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Frederico Lourenço - O Lugar Supraceleste

Antes de chegar ao lugar mais longínquo de O Lugar Supraceleste, ou seja, à última crónica do livro, justamente intitulada “O Lugar Supraceleste”, eu tinha pensado já no movimento ascensional da escrita de Frederico Lourenço, na nota musical que diria esse lugar, esse rosto último, no encontro com o “mais íntimo tutano da alma”, para trazer um verso de Eurípides. Mas, mais do que o encontro com o para lá da abóbada das estrelas, com esse lugar arcádico, descrito por Píndaro como sendo cheio de rosas, interessou-me o lugar de onde Frederico escreve, os círculos do Inferno e do Purgatório por onde passa, a maneira como exala o perfume das rosas pelo caminho – e o segue.

Muitos leram já as crónicas que compõem este livro, publicadas originalmente no Facebook, entre Setembro de 2014 e Janeiro de 2015. Eu tinha-as lido, também. De algumas tinha uma impressão nítida, e a outras tinha perdido o rasto completamente. Não porque sejam menos conseguidas, mas porque há uma zona de mistério, um nevoeiro espesso, que permite que nos adentremos nele mas não possibilita que repitamos os passos para lá chegar. Eu sou como as crianças que podem ouvir uma história mil vezes, com o mesmo encantamento, e só depois de anunciado o epílogo, dizem: afinal já cá tinha estado.

O facto de as ter lido antes não diminuiu o meu interesse agora, e, sobretudo, não me permitiu perceber a pulsão ascensional que nos conduz a este lugar supraceleste. Um lugar de um azul celeste celestial, como diria Caetano Veloso, que Frederico Lourenço nunca cita. A sua música, as suas musas têm outra proveniência. Cita, usa, a expressão “discurso ascensional”, que é a marca da estética de Bach.

O livro é um passo a passo, para chegar a um lugar, e sabendo, desde o princípio, que “o alvo da viagem é viajar”.

“O alvo da viagem é viajar” é um aforismo de Goethe que aprendi com Maria Filomena Molder, e que não sei onde pertence. Ao contrário do Frederico Lourenço, que manuseia as peças do mosaico com destreza, com rigor, investindo-se nesse fazer laborioso, eu fico parada ante o brilho das estrelas, estonteada, e por inércia e ignorância, não procuro mais coordenadas. Estou a dizer de mim, mas estou, mais do que tudo, a dizer do Frederico, da sua erudição, do fulgor que o faz ser de outro tempo, de outro lugar. Porém, ele não só é completamente desse tempo sem tempo como é deste tempo. É isso que lhe permite falar das insónias de Zeus como se falasse das nossas.

A viagem é feita por causa de um viajar. Cheia de incompreensões, tormentos, palavras como “excruciante”, expressões como “extracção de um órgão vital sem anestesia”, momentos dilemáticos que são pontos-chave na cartografia, o som excelso do Cravo Bem Temperado, a fragrância da rosa, de certas rosas, um lugar verdejante em Inglaterra que nunca foi uma abadia mas que é um lugar sagrado.

A viagem é feita por causa de um viajar. A vida é feita por causa de uma pergunta: a pergunta pelo sentido que tem viver.

Esta é a pergunta que percorre todas as crónicas, de um modo subterrâneo ou à superfície, taxativamente ou como quem fala de uma pessoa que está longe. O livro é uma resposta de quem percebeu, virada a curva dos 50, que é no caminho que se encontra o supraceleste. Não por acaso, há uma menção à Divina Comédia e ao desinteresse dos alunos nesse território ulterior ao mundo que é o Paraíso.

Trata-se de um curioso paradoxo: superamo-nos em direcção a essa outra coisa que é linda, sabendo intimamente que não é ainda essa outra que é linda, que haverá sempre outra, e outra; mas esta dificuldade não nos inibe de continuar, vivificar nesta procura, desfrutar do gozo de ser, no instante, sabendo que morte e vida, querer e sofrer são ciclos convergentes, elos inextrincáveis, e que a beleza está neles, nesse seu modo sincopado e osmótico.

Frederico Lourenço recorre com frequência a Schopenhauer e à sua obra O Mundo como Vontade e Representação. Duas ideias são dominantes: a de que “cada desejo satisfeito não faz mais do que parir um novo desejo” e a de que não há satisfação que preencha o poço sem fundo da carência humana. Então, retomando a pergunta: o que nos faz lidar com o tédio que sobrevém à saciedade, o que nos faz lidar com o absurdo da vida, avançar círculo após círculo? O que é que o faz a ele, prosaicamente, subir as escadas do Bom Jesus em Braga, mais um degrau, sabendo onde vai dar, procurando a canseira?

(Aprendemos com ele que clímax em grego significa escada.)

A questão é: sabe-se mesmo onde se vai dar? Quem somos depois do momento climáxico? Há uma experiência fundamental que Frederico trabalha numa das crónicas: a da transformação. A de sermos outros quando fazemos caminhos, subimos escadas, nos superamos, e isso nos permitir lidar com o nosso abismo interior.

