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Gabriela Moita (2011)

No começo do ano, o cronista social Carlos Castro foi morto num hotel de luxo em Nova Iorque. O putativo homicida é Renato Seabra, um jovem modelo. Todos os dados que se possam acrescentar (sobre a hipotética relação entre os dois, a motivação do crime, a mutilação genital, a violência perpetrada sobre o corpo de Carlos Castro) são em larga medida especulação.

 

A partir do que conhece deste caso, diria que Renato Seabra é heterossexual, homossexual ou bissexual? As pessoas têm uma enorme dúvida acerca da orientação sexual de uma pessoa que tem um determinado percurso e depois parece fazer uma inflexão.

A sua questão, noutro contexto, seria: o que é que nos permite dizer qual a orientação sexual de alguém? A questão deixa os teóricos em desacordo. Tenho ouvido muita gente definir a orientação a partir do prazer que a pessoa tem com outra. Se uma pessoa tem prazer com alguém do mesmo sexo, logo isso define, ou dá-lhe a possibilidade de ser homossexual. A meu ver isto é um absoluto disparate, sobretudo se estivermos a falar do encontro físico. Os corpos podem ter prazer das mais diversas formas e isso não define a orientação sexual.

 

Como se define, então?

Na minha perspectiva, e da linha que sigo, a orientação sexual define-se pela constância do objecto de desejo. O tipo de pessoa por quem eu sistematicamente tenho o mesmo tipo de sentimento amoroso. Todavia a exclusividade da orientação sexual é rara. Muitas combinações são possíveis na definição de orientação sexual: o desejo erótico, a atracção sexual, o desejo emocional, o prazer erótico, o prazer emocional...

 

Sentimento amoroso, quando do que falamos é de orientação sexual?

Não é a pessoa que me desperta atracção sexual, mas a pessoa por quem tenho atracção emocional. E sobretudo, o tipo de pessoa (neste caso o sexo da pessoa) por quem tenho mais sistematicamente atracção sexual e emocional simultaneamente. No limite, a sua pergunta inicial não tem resposta. Podemos definir a orientação sexual da pessoa até um momento da sua vida, mas não sabemos o que é que se vai passar dali para diante.

 

A orientação sexual é uma coisa volátil?

É volátil no sentido em que o gostar de alguém pode ser volátil. Há pessoas que gostam da mesma pessoa para o resto da vida, e outras de várias pessoas ao longo da vida. O sexo destas pessoas pode variar ou não. A psicologia tendeu a olhar para esta forma de sentir como uma questão identitária. Seria uma questão rígida que aconteceria de uma só forma na vida. Encontraríamos uma verdade, definiríamos o que a pessoa sente, e daí para diante ela só sentira daquela maneira. Mas os humanos não são definíveis à partida, os humanos são descritos a posteriori.

 

E não sentem sempre da mesma maneira.

Exactamente. Podemos projectar, porque no passado assim aconteceu, que o futuro vai ser desta maneira. Mas muitas pessoas surpreendem-se na sua caminhada da vida.

 

Quando se revela uma outra orientação, já estava lá, de modo embrionário? Não tinham percebido antes?

É um discurso que se encontra muitas vezes. Uma pessoa que até aos 50 anos teve um sentir dirigido, emocional e sexualmente, para pessoas de um sexo diferente do seu, dir-se-ia que a pessoa tem, ou teve até aqui, uma orientação heterossexual. Imaginemos que se apaixona, tem um sentimento erótico e emocional por alguém de um sexo igual ao seu. Forte, intenso, como é a paixão. E que daqui para diante volta a apaixonar-se por pessoas de um sexo diferente do seu. O que é que esta pessoa é em termos de orientação sexual?

 

Boa pergunta.

Respostas várias. É uma pessoa que teve sistematicamente uma orientação heterossexual e que num momento da vida teve uma orientação homossexual. Os mais hesitantes diriam que, então, é bissexual. Contém nela própria a possibilidade desta dupla atracção. É uma leitura possível. Outra leitura: esta pessoa é maioritariamente heterossexual mas tem a possibilidade de ser homossexual. Diria que isto é uma coisa que acontece aos humanos. Em relação à orientação sexual a todos nos pode acontecer tudo. A uns mais do que a outros. E isso terá mais a ver com características de personalidade do que com a orientação sexual ela própria.

 

Voltemos a um aspecto: o de olharem para aquele que de repente assume uma orientação sexual diferente daquela que teve até então como, ou uma pessoa dissimulada, ou alguém que não percebeu antes o que era.

Já estamos a falar da reacção dos outros. O ser humano gosta de previsibilidade, e alguém que desmonta a previsibilidade é uma ameaça. No sentido em que perturba o outro, no sentido em que ameaça o outro. Mostra-nos a nossa capacidade, também, de nos transformarmos a qualquer momento. Isto é duplamente ameaçador, porque me impede a previsibilidade e porque me põe, a mim próprio em questão.

