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Jaime Lerner

Jaime Lerner nasceu em 1937. É arquitecto e planejador urbano. É o responsável pelo fenómeno Curitiba, que se transformou em objecto de estudo pelo mundo fora. Implantou na cidade o primeiro metro de superfície do mundo. Multiplicou as zonas verdes e encarregou as ovelhas de pastorar os bosques. Desenvolveu a indústria da reciclagem e envolveu a população das favelas num programa de troca de lixo por comida.

Foi prefeito de Curitiba por três mandatos, governador do Estado do Paraná por dois – o segundo mandato terminou há poucos meses. É presidente da União Internacional dos Arquitectos.

A Ordem dos Arquitectos trouxe-o a Portugal para o ouvir sobre as cidades.

Eu ouvi-o ao longo de uma manhã e isso mudou o modo como vejo a vida nas cidades.

 

É verdade que o seu primeiro encontro em Portugal foi com Álvaro Siza?

Cheguei segunda-feira à tarde. No outro dia de manhã, saí de carro e vi o Álvaro Siza. Na rua. Não tive nem tempo de mandar parar, e também achei que era bom deixar assim... Ele estava tão entretido lendo alguma coisa que não quis incomodar.

 

Nunca o conheceu?

Não. Conheci as obras. Mas as coisas acontecem... É como se tivesse marcado um encontro com ele.

 

Um encontro marcado pelo destino. Porque é que decidiu ser arquitecto? A sua primeira formação é Engenharia.

Já estava formado em Engenharia, ganhei uma bolsa de estudos em Paris, em Urbanismo. Tinha 22 anos. Fiquei um ano e trabalhei em alguns escritórios. Quando voltei, estavam começando a organizar a Escola de Arquitectura lá no Paraná, e me convidaram para ser professor.

 

Tirou o curso em Paris?

Não. Tirei em Curitiba. Me ofereceram a condição de ser professor num novo curso, de Arquitectura, e eu disse: «Não quero ser professor. Quero ser aluno». Abandonei Engenharia e fiz Arquitectura. Preferi ser aluno e foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.

 

Teve a noção do que estava a fazer?

Veja como é a vida: meu único sonho era ser arquitecto. Diria que isso vem dos tempos que era criança. Na loja do meu pai tinha um piso de ladrilho. Quando olhava, ou era um desenho no plano ou era um desenho no espaço. Me encantava aquela noção de espaço. Depois tinha uma lata de fermento que me deixava louco! [desenha] Uma lata que tinha um losango, e [dentro] tinha outra lata, que tinha outro losango, e outra lata e outro losango... Era o infinito para mim. Com a noção de espaço e infinito, tinha que fazer Arquitectura.

 

Era uma lata grande?

Tinha uns 10, 15 cm, era cilíndrica. Ainda hoje procuro essa lata.

 

O efeito era semelhante ao de um caleidoscópio?

No caleidoscópio os desenhos são diferentes e não dão a noção do infinito. Mas adoro caleidoscópios! Essa mágica... Onde eu morava, tive a sorte de ter um circo do lado.

 

Em permanência?

Ficou um bom tempo. Morei numa rua fantástica. Tinha uma estação de trens [comboios], tinha os bares e os hotéis (que sempre são próximos a uma estação de trem), uma praça bonita, que tinha um fotógrafo que fotografava aviões: você ficava dentro do avião e aí ele te fotografava!; e mais adiante ficavam os vendedores de «comics». Eram brigas imensas que tinha com o meu irmão mais velho para ver quem era o mais forte: o Príncipe Submarino ou o Capitão América. O meu herói era o Capitão América. A quadra [quarteirão] seguinte era onde morávamos. Em frente tinha um jornal, «O Estado do Paraná». Mais adiante tinha um terreno baldio grande, onde ficavam os circos. Mas a rua continuava. Tinha um hotel tão bonito que parecia um hotel misterioso... A mim me parecia o maior hotel do mundo. Mais adiante tinha as estações de rádio e a prefeitura.

 

Isso é um mundo.

