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Frederico Moreira Rato

Encontrámo-nos num prédio que se confunde com a história da família. A história da família começa muito lá atrás. “A minha família tem uma mistura de origens, tem um resto de aristocracia um bocado falida e tem um industrial recém-chegado, novo-rico, que consegue vingar, primeiro com as cantarias e depois com os cimentos – o meu bisavô. O ramo mais aristocrata diz que uma menina não se mete com gente nova-rica, que vem de Sassoeiros, que anda a tratar de cantarias. E o novo-rico que diz que a menina vem cá para desfazer a massa que nós estamos a juntar. Sempre me seduziu imenso o lado Moreira Rato, o lado que veio de Sassoeiros para Lisboa”.

Portanto, de um lado temos o pedigree e do outro temos a massa. E como a história das famílias se reescreve, pelos anos fora há pedigree e há massa – sem o de um lado temos e do outro temos.

Frederico Moreira Rato é desta família e trabalha na empresa desta família. Uma empresa familiar que não se parece com as outras. Para começar porque não é um desígnio de todos os seus elementos trabalhar nela (na firma e na família). Para terminar, porque, pelo menos desde que está em bolsa, a família não tem o controlo de todas as operações da Reditus.

Desde há uns anos, Pais do Amaral tem a posição relevante na empresa e ele, Frederico Moreira Rato, é o “operacional” de todos os dias.

Quem é ele? A entrevista permite conhecer um tempo e uma classe social. O tempo e a classe social dos meninos andavam em bando, pelos jardins do Restelo. Permite saber como viveram o 25 de Abril, com os seus ajustamentos e pedradas. O seu percurso individual. “O meu primeiro trabalho a sério foi no gabinete de um secretário de Estado da Agricultura em 1972. Entretanto passei a ser quadro do ministério e um mês depois [da revolução] estava de volta ao gabinete do primeiro secretário de Estado da Agricultura depois do 25 de Abril. Mas acompanhando as coisas da família. Em 1980 houve um conjunto de oportunidades em que as minhas habilitações e a minha experiência faziam sentido, e vim trabalhar para a família para tratar da Reditus, que foi comprada nessa altura”.

Na entrevista também se fala do BCP, da crise da Reditus e da crise do BCP, de alguns dos protagonistas envolvidos.

Tudo isto numa casa vazia, que Frederico Moreira Rato usa como escritório particular, para pensar, com maior distanciamento. Do outro lado da Avenida 24 de Julho, o rio tinha uma cor de Primavera. Em frente a nós, estava um auto-retrato de Júlio Pomar. Dizem-lhe que ele, Frederico Moreira Rato, o trabalhador discreto, se assemelha àquele que está no quadro: que parece ter um olho fechado e outro aberto. Será assim?

De olhos bem abertos, falou-se de uma vida de 60 anos, e de uma família que tem muitos mais.

 

 

No seu caso, o normal seria começar pela família; mas queria começar pelo momento em que percebeu que tinha de pegar na sua vida em mãos, independentemente da família?

É difícil não começar pela família. Mesmo quando comecei a pegar na minha vida em mãos, havia sempre um histórico que era relativo à família, e que orientava o que ia ser o meu futuro. Eu sabia que poderia vir a ser útil em coisas da família. Quando começávamos a trabalhar, fazíamos uns estágios no escritório, na antiga firma António Moreira Rato. E depois de termos a 4ª classe, ganhávamos o direito de vir trabalhar um mês, no Verão.  

 

Era um “direito”, era incutido assim? Normalmente, o trabalho nas férias é considerado pelos jovens uma obrigação ou até uma penalização.

Não, era uma coisa divertidíssima. Somos sete irmãos e normalmente vinha mais do que um. Ainda havia um sector de estatuária e podíamos passar dias a ajudar e a ver como é que um bloco de pedra se começava a transformar em qualquer coisa a cada hora que passava. Tínhamos trabalho administrativo e o atendimento telefónico com um PBX de cavilhas. Havia a distribuição de materiais que se fazia em Lisboa numa carroça.

 

Numa carroça, ainda?

Aprendi todo o vocabulário vernáculo com o carroceiro! [risos] Mais tarde começaram a vir coisas mais sérias; começámos a tratar das estatísticas do cimento, de acordo com a região geográfica, e a contabilidade.

