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Francisco Murteira Nabo

Por vezes, parece um homem que não saiu do seu lugar. Como se o sucesso não lhe tivesse acontecido e ele fosse o Chico que prossegue o negócio do pai.

Fala, mas sem especial entusiasmo, sem trazer os cheiros, do tempo em que o pai o acordava de madrugada para irem à feira. E podia falar do barulho da carroça, do toque da cortiça, das narinas muito abertas dos animais.

Três e meia da tarde. Quando começámos, a música é ainda a do Alentejo. Ele sabe que tem sotaque quando discursa, lendo. Eu apontei-lhe a “falta”: que discursava, ainda. Posava, ainda. Posava sem saber que retrato era o que eu procurava.

Mas não tardou a perceber. Ele percebe muito bem. Tem uma esperteza inequívoca, que não é nada saloia. Se fosse saloia, não teria saído de Évora e hoje venderia a retalho. Percebeu que ângulo era o meu e insistiu em não posar. Tem a íntima convicção de que ter o coração ao pé da boca, que muitos consideram uma debilidade, é um dos seus segredos.

É um homem a quem a vida correu bem porque teve ambição. E está tão tranquilo em relação a isso que não tem pejo em afirmá-lo. Não pretende ser o humilde, o pobre moço a quem saiu a sorte grande. Não, não. Ele sabe que isto se faz de sorte. De competência. De ciclos políticos. Conhece as regras do jogo: sabe que está em cima quando os amigos socialistas estão no poder. E creio que posa, apenas, quando diz que a oposição, ou seja, o PSD, poderia chamá-lo para uma coisa ou outra… Ah, esperamos gestos magnânimos?, ironizo eu.

Francisco Murteira Nabo espalha os documentos que traz na carteira sobre a mesa, dispõe as cartas. Rapaz avisado, nunca põe os ovos todos no mesmo cesto; quer dizer, documentos de um lado, dinheiro do outro. Insiste na paixão pelos livros (terá sido isso, mais que tudo, a mudar a sua vida?), do admirável mundo novo que estes lhe trouxeram. Do Huxley e dos movimentos que marcaram uma geração.

Em tempos ele foi hippie (não consigo imaginá-lo de guedelha crescida e roupa de 15 dias no corpo. Mas alguém imagina?). Na conversa traz a libertação sexual do Maio de 68. Já antes disso, eu falara d’As dioptrias de Elisa, do escritor maldito Gancho, que foca o tema do desejo. Mas ele passou ao lado. Tenho a impressão que não o fez de propósito; que é o tema que o desinteressa.

O tema da vida de Francisco Murteira Nabo é a ascensão que protagonizou, e da qual sente vaidade. É um contente da vida, sabe que ela lhe correu bem. 

 

Começamos por algum ponto em particular, para falar de si?

Como é que comecei a minha vida, não?

 

Nasceu em Évora.

Se sabe a minha vida toda por que é que quer saber mais? Pois é, nasci em Évora em 1939. A minha mãe é de Reguengos de Monsaraz, o meu pai é de Montemor-o-Novo. A minha mãe era de uma família relativamente rica, proprietários de terras e ganadeiros, e o meu pai era um trabalhador rural.

 

O que é que sabe da história de amor dos seus pais?

O meu pai era um homem bonito, tinha mota, usava bigode, mas um trabalhador rural. O meu avô (materno) era de uma família latifundiária, já na fase decadente da agricultura; e a minha mãe era menina prendada de boas famílias. Era daqueles amores difíceis de convencer os pais e os avós. Mas acabou por ter sucesso.

 

A menina prendada impressiona-se com este rapaz garboso, que usa bigode e tem mota – o que não era comum num trabalhador rural. Quando casaram, passaram a viver de quê?

O meu pai arranjou um negócio ligado a vinhos e cereais. Curiosamente a família da minha mãe, que era muito rica, foi perdendo importância económica, e o meu pai, que era pobre, acabou por ter uma ascensão e transformar-se num proprietário classe média. Foi ele a apoiar a família da minha mãe. O negócio: comprava por grosso e exportava, fazia a ligação entre o campo e o mercado. Com muita dedicação, humildade. O sucesso de meu pai deve-se à capacidade de conseguir gerir em grande dificuldade.