Não existe esta noção da essência – somos isto ou aquilo. Podemos ser tudo isto. Seleccionámos no menu social pré-existente em que estamos inscritos. Às vezes mantemo-nos numa das possibilidades, outras vezes movemo-nos.

 

Ou seja, vamos sendo, em vez de ser fixamente.

É. A língua portuguesa até nos ajuda, porque temos o verbo “ser” e “estar”. Não poderíamos dizer que o humano “é”, mas sim que o humano “está”. Esta ideia, em relação à orientação sexual, de passarmos a “ser” e deixarmos de “estar”, é uma coisa do séc. XIX. Até aí as pessoas podiam ser ou não pecadoras, podiam ser ou não criminosas – era a área em que estava inscrita a orientação sexual. Era pecado e não se devia fazer. Depois passou a ser crime e não se devia cometer.

Pegando no seu exemplo, somos assassinos, tornamo-nos assassinos ou ficamos assassinos naquele momento? Um assassino é assassino sempre? Um assassino é previamente definível como assassino? E uma vez cometido um assassinato, vai fazer mais? Estamos outra vez na reflexão sobre identidade.

 

Também entre os homossexuais, os bissexuais são olhados com desconfiança? Ficam como sendo pessoas que não se assumiram?

A definição é sempre mais securizante. E uma só possibilidade é menos ameaçador…

 

Voltando a este caso de NY, e extrapolando a partir dele, gostava que falasse de outro fenómeno: o de homens constantemente homossexuais terem atracção por homens heterossexuais. Tanto quanto sabemos pelo que veio a público, era o caso de Carlos Castro. Porque é que acha que é assim?

É uma coisa muito verbalizada, faz parte de muitas narrativas, e tem a ver com esta categorização que as nossas culturas tendem a fazer. Tudo está no seu lugar, como se houvesse os homossexuais-homossexuais, os homossexuais que não são bem homossexuais (os heterossexuais-homossexuais), os heterossexuais-heterossexuais. Numa dada perspectiva, alguém que não é homossexual, mas tem uma atracção por aquela pessoa [homossexual], significa que aquela pessoa ainda é mais escolhida, é a eleita das eleitas. Por outro lado estamos a cruzar a questão da orientação sexual com as questões de género.

 

Como se mudar a orientação sexual fosse uma prova de amor que se dá ao outro?

Normalmente não é isso que se vai buscar. Também pode estar ligado à ideia de homofobia internalizada. Sou um homossexual que, apesar de me aceitar completamente e de aceitar a homossexualidade, prefiro uma certa masculinidade a que está ligada a noção de heterossexualidade. São ideias que muitas vezes vivem, na nossa cultura, ligadas.

 

Ou seja, tendemos a olhar para os homens efeminados como homossexuais, e para os que assumem uma atitude máscula, viril, como sendo heterossexuais.

A homossexualidade e a masculinidade são coisas que podem estar mais próximas ou mais afastadas. Nos discursos mais conservadores isso que diz ainda é muito comum. Mas na verdade encontra homossexuais muito masculinos. O masculino e feminino são conceitos completamente sociais. São as características que consideramos que as pessoas que têm uns genitais e uma genética, e uma estrutura de corpo que se diz fêmea ou macho, deverão ter. 

 

Como se convencionou o rosa e o azul de uma forma tão estereotipada para designar este ou aquele género.

Absolutamente. Encontra mulheres homossexuais completamente femininas, e homens homossexuais completamente masculinos. E vice-versa: homens heterossexuais muito femininos e mulheres heterossexuais muito masculinas.

 

O que é a homofobia internalizada, de que tanto se tem ouvido falar?

Homofobia significa a rejeição da homossexualidade. No momento em que a palavra surgiu significava um horror a estar em espaços fechados com pessoas que tivessem atracção por pessoas do mesmo sexo. Com o tempo foi-se alargando o seu significado. Muitas pessoas não têm este comportamento fóbico, não ficam horrorizadas, mas não gostam de estar no mesmo espaço que homossexuais. Ou têm atitudes de rejeição e de exclusão, apenas devido à orientação sexual. A homofobia internalizada é a homofobia daquele que é homossexual. De alguém não homossexual diz-se apenas homofobia. Internalizada pela recusa de si próprio. Pode questionar: e não será por medo de si próprios? Sim, mas é uma questão simbólica e de léxico.

 

Aqueles que recusam ou não gostam de estar no mesmo espaço que homossexuais: é como se houvesse o perigo de contágio?

É essa a questão. “Não vou estar aqui porque não tenho nada a ver com isto. Com esta característica.”

 

Mesmo que neguem que têm qualquer medo do contágio.

Isso nem lhes passa pela cabeça! Mas no limite a homofobia tem sempre medo do contágio. “Deus me livre que eu pudesse ter o que quer que fosse disso!”.

 

Por isso tantos homens têm dificuldade em assumir as suas partes femininas?