 

Era uma empresa familiar, em suma.

Em todas as gerações, havendo uma empresa familiar, eram mais os negócios da família do que a empresa para onde a família vai trabalhar. Só quem tinha aptidão, quem tinha mais gosto ou quem mostrava mais interesse aderia ao projecto. E nunca ninguém veio trabalhar para o escritório mal acabou a formação; trabalhava primeiro noutros sítios e depois é que vinha trabalhar para a família.

 

O seu pai é uma figura incontornável na sua história, também profissional. Estamos no prédio onde sempre funcionou a empresa da família, e isso é sintoma da relação umbilical que se mantém.

O meu pai, que se mantém ainda no activo, todos os dias vem ao escritório.

 

Nasceu em 1915.

Sim, tem 94 anos. É provável que daqui a pouco toque aqui à campainha com algum recado. E pergunta coisas sobre a Reditus, e sobre uma notícia que viu ontem e se isso tem alguma implicação para nós… Está permanentemente presente. Sempre que há um evento para o qual é solicitado, da família ou do escritório, nunca recusa. Não sei se sente isso como uma obrigação ou se isso também o ajuda a viver e a completar os dias. Relativamente aos negócios, o pai teve um percurso diferente. O meu avô e o primo direito dele, o tio António Brito Rato, foram gerentes da António Moreira Rato até 1973; é nessa altura que o meu pai entra.

 

Que vida fez antes?

Fez um trabalho de engenheiro, a trabalhar com os suecos da Stab, que tinham fábricas de fósforos e aglomerados de madeira. Quando vem [para a empresa], apanha logo o 25 de Abril, com perto de 60 anos. Nessa altura recorre aos filhos: “Agarrem nas coisas, que estou cá e acompanho, mas não é na minha idade que se vai começar uma coisa nova. É convosco que as coisas podem ir para a frente”.

 

É interessante que tenha decidido fazer um percurso autónomo. Apareceu quando era preciso, mas não quis fazer carreira na empresa da família.

Desde o princípio, desde que se formou em engenharia. Acontece isso com outras pessoas de outras gerações: começam uma determinada carreira e a oferta que a família faz não é suficientemente estimulante para que as pessoas desistam do que estavam a fazer.

 

É um filho tardio.

Sou o sexto de sete. Sempre me habituei a sobreviver [risos]. O meu pai tinha 35, a minha mãe era mais velha, já tinha quase 40, quando nasci, em 1950. O meu irmão mais novo, o António, está comigo na Reditus. Não fui tão privilegiado como o sétimo, mas quase. Ser o sexto tem uma vantagem: passei a ter várias mães, vários pais e irmãos mais velhos que me desafiavam.

 

Fale mais da necessidade de sobreviver nesse colectivo.

Em todas as coisas que se faziam lá em casa, os mais velhos comandavam; as tarefas menos interessantes eram para os mais novos fazer. Se íamos todos passear de barco, os mais novos é que punham o barco na água e o tiravam de lá – os mais velhos estavam a namorar ou a falar com os amigos. Coisas desse género. O que fez com que os mais novos encontrassem esquemas para usufruir das coisas. Não tive aquele espírito do irmão mais velho, que tem uma corte à sua volta e que desde pequeno se habituou a que as coisas lhe eram devidas e feitas. Não tive esse palco. Tive o palco de ser mais mimado.

 

Encontrou o seu espaço por essa via? Como é que conquistou o palco?

Não sei dizer. Talvez devido a este estatuto, fosse sempre um bocadinho irrequieto e rebelde. Talvez isso tenha moldado esta minha característica: a de rapidamente sair de uma situação se necessário.

 

É um aspecto importante na estruturação da personalidade: se há coisas que não lhe são devidas, como é que conquista o seu espaço? Em função de quê? Quais são os talentos que lhe permitem conquistar uma maneira de estar e de se afirmar? E como é que isso se repercute mais tarde?

