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Joana Vasconcelos (2005)

Joana Vasconcelos ocupa um armazém espaçoso na Fundição de Oeiras. As peças, algumas peças, estão dispostas entre as paredes brancas. Há cães de louça cobertos por naperons, há uma televisão revestida a renda que contém a estridência das Doce a cantar «Bem Bom». Hey! Ela fala da sua metalúrgica como quem fala do dentista e sabe os nomes dos senhores das retrosarias e drogarias. Ela sabe onde encontrar espanadores roxos para prestar tributo ao filme «Flor do meu desejo» de Pedro Almodovar. Sabe organizar um dossier e pedir à OB que patrocine um lustre de tampões que tem na ideia...

Joana Vasconcelos é artista plástica. O seu percurso acabou por ser bastante clássico, como ela concorda. Estudou entre a António Arroio, o Ar.Co, um primeiro ano no IADE em que ia morrendo de infelicidade, e o desejo de frequentar arquitectura! Fez coisas tão desvairadas quanto chapéus em esferovite, muito grandes, para as Manobras de Maio.

Até pode ser que tudo tenha começado no liceu, quando um senhor que desenhava notas e numismática, o senhor Isolino Vaz, achou que ela tinha imenso jeito para desenho e lhe incrementou as notas de modo a poder entrar na António Arroio. A António Arroio, para além de ser longe de casa, tinha muito má fama. Mas foi à mesma, e estudou joalharia e desenho. E depois tudo foi acontecendo, em catadupa.

Em Junho, a sua peça mais arrojada, o lustre «A Noiva» estará na Bienal de Veneza.

 

A primeira pergunta pode ser sobre a origem. De onde é que isto tudo vem?

Como é que comecei a ser artista? É uma coisa um bocado estranha de se ser. Não vem inscrita nas páginas amarelas ou nos anuários das profissões. É uma profissão que se encontra e que se cria. Cada um cria esta profissão para si próprio.

 

A designação “artista plástico” é muito abrangente; nela cabem disciplinas várias. Como é que olha para si: é mais escultora, é mais artista plástica, é mais inventora?

É no momento da burocracia que se descobrem algumas coisas engraçadas sobre a nossa vida. No Ar.Co, o curso que tirei foi joalharia, e depois desenho, e depois um curso avançado. Mas nunca fui joalheira. Também nunca desenhei. Quando comecei a receber cartas em casa para “escultora Joana Vasconcelos”, achei que, se calhar, era mesmo escultora. E [aquando da] minha participação no Project Room de Serralves, deram-me um cartão que dizia “artista”. Quando pedi um empréstimo ao banco, escrevi que a minha profissão era “artista plástica”.

 

Mas radica onde a consciência de que esta podia ser a sua vida?

Fiz um percurso bastante clássico para ser artista. Não sabia bem o que é que havia de fazer. O meu pai fez até ao terceiro ano de Arquitectura, mas foi para França e acabou fotógrafo. A minha mãe tirou o curso de decoração da Ricardo Espírito Santo. Eu conhecia o Palolo desde miúda. Nas férias ia a casa do René Bertholo. Conheço as pessoas todas desde miúda. Mas o problema das artes é uma pessoa encontrar a modalidade certa para se expressar. Testes psicotécnicos, eu fazia aos montes!

 

Para encontrar a solução?

Sim. Os meus pais, quando vieram de Paris, puseram-me no Liceu Francês.

 

Nasceu em Paris, onde viveu até aos quatro anos. Em Portugal, depois do Licei Francês, prosseguiu a sua formação no Liceu Marquês de Pombal, na António Arroio e no Ar.Co.

Quando cheguei ao Ar.Co é que me apercebi de que havia um outro mundo de pessoas. Mas aos 17 anos, ia às festas do Frágil com o meu primo Ricardo, cinco anos mais velho. Já tinha feito o Inter-rail até Paris e Berlim, rapado o cabelo, usava sapatos da Ana Salazar. A verdade é que muito depressa comecei a fazer parte de um núcleo de pessoas mais velhas do que eu, que tinham uma vida muito diferente. A coisa foi um bocado acontecendo...

