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José António Tenente

Do que falamos quando falamos de José António Tenente? Falamos do canto barroco de Cecilia Bartoli, da leitura arrebatada de Ligações Perigosas, da sensualidade carnal da seda lilás sobre a pele, do desenho gráfico e rigoroso de um casaco de inverno? Falamos de referências que vão da dança à pintura, do aprumo luxuoso de Givenchy dos anos 50 à espectacularidade de Gaultier nos anos 80? Falamos da radicalidade sombria do inverno, da luminosidade revigorante do verão? José António Tenente é um designer que não poderia existir apenas nas páginas de um calendário de moda. A amplitude do seu mundo, das suas referências, é imensa.

Conversámos numa manhã de um dia carregado, no atelier, entre dezenas de peças, charriots carregados. Por esses dias, Tenente dedicava-se ainda à tarefa ciclópica de separar peças da sua história que pudessem dialogar com as peças que escolheu no acervo do MUDE. Como seleccionar?, como conjugar?, como dizer as coisas que ele quer dizer?

Perceber os mecanismos da escolha, perceber quem ele é, quem foi sendo, como trabalha, e a razão porque escolhe umas peças e não outras, porque faz umas peças e não outras, foi o ponto de partida para a conversa. Ficam algumas pistas do seu processo criativo. Fica uma resposta possível à pergunta inicial.

 

JAT por Fernando Guerra

fotografia de Fernando Guerra 

 

Esta mostra obriga a um trabalho de selecção de peças que fazem parte de 24 anos de carreira. Qual foi o critério base?

Estou a orientar a selecção de acordo com o conceito que criei para o todo da exposição. Tento perceber quais são as peças que vale a pena mostrar neste contexto. Há peças de que gosto muito e que objectivamente tenho de excluir por não se enquadrarem nesta arrumação. E também há peças que resistem melhor ao tempo do que outras. Na exposição, que se insere no formato do creative lab do MUDE (ou seja, de dar a conhecer o processo criativo dos designers), interessou-me privilegiar um dos aspectos do meu processo criativo: as referências e pesquisas de moda.

 

O ponto de partida foi a colecção de moda do museu?

Sim. As visitas às reservas do MUDE e a selecção que fui fazendo da colecção de moda do museu orientaram o trabalho desde o início. Não tinha uma ideia pré-concebida do que queria fazer. Fiz uma primeira abordagem com uma abertura de espírito grande. Como observador, espectador, que tem a oportunidade de ver um acervo extraordinário. Fiz anotações breves sobre as peças onde estava a demorar mais o meu olhar. Houve escolhas imediatas.

 

Quais? O que há nessas peças? Alguma constância entre elas?

Por exemplo, um vestido Balmain dos anos 50, umas peças Givenchy, outras Yamamoto... Percebi rapidamente que o factor decisivo da escolha não é objectivo. Comecei por tentar fazer uma cobertura da colecção, incluir peças importantes no panorama da história da moda, trazer contributos incontornáveis. Mas o que me interessava era uma escolha subjectiva, de paixão. O que é que me faz gostar? É a cor, é a forma, a silhueta, o material, o universo de referências para o qual aquela peça me remete.

 

As suas peças, permanentemente, evocam outras disciplinas, outras referências. (Já falaremos mais detalhadamente da dança, do teatro, da ópera…) Na sua selecção da colecção MUDE isso também o influenciou? Sem dúvida. Por exemplo, as peças muito teatrais levaram-me de imediato para o universo barroco – grandes volumes, grande sofisticação, sumptuosidade dos materiais, com detalhes de construção que me seduziram logo. Outras, para ambientes cinematográficos de Fellini ou Hitchcock.

Tentei não ser influenciado pela autoria das peças e só mais para o fim, com as escolhas quase completamente ditadas pela emoção, é que também me preocupei em verificar se havia uma cobertura cronológica da colecção. Há sobretudo peças dos anos 50 e 60 (que têm que ver com o meu imaginário) e peças dos anos 90 (que me lembro de já ter acompanhado na época). Arrumei as minhas escolhas em núcleos temáticos: a cor, o teatro, o gráfico e o artesanal.

 

São palavras-conceitos essenciais no seu trabalho.

São. Inconscientemente identifiquei também, no meio daquele conjunto de peças, as minhas referências, encontrei denominadores comuns com direcções em que já tinha trabalhado ou que me interessam particularmente.

 

JAT por Luísa Ferreira

fotografia de Luísa Ferreira

 

Os seus 24 anos de trabalho estão cobertos de igual modo na exposição?