 

Diz “de meu pai” e não “do meu pai”? Era assim que se dizia à moda antiga e à alentejana?

A gente dizia “do meu pai”... Eu só tenho sotaque alentejano quando me zango. Ou quando discurso, lendo, não falando. Uma vez estava em Macau a fazer um discurso, e uma senhora, minha colega de infância, diz-me assim: “Tem um sotaque alentejano quando lê.”

 

Agora tem um bocadinho, o que significa que ainda está a discursar.

Ainda estou a discursar. Não estou é zangado.

 

Há um aspecto que me interessa na história do seu pai: se ele não procurou, nessa perseverança, mostrar à família da sua mãe que era digno dela.

Naturalmente terá havido um grande desejo de mostrar sucesso. Vindo de baixo e de uma vida difícil, queria mostrar que era capaz.

 

Foi ele que o ensinou a gerir o dinheiro?

O meu pai era um homem de sucesso e queria que eu seguisse a vida dele.

 

Comerciante?

Armazenista e comerciante. Tenho duas irmãs, e na época as mulheres não continuavam os negócios dos pais. Eu tinha vontade de estudar, era um bicho de bibliotecas. Sempre tive grande ambição de conhecer, de ler... Quando acabei o curso da Escola Comercial quis continuar, em Lisboa e no Porto, e o meu pai disse: “Fazes mal, era melhor ficares aqui, alguém tem que continuar esta coisa...”. No fundo, o meu pai, que me levava todas as manhãs quando ia comprar coisas, gado, cereais...

 

Ia com ele às compras todas as manhãs, ou apenas nas férias?

Todas as manhãs. Às cinco da manhã, seis da manhã, passava pelo meu quarto e ia com ele até aos montes.

 

Como é que ele lhe chamava?

Chico. Eu teria os meus 14 anos, 15, por aí. Saí da terra com 19. Procurava estimular-me a vontade de ficar no negócio, mas eu tinha vontade de sair. Acabei por ter uma discussão com o meu pai e depois concertámo-nos. De algum modo, herdei as características de um homem ligado à empresa. Gostava de ler livros e tal, mas o curso empresarial e a vida económica sempre foram coisas de que gostei.

 

Já vamos à economia e ao curso. Ainda a propósito dos livros: leu um livro do António Gancho que se passa na Praça do Giraldo, As dioptrias de Elisa? Numa linha, trata o tema do desejo e de como ele altera a vida das pessoas.

Não li. Mas conheço.

 

É um livro raro. O Gancho morreu há pouco tempo, estava na Casa de Saúde do Telhal.

O que li foi a tese do José Cutileiro sobre a vida no Alentejo nos anos 30, por aí. Marcou-me muito. Ele escreve de uma maneira muito real aquela vida, a sociedade.

 

Reviu-se nesse retrato que Cutileiro fazia?

Revi o Alentejo, a gente identifica-se com aquela descrição. A sociedade era muito estratificada, muito difícil o acesso. Nos meus tempos de escola houve um ou dois alunos que continuaram os estudos, os outros ficaram pelo caminho.

 

Consegue perceber por que é que, num meio como esse, gostou sempre de estudar e de ler?

Não sei bem. A minha mãe não tinha grande instrução, o meu pai também não. Eu era considerado um dos atletas lá daquela época, mas conseguia conciliar isso com um grande interesse pelos livros. Ia para a Biblioteca Municipal, que era junto ao Templo de Diana.

 

Mas isso há-de vir de algum lado. Não havia televisão, eram tempos austeros, mesmo os que tinham que comer, só comiam bolo em dias de aniversário. Como era a professora primária?

Professor. Havia umas revistas de desenhos animados levadas pelo professor primário, que me dava a mim a preferência de ler. Ele gostava muito de mim: eu levava-lhe uma garrafa de vinho, todos os dias, para o almoço. Fazíamos uma espécie de troca. Talvez seja daí, desse professor da quarta classe, que tenha vindo essa ligação.