 

A sua maleabilidade técnica deriva de anos de formação diversificada. Como foi a sua descoberta dos materiais?

No segundo ano [do Ar.Co] fiz umas peças de escultura em fibra de vidro. Quis fazer aquilo brilhante, shinning, e fui à procura de um atelier onde se trabalhasse fibra de vidro. De repente saio da escola, da protecção dos professores, e encontro-me no mundo do trabalho, no atelier de pessoas que fazem canoas, barcos e que não estão cá com tempo para aturar caprichos de meninas artistas. Vesti o meu fato-macaco e trabalhei todo o Verão. Ensinaram-me a fazer moldes, estrutura. Aprendi a elaborar um dossier e pedir patrocínio à fábrica das fibras. Passei o primeiro teste de esforço que estas coisas exigem. Foi um processo importantíssimo para a minha evolução.

 

Mas as suas peças, os materiais que utiliza e as suas dimensões são desde sempre originais. Para uma festa da escola fez uma mesa deveras singular...

As inaugurações [na escola] eram umas coisas com uns senhores de libret e umas bandejas que me irritavam sobremaneira.

 

O que é que a agredia?

Não coincidia com toda a aventura que era o trabalho artístico e a escola! Resultava sempre nuns naperons em papel, com croquetes e rissóis, parecia que se estava no Palácio de Queluz! Só que se estava nas caves da escola, com umas coisas expostas nas paredes. Fiz a “Plastic Party”: uma mesa preta, em ferro, com tupperwares, onde eram postas as comidas para a inauguração. O director da escola ficou zangado comigo para todo o sempre.

 

Mas a peça foi um sucesso e abriu-lhe as portas da Fundação de Serralves. Foi um privilégio.

Sim, mas Serralves ainda não era [o Museu de Arte Contemporânea de] Serralves. Isto passou-se há 12, 13 anos. Sou convidada pelo João Fernandes para a exposição “Mais tempo, menos história”, em Serralves. E sou convidada para uma exposição na Estufa Fria, chamada Green House Display, com o grupo da ESBAL.

 

As condições de uma e outra eram distintas.

No Green House Display não havia dinheiro, era tudo malta nova. Apresentei a peça “Flores do meu desejo”, feita com trezentos e tal espanadores, e pedi ao meu pai 48 contos para comprar os espanadores. Ele emprestou na condição de devolver o dinheiro no caso de vender a peça. A minha mãe ajudou-me a montá-la, não havia equipa.

 

Espanadores, valiuns, tampões, rendas. Aquilo que é aparentemente trash é transformado por si. Parte desta matéria-prima para reinventar objectos do quotidiano. João Fernandes, a propósito do seu trabalho, escreveu: “As coisas já não são o que eram”.

Um amigo meu, e intelectual, Jorge Lima Barreto, chamou-lhe “novo objectivismo”. É um conceito engraçado: dotar os objectos de uma nova dimensão.

 

A sua vida, o ambiente proporcionado pelos seus pais, não coincide com uma portugalidade kitsch que muitas das suas obras exibem. Não se imagina que na casa dos seus pais houvesse naperons sobre os sofás...

Costumo dizer que a minha família nunca foi uma família tradicional portuguesa. A primeira vez que fui à missa tinha 18 anos, nunca sequer tinha entrado numa igreja. Sou uma pessoa que tem um raccord ao que é português completamente diferente. A minha avó viveu na China, depois na Índia, depois em Macau, depois em África.

 

Com quem é que aprendeu a olhar o social?

Com ninguém. Aprendi a olhar o social pela diferença, pelo facto de não ter o raccord tradicionalista.

 

O vestido da comunhão e as tias chatas.

