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João Duque

João Duque gosta de ser o João Duque. O que aparece na televisão, o que preside ao ISEG, o que foi falado para ministro (ele fez constar que não podia aceitar). João Duque está visivelmente satisfeito por ter chegado onde chegou (e vão saber na entrevista de onde é que ele vem). Tem aquela atitude de quem esfrega as mãos e pergunta o que é que há para fazer a seguir. Transborda jovialidade, talvez um pouco em excesso. Pede uma sandes que quase não come, responde às perguntas com a convicção de que sabe comunicar e contar uma história. A sua história. Não é nada pomposo, não tem um tom monocórdico. Duque fez-se na comunicação social (pelo menos para o grande público) e sabe que chatezas, além de não pagarem dívidas, não granjeiam audiência.

A intenção não era entrevistar Duque sobre o documento mais discutido da semana passada (que pretendia definir o conceito de serviço público de televisão, cujo trabalho coordenou). Mas dar a conhecer Duque, que, no dia em que falava comigo, preparava o corpo para o dar às balas. Foi mais ou menos isto que disse e de que teve noção quando escolheu os adereços que ia pôr. À noite ia à televisão, de manhã tinha intervindo na rádio, nos jornais estava o essencial da proposta.

Quem é João Duque? Dois excertos da conversa: “Dava explicações para ganhar mais uns cobres e os meus alunos tinham sucesso. A característica das minhas intervenções públicas é ser claro nas ideias que transmito.” Noutra fase da vida: “Saí da direcção da Galp para me candidatar, como bolseiro, para estudar no estrangeiro, perdi imenso dinheiro. E depois de vir de Inglaterra estive na CMVM cinco anos, saí para vir trabalhar aqui, ganhando metade, sem carro. Está a ver do que é que abdiquei para ser professor”. Quem é? Professor, responderá ele. Com uma biografia que sumariamente se adianta.

  

O João Duque não é só o João Duque que conhecemos da televisão.

Claro que não.

 

Há uma primeira coisa que o denuncia, a sua maneira de vestir.

Ah, é?

 

Apareceu com um chapéu e uma gabardina. O chapéu é um adereço de outro tempo, de outro universo, que não esperamos ver no presidente do ISEG. Parecia um romântico...

É um misto de coisas, como em tudo na vida. Há dias em que estou com alguma disposição para ser diferente, e encarar essa diferença. Hoje é um dia particular na minha vida: acabei ontem de entregar um trabalho que me obriga, perante a sociedade portuguesa, a expor-me muito.

 

[A entrevista faz-se na manhã em que é conhecido o relatório sobre serviço público de televisão, a cuja comissão presidiu, e que entregou ao Governo.]

Acordei de amanhã – talvez tivesse dormido toda a noite a pensar nisso – com uma grande resiliência para esse tipo de combate.

 

Primeiro anglicismo, resiliência.

Isso permite-me hoje ostentar o chapéu. Se fosse um dia em que não conseguisse aguentar 50 comentários sobre o chapéu, porque as pessoas notam, não teria posto o chapéu.

 

Isso denota uma confiança em si, porque num dia como o de hoje, em que está especialmente exposto, permite-se o chapéu.

Estou disponível. Está um tempo adequado ao chapéu. O chapéu é um objecto antiquado, e tenho uma parte bastante conservadora. Sou do signo Gémeos. Consigo conciliar em mim duas personalidades diferentes, uma delas é muito conservadora. Por outro lado, aquele chapéu tem um ar de Indiana Jones, de uma certa aventura, contrapõe-se ao aspecto clássico.

 

Está a falar de si? Todas estas escolhas são medidas.

O que me pediu foi para me deitar no divã, é o que estou a fazer. E sei fazer introspecção e análise. Tenho essa vertente de aceitar desafios. Não é atirar-me para os abismos, é aceitar um desafio, sentir que posso ter algum medo de não ser capaz de saltar, mas ter a confiança de que hei-de fazer as coisas. Ainda agora aceitei o desafio de coordenar uma equipa de trabalho composta por pessoas da comunicação social sobre serviço público na comunicação social. Porque é que aceitei aquele desafio? Porque [há] uma componente importante que não deve ser omitida, nos dias de hoje em particular: a componente dos recursos financeiros.