É, e cresci nesse mundo. Daí meu amor pela rua e pela cidade. Já se tentou, no urbanismo contemporâneo, várias soluções de organização da cidade: cidades espaciais, cidades que são lincadas... Mas nada se inventou que seja melhor que a rua tradicional.

 

A rua como espaço de confluência.

A rua que era integração de funções. Onde você morava, trabalhava, tinha o seu lazer. A minha recreação era a rua, andar por essa rua. Nasci naquela rua e mal podia imaginar que um dia ia cruzá-la para prestar juramento, para ser prefeito da minha cidade. Mágica, né? A rua da minha infância era a segunda rua mais importante da cidade. Tinha a câmara municipal, a prefeitura, tinha a estação de «bondes» [eléctricos].

 

O que fazia o seu pai?

Tinha uma loja. Meus pais foram emigrantes, vieram da Polónia antes da Guerra, em 33. Como a estação ferroviária ficava no começo da rua, por aquela loja passavam os agricultores, os políticos que vinham do interior, todas as pessoas. Passei a conhecer o que era o meu Estado, o que era o meu país. Tinha de tudo: roupas, sapatos, tecidos, lenços, sabonetes, pentes. Não era muito movimentada. Meu pai gostava de jogar xadrês com o dono da loja em frente e tinham tempo para contar histórias. Ainda hoje adoro escutar histórias.

Quando é que percebeu que a concretização daquilo que queria fazer era a Arquitectura? Numa cidade como Curitiba, há 50 anos, era evidente para um miúdo que aquilo que ele queria ser era arquitecto?

Não havia essa designação. Queria construir. Adorava desenhar. Quando me formei em Engenharia senti que não queria aquilo, que não ia trabalhar como engenheiro.

 

O que aprendeu no curso teve alguma serventia?

Não muito. Aprendi mais com os artistas do que com a Engenharia. O artista sente a sociedade antes. Sempre gostei de acompanhar o movimento artístico porque estas pessoas, com esta sensibilidade, sabem enxergar a realidade de um país antes.

 

Como coisa sabida instintivamente.

Era instintivo. E os jornalistas também. Eles estão acostumados a concluir depressa: concluem um estudo até ao dia seguinte. Se você entrega a um outro profissional, ele fica meses e não cumpre. A conclusão rápida, eu acho fundamental. Não gosto de conclusões requentadas.

 

A rapidez é uma das suas marcas. Quando foi eleito prefeito, ficou famosa a destruição de três ruas, com o propósito de criar uma grande rua comum, em 72 horas.

Não destruí a rua: retornei a rua para os pedestres.

 

O que é que teve de ir abaixo?

Não destruí nada. Nunca destruí nada. Odeio destruir. Acaba com a memória da cidade e não resolve nada. O que é preparar a área para os pedestres? Não é só fechar a rua para o automóvel. É ter equipamentos, criar um desenho, recuperar as edificações, iluminá-las bem. Imagine uma cidade que estava acostumada, como todas na época, a querer só espaço para o automóvel, e você chega e faz isso... Tinha que ser muito rápido, senão as petições judiciais interromperiam a obra.

 

Além das petições judiciais, havia o problema da reacção das pessoas...

É. Propus-me fazer os primeiros quarteirões e aí a população poderia julgar se estava bom ou não. O meu secretário de obras disse que ia levar uns três meses. Eu disse: «Não. Preciso disso em 24 horas».

 

Diz isso como provocação?

Não. Sabia que tinha de ser rápido. E aí o secretário de obras disse que era possível num mês... Quando ele chega e diz que dá para fazer em uma semana, eu disse: «Então vamos fazer em 72 horas. Começamos numa sexta-feira e concluímos na segunda-feira à noite».

 

Mas porquê essa incrível urgência?

Não é que quiséssemos bater recordes, mas eu era um prefeito nomeado, não tinha força nenhuma... Em qualquer momento podiam interromper a obra e seria muito difícil. O centro de uma cidade é que nem a mulher do mágico, (aquela que se põe no caixão e o mágico fica trespassando com as espadas). Porque é que a mulher não morre? Qual é o segredo?