Esta exposição não pretende ser uma retrospectiva. Há colecções que são mais representativas da ideia que envolve este projecto. No entanto, vou tentar apresentar um espectro alargado do meu trabalho. Há pontos de união que me interessa realçar. De repente, pego numa peça que tem dez anos e noutra que tem quase vinte e elas têm coisas em comum. Se bem que isto possa ser contraditório com a noção de moda…

 

E com a noção de evolução.

Creio que a partir de certa altura, no trabalho criativo, e não me refiro exclusivamente à moda, há uma essência que é a mesma, e que depois tem várias declinações, formulações, outros resultados. Para mim, esta constância na essência do que fui fazendo não tem uma conotação negativa. Não é fazer sempre a mesma coisa. É ter uma linha condutora com pontos comuns.

 

Quando olha para estas peças, quando as reencontra, está a olhar para aquele que foi sendo?

Consigo fazer associações entre algumas peças e o que era, ou o que fazia. E encontro muitas diferenças em mim. Até relativamente ao modo como encaro o trabalho. Nunca pretendi ser um artista tempestuoso, cheio de dúvidas. Continuo a ser difícil de contentar – sou um insatisfeito por natureza. Mas vivo as coisas de uma maneira mais equilibrada, consigo ter uma relação mais pacífica com o meu trabalho.

 

Há várias constâncias nas peças que foi fazendo. Uma delas é haver muitos nós e laços. Que simbolicamente querem dizer relação.

Engraçado, nunca pensei nisso dessa maneira. Decorativamente é um detalhe de que gosto muito. Tem muito que ver com algumas das minhas referências mais marcantes. O barroco. Os anos 50 (onde há uma enorme profusão de laços). Estão muito ligados à feminilidade, a uma certa delicadeza. Gosto de trabalhar essa ideia de harmonia, de ligação afectiva. São elementos marcantes e espoletam nos utilizadores uma reacção extremada. Ou se adora ou se odeia laços.

 

O que é que havia no guarda-fatos da sua mãe com laços?

Lembro-me de ver laços mas apenas nas suas fotografias dos anos 50. Nasci em 66 e a elegância da minha mãe a que assisti nos anos 70 era muito diferente da dos anos 50, mais decorativa, menos consentânea com a vida moderna. Nos anos 70, a elegância ficava mais próxima da vida de todos os dias, mais real. A minha mãe foi sempre uma mulher atenta à sua imagem. Mesmo jovem, solteira, ela própria ia à costureira, desenhava ideias, via figurinos. Em miúdo, ia com ela à modista. Lembro-me de peças pontuais: um vestido verde jade com um casaco castanho chocolate, para um casamento; a associação de cores era muito particular. Um outro vestido camiseiro, estampado com gravuras de motivos campestres, cinza e preto.

Além dos laços, há fitas. Muitas delas estão soltas, não estão arrumadas num laço ou num nó.

É interessante ver que outras leituras se fazem do meu trabalho, que outros significados lhe podem dar, extrapolando o plano bidimensional da roupa. Quando estou a criar, e começo a mexer nestes materiais e ideias, nunca lhes dou esses significados. Não é um processo consciente. É consciente, sim, ligar o que faço a certas referências e a aspectos mais concretos. Muitas dessas características que refere, devem-se sobretudo ao lado decorativo no meu trabalho. Mas nem sempre é um decorativo barroco, excessivo, impositivo…

 

Há fases em que é o oposto disso. É a contenção, a depuração, sobretudo na primeira fase.

Mesmo na fase da contenção os detalhes decorativos podem surgir. Não sou um fundamentalista purista.

 

O geométrico é outra das referências constantes.

Sim, e de resto, nesta selecção, esse foi um tema que emergiu logo à partida. O meu trabalho é muito gráfico com duas variantes principais: uma mais geométrica e outra mais decorativa. Penso que isto resulta de uma coisa fundamental: o desenho. No meu processo criativo o maior input é no desenho.

 

É também no desenho que faz a síntese, a condensação entre as várias disciplinas que são inspiradoras daquilo que cria. Da dança à ópera.

Sim. O desenho é o meu material. Não corto, não coso. Em algumas colecções o trabalho manual é maior, com montagem de peças no corpo, ou sobreposição de tecidos no corpo. Mas de um modo geral não é assim. Desenho várias vezes, desenho várias proporções, desenho a mesma peça com outras possibilidades de conjugação...