 

Além de outras razões, mais uma: porque é você a coordenar.

Esse é o problema.

 

Não é o problema, é a vantagem.

Pois, é a vantagem que compreendi quando me pediram [para o fazer]: “Está bem, como coordeno tanta coisa, vou fazer um trabalho de coordenação”. O trabalho saiu óptimo porque dei espaço aos livres pensadores. Tenho essa característica, de ir atrás de um certo romantismo. Não perco a amarra da realidade, mas onde puder ir a amarra da realidade, deixo ir. Tentei dar espaço ao pensamento livre de homens que têm opinião em Portugal sobre um aspecto concreto. Eles sentiram-se bastante bem.

 

Por que é que tantas vezes coordena? Que é uma maneira de perguntar por que é que manda, por que é que tem poder, por que é que esse acaba por ser o seu papel?

Não tenho muito poder.

 

Aqui, para começar.

Aqui tenho. Sou presidente de uma escola onde concentraram o poder todo num cargo na última revisão dos estatutos. Fizeram-no erradamente, e fui um bocado empurrado pela conjuntura e pelos meus colegas a aceitar esse cargo. É-se presidente de três áreas que são normalmente distribuídas por três pessoas diferentes: a parte administrativa e financeira, a parte pedagógica e a parte científica. Estou sempre a coordenar, o conselho científico, o conselho pedagógico, o conselho da presidência. Gosto imenso de ser professor, é essa a minha profissão, foi para isso que nasci. Estou a fazer um papel para o qual também fui treinado, tirei licenciatura em Gestão. Mas não é a minha paixão. O que gosto de fazer não é ser presidente, não tenho dificuldade em assumi-lo. Não tenho dificuldade em pisar interesses de pessoas. Assumo que é o ónus do cargo. E se não o fizer não estou a fazer bem o meu papel. Tenho uma visão para a escola, são os princípios que me regem. Muitas vezes sou capaz de me prejudicar, não tenho tachos.

 

Não recebeu um tacho agora, mas o seu antecessor nesta casa, António Mendonça, saiu daqui para ser ministro.

Mas isso também não é um tacho.

 

É uma promoção social, ou pode ser entendida como tal.

Pode ser entendida como tal. É uma situação de grande responsabilidade.

 

Ocorreu-lhe, quando assumiu a presidência do ISEG, que isso seria um destino plausível?

Nem pensar. O que quero ser é professor. Gosto muito de dar a minha opinião, de reflectir, de pensar. Posso ter contributos individuais interessantes, que podem ser socialmente úteis para os decisores. Ser executivo é uma tarefa muito rotineira, e a rotina desencanta-me rapidamente. Gosto imenso de começar porque é a primeira vez. Fui saltador – é uma das características que o meu orientador de doutoramento [me apontou]: “Always jumping around”. Abraço projectos que se consumam rapidamente para saltar para outro.

 

Ser ministro não é uma coisa rotineira. Pelo contrário.

Mas é horrível, aquilo.

 

Por que é que acha que é horrível?

Quanto mais decisão e poder se tem, mais isolado se é, mais sozinho se está no mundo. E é uma situação muito dura, estar sozinho no mundo. É horrível pela responsabilidade enorme que se tem. Imagine o que é ser Moisés e ter um povo atrás a perguntar: “Para onde é que vamos?”, como se ele fosse um iluminado. No fim do dia, como dizem os anglo-saxónicos, vai toda a gente perguntar ao líder qual é o caminho, e porquê. E a escolha é um bocado intuitiva, mesmo que fundamentada em aspectos técnicos. Às vezes dá despenho. Vimos agora há pouco tempo; o líder disse: “Endividamento, obra pública…”; deu despenho.