Disse que o autor virou a curva dos 50. É verdade. Mas penso que a sabedoria que extravasa destes textos resulta menos da faixa etária em que está do que do sentimento de orfandade, do ponto de se saber a sós com o mundo e consigo próprio. Sendo certo que há sempre outros, e que, em rigor, nunca estamos completamente sozinhos, uma parte de nós é extirpada com a morte dos pais. Sobreviver-lhes, reconstruirmo-nos, é uma tarefa hercúlea que amadurece, ensina, muda as coisas de lugar.

Os textos mais pungentes deste Lugar são relativos ao pai e à mãe, remetem-nos para o tempo em que foi o menino da sua mãe, e também o menino que queria ser do seu pai.

Quando se refere à mãe como a Manuela e ao pai como o M.S. Lourenço, encontro, ou encontrei, estranheza. Parecia falar deles como quem fala de pessoas nucleares, mas vagamente estranhas. Pessoas que pertencem a outros. Chamar-lhes pai e mãe traduz um vínculo que só lhe pertence a ele e à irmã, Catarina.

Demorei a perceber que os tentava ver como as pessoas que foram, com identidade vincada, e não apenas como pais daquelas crianças. Crescer é também aceitar que os nosso pais são pessoas que permanecem para sempre vagamente estranhas, que são quem são, além de serem aqueles que idolatramos, emulamos, odiamos (e dizer isto sem ter medo da palavra ódio), amamos. São a raiz que permite que a rosa venha um dia a ser rosa, com um aroma que lhe é único.

Vou lê-lo na crónica “Pai, Novamente”: “O meu processo de ‘pensar os meus pais’ é acima de tudo um processo autopsicográfico, pois não é mais do que uma maneira de me aproximar de mim mesmo. Não me sinto como tendo a chave da compreensão de quem eles foram. Mas sinto que eles são uma chave importante que me permite compreender-me a mim.”

Esta crónica, bem como aquela que diz a Manuela era filha da luz, é das que guardo, desde o momento em que as li no Facebook. Guardo também a ideia de que acabara de ler uma coisa em que a vida aparecia em cru, sem biombos. Como se falar assim dos pais possibilitasse tocar a vida com as mãos.

Estas crónicas são, todos os que escrevem sabem, difíceis de escrever. O equilíbrio entre a exposição da nossa individualidade e o excesso sentimental em que facilmente incorremos quando falamos de relações familiares é frágil.

Fazer a anatomia de uma relação amorosa, seja com os pais ou com um namorado, pode ser só desabafo, necessidade de partilha e compreensão. O espantoso é quando, ao fazê-lo, permitimos que outros o façam. Dito numa linha: que eu, tocada pelas crónicas do Frederico sobre os pais, me sinta interpelada e faça um exame da minha relação com os meus pais. Que me pergunte, como ele se pergunta, sem se perguntar assim: o que é amar? Quem são estas pessoas, este lugar de onde vimos?

O final de uma das crónicas sobre a Manuela diz assim: “A sua doçura, a sua tristeza comovem-me ainda. Felizmente, as suas múltiplas qualidades, a sua inteligência e a sua sensibilidade, perfumam ainda a vida dos seus filhos de uma maneira que me lembra a sensação do beijo de boa noite quando nós éramos crianças e a minha mãe entrava, qual epifania de beleza, no nosso quarto depois de uma festa a cheirar a um perfume que na altura se chamava “Madame Rochas”: uma fragrância feminina, requintada e francamente celestial – a quintessência, de facto, do que era a minha mãe”.

Voltamos ao reduto do que é celestial, ao momento arcádico da infância, ao tutano. Voltamos a um lugar que é acima das estrelas, a um paraíso que não é senão aqui. Voltaire: “Le paradis terrestre est où je suis.” Um paraíso terrestre onde o jardineiro cuida, contemplando, a sua flor. De novo a etimologia, o significado mais íntimo das coisas que aprendemos com Frederico: “A palavra grega “paraíso” não significa outra coisa que não: jardim”.

As flores dizem coisas, dizia Wittgenstein. A questão é ter ouvidos para as escutar, fazer uma espécie de transliteração da linguagem da rosa, decifrar o enigma, saber como sobrevivem à geada e à morte do Inverno.  

Outra ideia repetida por Frederico Lourenço é a de que a música é o que penetra para lá da fronteira, que chega onde as palavras não chegam. A música é o seu texto sagrado, o que se fala nesse Lugar Supraceleste, se posso dizer assim.

Mas o seu idioma próprio, o de Frederico Lourenço, corresponde a sentimentos soletrados, ao movimento vertiginoso da vida, à interpretação de uma partitura, ao embate que se tem com um texto-pedra, corresponde a um querer indómito.

Muito do que se pode ler aqui traduz um combate, e mostra o autor como um guerreiro – Heitor, claro – que perde, e ganha tanto antes de perder pela última vez.

Muito do que se pode ler é o processo de alguém que aprendeu com Wittgenstein que “O processo de falarmos connosco mesmos pode ser substituído por falarmos em voz alta ou então pela escrita”. Que se olha ao espelho escrevendo. Escrevendo sobre Filosofia, Música, Literatura, sexo, sobre quem é e foi sendo. Estes textos dão-no como um homem-mundo, entregue ao infindável trabalho que é viver, num agora que é azul, celeste, celestial.

 

Texto lido na apresentação do livro em Lisboa, dia 12 de Maio. 

 

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