Havia os mais velhos e os mais novos, mas todos tínhamos espaço, havia uma certa equidade nisso. A casa dos meus pais era uma república, gostavam que levássemos os amigos, gostavam menos que andássemos nos cafés. Se de repente me lembrava de levar dois amigos para estudar à tarde, não havia problema, fazia-se esticar a comida. Uma coisa que só valorizei mais tarde foi o extraordinário trabalho da minha mãe, de fazer com que as coisas acontecessem. Hoje sei que não era nada simples. Era um mundo onde as coisas não se faziam com muitos recursos, faziam-se com muita vontade.

 

Não tinham muitos recursos?

Vivíamos bem, sem muito dinheiro. Andávamos de bicicleta, andávamos na casa uns dos outros. Íamos pouco para boîtes, fazíamos aquilo a que chamávamos reuniões. Andávamos de jardim em jardim, no Restelo, em bando. Sabiam sempre onde andávamos, num ambiente que hoje não se podia repetir.

 

E sem ameaça.

Na total segurança. O polícia da esquina conhecia-nos a todos, o guarda-nocturno também, o jardineiro. Se alguma coisa menos normal acontecesse era detectado na hora.

 

Sem muitos recursos, mas viviam no Restelo, davam uns passeios de barco, tinham jardineiro. Tudo isso define um quadro social e uma expectativa em relação ao futuro. Há relações que se fazem desde o berço – tudo isso importa.

O que queria transmitir é que não havia a competitividade do dinheiro, do gadget, da roupa. Não tínhamos muita percepção de outros mundos, que só acontece mais tarde. Andámos todos no liceu João de Castro. Não andei na escola primária, estudava em casa.

 

À antiga, com uma preceptora que ia a casa, e depois faziam as provas da 4ª classe?

Ainda fiz as da 3ª classe assim. Era uma senhora extraordinária, a Dona Ester. Quando a irmã a seguir, dois anos mais velha, estava na 3ª, eu estava a fazer o equivalente à 1ª classe. Tínhamos um quarto de estudos.

 

Foi com ela que aprendeu matemática?

Foi com ela que aprendi o gosto pelos números, pela aritmética. Com ela e com uma série de professores que tive no liceu. A matemática é uma linguagem e a Dona Ester tinha imenso cuidado com ela; ensinou-me a caligrafia da matemática e a relação entre os números.

 

Disse que só mais tarde é que teve contacto com outros mundos. Quando é que se começa a dar com pobres?

A partir do 3º ano do liceu começámos a fazer parte de umas equipas da Sociedade de São Vicente de Paulo que fazia contactos com grupos de jovens sob duas perspectivas. O conhecimento dessas realidades, levar-nos a reflectir sobre como é que essas coisas se podem transformar, e como é que estaria ao alcance de cada um de nós fazer qualquer coisa para transformar esse mundo. Até aos 20, 22 anos fui militante católico activo. As Conferências de São Vicente de Paulo tinham uma coisa que me seduzia muito, que era a questão prática. No liceu, os alunos que tinham maior capacidade e aproveitamento, independentemente da classe social, davam explicações aos alunos com maiores dificuldades económicas e de aproveitamento. Também me lembro de ter dado aulas de alfabetização perto do Casal Ventoso para classes de adultos. De resto, o homem de quem fui secretário em 1972 foi presidente nacional da Sociedade de São Vicente de Paulo – a ligação vinha daí.

 

Quando fala do conhecimento de outros mundos, da apreciação de outras realidades, refere-se a quê? Ao pós -revolução?

Os privilégios da família foram muito abalados, mas o meu avô dizia que eram movimentos e ajustamentos que tinham de acontecer. Nunca lhe passou pela cabeça sair do país, sair de casa. Continuou no escritório com o tio António. Vinha muitas vezes ter com ele e lembro-me de sermos apedrejados. “Abaixo os fascistas e quem os apoiar”. De qualquer maneira a nossa atitude nunca foi arrogante nem hostil. Não nos aconteceu nada de mal e ninguém foi para o estrangeiro.

 

Porque é que não tiveram de sair do país?

Primeiro porque não tivemos a pressão que outras pessoas tiveram para sair. E também não saímos por moda. (Não quero criticar pessoas que saíram, conheço muita gente que não teve outro remédio.) Ficámos em condições muito difíceis de trabalhar e afirmar os nossos valores. Não nos demos mal.

 

O que é que era tão difícil, além de serem apedrejados?