E depois é toda a gente a criticar tudo o que se faz. É preciso ter uma força, uma estaleca, para estar constantemente a ser socado no estômago. Sei o que é isso, sou presidente de uma escola onde os professores têm opinião e liberdade de expressão. Quero que permaneçam assim porque esta casa tem essa matriz identitária. Isto é um melting pot de opiniões, pessoas com personalidade muito vincada. Imagine-os a falar da minha acção…, também não se coíbem.

 

A isso também se chama democracia.

Claro, mas é preciso ter uma grande capacidade de encaixe para ir levando a água ao nosso moinho, dando espaço à crítica.

 

Imagino que vai responder: “Não, não gostaria de ter sido ministro das Finanças”, mas é verdade que o seu nome foi muito falado para o cargo.

Foi.

 

Do que puder contar, como é que foi, desse lado, assistir a este processo?

Foi simples: tentei dizer a muitas pessoas que não tinha condições pessoais para aceitar [ser ministro]. De facto, não tinha.

 

O que é isso de não haver condições pessoais para aceitar?

Estou num processo de alteração da minha vida pessoal e tenho três jovens a estudar; o que, para manter o nível de vida que tenho, me obrigaria, indo para ministro, a um endividamento mensal, de três mil euros. Outra coisa é dizer: “Acabou, vocês têm 16, 18 e 21 anos, vão trabalhar”. Para continuar a manter a vida e família como está, separada, precisava de um volume desses. Agora multiplique por 12 meses, e multiplique por quatro anos; chego ao fim de um mandato e estou a dever 150 mil euros. E depois vou pagar com quê, com o meu ordenado de professor?

Quem cumprir este mandato tem uma probabilidade elevadíssima de perder eleições. [Vão ser] quatro anos a massacrar as pessoas. Não acredito que seja no final de 2012 que começamos a recuperar. Espero bem que o ministro Álvaro [Santos] Pereira tenha razão, mas não acredito. Se for assim, ao fim de quatro anos, vão todos para os seus lugares de trabalho, honestos, onde estiveram, e não têm compensações nenhumas. Nem ninguém os vai chamar e dizer: “O senhor fez aquilo que devia”.

 

E não há um desígnio de salvação nacional?

Ninguém reconhece isso. Ao fim de quatro anos de ser martirizado, de martirizar o povo, acha que alguém remunera alguém?

 

Há ainda um outro lado, o do estatuto. Ser ministro é uma coisa que cai sempre bem num currículo.

Cai sempre bem a muitas pessoas, mas não procuro ser isso. Gosto de ser professor, acho mais piada estar a observar os ministros, a estudá-los, a ver as decisões deles.

 

E ficar a salvo?

Não é a salvo, também levo pancada, se comento ou critico. Não acho piada nenhuma àquilo, não é interessante. E depois expõem a pessoa nos jornais, andam à procura do passado, quantas multas teve. Sou professor em Finanças, e há um princípio em Finanças: o risco tem que ser compensado com o aumento da remuneração esperada. Passa de uma vida para ter mais risco e menos remuneração – onde é que isto faz sentido?

 

Então, onde é que cabe a sua vaidade? Uns têm a vaidade de querer ser ministro; e a sua?

A mim não me interessa nada andar na rua e ser reconhecido, baterem-me palmas, até fico encavacado com isso. A minha vaidade é a estima que os meus alunos possam ter por mim, e mandarem-me, no final do ano lectivo, um e-mail a dizer: “O professor é uma referência na minha vida pela forma como trabalhou comigo”. “Gostei imenso de ser seu aluno, aprendi, você modificou-me”. Ou anos mais tarde dizerem-me: “Trabalho no mercado de capitais porque você foi meu professor”. Isso é a coisa que de facto me remunera.

 

Quem é que teve esse papel na sua vida? Vamos agora ao divã. Vamos pensar nessas figuras que o mudaram, que o fizeram querer ser um professor de finanças.

Havia uma tia da minha mãe que dizia que eu havia de ser professor. Não tenho professores na família. Não foi por imitação. Fui andando, fui estudando, acabei a faculdade e depois ninguém me empregava. Fui o melhor aluno do ano da escola.