Sim. A característica mais importante de ser homem, na nossa cultura, é não ter nada de feminino. Ter alguma coisa de feminino pode querer dizer, na mentalidade das pessoas, algum toque de homossexualidade. (Estamos a falar de conceitos, não estamos a falar de realidades.)

 

Como compreender que haja homossexuais homofóbicos?

Porque as pessoas nascem todas na mesma cultura que é completamente heteronormativa, que tem a heterossexualidade no centro. “Eu sou gay, mas eu não sou assim”. “Mesmo sendo homossexual, preferia não o ser”. Então, qual é a forma de ser menos? É relacionar-se com pessoas, mesmo que dentro dos afectos, que não o sejam e, naturalmente contribuir para a exclusão daqueles que se afirmam.

 

Especulou-se, especula-se, muito sobre o caso, as suas motivações, os contornos da relação, a identidade das pessoas envolvidas…

Sobre tudo o que se especulou, a possibilidade menos falada foi a ideia de isto ser tão só um crime passional. Existe a possibilidade de isto ter sido uma situação de delírio, dentro de um quadro patológico. Existe a possibilidade de isto estar ligado a uma situação de abuso sexual. Toda esta informação vai ser usada para generalizações dentro de cada campo do saber e naturalmente, para alimentar preconceitos.

 

Ou seja, vai continuar a especular-se e a usar este caso concreto para discutir os múltiplos aspectos que aqui estão envolvidos.

Sim. Desde a generalização de que este homem desviou um garoto.À noção de que a procura da fama levará a que a pessoa tenha comportamentos contrários ao seu desejo. À hipótese de isto ter sido uma situação delirante e estar dentro de um quadro patológico particular, às questões graves a que a homofobia conduz. Isto interessa a muitas áreas sociais e científicas.

 

Porque é que este crime tem suscitado tanta curiosidade junto da opinião pública?

O Carlos Castro é uma pessoa conhecida de todos os portugueses. Já era uma pessoa relativamente à qual existia uma emoção, mais positiva ou mais negativa. Qualquer história destas de um desconhecido, toca-nos, mas no dia seguinte é só uma narrativa. Aqui toca-nos e no dia seguinte há uma imagem e uma emoção que a pessoa já tinha. Outro aspecto: temos duas gerações, uma relação de uma pessoa de 65 anos com uma pessoa de 20. As relações com diferença de idade também são motivo de alguma estranheza, e trazem muitas fantasias. O que é que o mais velho faz ao mais novo?, o que é que o mais novo quer do mais velho? O próprio Renato Seabra, quase desconhecido, movia-se no mundo da fama, do desejo, da beleza, da escolha do físico.

 

Muito disto seria diferente se fosse um casal heterossexual?

Muito recentemente, um crime na Madeira teve alguma visibilidade nos jornais, e caiu. Eram dois psicólogos, um rapaz e uma rapariga, e a rapariga acabou a relação. Dias depois ele marcou um encontro e matou-a. Esfaqueou-a com inúmeras facadas. Não veio a público onde eram as facadas. O que veio a público foi o facto de serem dois psicólogos. “Como é que um psicólogo faz isto a outro?” Ninguém veio questionar se ele já era assassino, se era um psicólogo desequilibrado, todas estas questões que se estão a colocar agora. Este crime em NY, é uma boa oportunidade para voltar a denegrir a homossexualidade, aumentar de novo a homofobia.

 

Reconduzi-la a um gueto.

Colocá-la nesse lugar ou voltar a colocá-la nesse lugar. Quanto mais se denegrir um conceito qualquer que não queremos que vingue, mais difícil é esse conceito ser transformado. Isto é uma estratégia muito usada para a representação social. Mostrar que aquilo é tão mau que já não é só a homossexualidade: todos os homossexuais são maus, todos os homossexuais são assassinos, são perversos, matam ou levam a matar.

 

Fazem perder a cabeça desta maneira.

Se não matarem, fazem perder a cabeça e levam à morte.

 

Que simbologia tem a castração, ou a violência do olho?

Já têm surgido vários discursos sobre estes temas. Neste momento parece-me mais sensato não falar de médias. Seria a partir da média que falaríamos de simbologias.

 

A sua tese de doutoramento tem por tema os discursos sobre a homossexualidade no contexto clínico. Passaram cerca de dez anos. Apesar de as situações serem diferentes, as diferenças são significativas, se olharmos para o modo como o assunto tem sido tratado na praça pública?

Os discursos que analisei têm a peculiaridade de terem sido produzidos por técnicos de saúde, psiquiatras e psicólogos. Nada mudou de significativo nestes últimos anos. Os discursos homofóbicos, mesmo dentro dos terapeutas, mantêm-se. Estes discursos dos clínicos alimentam e constroem discursos sociais. Quanto mais houver dentro da classe clínica, mais se reproduzem fora desse contexto: validam o preconceito, porque são validados pelo véu da ciência.

 

 

 

Publicado originalmente na Revista Máxima em 2011

 

 

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