Nunca levei nenhuma pedrada e acho que a pedra era mais um símbolo do que uma intenção declarada contra a família, ou pelo menos quero acreditar nisso. Tivemos uma possibilidade de ser ocupados aqui no escritório que não se concretizou; mas viemos a ser ocupados numa exploração que tínhamos ao pé de Coruche.

 

Como é que a família atravessou esse momento de transição? Qual foi o espírito?

O espírito foi aguentar. Diversificar o mais rapidamente possível o que tínhamos, o que podíamos fazer, e cada um por seu lado trabalhar para que as coisas se mantivessem. No 25 de Abril só o mais novo é que estava em casa, o resto já estava tudo casado.

 

Ainda que estivesse cada um a trabalhar para seu lado, dois anos antes o seu pai tinha pegado na empresa.

Estava cada um em seu lado mas encontrávamo-nos muito aqui com ele. Ele pôs-se no papel de que o que estava para vir era muito mais o nosso futuro do que o dele.  

 

Isso foi o primeiro momento em que pegou na sua vida em mãos, verdadeiramente? Ainda que fosse pegar na vida da família, enfrentou uma adversidade que até aí não conhecia.

Foi uma novidade enorme e uma série de frentes brutais. Talvez tenha sido a primeira vez que senti que tinha uma responsabilidade muito grande em cima e que era preciso encontrar saídas para coisas com soluções difíceis de antever.

 

Explique-me melhor.

Tínhamos coisas relacionadas com a agricultura, a pecuária, o imobiliário, o resto dos cimentos, a firma dos materiais de construção, e todas elas entraram em turbulência na mesma altura. Encontrar caminhos para cada uma das coisas com os meus irmãos – não foi um trabalho só meu, o meu irmão mais velho coordenou todas essas actividades – foi estimulante. Ao mesmo tempo era viver numa incerteza permanente. Depois habituei-me a cultivar a imprevisibilidade e a incerteza. Nada está assegurado e garantido, todos os dias é preciso construir qualquer coisa que se vá transformando.

 

Uma coisa é aprender a viver com isso, outra é cultivar isso.

O culto disso tem a ver com a firme convicção de que todas as coisas são incertas. Quando alguém me aparece com ideias muito determinadas sobre o que vai acontecer, não acredito. Estudei uma coisa que se chamava programação dinâmica; quando se faz a programação dinâmica estamos a admitir à partida que todas as variáveis vão estar em perturbação o tempo todo.

 

Estudou matemática. Trabalhava ao mesmo tempo. Mas sabia que aquilo era um caminho. Tinha a expectativa de que o seu futuro fosse outro. Isto antes da revolução.

A seguir o futuro caiu, passou a ser presente [risos].

 

Queria para si um futuro grandioso?

Não. A ambição que tinha era poder continuar alguma coisa que tinha sido começada lá atrás pelas pessoas da família. Seduzia-me imenso a história do meu avô, do meu bisavô, dos irmãos dele.

 

O que é que admira na têmpera dos seus antepassados?

Admirava as pessoas que face à adversidade conseguiam descobrir pontos de oportunidade, sabendo que nada lhes era oferecido, sabendo que tinham de lutar para conseguir o que queriam. Não foram para nenhuma bicha ou ministério procurar um subsídio para aguentar a fábrica. Tenho uma enorme admiração pelo meu avô e pelo tio António. Tinham as palavras adequadas, sabiam estar presentes e ausentes.

 

É como eles. É silencioso, é discreto, mas está, trabalha.

Talvez tenha herdado qualquer coisa do código deles. Se for, fico muito satisfeito.

 

Quando foi preciso meteu as mãos à obra.

Sem dúvida. Aconteceram-me coisas muito parecidas [às que aconteceram à minha família]. Logo a seguir ao 25 de Abril e bastante mais tarde com a Reditus. Houve um modelo de negócio que implementámos por volta de 87/88 que veio a revelar-se desastroso. Era um problema que contaminava o resto do grupo. Depois foi um trabalho de equipa interessantíssimo em que tudo o que vem nos livros aconteceu.

 

Ou seja.

