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João Luís Barreto Guimarães

João Luís Barreto Guimarães é poeta. “Você está aqui”, editado em 2011, é uma boa porta de entrada ao que escreve. Alimenta com Jorge Sousa Braga o blogue Poesia &limitada. É cirurgião plástico e reconstrutivo; especializou-se a operar mulheres que tiveram cancro da mama.

 

Se eu lhe desse a oportunidade de fazer a si próprio uma pergunta para este inquérito, que pergunta seria?

Seria: “Quanto tempo ainda tenho?”

 

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo” – Fernando Pessoa. Pode falar-me de alguns dos sonhos do seu mundo?

Não sei exactamente o que me faz continuar quando tudo convida a desistir. Simplesmente continuo, almejando o espanto e a surpresa, não pensando em demasia no que falhou. Não coloco a expectativa demasiado alto, nem levo a vida demasiado a sério. Tenho-me dado bem assim. 

 

Outro verso de Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. O problema é que viver é preciso. Quais são as dificuldades concretas do viver que acha mais preocupantes em Portugal?

A falta de perspectivas no futuro. A total ausência de meritocracia. A lenta morte da felicidade. 

 

O que se aprende nos livros, no cinema, na arte é muito diferente do que se aprende na vida?

Tudo o que existe na vida pode ter lugar na arte. Tudo o que a arte produz pode, de alguma forma, ter lugar na vida. Arte e vida são uma e a mesma coisa. Como sombra e corpo. 

 

Há 40 anos tivemos um Verão Quente, com o país a rasgar-se. Que sequelas temos dessa fractura ideológica?

Eu tinha apenas sete anos. Posso apenas adivinhar o que desde então tenho vindo a descobrir. Tudo para dolorosamente perceber que Abril não se cumpriu.

 

Também há 40 anos, o país recebeu 700 mil retornados, Angola, Moçambique e Cabo Verde tornaram-se independentes. O que é que acha que quer dizer de um país o facto de este ter acolhido sem convulsões sociais uma quantidade tão grande de pessoas?

Depois da maneira descuidada como os políticos de então tomaram as decisões, enquanto país não fizemos mais do que a nossa obrigação ao receber bem os nossos compatriotas. 

 

Vamos aos gregos: diz o guerreiro Aquiles ao rei Agamémnon, na “Ilíada”: “Ah, como te vestes de vergonha, zeloso do teu proveito”. Os portugueses estão divorciados dos políticos? Que parte ocupa neste divórcio a acusação ou suspeição de que são corruptos (demasiado zelosos do seu proveito...)?

Afastadíssimos. Deve-se fundamentalmente à corrupção e à incompetência que persistem na classe política, à esquerda como à direita. Ainda está para nascer quem exerça o poder de forma altruísta, cívica e desinteressada. O único exemplo que conheço é Rui Moreira. 

 

Acha o discurso: “Eles são todos iguais!” uma consequência banal do estado a que isto chegou? Ou considera que é grave e abre espaço a populismos?

De todo. É um truísmo que devia ainda ser mais popular...

 

Oficialmente saímos da crise. Disse-se que Portugal tinha vivido acima das suas possibilidades e que era preciso aprender a viver de outra maneira. O que é que significa este aprender?

Começámos a prender alguns mas ainda falta prender muitos. 

 

Continuemos o diagnóstico/retrato dos portugueses e do país: o que é que não fizemos nestes quatro anos e devíamos ter feito?

A reforma da lei eleitoral. A reforma da classe política. 

 

Quando José Saramago recebeu o prémio Nobel da literatura, isso coincidiu com os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O discurso do escritor português reflectiu essa coincidência. Que direito lhe parece mais ameaçado, posto em causa, que urge fazer cumprir?

O direito à felicidade. 

 

Atravessamos um deserto em que todos sabemos o nome do ministro das Finanças alemão ou grego. Antes de mais: considera que é um deserto? Ou seja, um tempo esvaziado de ideologias, onde a política foi engolida pela finança. Onde fica o oásis?

Não há oásis. O que é estranho porque os políticos faltam-se de meter água...

 

Demasiada conversa e negociação? Selvajaria e domínio dos mais fortes sobre os mais fracos? É tempo de quê?

É tempo de regressar ao humanismo. De voltar a colocar o ser humano no centro de tudo. De voltar a políticas dirigidas ao homem e não direccionadas ao ágio. Não podemos continuar a ser escravos do dinheiro e de quem o tem. O dinheiro deve servir o homem, não é o homem que deve viver subjugado ao dinheiro. O político que demostrar que compreendeu isso, ganha o meu voto. 

 

Se pudesse escrever uma carta a alguém, gritar alguma coisa, seria o quê e a quem?

“Tenham vergonha!” Tenho um ou dois inimigos de estimação, que se pudesse cobria de festas. Na impossibilidade de o fazer, entretenho-me secretamente a distribuir adjectivos de graça aos políticos. 

 

Portugal vai ter duas eleições nos próximos meses. Discute política? Os seus amigos: diria que estão mais alheados da vida pública, mais participativos depois dos anos de crise?

Tão alheados como antes, embora talvez mais informados. Reconheço que não é fácil dedicar a vida à causa pública. Mas não é menos difícil, por exemplo, ser médico ou jornalista ou professor.

 

Como é que explicaria a um jovem, que quer perceber o essencial, as diferenças entre a esquerda e a direita? O eixo que as divide está onde? Ou, na prática, não o vê e tudo conflui no centrão?

A esquerda e a direita governam segundo as conveniências do momento. Há seguramente uma linha que divide a esquerda da direita: é a linha do horizonte. Ao longe parece linear e bem definida. Vista de perto, percebe-se que vacila e oscila como uma onda. 

 

“Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento, no sol de quase Dezembro, eu vou...”, canta Caetano Veloso. Já não vamos sem lenço, sem documento. Levamos atrás o quê?

Levamos atrás de nós o que seremos. 

 

O futuro passou a ser uma ameaça, evitar o perigo uma divisa. É mesmo assim? Quando foi a última vez que usou a palavra esperança?

Não me recordo. Alguma gravidez?

 

Matilde Campilho disse que a poesia não salva a vida, mas que pode salvar o instante. O que é que salva o seu instante?

O amor. 

 

Férias de Verão: dê-me uma recordação das férias de quando era criança.

O tempo. Nunca me faltava tempo. A sensação de ter todo o tempo do mundo. 

 

Pode fazer um curto auto-retrato?    

Costumo dizer que sou um céptico inconformado. O meu primeiro impulso é não acreditar, mas lá no fundo raramente desisto.                  

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2015

 

 

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