 

O que é que nessa altura, contrariando as expectativas do seu pai, queria fazer à sua vida?

Não sabia bem o que queria ser. As pessoas mais ricas iam para o Liceu. O meu pai achava que nós éramos de uma classe pobre e meteu-me na Escola Comercial, a mim e às minhas irmãs. Caí na economia, não tinha grandes escolhas. Mas acho que escolhi bem.

 

Não se saiu nada mal na vida, convenhamos.

Não é de economia que eu gosto. Gosto de economias de desenvolvimento, e entrei na gestão.

 

Estabeleço um paralelismo entre a sua história e a do seu pai. Como ele, perseverou para mostrar que era capaz. Que podia ter sucesso longe do armazém, vingar em caminhos escolhidos por si. Faz sentido?

Faz. Embora ele já não assistisse a isso. O meu pai morreu quando eu estava a acabar a faculdade, em 68. Sempre foi um homem doente, tinha asma, bronquite, vários problemas pulmonares.

 

Nessa altura, ele já acreditava em si?

Já, já. Tinha uma grande estima e admiração por ele, e acho que ele também tinha por mim. Não manifestava muito, era reservado. E pagava: eu estava em Lisboa, num quarto, que saía do bolso do meu pai... Quanto a dinheiro era muito cuidadoso, não gostava de esbanjar.

 

Sovina?

Não posso chamar essa palavra, mas era muito rigoroso. Era solidário, dava tudo o que pudesse fora da família; com a família era mais cuidadoso.

 

Tinha pensado começar por lhe pedir que me mostrasse a sua carteira, e daí saber como faz a gestão do dinheiro. Posso ver a sua carteira?

Pode. Não me recordo onde é que a comprei, mas é velhota, como vê. É basicamente uma carteira de cartões, carta de condução, identificação fiscal, grupo sanguíneo, bilhete de identidade, coisa da saúde e o cartão do golfe.

 

E o dinheiro, não tem aí?

Nunca uso dinheiro aqui, uso no bolso lateral do casaco.

 

Solto?

Sempre solto. Nunca anda dentro da carteira: se perder uma coisa, não perco as duas.

 

Homem prevenido. Aprendeu com o seu pai, isso de separar as coisas?

Não, aprendi ao longo da vida. Acho que não posso pôr tudo no mesmo saco, tenho que ter o cuidado de dividir o risco.

 

É válido para tudo? Não pôr os ovos todos no mesmo cesto…

Sim. Ando com as coisas espalhadas por vários sítios; não é necessariamente pensado, é por ser prático.

 

É possível fazer um exercício de extrapolação e perceber se politicamente, profissionalmente, afectivamente, nunca depositou os ovos todos no mesmo cesto?

Eu sou um homem de compromisso. Só faço rupturas quando não posso evitá-las. Como é que isso liga com o que me está a perguntar? Não sei se posso ligar as duas coisas. Não sou uma pessoa que preveja as coisas, planeada.

 

Ah, não?

Não, sou muito improvisador, gosto de uma certa anarquia.

 

É muito português, nesse sentido. Os portugueses são mestres na arte do desenrascanço.

Não digo que seja desenrascanço… Como profissional sou organizado, sei muito bem distinguir o que é importante do que não é. Agora, na minha vida não sou organizado. Uma das coisas que tenho com a minha mulher é que ela gosta de dizer assim: “Depois de amanhã vamos ao cinema”, e eu gosto de dizer: “Queres ir ao cinema daqui a duas horas?”.

 

E sozinho, também vai ao cinema?

Geralmente não vou.

 

Estava a perceber se é completamente gregário ou se existe bem sozinho.

Não sou muito gregário, gosto de alguma solidão. Quando estou em grupo sou muito comunicativo.

 

Dizem que nos jantares é sempre muito bem-disposto, rodopia de mesa em mesa, faz a festa.