As pessoas que estavam mais próximas de nós e que mais tínhamos valorizado não suportaram e saíram. Há uma quantidade de parceiros que ficam a disfarçar e a olhar para o ar. Há os que ficam, os parceiros que continuam parceiros, os bancos que são banqueiros e os clientes que se mantêm fiéis. Quando a Reditus passa por esta crise, já tinha quase 30 anos, havia relações continuadas; no entanto, houve clientes que se foram embora de um dia para o outro, houve outros que se mantiveram e até reforçaram [a ligação].

 

A recuperação da Reditus foi o trabalho em que mais se afirmou.

Foi aquele em que tive de me afirmar.

 

É nessa altura em que se estreita a sua relação com o BCP? É o BCP quem lhe deita a mão?

O BCP deitou-me a mão várias vezes. A Reditus era uma empresa que tinha sido fundada pelo Banco da Agricultura, que veio muito mais tarde a integrar o BCP. Muitos jovens quadros do Agricultura usavam a Reditus, e alguns até passaram pelos órgãos sociais da Reditus. Nesses jovens quadros está um núcleo importante que foi parar ao BCP: o Eng.º Jardim Gonçalves, o Dr. Consiglieri Pedroso, o Leandro Delgado, o Filipe Pinhal, o José Alberto Lima Félix. Havia um grupo de pessoas que conhecia a Reditus, que sabia o que ela era e que está no BCP.

Para lhe dar uma ideia da proximidade, havia uma sala da Reditus, na Rua Pedro Nunes, que durante muito tempo foi onde se fez a parte estratégica do banco. Com o Manuel Violante, o Inácio Olmedo, o Pedro Álvares Ribeiro, o meu cunhado, Christopher de Beck. No princípio do banco o Engº Jardim Gonçalves instalou-se na Rua Viriato, uma paralela da Pedro Nunes, não tinha sítio onde estacionar e, conduzindo ele, usava a garagem da Reditus. Ele e outros.

 

Outro sinal da proximidade que havia.

Havia essa proximidade quando ainda não havia banco. Os primeiros computadores que puseram – até as secretarias iam ter logo computadores, não iam ter máquina de escrever – [não foram da Reditus]. Perdi esse negócio para um amigo e concorrente, o António Bernardo Ferreira. O primeiro negócio não fui eu quem o fez! [risos]

 

Mas manteve-se sempre muito ligado.

Sim. Na altura da tal crise há um factor importante: nenhum dos meus banqueiros foi surpreendido. Mal percebemos que ia haver um grande problema, o meu irmão, na altura presidente da Reditus, avisou o Dr. João Salgueiro, que estava na Caixa. Eu falei com o Dr. Ricardo Salgado e com o Eng.º Jardim. Isto passa-se em princípios de 94 e a reestruturação só se consegue assinar em 96. Aí há a intervenção de uma pessoa que conheci nessa altura e de quem fiquei grande amigo, colega de administração da Reditus, o Fernando Fonseca Santos. Foi ele o advogado que arquitectou a parte final da reestruturação. A única coisa que pedimos aos bancos foi que nos dessem mais tempo, não pedimos perdão de capital nem de juros. E foi tudo pago num período relativamente curto; estimámos 12 anos e grande parte da dívida estava paga em quatro. Foi o trabalho de uma equipa de primeiríssima água, grande parte dela ainda está hoje na Reditus.

 

Há vários bancos envolvidos, mas a relação preferencial era com o BCP?

Nunca tive a proximidade com as pessoas da Caixa ou do BES que tive com as pessoas do BCP, que já conhecia há muitos anos. Mas não quero de maneira nenhuma retirar o grande mérito que tiveram a Caixa e o BES a ajudar a resolver o problema. O BCP ajudou, sem dúvida, mas se a Caixa e o BES não tivessem ajudado, o BCP sozinho não conseguia resolver o problema, nem estava interessado nisso. Foi uma coisa em que todos tiveram de acreditar. Onde tinha mais intimidade para explicar o que me estava a acontecer era no BCP.

 

Também porque o Christopher de Beck era seu cunhado?