 

Por que é que exigiu de si ser o melhor aluno? Por que é que não se contentou em ser um aluno mediano?

Não exigi, gostava de estudar. Para mim aquilo era um desafio. Tinha-o como obrigação para com a minha família. O meu pai nunca me mandou estudar, e quando chegava e dizia as notas que tinha, dizia-me sempre: “Não fazes mais que a tua obrigação”. Claro que sabia que ele ficava contente, mas não passava disso. E depois há um orgulho ferido se se tem um 12, e tenta-se recuperar.

Não quis ser objector de consciência, tinha o serviço militar por resolver. A única entidade que não me fechou as portas foi a universidade, e como tinha média de 16 entrei para assistente estagiário.

 

Não percebo bem porque é que não está nas empresas a ganhar dinheiro. Já falou da importância do dinheiro e de um certo desafogo financeiro.

Na universidade sou dos privilegiados que ganham mais em Portugal, na administração pública.

 

Um professor catedrático ganha 2500, 3000 euros, limpos?

Neste momento, depende do nível da antiguidade. Ganho 2800 euros líquidos.

 

Qualquer aluno seu que vai trabalhar para o mercado de capitais, que é uma coisa que ensina, ganha dez vezes isso.

Há colegas meus, do meu ano, que ganham muitíssimo mais. Mas para aquilo que é a minha vida normal, chega-me, e vivo com tranquilidade. Felizmente não penso no fim do mês a partir de meados do mês. Sou romântico, nesse aspecto, prefiro fazer o que gosto tendo liberdade. Tenho o privilégio de ensinar a matéria da minha especialidade. Eu é que componho o programa, se quiser posso tirar um capítulo, faço o que quero. Tenho liberdade para pensar, para escrever. A carga horária de contacto com os alunos é aceitável, não é muito pesada. É uma vida, dentro de alguma contenção, magnífica.

 

Ser professor catedrático já não tem o estatuto que tinha há 20 anos.

Não quero estatuto para ser professor catedrático, não quero estatuto para ser ministro, não quero nada disso. Tenho 50 anos, se me reformar com 70 ou 75, estou a meio da vida activa. Espero que tenha passado metade para me ir embora aos 70. A meio da vida activa é extraordinário ter chegado onde cheguei. Não tenho dinheiro para ir para um hotel de cinco estrelas, para passar os fins-de-semana onde gostaria, para ir ver um concerto em Nova Iorque. Mas compro um disco e oiço em casa, leio um livro.

 

What makes you run? Que é uma pergunta que lhe devem ter feito quando estava a fazer o doutoramento.

Não andei a correr por nada. O espírito romântico é verdade.

 

Então atacamos já o espírito romântico? De onde é que isso vem?

Não sei, dos meus pais.

 

Fale-me dos seus pais.

Não tenho irmãos. A minha mãe era dona de casa, o meu pai era operário da construção civil. Conseguiam poupar, tinham uma vida muito austera, e estudei em full time. A minha mãe transmitiu-me esse espírito romântico da vida. Trabalho pelo prazer do trabalho, dos projectos. As coisas emocionam-me, levam-me e vou por ali. Depois os outros acabam por me reconhecer algum valor, tive essa felicidade.

 

Traduza esse espírito romântico da sua mãe. Como é que ela lho passou?

Falava da sua juventude, de um lado artístico. Vivia numa aldeia e fazia peças de teatro. Passou-me essa veia. Ser professor é ser actor, é uma peça de teatro que se representa.

 

O que é que tem da sua mãe e do seu pai? Por mais que nos construamos, e o que o percurso nos faz, somos muito esse sítio e essas pessoas de onde vimos.

Do meu pai tenho a relação com o trabalho. O trabalho é o primeiro drive para nos mantermos na Terra. Fomos expulsos do Paraíso, e temos que o conquistar, o pão de cada dia. E a seriedade da palavra, o honrar dos compromissos. Da minha mãe, um espírito conservador, algum temor – que para análise é bom. Ao pé da minha mãe sou um futurista perigoso [riso]. A minha mãe vê sempre as coisas pelo lado negativo, pinta o quadro demasiado escuro – o que me ajuda a conceber cenários possíveis de desastre.