 

Não sei.

A espada, ou passa tangencialmente ou pára antes. [desenha] É a mesma coisa com o trânsito. Você não pode matar um local onde há um grande encontro entre as pessoas.

 

Nessas 72 horas, esteve sempre presente?

O tempo todo. Como este, o outro momento assim foi a construção da ópera de arame em dois meses. Imagine construir um teatro em tão pouco tempo!

 

É um edifício belíssimo, ao lado de uma pedreira.

Iria acontecer um festival internacional de teatro, e o governador da época brigou com os patrocinadores e não queria deixar acontecer o festival nos teatros do Estado. Eles ficaram sem espaço, viraram-se para mim: «Você não pode nos salvar?». E aí falei na ópera de arame que estávamos pensando em fazer. Sei que começámos a obra dia 15 de Janeiro e dia 18 de Março inaugurámos. Para facilitar os concursos, adoptámos um só material, que era o tubo, e graças a isso, fizemos a ópera em dois meses. Eu ficava lá dia e noite. Esta felicidade de ver as coisas a acontecer... O primeiro dia que você coloca o sistema de transporte, é inesquecível.

 

Como é que acontece a um rapaz de 33 anos ser prefeito de uma cidade que foi sempre a sua?

Era presidente do Insituto de Arquitectos do Paraná...

 

Era um arquitecto que projecta ou trabalhava já como planeador urbano? É mais um que outro? Como é que faz para que um e outro lado coabitem harmoniosamente?

É tudo junto. Tem que ser tudo junto. Tem uma série de coisas que são vitais para você fazer acontecer.

 

O quê?

Primeiro vontade, vontade política. Segundo, uma visão solidária, saber enxergar a cidade através de todas as pessoas. Através dos olhos dos estudantes, dos trabalhadores, dos artistas, das crianças. Como vêem a cidade, o que esperam da cidade. Terceiro, uma visão estratégica, saber que não pode fazer tudo.

 

Mas essa pretensão não é legítima, e mesmo profícua, sobretudo entre os mais jovens?

Se você corre atrás de todas as necessidades, não consegue fazer nada. Mas se for só atrás das potencialidades, você se afasta. Tem que trabalhar na balança entre essas duas coisas. Fazer uma equação de co-responsabilidade para cada problema. Não temos dinheiro, então vamos fazer assim: uns fazem aquela parte e nós fazemos a outra.

 

No fundo, trata-se de implicar todas as partes no processo.

É. Uma vez estava fazendo uma palestra no MIT sobre cidades, em 92/ 93, e perguntaram-me: «Como é que faz para acontecer?». Olhei a plateia, todos pós-graduados, gente de todo o mundo, do Irão, do Perú, da Jamaica, países com diferentes sistemas de governo. E falei: «Não posso ter a pretensão de dizer como é que faz para acontecer. Mas vou começar a pensar em voz alta».

 

Essa é a pergunta que constantemente lhe fazem: como é que se faz. É também a minha pergunta.

Surgiu naquele dia uma definição que uso até hoje. Fazer acontecer é propôr um uma ideia, um projecto, que todos ou a grande maioria entendam que é desejável. Se entenderem que é desejável, vão ajudar a fazer acontecer. As coisas só acontecem se se mostra como vai ser, se a população entende qual é a finalidade. Porquê separar o lixo? Se entendem, não há o que segure. A reacção de uma população é uma coisa extraordinária.

 

Como é que ausculta o ponto?

Sondagens, reuniões, discussões. A democracia é um processo de conflitos. Nunca se espera consenso de tudo. É um vai e volta. Às vezes os responsáveis pela cidade iniciam o assunto. Outras vezes é a própria comunidade.

 

Como é que se reúnem consensos? No plano político, as soluções propostas pela Esquerda e pela Direita para a resolução de problemas são divergentes.

