ao nível da investigação: a medicina descobriu a sexualidade. A medicina e a indústria farmacêutica.

 

Coincide com o Viagra?

Claro. O problema da sexualidade é hoje importante na oncologia, nas doenças cardíacas, na medicina interna, na diabetes. Os médicos, não os psiquiatras, mas os investigadores, entraram na sexologia.

 

Era de prever que o Viagra introduzisse estas alterações? A questão do dinheiro, em especial na farmacologia, não é nada despicienda.

Não sabia que iria ter o impacto que teve. Mas, voltando às datas, 1998 é uma data lindíssima: marca o fim, em termos de sexologia, dos anos do homem, e o início dos anos da mulher. A partir daí, toda a estrutura de investigação se virou para a mulher.

 

Porquê a sua tara pelas datas?

Não sei, mas é uma coisa tremenda. Fui no liceu um mau aluno, um aluno muito sofrível, excepto numa disciplina em que era uma barra, História. É engraçado verificar a coincidência das coisas: no ano de 1960 foi lançada a pílula contraceptiva no mercado mundial; marca o fim do modelo reprodutivo do sexo e o início do modelo prazenteiro. Também em 1960 aparece na universidade de Coimbra a «Carta à jovem portuguesa». Em Portugal era proibido prescrever a pílula, excepto para estimulação da fertilidade; havia quem receitasse, obviamente.

 

O que era a sua vida em 1960?

Era difícil em determinados aspectos. Já agora, para ir a mais datas, em 1960, o fim da prostituição legalizada em Portugal.

 

Há uma relação entre a primeira e a segunda parte da sua resposta?

 

Perguntou-me qual era a minha vida em 1960, penso que se estava a referir à minha vida afectiva e erótica...

 

Por acaso estava a pensar na vida toda.

Era estudante, essa parte era fundamental. Estávamos nesta conversa, estava a falar-lhe da «Carta à jovem portuguesa»... É evidente que para um jovem da minha idade, o grande escape era a prostituição.

 

Era normal que a iniciação fosse feita assim.

Sim, sim.

 

E era normal que casassem cedo porque era a forma de ter sexo regular.

Absolutamente. Compare um casamento dessa altura com um casamento dos dias que correm; quando casávamos, iniciávamos uma explosão de sexo. Hoje quando se casam, já o sexo vai..., puff, por aí abaixo, já vai domesticado, sonolento, já não é novidade.

 

Mas eu estava a pensar na sua vida toda.

Eu sou um alentejano de Mértola, de onde saí com nove anos de idade para um colégio interno no Estoril, onde estive oito anos. Que foi óptimo, magnífico.

 

Era um colégio de jesuítas?

Era um colégio laico. Teria 200, 300 alunos, dos quais 100 seriam internos. Tinha um edifício central, uma vivenda apalaçada, onde havia aulas, onde se comia, e depois tinha vivendas espalhadas pelo Monte Estoril onde ficavam os alunos internos, de acordo com a sua idade. A vivenda do sexto e sétimo ano não tinha ninguém a tomar conta, não tinha prefeitos, e os alunos podiam sair à noite, podiam ir tomar café. Já viu?, anos 50!, uma coisa destas! Ou seja, à medida que íamos crescendo, íamos tendo privilégios. Não havia camaratas, mas quartos para três, quatro pessoas, e havia um aconselhamento fortíssimo da parte dos responsáveis a não fechar nada à chave: não havia roubos.

 

Como era o Estoril nessa altura?

Tudo aquilo era extremamente familiar, tranquilo, bem arranjado – embora tivesse grandes bolsas de miséria para cima, para a zona de Alcabideche. Assisti à transição desse Estoril para o outro Estoril. A transição é marcada pelo primeiro Carnaval, com um desfile de um corso gigantesco, onde vinham estrelas de cinema. O rei do primeiro Carnaval, quem era? Era o Fernandel!, um francês que representava em França o que o Totó representava em Itália. Tenho ainda para aí espalhados autógrafos de várias personalidades – eu ia atrás dos autógrafos! – entre os quais um da Martine Carol, que era um mulher espectacular. A cisão da Sociedade Estoril provocou uma modificação enorme na vila, que teve reflexos no colégio.

 

Como assim?

Não era um colégio religioso; mas o director era um homem cheio de princípios morais, de honestidade, de seriedade. Meninos muito bem-educados, que em qualquer sítio se podiam ver porque não se metiam nisto nem naquilo. E a certa altura, começámos a violar regras, a violar regras. Perdemos a cabeça. Apareciam mulheres lindíssimas, estrangeiras, biquinis de todos os lados... Enfim, perdemos a cabeça.

 

Ainda que tenha gostado muito do colégio, não teria preferido viver com os pais?