O meu pai aceitava, com respeito pelas dificuldades da vida, os desafios. Consegui sublimar da minha mãe aquela parte negativa, e aliar esse romantismo à capacidade de ir para a frente. Conjugando isto deve dar um sujeito mais ou menos equilibrado.

 

Em que momento da sua vida estava quando o seu pai faleceu?

Já era professor catedrático.

 

Ser catedrático foi um especial motivo de orgulho para ele e para a sua mãe?

Sim. Quando me doutorei, ficaram muito sensibilizados. Levei a família toda a Inglaterra, a Manchester. Fiz as provas em Janeiro e em Julho houve a cerimónia de entrega dos diplomas. É um momento tocante ver os pais tão sensibilizados. Estavam overwhelmed.

Quando tomei posse [como presidente do ISEG] fazia-se apenas a atribuição de diplomas e prémios aos melhores alunos. Disse assim: “Todos os alunos têm direito a receber o diploma e a serem felicitados pelo presidente da escola”. É o mínimo, agradecer-lhes o facto de terem escolhido a escola e terem alcançado o sucesso. São centenas de cumprimentos, felicitações, mas é um dever meu e é um direito deles. É uma festa enorme, cada vez mais participada pelas famílias.

 

Qual é que foi o seu primeiro achievement? Foi a licenciatura?

O exame da 4ª classe [riso]. Há um momento muito bonito da minha vida, que até tenho dificuldade em contar sem me emocionar. Acabei o curso numa oral de Fiscalidade, tive 16 valores. Naquele dia não vi o meu pai. Ao fim de uns dois dias o meu pai estava em casa, às seis da tarde. O meu pai veio dar-me um abraço e não foi capaz de dizer uma palavra, e eu fiquei na mesma. Ficámos os dois a chorar. A licenciatura foi o grande achievement para os meus pais. Em abono da verdade, também para mim. Andei a vida toda, não era para me doutorar, era para me licenciar. Se tivesse ficado numa empresa… Cheguei a entrar, fui director de lubrificantes da GALP, fui director da GALP. Entro na academia por ausência de alternativas, as empresas, nenhuma me quis!

 

Era uma forma de exclusão social? Não tinha os conhecimentos que lhe franqueavam as portas de determinadas empresas apesar dos bons resultados escolares que tinha?

Isso agora não existe, andam atrás dos bons miúdos.

 

Quando se licenciou, em 84, ainda era assim.

O problema era o da situação militar. Fiquei aqui em Lisboa, pude dar aulas à noite, consegui conciliar. Acabei a tropa e fiquei a dar aulas. A universidade era muito diferente. Os meus antigos professores não queriam que fôssemos professores, queriam que déssemos umas aulas, o que é muito diferente. Quando tive responsabilidades de direcção de departamento contratava os assistentes e dizia-lhes: “Você é contratado como assistente, mas não é para sair daqui e ir trabalhar nas empresas, ouviu?” Sou catedrático dessas histórias todas, esquemas, sei-os todos. Contrato em full-time, está aqui todos os dias, quer tenha aulas, quer não tenha aulas. Se tem aulas é para ensinar, se não tem é para fazer investigação, corrigir os exames, fazer escola, pá!

 

Pá? Isso é uma expressão da esquerda.

A minha juventude é passada depois do 25 de Abril.

 

As pessoas de direita também diziam pá?

Hoje dizem: “Ó pázinho”. É uma expressão muito queque.

 

Por que é que nunca foi de esquerda?

Fui de esquerda, uma esquerda muito moderada. Nunca tive filiação partidária. O conceito romântico da esquerda é bom, muito próximo do conceito cristão, de me juntar aos explorados, aos oprimidos, humilhados e ofendidos.

 

“Humilhados e ofendidos”, título famoso de Dostoievski. Ainda não me falou de um autor romântico, ou outro, de que goste e que tenha sido iluminante para si.

O autor de que mais gosto não é romântico, é realista, o Eça.