Na prática, estamos muito interligados. É difícil reunir consensos se você fica no diagnóstico... Entre o meu primeiro e segundo mandato fui professor em Berkeley, na Califórnia; vim de lá muito influenciado pelo papel dos grupos comunitários e me pus toda a noite em reuniões de associação de moradores. Iam pondo problemas a todo o momento... E eu disse: «Não vou conseguir resolver isso nunca». Porque é preciso trabalhar com as necessidades que a população te traz todo o dia, mas não perder de vista a visão global.

 

Não é difícil ter essa visão global? É fácil se estivermos numa cúpula e percebermos toda a movimentação cá em baixo, a gestão das várias tarefas e pessoas.

Ser prefeito é como ser um mágico dos pratos chineses: tem que equilibrar várias coisas ao mesmo tempo; sempre tem uma auxiliar que te vai chegando mais um prato e não pode deixar cair nenhum. Mas a melhor visão é sempre a de baixo. Nunca gostei de percorrer uma cidade de helicóptero. É bom para ter uma ideia, mas não é isso que te define as coisas.

 

Então é o quê?

O que define as coisas são as pessoas. As pessoas dentro da cidade. Eu gosto é de andar a pé. Ando, ando, ando. Acho importante as pessoas entenderem o desenho das suas cidades. Quando te mostram o desenho de cada município, a divisão é política. São mapas que não dizem nada, você olha e não enxerga a região. Agora, se começa a sentir o rio da cidade, os antigos caminhos... Procurar o desenho de uma cidade é fazer uma estranha arqueologia, descobrir os caminhos que fizeram a sua história.

 

Qual é a importância dos caminhos antigos?

Há toda uma história sedimentada ali. Quando se visita uma cidade pela primeira vez, se não entende a cidade, não gosta. Mas se começar a dizer que a Califórina é um «y»...

 

E Lisboa?

Sete colinas.

 

Retomemos a ideia inicial. Um rapaz de 33 anos à frente de uma prefeitura. A coisa extraordinária que implementou e que revolucionou a vida da cidade foi o sistema de transportes públicos. Importa-se de descrever o «seu» famoso ônibus, de que toda a gente fala?

Curitiba tinha 600 mil habitantes. Dizia-se que quando uma cidade chegasse a um milhão de pessoas tinha de ter um metro. Um metro tem de ser rápido, ter conforto e frequência. Não tínhamos dinheiro para isso, então pensámos num sistema que fosse rápido, mas na superfície. Usámos as ruas tal como existiam: ônibus em pista exclusiva, num carril. Ninguém pode invadir.

 

Mas não pode mesmo? Nas estradas portugueses é frequente ver as faixas dos táxis e autocarros invadidas por apressados...

Mas isso não acontece mesmo! A faixa é delimitada, não permitindo que outros andem ali. Se este ônibus pára de tantos em tantos metros e se o embarque é facilitado, então é possível. Inventámos uma coisa nova, uma coisa boa.

 

Foi o primeiro metro de superfície do mundo?

Foi. Aí a coisa começou a evoluir. Mais tarde desenhámos os tubos, um outro achado importante.

 

Porquê?

Vou aqui fazer um desenho e você vai-se transformar numa especialista em transportes urbanos. Um ônibus normal andando em uma avenida normal, tem a capacidade de transportar X passageiros por dia. Se colocar em pista exclusiva, o mesmo ônibus tem a possibilidade de transportar duas vezes mais.

 

Porque não perde tempo no tráfego?

É isso. Agora, se o ônibus for articulado, (aquele com um acordeão), transporta 2,8 mais passageiros. Se usar o articulado mais um embarque no mesmo nível – que pressupõe um tubo e que a entrada no ônibus já esteja paga_, aí vai para 3,5 vezes mais. Se fizer isto mais um ônibus bi-articulado...

 

Quantas pessoas leva um ônibus bi-articulado?

Trezentas. Duzentos e setenta passageiros suecos. Trezentos brasileiros. Aí, chega a 4 vezes mais. No mesmo espaço, transporta 4 vezes mais passageiros. No transporte de superfície o principal é a frequência. No transporte como no amor, não pode esperar muito... É isso que define a qualidade de um sistema. Tem metros no mundo que são super-sofisticados mas com uma frequência de 5 em 5 minutos. Não adianta nada. De minuto a minuto, tem de estar a passar um.

