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Guernica

Comecemos por um quadro de Magritte, pouco visto, que faz parte da exposição “Encuentro con los años 30”, inaugurada no início de Outubro, em Madrid. É uma tela de médias dimensões, pintada entre os anos 1936 e 1937, em plena Guerra Civil Espanhola. É uma pintura escura, onde não se vislumbra esperança. Num céu ameaçador, há aviões de formas fabulosas, cinco. Não há neles qualquer dimensão lúdica, ou leveza. Pesam chumbo.  

A Europa daqueles anos talvez fosse assim. Despontavam os totalitarismos, havia na atmosfera um prenúncio de guerra. Uma grande guerra, a Segunda Guerra, com outra, fratricida, a acontecer ao lado, no mapa. Mesmo um pintor surrealista como Magritte pintou o quadro rente à realidade. O título é “A Bandeira Negra” (“Le drapeau noir”).

A resposta não é categórica quando perguntamos sobre que falava Magritte. Podia ser da guerra em Espanha, podia ser do ambiente que se respirava na Europa, podia ser do apoio da Alemanha à trincheira franquista. Em qualquer caso, era um horizonte sombrio, de incerteza. Um daqueles momentos da História em que tudo pode acontecer. Como aquele que hoje vivemos, e que perigosamente (mais do que gostaríamos) nos remete para os anos 30, e para a espiral de crise económica e social, deriva fascista no campo político, conflito militar entre nações.

A exposição que pode ser vista no Museu Reina Sofía é sobre esses tempos. É um documento e uma aula de História que tem como pretexto os 75 anos da “Guernica” de Picasso, mas que está longe de se esgotar nessa obra que é talvez a mais poderosa mensagem anti-belicista de todo o século XX.

Picasso pintou o mural na sua casa de Paris, Rue des Grands Augustins, 7. À noite. Quando a luz artificial era mais exacta, e propiciava um jogo de sombras mais contrastadas. Foi uma encomenda. A peça deveria integrar a representação espanhola na Exposição Internacional de Paris. Ano: 1937.

Dora Maar, musa, amante, fotógrafa, registava os diferentes momentos da composição da obra, do outro lado da sala. Como hoje, no museu: os registos fotográficos de Dora Maar estão na parede em frente. São fotografias pequenas, íntimas, que deixam perceber a relação corpo a corpo com o desenho, a rasura, o repensar, o compreender, o momento de reduzir tudo a cores de morte e transformar “Guernica” num grito.

Podemos ler na obra a tragédia de um coro grego, os despojos ainda fumegantes de um mundo que deixou de existir. A despeito do cinzento, tudo na “Guernica” nos fala à carne e ao sangue. Nada está em cinzas, seco. O tom cromático é o do luto. O lamento tem nele a cor da incompreensão, do absurdo, do sofrimento. Não é preciso que seja vermelho para que se veja nele a carnificina. É um quadro de um período de atordoamento. O que é que nos aconteceu?, poderia dizer, gritando, a mulher que se vê no lado direito da tela, braços levantados, as mãos suplicantes.

“Guernica” é o bombardeamento de Guernica, pequena aldeia de sete mil habitantes, numa manhã como as outras, pelos aviões alemães, a pedido de Franco? É a guerra civil espanhola? E se for qualquer guerra? Não é categórica a resposta quando perguntamos do que falava Picasso. Nem do que falam, hoje, os líderes de uma Europa à beira do colapso. Eles sabem que é tempo guerra? E é deveras tempo de guerra? A utopia do projecto europeu, paradigma de desenvolvimento e liberdade, está em risco de desaparecer?

As perguntas não estão na exposição, mas inevitavelmente elas fazem-se quando nos confrontamos com as peças que aí constam. Parece que foi há pouco. Setenta e cinco anos foi quando os nossos avós, os nossos pais nasceram. A memória é fresca. Há pessoas vivas que se lembram do bombardeio de Guernica, da população do País Basco dizimada, das mães que perderam filhos (há uma Pietà, à esquerda, no quadro de Picasso), dos corpos decepados (há um braço, o que resta de um braço, a segurar uma espada partida, e milagrosamente há uma flor que essa mão segura), do choro e do ranger de dentes (como é próprio do apocalipse). Há pessoas que seguiram as notícias da guerra civil de Espanha como se essa fosse a sua guerra, passada dentro da sua casa. Pessoas que se mobilizaram politicamente por causa do que ali estava a acontecer. Todos fomos espanhóis de 1936 a 1939.