Só ia a casa no Natal, na Páscoa e no Verão. O colégio era a casa. As cartas, a ligação a casa, tudo isso era mantido; ao mesmo tempo não havia um conflito próprio da relação pais-filhos: naqueles quinze dias de férias era tudo muito bom. Lembro-me de, quando ao fim começavam a surgir pequenos atritos, o meu pai dizer: «Estás a precisar de colégio como de pão para a boca». O meu rendimento também foi afectado por toda aquela transformação no Estoril. Era um aluno que ia passando, ia passando, mas quando cheguei ao sétimo ano já não passei. Fiz três das seis disciplinas e no ano seguinte fiz uma. Aí o meu pai disse: «Acabou-se a colónia balnear do Estoril Praia. Vais para Coimbra». Não faz ideia do choque que foi quando cheguei a Coimbra.

 

Que mundo foi esse?

Achava tudo horroroso. A praxe, a coisa mais absurda deste mundo – andei o primeiro ano sempre rapado. Os Bichos, (estudantes de liceu) e os caloiros, não podiam sair depois das seis da tarde. Eu saía sempre e era rapado.

 

Como é que entra em Medicina se é um aluno sofrível?

Nessa altura entrava toda a gente. Era muito difícil, por exemplo, entrar em Direito.

 

Porque é que quis ser médico?

Ah, sempre quis ser médico. O meu pai era médico, tinha uma grande admiração por ele. O meu pai era João Semana. Se for ver a Mértola, lá tem a Rua Dr. Manuel Francisco Gomes. A minha mãe era de Coimbra, doméstica, tão doméstica que era capaz de passar meses sem sair de casa.

 

Já que gosta tanto de datas, se tivesse de apontar uma outra data que marca um momento fundamental na sua vida, o que é que lhe ocorre?

1974 é uma data sempre importante, é incontornável.

 

Teve algum envolvimento político?

Não. Mas em 1975 fiz parte do conselho directivo da faculdade de medicina; era o porta-voz nos plenários. Ser membro de um conselho directivo, (eleito pela esquerda, obviamente), eleições que tinham de ser ratificadas em plenário; os plenários estavam cheios, com os vários agrupamentos políticos, numa altura complicada em que havia coisas como saneamentos. As cicatrizes brutais e rupturas inter-pessoais que um processo desses pode determinar... E depois a ressaca.

 

É em situações limite que as pessoas se revelam na sua mais pura essência.

Claro. Foi um período importante e moldou muito a minha personalidade.

Era muito difícil o ambiente que se vivia, exigiu um grande esforço de diálogo.

 

E conciliação?

Quando a palavra conciliação era proibida.

 

Porque a sua imagem é a de um homem conciliador, inspira segurança e confiança.

Penso que tem muito que ver com o estatuto que se adquire, com a pele que acaba por se nos colar. Eu sentia-me uma pessoa extremanente insegura. Quando retomei as minhas funções de assistente universitário sentia uma ansiedade horrível antes das aulas... Uma ansiedade quase patológica por falar para pequenos públicos. Isto em 73. Agora veja lá em 75 ser porta voz em frente de um plenário!

 

Como é que venceu a insegurança?

Tive de me expor brutalmente. Fiz auto-terapia.

 

Ou seja?

Elaborei um protocolo para mim. A estratégia passava por expôr-me. Com um êxito extraordinário, devo dizer. Eu sabia que tinha de me expôr. Mas como é que havia de me expôr? (Nunca contei isto em público...) Houve um seminário conduzido por um inglês sobre terapia de comportamento no Hospital Júlio de Matos; qual era a estratégia? Ele acabava, «Há perguntas?», e eu punha o braço no ar! A partir daí, os dados estavam lançados, tinha de falar. Fiz isso sistematicamente, sistematicamente...Uff!

 

Com imensa dor, ao princípio?

Ah, sim. Julgo que ninguém se apercebeu. Pelo contrário, devem ter pensado que eu era aquela pessoa que conheciam, brincalhão, sempre a contar histórias, e a falar, falar demais! Se dissesse que tinha dificuldade em falar em público, as pessoas riam-se todas! Se dissesse que tinha uma ansiedade enorme, as pessoas riam-se todas! Mas eu sabia que a tinha. Claro que não tinha de a divulgar; tinha era de tratar do meu problema. E tratei.

 

Nunca pensou procurar ajuda? O seu processo foi de auto-ajuda. Não me refiro apenas ao problema específico de falar em público.

Não. Isso aconteceu logo depois de vir de África, em 72. Havia uma certa inibição... Até porque estávamos todos a aprender... Depois os plenários resolveram definitivamente o problema.

 

Como foi a sua vivência em África?

Estivemos em África 27 meses – a minha mulher estava comigo – , sempre no mato. Durante 19 meses estivemos isolados. Nos outros oito meses estivemos numa terra que tinha 300 ou 400 habitantes, não havia o arame farpado, havia um comboio, podia meter-me no comboio e ir a Nampula. Era médico do Tabaco, do Banco Nacional Ultramarino, era delegado de saúde. Havia uma coisa muito característica da geração que estava em África: não se falava disso. Não se falava antes de ir, não se falava depois de vir.

 

Não se falava especificamente do quê?

Da Guerra.

 

Isso quer dizer que não se falava do medo de morrer?