Não tive nada disso. E como não tenho essa família, todas essas coisas me pareceram sempre “ai que giro, tão diferente”. A família do meu namorado é a família tradicional portuguesa; quando me comecei a dar com eles, percebi que havia uma outra maneira de ser português.

 

Corresponde ao protótipo da rapariga do pós-25 de Abril? Pertence a uma geração para quem a Internet, o divórcio, viajar, estudar fora ou falar inglês são ferramentas vulgares. Nesse sentido, é uma filha da Revolução?

Sou completamente isso. Os meus pais faziam parte da Revolução. É por isso que nasço em Paris. Se não houvesse o 25 de Abril, não teríamos vindo embora e eu seria uma artista francesa.

 

Gostaria de ter ficado em França?

Não especialmente.

 

A sua carreira atravessa uma fase de expansão internacional. No início deste ano, fez sucesso em Paris, onde há 15 anos um artista português não expunha a título individual. Que peso tem, agora, a sua participação na Bienal de Veneza? Leva “A noiva”, a sua peça mais emblemática.

Veneza é um palco de vaidades e influências, é um palco político e artístico. É uma dimensão que não conhecia, de que não tinha tido experiência. Estes grandes eventos são importantes, mas também podem não acontecer na vida de um artista. Estou a ter uma sorte incrível porque o meu curator espanhol, (Rosa Martinez), ao pensar no curating do Arsenale, considerou que a peça que daria bem o mote para a exposição era a minha!

 

Quer dizer que logo à entrada do espaço expositivo, a peça que dá o mote e promove o discurso com outras peças é a sua. Mas como é que se lembrou de fazer um lustre com 14 mil tampões, que começou por ser exibido no Lux, em Lisboa?

Agora são mais, [na peça que vai estar em Veneza] são 25 mil.

 

Trabalhou noções como o branco, o luxo, a pureza.

O vestido de casamento é uma coisa obsoleta, porque já ninguém é virgem no dia do casamento. Mas é um objecto luxuoso, são cinco minutos de fama na vida de uma mulher. E o lustre é outro dos objectos que traduzem o luxo. Seja a casa pobre, seja a casa rica, seja em França, seja em Espanha, há sempre um raio do lustre, nem que seja deste tamanhinho. Há outras constantes: a rainha de Inglaterra ou a miúda de Freixo de Espada à Cinta continuam a vestir de branco. Agora até no Japão elas se casam de vestido de branco.

 

Todavia, o mundo em mudança é um dos seus pontos de partida.

Esta peça é sobre isso: a condição da mulher já não é o que era. Porque há os tampões, porque há a pílula.

 

As questões do feminino, assim como as da portugalidade, são os seus dois grandes corpos de trabalho.

O consumismo também. É a sociedade em geral. É toda uma série de coisas.

 

Como é que tudo acaba por ser vertido para o seu trabalho?

De todas as maneiras e feitios. Pode ser acordada, pode ser a sonhar, pode ser à noite, pode ser num desenho, pode ser num filme, pode ser num fado. O “Coração de Viana” que está no Restaurante Eleven é inspirado num fado de Amália. “Coração independente/coração que eu não comando/vive perdido entre a gente/teimosamente sangrando”.

 

O coração é feito de talheres de plástico!

O coração de Viana é um objecto de luxo. Eu reproduzo a filigrana através dos talheres de plástico. Parece feito de filigrana, mas não é. É exactamente esse ponto: parece, mas não é. Se calhar, até é. Depois da transformação, aquilo é um objecto de luxo.

 

Mesmo que não seja feito a ouro.

Consegue, apesar de ser feito com plástico, ganhar outra dimensão. O processo artístico faz isso: descontextualiza, mas recontextualiza noutro universo. É manter o luxo através da banalidade. A vida de todos os dias também pode ser luxuosa.

 

 

Publicado originalmente na revista Elle em 2005

 

 

 

 

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