 

Isso foi antes de se tornar um cínico. O Eça é cínico. Quando se é romântico e se está num período de formação não se é cínico.

Mas gostei logo do Eça. Comecei a ler o Eça com 16, 17 anos. Estamos a falar de 1978/79, depois do 25 de Abril, aquilo era ainda quente. O Eça conseguia ser crítico, espetar a farpa, mas dentro de um padrão de certo conservadorismo comportamental, não andava a pôr bombas. Não é que os autores românticos me tenham cativado, é por coração [que sou romântico]. A personagem mais romântica que me cativou foi Jesus Cristo, é muito importante na minha formação como homem. Fui educado na catequese, fiz tudo por ali acima.

 

Tem um bocadinho ar de quem foi acólito.

Não fui, com muita pena. Na igreja que frequentava isso estava reservado a uma casta de meninos em que não estava socialmente incorporado.

 

Qual era a sua igreja?
A Igreja de Fátima, na Avenida de Berna.

 

Que tem vitrais do Almada Negreiros. Percebeu cedo que havia castas para tudo?

Sim, muito cedo. Pertencia a uma família muito humilde, senti isso e continuo a sentir. As pessoas desses níveis, entendo-as. Têm que ter uma atitude proactiva para saírem de onde estão. Não se pega nas pessoas que estão no bairro degradado [para pô-las] lá em cima como directores das empresas. Isso não existe, a sociedade é muito crua.

Se esmagar as condições humanas das pessoas, isso é um risco terrível para as pessoas que têm coisas. Os que têm coisas, se forem inteligentes, repartem, para evitar que os outros fiquem em situação de não terem nada a perder. Isto é a visão cruel da repartição. A visão romântica é a de que não consigo ver ninguém esfomeado, corta-me o coração, parto o meu pão e dou metade ao outro.

Na altura iam todos para a escola pública. Éramos confrontados com a diferença na forma de vestir, apesar de haver umas batas, para tentar nivelar. Mas era fácil, chegávamos ao intervalo e cada um metia a mão na algibeira: uns tiravam carrinhos de plástico, outros tiravam carrinho de metal, outros não tiravam nenhum. E o professor estratificava. Tinha um colega cigano que estava na última fila, levava pancada todos os dias. Os primeiros, davam prendas ao professor no Natal, prendas que ele divulgava.

 

As suas filhas andam em escolas privadas ou públicas?

Tínhamos pouco tempo para acompanhar as miúdas, pusemo-las nos privados. A partir de determinada altura, públicas, para perceberem que a vida não é a redoma do colégio. E também porque não tenho dinheiro para as pôr em instituições de ensino privado que lhes dêem uma educação outstanding.

 

Enquanto estudante do ISEG, integrou listas da JS como independente. O que é curioso é que tenha derivado cada vez mais para a direita, um percurso não tão comum numa pessoa com a sua origem social.

Não sei se é bom se não é, é o meu [percurso]. Determinadas questões, que se costuma dizer que são bandeiras da esquerda, são para mim princípios inatacáveis.

 

O direito ao apoio social?

Sim. O respeito, a defesa do trabalhador. Mas é do trabalhador, não é do empregado. Defendo até às últimas consequências um trabalhador. Estou farto de pessoas oportunistas que sob a capa de defenderem uma quantidade de bons princípios não defendem coisa nenhuma, e estão a defender uma série de pessoas que não merecem ser defendidas. É isso que condeno. O princípio da remuneração de acordo com a qualidade do desempenho é fundamental. E nunca humilhar ninguém porque tem um trabalho que na hierarquia da empresa ou da instituição é considerado menor! Talvez por causa da minha origem social. As pessoas que me conhecem contam comigo para qualquer luta [contra o que é] uma injustiça, seja da esquerda seja da direita.

 

A esquerda não conta muito consigo.

Aqui na escola fui apoiado por colegas da direita, do PS, do Bloco de Esquerda. Quando as pessoas são capazes de tirar os óculos da cor do partido para porem outros óculos, que são os delas, e verem o que é que pensam sobre o assunto, como é que se governa uma escola, e que escola queremos ter, são capazes de estar comigo.