 

E há outra coisa: normalmente o transporte público é incómodo, as pessoas vão como sardinha em lata.

Tem que ser uma coisa agradável. Se a frequência for maior, as pessoas não vão como sardinha em lata.

 

É verdade que em Curitiba o máximo que as pessoas podem esperar em hora de ponta é 45 segundos?

É verdade. As pessoas só vão abandonar o automóvel se for uma alternativa melhor. Logo, logo.

 

[Mudámos de sala porque o barulho das obras no espaço contíguo começou e desconcentrar-nos. Retomámos a conversa justamente falando de concentração e rentabilização do tempo]

 

Sempre defendi que a cidade humana é a cidade onde se integra tudo. É uma estrutura de vida e trabalho, juntos. Como governador e como prefeito, sempre insisti que junto de cada casa houvesse um espaço de trabalho, uma barbearia, um escritório.

 

Acoplar trabalho e vida própria num mesmo espaço físico? Tornar tudo mais próximo é a sua grande aposta.

O grande engano foi esta interpretação de que é melhor morar longe do trabalho. Essa separação das funções foi trágica para muitas cidades. Sabe como atraímos actividades económicas para Curitiba na disputa com São Paulo? Eu chegava para eles e dizia assim: «Querem ir para São Paulo? Muito bem. Perdem em São Paulo 3 horas a mais do que em Curitiba, circulando. Três horas a mais por dia são 20 horas por semana. 20 horas por semana são 1000 horas por ano. De cada 8 anos, perde 1 ano. Atrás de um camião respirando fumaça. Como a expectativa de vida é de 72 anos, pergunto: querem perder 9 anos das suas vidas? Não? Então venham morar em Curitiba!».

 

O argumento ecológico foi fundamental. É espantoso que Curitiba tivesse há 30 anos meio metro quadrado de verde por cada habitante e hoje tenha 52.

E a população triplicou! A conquista do verde aconteceu da seguinte maneira: assim que percebemos que o que a população mais queria era que se salvassem os bosques, comecei a procurar os proprietários, as famílias. Para estas, a manutenção dos bosques era muito difícil. Então, propunha que ficassem com 1/3 da área. Nós comprávamos 2/3, mas tinha de ser muito barato.

 

Como é que as convenceu a vender barato?

Dizia que íamos fazer uma homenagem e dar ao parque o nome da família.

 

Que esperto!

[risos] Salvámos 91 bosques.

 

Em Portugal, na maior parte das vezes, quando se destroem espaços verdes é para construir em cima. Isto leva-nos a um tema incontornável na vida das cidades: a corrupção. Não por acaso, a Bastonária da Ordem dos Arquitectos pediu que se esclarecessem as relações entre construção civil e autarquias. Como é que se faz face a uma questão destas?

A primeira coisa é ser muito transparente. Na hora que estamos tratando de desapropriar e comprar uma área, a pessoa que está ali negociando com os proprietários tem que ser muito transparente. Como essa operação era bem conhecida e muito fiscalizada, a gente tinha a certeza que o valor que era pago era igual.

 

Com certeza já lhe aconteceu lidar com funcionários corruptos...

Numa estrutura de 20 mil funcionários (prefeitura) ou 200 mil (Estado), claro que tem. E tem que tomar medidas.

 

Referia-me à pequena e à grande corrupção. Aos trocos que fazem acelerar um processo e às grandes maquias que resultam do favorecimento de um projecto.

Sempre achei que o poder público tinha que mostrar eficiência e ser muito rápido. Se as coisas forem bastante rápidas, não chega a haver corrupção. Não há necessidade de querer facilitar as coisas, «Olha, preciso que o meu processo corra mais rápido que os outros». Mas a corrupção, ela aparece. É como uma mancha que não sai da roupa. E você sabe que tem que agir em determinados momentos. As pessoas precisam de ter confiança no poder público.

 

As suas soluções são de uma simplicidade extraordinária.