Faço amigos com facilidade. Não tenho assim coisas a esconder, sou muito aberto. É uma das minhas riquezas, há quem diga que é uma das minhas debilidades: falo sempre com o coração ao pé da boca. Digo o que tenho a dizer.

 

Voltando à gestão do dinheiro e à influência do seu pai: não percebo completamente qual é a importância do dinheiro na sua vida. O dinheiro ou o que se pode conquistar com ele, nem que seja uma ascensão social.

Sou muito ambicioso nessas coisas. Não tenho a ambição da riqueza, mas tenho a ambição de estar bem e que as pessoas sintam que tenho sucesso. Tenho essa vaidade. Sempre gostei da ascensão. Não sei se posso dizer isto…, mas tenho características de liderança. Desde gaiato. Chefe de turma, era sempre, quando os professores iam embora, eu é que ficava a tomar conta. Fui sempre escolhido como pessoa responsável.

 

Porque é que o escolhiam?

Tem a ver com a capacidade de comunicar, mas também com a forma de me posicionar. Uma das razões da minha ascensão social, tem a ver com a ambição, com a vontade de singrar, fazer por mostrar que... Sou o primeiro caso de licenciatura na minha família, há aqui uma vontade de ter sucesso, isso há.

 

Então, em Macau quando foi governador sem ser, o facto de não ter sido explicitamente nomeado, foi muito desagradável para o seu ego ambicioso?

Sou encarregado do governo numa situação ocasional, não era expectável. O senhor Presidente da República reconhece que sou a pessoa mais indicada. E depois não sou governador efectivo porque, na época, o senhor Presidente da República achava que este tinha que ser um militar. Mas também não lutei por isso, devo confessar.

 

O que eu perguntei foi se isso o magoou. Se tocou a sua vaidade.

Percebo o que diz. Foi-me explicado, e eu entendi, que a solução não passava por mim; passava por razões que não têm nada a ver com competência. Por razões de natureza política. Se me pergunta se fiquei magoado, não fiquei magoado. Agora, se calhar, teria gostado de ser Governador.

 

Diz que é ambicioso, que tem vaidade no seu percurso. Sublinho isto porque são poucas as pessoas que o dizem de um modo tão natural.

Se não fosse a minha ambição não tinha chegado onde cheguei. Claro que houve um conjunto de circunstâncias favoráveis, que isto na vida é sempre assim: a gente pode ter as maiores capacidades e as coisas não se proporcionarem. Também acho que sou competente. Não tenho problemas em dizer, é assim mesmo.

 

Disse-me que aconteceram coisas extraordinárias na sua vida no ano de 68.

É o ano em que o Salazar cai da cadeira. É o ano em que entro na Marconi. É o ano em que caso. É o ano em que o meu pai morre. E é o ano da revolução em França.

 

A libertação sexual do Maio de 68, a libertação política com a queda de Salazar, a definição de um quadro de vida conjugal e profissional, a morte de uma figura estruturante: sim, são muitas revoluções para um ano só.

Ao mesmo tempo, todas estão ligadas. Na crise académica de 64-65 eu era vice-presidente da Associação Académica, de Económicas, e fomos todos expulsos da universidade; nesse ano, vou para a Noruega, onde estou uns meses, fazer um estágio para estudantes.

 

Uma espécie de Erasmus?

Era uma coisa chamada AIESEC (Association Internationale des Étudiants en Sciences Economiques et Commerciales). Isto marca-me muito porque vivi a democracia na Noruega em 64-65 e no regresso vou trabalhar com um conjunto de pessoas de esquerda, progressistas, que não eram a favor do regime. É uma das pessoas desse grupo que me leva para a Marconi.

 

A Noruega foi a primeira vez que saiu de Portugal?

Não. Vivi o movimento hippie na sua plenitude. Em termos filosóficos, com o Huxley, o “peace and love”. Ia passar as minhas férias fora, para a Holanda, para a Dinamarca…

 

E ia com que dinheiro, se posso perguntar?