 

Ela fica resolvida no desenho?

Só quando está resolvida no desenho é que passa para a fase seguinte. Se não resulta, se não estou contente com o desenho, dificilmente passa dali.

 

O lado geométrico, que encontramos em várias peças, de diferentes fases, traz-nos a pintura e a influência que ela tem no seu trabalho, de Mondrian a Delaunay. Uma pintura não figurativa. Simultaneamente, essas linhas, rigorosas, trazem a arquitectura – disciplina que começou por estudar. O desenho parece ser uma pulsão original da qual não se consegue desligar.

A minha formação em arquitectura, que não acabei, tem uma óbvia relação com o desenho. E o desenho adquire uma enorme importância. No trabalho de atelier, ao apresentar o croquis de um vestido de noiva, por exemplo, frequentemente tenho de fazer esta reserva: determinados aspectos gráficos do desenho não vão ter aquela importância no tecido. No papel, uma pinça, um corte, uma geometria podem ter um impacto muito maior do que na realidade. A não ser que os sublinhemos. Em algumas colecções foi mesmo isso que quis: desenvolver cortes que eram sublinhados com um pesponto de cor contrastante ou com uma fita de cetim aplicada. Outras vezes, não quero mesmo sublinhar. Talvez me aconteça isto mais vezes. Gosto do jogo na relação com o hipotético utilizador: o da subtileza, o da descoberta, o da surpresa.

 

JAT por Luísa Ferreira

fotografia de Luísa Ferreira

 

As peças dos primeiros anos são mais depuradas e quase andróginas. Não por acaso, as modelos que mais passaram coisas suas ou ilustraram catálogos, a Maria João Baginha e a Paula Raposo, têm uma beleza andrógina, diferente da beleza clássica das musas da segunda fase.

Sempre fui mais sensível a esse ideal de beleza não tão evidente. Sempre gostei de caras marcantes. Na Maria João agradava-me o perfil teatral; fotografias dela fazem-me pensar na Greta Garbo. A Paula tem uma beleza escandinava; temos dela imagens muito diferentes. Contrariando novamente a moda: ligo muito pouco às caras que estão na moda. Tanto assim que não me faz confusão nenhuma ter tido como imagem da marca, a Maria João, seis anos e a Paula, dez. É comum e curioso associarem o meu trabalho inicial a um estilo mais sóbrio. Talvez fosse a característica mais marcante, mas a cor, o lado festivo e decorativo também estavam presentes.

Por exemplo, o Verão 89 era o oposto dessa ideia da depuração. Mais do que a oposição, entre depuração e decoração, tive sempre uma oscilação entre os invernos e os verões. Os invernos são rigorosos, nocturnos. Nem sempre contidos, mas mais pesados, escuros, sombrios. As paletas são densas. Os temas são propícios a resultados teatrais. Os verões têm mais cor, são mais leves, mais sensuais. Um branco luminoso. Um colorido vibrante.

 

O que é que mudou?

Agora sou mais verão. Antes, sem qualquer dúvida, diria que gostava mais de fazer colecções de inverno. E gostava de dias como o de hoje – ameaçador, cinzento, carregado.

 

O que é que quer contar do que aconteceu na sua vida e que tenha importância naquilo que faz? Ser mais solar e viver mais com os sentidos é uma mudança significativa.

Será que vivia menos com os sentidos? Possivelmente o equilíbrio entre eles é que era diferente. Exteriormente era mais soturno. Na intimidade era bastante diferente do que passava para a esfera pública. Essa diferença é agora muito menor. Esta profissão veio desenvolver em mim um lado que não tinha. Tenho que ter descoberto em mim, algures, um sentimento fortíssimo em relação à moda.

 

O apelo vem de onde? O seu cenário não era o do mundo da moda.

Não tinha nenhuma ligação à moda, nem à indústria têxtil; só o grande gosto da minha mãe por esta área, mas isso era um parêntesis. Lembro-me de já no liceu desenhar colecções inteiras! Sem saber bem o que eram colecções. A minha amiga Cristina Gomes (éramos colegas de liceu) chegou a fazer para ela peças que eu desenhava. Estamos a falar de um período em que a moda não tinha, à excepção da Ana Salazar, qualquer expressão – a emoção gigantesca que foi assistir a um desfile da Ana Salazar… Não havia as revistas de moda que hoje existem. Estudava arquitectura, tinha tido dúvidas entre arqueologia e história de arte. Era um miúdo totalmente voltado para mim, complicadíssimo, gaguejava, odiava falar em público, tinha uma timidez doentia. De onde veio o apelo?! Como é que me meti nisto? Não sei…

 

Como é que conjugou essa timidez com a exposição que esta profissão exige? Nos anos 80, os designers tinham uma popularidade de estrelas pop.