Uma vez o Oscar Niemeyer disse: «Nós não temos o direito de complicar a nossa comunicação com os outros». Tenho procurado não sofisticar demasiado, colocar de maneira que todas as pessoas possam entender. A cidade não é tão complexa quanto os vendedores de complexidade querem fazer acreditar. A cidade é um espaço onde as pessoas vivem e trabalham e têm as suas esperanças.

 

É a sua definição de cidade?

Não tenho. No outro dia me perguntaram: «Qual é a cidade que você mais gosta?». É a cidade que uma criança possa desenhar. Sou encantado pelo desenho, não porque me iluda com o desenho, mas porque o desenho permite começar. Com o desenho você faz antes. Fazer antes significa comunicar antes. E depois, pode mostrar para as pessoas dizerem se estão de acordo ou não. E não elaborar grandes teorias. O mundo está cheio de heróis de seminário.

 

Heróis de seminário?

É o sujeito a que ninguém presta atenção em casa, que lê no jornal que há um seminário e que vai discursar os 10 minutos que não tem de atenção em casa. Então faz esses diagnósticos intermináveis... As coisas precisam de ser simplificadas. Até para poderem ser sentidas e vividas.

 

Deixe-me voltar à definição de cidade «ideal», aquela que uma criança possa desenhar.

Significa que se ela já está entendendo, é um caminho tão bonito...

 

Normalmente os desenhos das crianças têm núvens, sol, um rio, casas, um carro, o pai e a mãe.

Se na escola tivessem aulas sobre a cidade, seria importante. Se a capa do caderno tiver o desenho da cidade, e até um certo relevo, podem apontar e dizer que moram aqui, e a criança do lado ali.

 

Identificam-no no espaço, e desse modo integram-se?

A identidade é um ponto fundamental da qualidade de vida. Eu diria tão importante como o equipamento de uma cidade. A cidade é um velho retrato de família. Pode não gostar daquele tio gordo, ou da tia brava mas é aquele retrato. Você não rasga um retrato de família. É a tua identidade. Tenho encontrado, em todas as andanças que fiz pelo mundo, regiões muito bem equipadas onde as pessoas não estão felizes...

 

Nos países nórdicos, onde tudo é perfeito, há uma taxa de suicídio elevada.

Ou então você vai numa cidade pequena ou num bairro que não tem tudo e as pessoas são felizes... Porque têm uma referência. Conhecem aquele lugar, sabem onde a fábrica está, onde o armazém está. No fundo, eles sabem que eu existo. O sentimento de pertença a uma cidade é muito importante.

 

Se vivo num determinado bairro ou cidade, se estabeleço uma relação de identidade e pertença com esse espaço, isso influi significativamente na minha vida, mesmo?

É. Porque é que defendo o transporte de superfície? Porque estabelece uma identidade entre o passageiro e o seu itinerário. E para aquele que está na calçada, o passageiro que está passando é um retratinho. [desenha] Cada janela é uma pessoa que ele está vendo. Já reparou que num transporte de superfície as pessoas falam entre si? Em baixo da terra não falam.

 

Nunca reparei. Por causa desse processo de identificação?

É.

 

O seu primeiro mandato ficou marcado pela solução genial do ônibus de superfície. Isto remete-nos para uma questão importante: por onde começar? É possível começar por uma ponta ou tem que se fazer tudo ao mesmo tempo?

Pensar tudo ao mesmo tempo. Para fazer, tem que ter algumas prioridades. Na mesma época que fizemos a solução do transporte, fizemos os parques, fizemos uma revolução cultural na cidade... Uma antiga fábrica de pólvora virou um teatro, uma antiga fábrica de cola virou um centro de criatividade. A população gosta quando você pega numa referência importante e volta a dar vida.

 

No seu segundo mandato desenvolveu um projecto nas favelas, espaços putrefactos onde não existe rede de saneamento básico e onde não chega o carro do lixo pelo simples facto de os caminhos serem demasíado íngremes e estreitos. Um ninho de ratos a céu aberto, portanto. Compremeteu as pessoas na resolução do problema fazendo-as trocar lixo por comida...