Não. Vale a pena dizer o seguinte: o Christopher de Beck é incapaz de pôr qualquer interesse pessoal ou relacionado comigo acima do interesse do banco. Sempre que tive o Christopher de Beck em linhas de decisão com coisas que me interessavam no banco, fui sempre prejudicado. Não só porque ele não fazia nada para que as coisas se resolvessem, como dizia que não se queria envolver. É evidente que sabia das minhas preocupações. Mas em termos de negócios concretos nunca falámos. Nem eu lhe falei dos negócios que estava a fazer com o banco, nem ele me falou de coisas que o banco estava a fazer na área da informática com terceiros. É casado com a minha irmã, é uma pessoa excepcional, um trabalhador incansável com uma visão fora do vulgar. É um polémico sistemático, que é uma coisa de que gosto.

 

Porque é que tinha maior intimidade para falar com o BCP?

Conhecia o Filipe Pinhal há muito tempo, o Leandro Delgado...

 

A relação fazia-se mais com Filipe Pinhal ou com Jardim Gonçalves?

Muito mais com o Filipe Pinhal. Com o Eng.º Jardim Gonçalves as conversas eram mais de circunstância. Fui sempre muito bem tratado por ele. Uma coisa que para mim fez toda a diferença – e é quase ridículo dizer-lhe isto – é que no auge da minha crise o BCP fez dez anos e o Eng.º Jardim Gonçalves teve a simpatia de me convidar para todos os eventos comemorativos, no Porto e em Lisboa. Perante toda a comunidade financeira eu estava lá, na altura em que havia grande dúvida sobre se subsistiria ou não. Não sei se ele fez isso de propósito, mas quer em termos psicológicos, para mim, quer em termos dos interlocutores, foi um gesto, um sinal.

 

Passados cerca de dez anos sobre a reestruturação da Reditus, dá-se a crise do BCP. Como é que assiste de fora àquela crise, depois de todo esse passado?

Conto uma história que parece que não tem nada a ver, mas que tem. Havia uma firma, a Amaral Barata, que desde 1850 foi o solicitador da família. Certidões de casamento, contratos de arrendamento, certidões de óbito, habilitações de herdeiros, registos de patente – tudo passava por lá. O último Amaral Barata morreu pouco depois do 25 de Abril e o solicitador, o Sr. Júlio, veio cá perguntar se queríamos o arquivo da casa Moreira Rato, que era uma sala. Claro que quisemos. O meu irmão José Carlos fez um trabalho extraordinário de classificação do arquivo. [Foi possível ver] o que é que aconteceu quando havia nove filhos e só dois ficaram no negócio, como é que partilharam as coisas, o que é que aconteceu àqueles que pressionaram partilhas, o que é que aconteceu aos que ficaram com a responsabilidade do negócio, que ficaram com mais património para poder responder em situações de crise. Hoje em dia, tenho dificuldade em raciocinar só com o prato do dia.

 

A história reescreve-se?

Claro. Os comportamentos são os mesmos, as pessoas são pessoas.

 

Tem a ver com cobiça, inveja?

E ganância. E o outro lado: a bondade, a tolerância, a maneira de resolver os problemas apagando problemas e cedendo aqui para ganhar adiante.

 

E tudo isso intra-familiar.

Sim. Com cartas de um tio-bisavô que vai pela Europa à procura de máquinas eléctricas de cortar mármore e que manda para cá relatórios… Isto para lhe explicar o BCP. A história não está escrita. É uma tristeza enorme o que vi acontecer ao BCP e que julgava impossível que acontecesse. Precisamos de mais uns anos para conseguir perceber o que é que aconteceu. É muito redutor dizer que uns senhores se juntaram para ganhar mais umas massas, uns prémios. Ainda não temos os elementos que nos permitem ver. Não sei se algum dia haverá um solicitador que nos dê a possibilidade de ir ao arquivo… [risos]

 

E seria, não um compartimento, mas um edifício inteiro, com a história do BCP.

Era muito interessante saber o que terá acontecido. E não vai muito longe se grande parte disto tiver a ver com comportamentos. Com o comportamento de pessoas, com uma certa arrogância, um certo endeusamento, um afastamento da realidade, um certo sentimento de impunidade. Que não tem má fé por trás; é porque é mais simples fazer assim. Aprendi que é muito difícil hoje fazer julgamentos de coisas que se passaram há dez anos.

 

Porque há dez anos é ontem, e ainda não passou tempo suficiente?