Com os dinheiros que o meu pai me dava, coitadito. O movimento para mim é mais filosófico e cultural do que propriamente de revolta sexual. E estas ligações, à Marconi e às telecomunicações, e à gente de esquerda, marcam a minha formação e o meu futuro. Marcam as minhas ideias, a forma de estar, a forma de pensar.

 

Tinha intenções políticas?

Nunca fiz política. Mesmo quando fui expulso da universidade, foi porque pertencia ao movimento académico; e era do movimento académico apenas por achar que Salazar era um atrasado mental. E que não se ia a lado nenhum com a guerra colonial. Essas coisas começaram em mim na Noruega. Adiro ao Partido Socialista muito mais tarde, em 75.

 

Tinha quantos anos quando se operam todas essas revoluções, em 68?

Não chegava a 30 anos. Nunca fui muito namoradeiro. Sempre fui um tipo muito ocupado. “O Chico namora a Manela”, e o meu amigo dizia: “o Chico não tem tempo para namorar”. Eu conheci a minha mulher em 64-65, na AEISEC.

 

Como é que o Chico, que nem foi um grande namoradeiro, reparou na Manuela?

Estava na altura de namorar, também. Ela era uma pessoa que fazia da simplicidade a sua maneira aberta de falar. Ainda hoje gostamos um do outro, já lá vão quase 40 anos.

 

Dá a sensação de ter vivido várias vidas. O que é que delimita as fases?

A minha vida é feita por períodos de três, quatro, cinco anos. Uma pessoa que esteja muito tempo no mesmo sítio acaba por se deixar absorver pela rotina. A pessoa, para alimentar a inovação e a criatividade, tem que ir mudando. Eu acompanho muito o ciclo da vida política, também.

 

É um socialista e fica tudo enformado por esta afinidade.

Muito marcado. De qualquer maneira, entro em 68 na Marconi e rapidamente vou a presidente, em 76.

 

Foi uma ascensão meteórica... Foi surpreendente para si a rapidez com que subiu?

Tive sorte. Era adjunto do Director Administrativo da Marconi, praticamente foi tudo saneado, menos eu, porque era jovem e tinha sido expulso da universidade. Portanto, tinha um bom currículo para não ser saneado. E como fiquei, facilmente ascendi a um lugar cimeiro.

 

Não se interrogou: “Será que vou saber fazer isto”?

Essa questão nunca se me pôs. Saltei muito rápido para uma quantidade de funções, mas não tenho esse problema. Sou muito confiante. Pronto, de 68 a 81 estive na Marconi. Depois estou no governo até 85. Vou para Macau, onde estou três anos e pouco, e regresso.

 

O oriente mudou a sua vida?

Um bocadinho. Aquilo não é bem um continente, é uma zona do mundo de grande desenvolvimento, com um modelo muito liberal. Libertei-me imenso. Eu e a minha mulher achámos que a gente estava ali era para conhecer, e íamos à China quase todos os fins-de-semana. A gente apreciou a experiência de sucesso de Taiwan, da Coreia do Sul, completamente inovadoras à época. Nós estávamos muito mais pesados, lentos, com uma estrutura menos elástica, menos moldável. Na Ásia é tudo mais rápido. E deixou-me ligado a um grupo em que ainda hoje estou.

 

Sim, há os “amigos de Macau”...

Nunca alimentei a ideia dos “amigos de Macau”, nunca quis pertencer a um grupo de Macau. Achei que era mau.

 

Entre esses membros, digamos assim, estão António Vitorino, José Lamego, Carlos Monjardino, por razões diferentes Mário Soares...

Eu não sou propriamente desse grupo. Conheço-os todos, são todos meus amigos...

 

Quem fazia parte do seu grupo, então?

O meu grupo é posterior. O mais conhecido é o Jorge Coelho, foi meu chefe de gabinete; de resto, eu é que o levei para lá. Acima de tudo, aprendi a cultura asiática de fazer negócios e a rapidez, a eficácia, com que eles os fazem.

 

O que se segue?

O meu futuro depois de Macau não é influenciado por Macau. Fico aqui a gerir uma empresa que ninguém sabe qual é, faço umas coisas na Ucrânia como consultor. Depois entro na PT, e isso nada tem a ver com Macau.