Ou trocar o lixo por um ticket de transporte. Me lembrei: «Nós não temos que pagar às empresas que colectam lixo? Então, vamos pagar para os moradores trazerem o lixo para um lugar mais acessível». Se não se estabelecer uma relação de troca com a população, você vai manter a população isolada. E as pessoas têm que ter outra esperança de trabalho que não seja o trabalho ligado à droga.

 

Num programa da NBC a que pude assistir, e que era dedicado ao fenómeno Curitiba, era muito impressionante ver pessoas em fila com o lixo na mão, que elas mesmo separavam, e que depois ia ser reciclado. Em troca, recebiam comida. Onde é que arranjou dinheiro para a comida?

Eu observava nos noticiários os produtores da região; queixavam-se que produziam demais, não conseguiam preços bons para os seus produtos. Estavam a jogar fora comida porque não compensava... Procurei esses produtores e disse: «Vocês não vão jogar fora, nós vamos comprar». Claro que a um preço barato, mas rende mais do que jogar fora. E passámos a trocar com o reciclado. Vendendo o material reciclável, arrecadávamos dinheiro e pagávamos aos produtores rurais. E o que era bonito era que uma criança que separava o lixo estava ajudando outra criança, filha de um produtor.

 

A troca era por bens alimentares ou senhas de transporte, mas nunca dinheiro?

Nunca. Quando se passa dinheiro, a gente não sabe quais os intermediários que estão nesse processo. Com comida ou vales de transporte, as coisas são mais imediatas e não possibilitam um enganar o outro. Tem tantas coisas que a gente foi aprendendo em todo o decorrer dos anos... Não tenho medo de nenhum problema. Tudo o que quero fazer na vida é procurar dizer que as coisas são possíveis.

 

Porque é que sempre acreditou? Tem uma convicção extraordinária.

Não sou nenhum naif, não sou ingénuo. Mas não gosto da derrota por antecedência. Não sei porque se criou uma visão tão trágica na vida das cidades. Fazem-se diagnósticos: o dia em que a Cidade do México vai ter 50 milhões de habitantes, o dia em que São Paulo vai ter 40 milhões de habitantes. Não me interessa isso. O que me interessa é usar a energia que tenho no sentido de evitar uma tendência que não é desejável. Tem de pensar como melhorar a vida das pessoas e não como consagrar a derrota.

 

Quando foi nomeado prefeito acreditava que ia ser assim? Podia ser engolido pela máquina.

Queria fazer as coisas em que acreditava. Tem que correr atrás dos sonhos. Ou então, mais cedo ou mais tarde, os sonhos te alcançam. Não tem é o direito de estar distraído. Senão o sonho passa e, por estar distraído, não viu o seu sonho passar. Já fui prefeito três vezes, governador por duas vezes de um Estado que tem 10 milhões de pessoas... Não tenho mais interesse político. Eu gostaria de provar que as coisas são possíveis.

 

Gostava de ser presidente do Brasil?

Houve um momento, em 92, em que havia uma chance de sair candidato. Seria a primeira vez que um candidato sairia de uma prefeitura directo. Mas é uma questão de ter controlo partidário e eu nunca fui de manipulação de partido.

 

Não é um político?

Não. Cheguei à política por acidente.

 

É comunista?

Não. A minha visão é humanista. Prefiro ter mais compromisso com a ética do que com uma determinada corrente. Gosto de ficar mais livre para não ter que concordar às vezes com coisas de que discordo.

 

Quando chega a uma cidade começa logo a imaginar as soluções que implantaria nessa cidade?

Quando conheço o suficiente, já estou imaginando soluções. Infelizmente não tive a condição de me soltar em Lisboa, não conheço o suficiente. E na criatividade não existe uma coisa chamada inspiração. Na verdade, quando não tem a solução é porque faltam dados. O teu cérebro está dizendo: «Mais dados, mais dados». Mas se me soltasse em Lisboa e se a conhecesse melhor, logo acontecia: «Ah, isso pode acontecer assim». Nem sempre as coisas precisam acontecer. O exercício de pensar é bonito. É isso que faz a vida melhor.

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 2003

 

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