O génio de Picasso fixou essa agonia. É uma obra de arte que é um manifesto político. É a sua forma de dizer isto que disse também em palavras: “No, la pintura no está hecha para decorar las habitaciones. Es un instrumento de guerra ofensivo y defensivo contra el enemigo.” Goya tinha dito o mesmo, noutros termos, quando pintou o “3 de Maio de 1808” (a obra está no Museu do Prado) e quando nos pomos no lugar dos homens que estão prestes a ser executados. Disse o mesmo nas suas famosas pinturas negras, de caras esfomeadas. Como é possível que o pintor da corte, o mesmo que pintou a “Maja Desnuda” e a “Maja Vestida” em tons cálidos, tenha pintado o horror daquela maneira?

Goya é uma espécie de presença constante e subliminar na exposição. Basta ver gravuras, desenhos, telas de André Masson e George Grosz para o compreender. Além da marca de Goya em Picasso e no imaginário espanhol. O grotesco da guerra está lá. 

Voltemos a “Guernica”. Dimensões: 3.50x7.82 m. Sim, quase oito metros de comprimento. Mas só quando se está ante o quadro se percebe bem a que é que correspondem estes oito metros, porque se fica subjugado por eles. É uma narrativa, desenrolada numa parede, pintada como se fosse uma série de colagens, de sobreposições. Camadas sobrepostas como se fossem corpos amontoados. Não há um centímetro de artifício, literatice, condescendência. Há um vago tom amarelado debaixo da lâmpada e de um olho (dá a impressão que nos segue, persegue). Há um touro (muito espanhol, muito Picasso) de que falam todos os estudos sobre a obra, e um cavalo (mais ao centro) que também grita, e cuja língua triangular corta como uma lâmina.

O quadro parece ainda uma ferida gigante. Há um silêncio na sala onde está, a mesma há cerca de 20 anos. A temperatura do espaço não se parece com a que há em frente a “As Meninas” de Velásquez; nem há o sopro da euforia que se sente na Capela Sistina ou junto à Mona Lisa. Algumas dezenas de pessoas olham “Guernica” devagar, com respeito, intimidadas pelo horror. Não seria despropositado falar de compaixão como sentimento dominante. Ou medo. Medo que também aquilo nos aconteça. De sentir algo parecido. O que nos devolve a questão central da exposição: o que foram os anos 30? Que circunstância excepcional foi aquela em que brotou uma peça como “Guernica”? A excepcionalidade foi só política ou também artística?

Os anos 30 foram mais do que anos de transição. Parece impossível que houvesse tanto para inventar, depois dos míticos anos 20, do esbatimento de fronteiras geográficas, culturais. Mas havia. No final da década, Lorca instalava-se em Nova Iorque, Salvador Dalí em Paris, Brecht reinventava o teatro em Berlim. Nos anos 30 consolidava-se o abstraccionismo, o surrealismo, o realismo. O totalitarismo. O que conduziu à Segunda Grande Guerra. À guerra civil. Explodiu a fotografia, o cinema, a imprensa. Não por acaso, na exposição do Reina Sofía há uma quantidade significativa de cartazes propagandísticos ou de publicidade, um cartaz onde se lê: “Rapidez en el cumplimiento de las órdenes”, filmes, fotografias do bombardeamento de Valencia nas páginas de um jornal. Há uma sala inteira dedicada à repercussão que a Guerra Civil Espanhola teve na imprensa estrangeira. Há obras que nos dão a ligação da arte (de artistas, melhor dizendo) aos totalitarismos soviético e italiano (sobretudo). Há obras que falam da ruptura, da experimentação, do indivíduo que não se submete à hegemonia do colectivo, que não pretende que a arte seja pedagógica, que recusa que a arte seja instrumental da política e da guerra. E no deste discurso centro, uma obra que é política e que fala da guerra, ainda que a sua raiz seja a do humano em sofrimento.

Esta exposição é uma parte de um díptico. Em Madrid, são dois pisos e centenas de obras que exploram a multiplicidade de encontros que se deram nos anos 30. Entre artistas, entre artistas e poder, entre diversas disciplinas e suportes, tendo como âncora a obra de Picasso. Em Nova Iorque, é uma exposição no Guggenheim Museum centrada no que Picasso pintou em branco e preto, entre 1904 e 1972. São118 obras, muitas delas da colecção particular do artista, raramente vistas. O propósito é situar a “Guernica” no contexto da obra de Picasso, como, na mostra no Reina Sofía, é situar o mural no contexto dos anos em que ele foi feito.

Se a exposição é boa? É. Talvez tenha excesso de informação, como têm uma boa parte das exposições dos nossos tempos. Ou talvez não, se pensarmos que precisamos dessa informação para entender, justamente, os nossos tempos. O catálogo (custa 40 euros!) é um livro de tamanho A5, 400 páginas, repleto de ensaios sobre os anos 30.

Nem há uma semana, duas ruas abaixo do museu, milhares de pessoas protestavam contra as medidas de austeridade, erguiam bandeiras, agitavam cartazes. A exposição continuava cá fora? A escolha, a resposta, também são nossas.

 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2012  

 

 

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