 

Não, mas tem a ver com o socialismo e com a subida de Guterres a primeiro-ministro.

A entrada na PT tem a ver com a minha saída do governo. Entro no governo e depois tenho que sair por causa da sisa.

 

Já falaremos da sisa. Ainda estamos em Macau e nos efeitos desta passagem na sua vida. Mantém relações desse tempo?

Por exemplo, sou administrador do banco do Sr. Stanley Ho porque fiz uma relação com ele. Mantive este tipo de ligação à China e a Macau, sou muito amigo daquelas pessoas.

 

A partir do que contou da relação com o seu pai, seria fácil imaginar que tivesse dúvidas em relação a si próprio. Não se referiu a ele como uma pessoa que constantemente o reforçou.

Tenho vindo a ser cada vez mais comunicativo. Quando estou em grupo. Tenho mais confiança, talvez pelo facto de as coisas me terem corrido bem.

 

Um homem que é completamente membro de um grupo (e fez referências aos ciclos políticos e ao modo como a sua vida foi sendo condicionada por isso) temeu, em algum momento, ser abandonado? Receou ser proscrito por causa do episódio da sisa?

Sim, a questão da sisa afectou-me. Foi um acto absolutamente injusto, sendo verdade, e assumi imediatamente que era verdade. Dos momentos todos que tive ao longo da vida, talvez tenha sido a coisa que mais me marcou. Eu tinha acabado de chegar, há 15 dias… Ainda hoje não posso pensar de outra maneira: eu era uma pessoa que não interessava que ficasse naquele sítio, que era preciso eliminar. Lendo desta maneira, que é a leitura política possível, acho que foi injusto.

 

Sentiu que muitos outros tinham faltas daquele tipo, e que era injusto que tivesse sido apanhado?

Não é ter sido apanhado. A questão da sisa que se passou comigo passava-se com 90 e não sei quantos por cento da população portuguesa. O acontecimento em si é pouco importante. A questão que é importante é porque é que fui atacado. E a injustiça: eu acho que podia ser um bom ministro. Sabia muito daquilo. O Partido Socialista tinha-se candidatado às eleições com um programa na área dos transportes e comunicações feito por mim e por mais cem pessoas lideradas por mim durante dois anos. Mas também não tive muito tempo para pensar sobre isso, porque fui logo convidado para entrar na PT.

 

Não correu mal. Financeiramente até correu muito melhor, convenhamos...

Há até quem diga que foi eu que pus a notícia de propósito, mas não é verdade. Até porque é autofágico.

 

Por que é que a PT seria menos apetecível do que ser ministro?

Uma pessoa que chega e 15 dias depois sai de ministro por uma questão dessas, é uma machadada brutal na sua auto-estima. Eu jamais trocaria o lugar de ministro pelo de presidente da PT, nem que fosse pago a peso de ouro.

 

Estamos a falar de prestígio?

Mesmo em termos de prestígio.

 

Nada paga o prestígio de ser ministro, é isso?

Não. A machadada que levamos na nossa auto-estima é tal de maneira grande que o prémio de ir para a PT não é suficientemente compensador. É muito violento.

 

A PT foi um prémio?

Acho que a PT não foi um prémio porque saí [do governo]. A PT aconteceu porque eu tinha o melhor perfil. E correu bem, felizmente.

 

De qualquer maneira, soube bem saber que os amigos socialistas não o abandonavam naquele momento… E que lhe deram um presente chamado PT.

Não era um presente. O desafio profissional foi enorme, foi a melhor experiência da minha vida. Jamais imaginaria que ia ser como foi. Reconheço que da parte do António Guterres foi um acto de confiança, que lhe tiro o chapéu. E assumiu isso. Não era fácil, havia muita gente que achava que eu não merecia ir para a PT.

 

Mas o que mais me interessa, passado este tempo, é saber como viveu esses dias de indefinição. Teve medo que aquilo fosse um disparate que deitasse tudo a perder?