Por um lado, sim, por outro, passou tempo demais. Se conseguisse aterrar em 2000 e ler nos jornais o que se passava, o mundo era outro. Havia o BCP e o resto era um bocadinho periférico. Quem não estava no BCP, queria estar ou queria que o filho estivesse ou a mulher estivesse. Foi nesse contexto que aconteceram coisas. É difícil retirarmos do contexto e fazer julgamentos. As pessoas que fizeram o BCP foram geniais. Conseguiram construir aquilo em pouco tempo e contribuir para a valorização do sistema financeiro português – isso, ninguém lhes tira. Como é que depois, com tanto consultor, tanto advogado, tanto consultor de imagem à volta, conseguem ser tão desastrados, é uma coisa que se há-de ver adiante. A consideração que tenho pelo Eng.º Jardim, pelo Filipe Pinhal e pelo meu cunhado mantém-se intocável. Acho que há coisas que não sabemos e que não podemos julgar sem saber. Agora, pode perguntar-me se prefiro pensar assim… Prefiro. Que haverá coisas que têm justificação.

 

Mesmo que não conheça a justificação?

Sim, pela amizade e respeito que tenho por eles.

 

Como é que se fez tão trabalhador e tão discreto na maneira como leva a água ao seu moinho?

Às vezes não sou muito discreto. Na Reditus queixam-se de que não sou tão discreto como isso.

 

É a imagem que passa.

Lido mal com a gestão de pés contra pés. Gosto de cabeça contra cabeça, de explicações racionais. Gosto muito da tal polémica sistemática e de ouvir a opinião dos outros, de pensar em conjunto.

 

Isso entronca naquela disciplina matemática de que falou há pouco, a programação dinâmica?

Exactamente. Às vezes cria impaciência nos meus interlocutores.

 

A capacidade de trabalho é o seu maior talento?

Não me recuso a trabalhar, é um facto. Mas quando ganho convicção sobre determinados objectivos, [é um talento] a maneira como os persigo e como consigo juntar esforços da equipa para acreditar que se pode chegar a esse objectivo.

 

O que é que representou para si e para a família a entrada de Miguel Pais do Amaral na empresa?

Significou uma coisa óptima. O Miguel Pais do Amaral é um empresário com rasgo na área financeira.

 

Com rasgo e muito dinheiro.

É uma pessoa muito directa. Independentemente do dinheiro, como empresário, é muito complementar. Nós somos mais industriais, ele é mais os olhos financeiros, a rentabilidade e a produtividade. É um mix de que precisávamos.

 

Não desvirtua aquilo que era uma matriz familiar?

Não. A matriz familiar é importante, mas é um negócio da família em que a família não tem, não quis ter e não podia ter o controlo da operação. É uma opção que a família fez em 1987 quando levou a Reditus à bolsa. Durante este tempo todo convivemos com uma série de outros sócios. O Miguel Pais do Amaral é um sócio excelente. Devo dizer que não o conhecia, a não ser de vista. Só falei com ele directamente no dia em que me telefonou a dizer que ia anunciar uma posição relevante na Reditus. Tem sido uma relação muito interessante para mim.

 

Tem mais ou menos a idade que o seu pai tinha quando pegou na empresa, em 1973. À luz do exemplo do seu pai, pensa no futuro?

Há uma coisa impensável, que é deixar de ter actividade. Há várias coisas que hoje em dia me motivam muito. Coisas da família, embora sejam conduzidas pelos meus irmãos, em que gosto de participar. Coisas dos meus filhos que gosto de acompanhar. E há também uma actividade relacionada com a Reditus, a Associação Portugal Outsourcing, que reúne as maiores empresas de outsourcing em Portugal, e que está a querer fazer uma transformação verdadeira do tecido empresarial português e da oferta portuguesa como destino de outsourcing. Vejo-me num futuro próximo a fazer isto com muito gozo.

 

Com o seu pai, fala de quê ao almoço?

O meu pai fala muito dos assuntos de família, mas preocupa-se sempre com a questão dos negócios. Preocupa-se com os sócios e se temos um clima estável para os projectos prosseguirem.

 

Como se faz a gestão do grupo, do poder, dos egos...

Exactamente. É um excelente conselheiro. E para dentro é um excelente amortecedor das mesmas coisas. A presença dele é fundamental e muito positiva.

 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2010

 

 

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