Não é isso. Era uma experiência anunciada. A partir de primeiro ou segundo ano de medicina sabia perfeitamente que quando acabasse o curso, ia. Todos os anos ia com as minhas cadeiritas mostrar que tinha passado de ano, para poder continuar a estudar, para poder ser médico, para poder ir como médico. Mas sabia que era infalível ir. Portanto, não se falava. Os que vinham, entravam na sua vida, e os outros já sabiam que também acabavam por ir. A primeira vez que falei em público da minha experiência de guerra foi o ano passado na Ordem dos Médicos. Foi a primeira vez que levei um texto escrito.

 

Doeu-lhe?

Ah, doeu-me imenso, imenso. Nos últimos tempos em África, todas as manhãs, a única coisa em que pensava era «Como é que vai ser quando voltar?, Terei o meu lugar? Chego em Junho e volto a dar aulas?»

 

O lugar a que se refere era o posto de trabalho, ou, mais do que isso, era o seu lugar numa sociedade em mudança?

O lugar no trabalho, que era muito importante. A minha mulher estava grávida, a minha filha nasce em 72. O lugar era o de um assistente, e com isso não se vivia. Havia a carreira médica hospitalar, que tinha começado quando eu estava na tropa; ainda podia tentar. Em termos técnicos, são três anos perdidos. A experiência clínica africana? Infecções, diarreias, ferimentos, as coisas que por ali havia.

 

E o medo?

Numa fase inicial, sim, depois tornou-se secundário. Medo físico, não. Havia o medo de sujar as mãos. Há o sujar as mãos porque uma pessoa faz uma coisa que suja as mãos. E há o ver uma pessoa que suja as mãos e calar que essa pessoa suja as mãos; também não se vem com elas muito limpas... Felizmente, nunca se verificaram situações desse tipo; mas perto de mim, sim. Tudo depende do comportamento das unidades, e tudo depende da força das circunstâncias.

 

A pessoa quando vem, vem com uma história. É comparável àquilo a que se assiste nos hospitais? É mais duro assistir a situações que mexem com honra e dignidade do que assistir a situações físicas limite?

Sim, sim, absolutamente. Primeira situação terrível: ver chegar uma série de homens sem pernas ao quartel, pessoas que conhecia, e estar ali, a mexer-lhes na carne, a tentar mantê-los com vida até que chegasse um avião que os evacuasse. Claro que isto é traumático. É emocionalmente traumático, mas não é moralmente traumático. Ao passo que estas pequenas coisinhas, eram traumáticas. E estar sempre a ouvir, ouvir, ouvir.

 

A sua vida profissional parte do ouvir. A cura faz-se pela palavra?

Não só pela palavra, mas sim, a palavra é muito importante. A gente receita-se com o medicamento, a gente também vai lá dentro. É o que chamamos de «factores inespecíficos de terapêutica», e que são a relação muito especial que se estabelece com uma pessoa. É o êxito do nosso trabalho. Eu adoro fazer clínica. Deixei o hospital mas não deixei a clínica. Só deixarei de ver doentes quando morrer ou quando deixarem de me procurar.

 

Na multiplicidade e diversidade de histórias que ouve, o que é que o comove mais intimamente?

Aquilo que considero ser uma das minhas qualidades, no contacto com os doentes, é raramente fazer um juízo de valor.

 

Não é difícil?

É.

 

Em casos de pedofilia, por exemplo.

Há situações que recusei. Justamente porque estava a fazer juízos de valor. E outra qualidade é nunca sentir desprezo. Nunca senti que eu era a pessoa saudável e aquele tipo o desgraçado. O Andre Malraux, nas suas anti-memórias, faz uma conversa com um padre de uma zona montanhosa, agreste, de onde ele, Malraux, era natural. E pergunta: «Ó Padre, que é que lhe ensinaram quinze anos de confissão?». O padre pensou e disse: «Em primeiro lugar, que as pessoas sofrem muito mais do que se julga. E depois, que não há grandes pessoas. Não por serem excessivamente perversas. Mas porque, de facto, se sofre muito».

 

É a sua visão?

O ser humano é um ser que sofre imenso. E tem que sofrer: o humano é a construção mais cruel da natureza. Nasce com um handicap horrível: primeiro, sabe que inevitavelmente morre; segundo, não sabe quando; e terceiro, não sabe o que lhe sucede depois que morre.

 

Eu acrescentaria um quarto: não sabe o que lhe acontece até morrer.

Já viu?, temos de viver com isto. Por outro lado, há quem diga que a natureza humana é má. Eu digo: «Quem quiser ver como a natureza humana é boa, é assistir ao casamento de dois jovens».

 

Como assim?

Vão fazer uma ligação que a maior parte das pessoas sabe como vai terminar. Eles mesmos, quando estão na igreja, sabem bem da vida: sabem que o pai e a mãe se divorciaram, que os amigos se divorciaram. Mas quando estão a dizer o sim, com toda a pompa e toda a jura, estão convictos de que com eles vai ser diferente. E isso é extraordinário.

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 2002

 

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