Medo, não. Mas podia acontecer. Ser proscrito, podia ter acontecido. Nunca fui propriamente proscrito, sempre tive bons relacionamentos. Mas se você analisar os ciclos políticos, verificará que estou sempre na crista quando é o Partido Socialista que está no poder.

 

Claro.

Ou seja, não sendo um político profissional, que nunca fui, estive sempre ligado ao poder. Quando o poder não é PS nunca estou ligado ao poder. O partido da oposição nunca me fez o favor, a gentileza de me convidar seja para onde for.

 

Mas é demasiado comprometido! A oposição não o iria buscar para o que quer que fosse, francamente...

Podiam ser generosos.

 

Estamos à espera de gestos magnânimos?

Deixe-me dizer-lhe uma coisa dentro dessa linha do proscrito: quando vim de Macau, achei que tinha feito um bom trabalho, e foi pouco reconhecido isso. Vim em 91 e estive até 96, com o governo PSD, lá está, um bocadinho abandonado, esquecido. Subutilizado.

 

O que é esteve a fazer nesses cinco anos?

Estive na Marconi Internacional...

 

Numa prateleira dourada.

Numa prateleira dourada.

 

Como é que ocupava os dias?

No estrangeiro, viajava muito. Muito do que a PT veio a ser mais tarde foi feito nessa altura. Andava muito entretido. Era uma prateleira dourada, mas com muitas coisas para fazer. Não era conhecido.

 

O que me está a dizer é que precisa que os outros reconheçam o que está a fazer. E de ter poder. Precisa disso?

Sim. Tinha actividade, mas não tinha capacidade de decisão, tinha que ser tudo sancionado. Gosto de exercer a liderança, gosto de comandar projectos. Sou essencialmente um homem de poder e um homem de projectos. Nesses anos, depois de sair de Macau, trabalhava imenso, mas não era protagonista de nada.

 

Nunca se deprimiu?

Não. Deprimir só daquela coisa da sisa. Tive muitos problemas, falando da minha vida, que me deprimiram. A morte do meu pai, as operações que fiz. Fui operado a um cancro na próstata. A minha mãe está com Alzheimer, quando lá vou, coitadinha, não me conhece.

 

Teve medo de morrer?

Acho que não tenho medo de morrer. Acho que tenho medo mais do que antecede a morte, do que do modo como vou morrer. Não gosto de sofrer. Sofrer é das coisas que me mete medo.

 

Quando se tem um cancro é natural que se faça uma reequação da vida...

Modifica a nossa maneira de ver o mundo, sim. Eu tive um carcinoma grande, fui operado, as coisas correram bem, felizmente nunca mais tive nada. Soube seis meses antes numa consulta de rotina. Resolvi ser operado, nos Estados Unidos.

 

Esteve sempre convencido de que podia vencer aquele desafio?

Foi tudo muito rápido. O meu médico disse-me: “Vamos operar”, e eu disse: “Dê-me um mês”. Fui aos Estados Unidos, fui ao Brasil, consultei dois especialistas, consultei mais dois aqui. Nos Estados Unidos, o médico queria operar-me em Novembro, e eu disse: “Não, é já este mês” (Outubro). Assim foi, fui operado uma semana depois. Não tive grande tempo para pensar. Acho que sim, que equacionei morrer, mas como lhe digo, é mais a maneira como se morre.

 

Não queria terminar esta entrevista falando de cancro. Vamos terminar falando de quê?

De que é que você quer falar? Sobre o Sporting, por exemplo, que eu sou sportinguista.

 

Queria que me dissesse quem é a pessoa que mais ama. Se o seu pai fosse vivo, aposto que a resposta seria o seu pai...

A minha mãe ainda é viva. Dou a resposta clássica, que corresponde à verdade: é a minha mãe, a minha mulher e os meus filhos. A minha mãe, quando lá vou, venho sempre muito depauperado. Está com 91 anos e já não sabe bem quem eu sou. A pessoa que mais amo acaba por ser ela. E a minha mulher e os meus filhos.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2006

 

 

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