 

É curioso ter usado a expressão “governa uma escola”, pensei que diria “dirige uma escola”. Isto é como governar?

É. Um dos princípios que nos orientam é o princípio do bom governo. Dirigir é uma das tarefas da governação. Temos que fazer a análise da situação, propor medidas, aprová-las, implementá-las. Tenho uma responsabilidade acrescida. A percepção das mudanças, que é fundamental para um indivíduo que vai a conduzir um barco – ver se não está um iceberg lá à frente. Não recebo ordens do reitor para governar, tenho uma liberdade mais ampla.

 

O grande público começou a ouvir falar de si com as suas idas ao Mário Crespo, e depois com o programa Plano Inclinado. Foi o começo de uma exposição pública, vamos continuar a ouvir falar de si?

Se as pessoas me pedem opinião, dou. Não consigo aliar-me a partidos, isso é que não consigo, filiar-me.

 

Há uns quantos independentes neste governo, como havia no anterior.

Não quero ser ministro, não é minha aspiração ser ministro.

 

A última pessoa que entrevistei que me disse isso acabou por ser ministro da Economia deste governo.

Mas digo-lhe isso e tenho um motivo muito forte, a sustentabilidade da família. Imagine que dentro de uns anos as minhas filhas ganharam a sua independência e chamam-me para essa situação, e acho que o meu contributo pode ser interessante, se calhar aí… Se vir que Portugal precisa de mim e se estiver em condições, se calhar tenho que considerar que é algo que tenho que fazer em prol de Portugal.

A sociedade portuguesa não reconhece o esforço dos que se dedicam. Veja o caso dos antigos combatente, que é lapidar. Maltratam-se as pessoas, não se admite opinião diferente. Hoje na rádio o António Pedro Vasconcelos disse, e tive oportunidade de responder, que as opiniões do grupo de trabalho que esteve a estudar o serviço público de comunicação social eram ridículas e disparatadas, proferidas por pessoas que são ignorantes. Não considero que as opiniões dele sejam ridículas nem disparatadas, são as opiniões dele, são tão válidas como as dos outros. Só temos que apresentar as nossas ideias, o modelo. Cada um, depois, pensa como quer.

 

É um resiliente? Foi uma palavra que usou no princípio e que agora já existe em português; mas na altura em que estudou em Inglaterra não se usava.

Pois não, foi uma palavra recentemente introduzida. Acho que sim, acho que tenho uma capacidade para ir aguentando. Há dias em que me vou um bocado abaixo. Mas normalmente a noite limpa, faço reset. No outro dia venho outra vez com alegria para o posto de trabalho. Consigo esquecer o dia de ontem com uma facilidade incrível. É uma característica importante que contribui para a resiliência. Se começamos a acumular, um dia estoiramos. Tomar decisões é muito duro. E enfrentar as pessoas sobre as quais temos que tomar decisões, pior.

 

A ginástica, disse que queria falar dela, porque é determinante na sua vida.

Comecei com oito anos de idade porque tinha um problema no externo. O médico achou que tinha o peito em quilha e mandou-me fazer ginástica. Fui em 68/69 para o Sporting porque o meu pai era do Sporting e o meu padrinho também. Fiquei até me casar, em 87. Depois fui para o Ateneu até 90. E depois, em Inglaterra, parei. No Sporting fiz os grandes amigos da minha vida, conheci a minha mulher, com quem casei e tive filhas. Percorri Portugal de lés a lés a fazer exibições. Fui campeão nacional por equipas de trampolins. Individualmente fui segundo lugar, medalha de prata e vice-campeão regional. Internacionalmente representei o Sporting, e mais tarde o Ateneu. A ginástica permitiu-me conhecer outras culturas, fui à China, fui aos Estados Unidos, à Alemanha. A ginástica é dolorosíssima, as pessoas sofrem. E repetitiva, cai e faz. Até que um dia faz e começa a ganhar confiança.

 

E endurance.

A resiliência.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2011

 

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