Houve um período em que isso foi muito conflituoso. Entre a minha maneira de ser (que era contrária ao que começava a perceber que seria necessário neste mundo) e o gosto em fazer isto. Durante anos fui inflexível. Entrevistas?, custavam-me horrores. Fotografias?, parecia que me iam roubar a alma. O final dos desfiles, o momento de ir à passerelle?, um tormento.

Não fiz uma opção radical, como Martin Margiela (também não era da minha natureza). Tinha de encontrar um compromisso e uma forma de evoluir. A partir do momento em que interiorizei que era uma componente do meu trabalho, como o desenho, a escolha dos tecidos, as provas, aprendi a lidar com isso. E cresci.

 

Começou a trabalhar cedo.

Muito cedo. Com alguma inconsciência. Tinha um conhecimento muito imberbe do que era ser designer de moda. Só isso justifica que aos 20 anos me tenha lançado sozinho na apresentação de uma colecção. O que vivi seria hoje impensável. Hoje a formação é outra, há outros níveis de exigência e consciência. (Hoje queremos acumular experiências, trabalhar para outras marcas, desenvolver outros projectos, e depois, quem sabe, pensar na nossa marca.) Tinha a estranha noção de que ia começar a apresentar o meu trabalho e que não podia parar. Queria construir um percurso. Sabia que as colecções se apresentavam de seis em seis meses e que tinha de arranjar maneira de as fazer.

 

Que criadores o inspiravam?

A minha formação foi mais marcada pela cultura francesa. O grande boom de moda nos anos 80 surge com os criadores franceses. E quando não eram franceses, estavam em Paris (os japoneses, os belgas…). O que não acontecesse em Paris, não acontecia. Talvez por tudo isto, as minhas referências se liguem mais à moda francesa. Naquela época, Gaultier, Claude Montana, Thierry Mugler, Azzedine Alaïa eram muito fortes e chamavam a minha jovem atenção, mesmo que fosse mais como espectáculo, já que em termos de estilo não tinham muito que ver comigo. E depois os incontornáveis mestres da costura: Madeleine Vionnet, Jeanne Lanvin, Christian Dior, Balenciaga, Saint Laurent, que fui descobrindo mais detalhadamente mais tarde.

 

É fácil pensar, olhando para o que faz, que a influência de outros criadores e tendências é apenas mais um aspecto da equação. É uma influência equiparável à da pintura ou do teatro.

Penso que sim. Ouvir isso é muito positivo. Sempre trabalhei a informação de moda como uma parte de um todo; é importante, mas não sou um consumidor ávido. Acontece-me frequentemente estar num espectáculo de dança, no cinema, a ler e ter uma ideia, muito mais do que se estiver a ver uma revista ou uma montra. Tenho referências que são constantes. A minha maior proximidade com formas de arte contemporâneas acontece sobretudo com trabalhos que exploram referências clássicas. Estou a lembrar-me de um bailado que vi este ano do Alain Platel, o Pitié, a partir da Paixão Segundo S. Mateus, de Bach. Na pintura, foco-me no renascimento, no retrato inglês do séc.XVIII ou na escola flamenga do século XVII. O claro-escuro, as sombras… As golas brancas, gigantes, sobre o fundo preto.

 

Foi ficando cada vez mais Vermeer e menos Rembrandt. Ou seja, mais luminoso, junto à janela, e menos contrastado e rígido, como alguns quadros de Rembrandt.

Sim, mas não fui sempre ‘rígido’ No início, por exemplo, tive uma ‘fase Klimt’, que é muito mais exuberante. A colecção de 89/90 era marcada por um trio de referências do começo do século XX. Klimt, Oscar Wilde e Schoenberg. (Música atonal?, hoje, não ouviria, sequer!) Passados muitos anos voltei ao universo da pintura do início do século XX com a colecção de inverno 2008/9. Mas aqui, mais do que a pintura, interessava-me o ambiente que eu imagino ter sido o dos artistas, a boémia, os mentores e mecenas.

 

Na colecção seguinte, mantém uma relação estreia com a pintura. Encenou um quadro para apresentar a colecção; a propósito desse, é possível falar de Velásquez ou Caravaggio. 

Foi o que a Cristina L. Duarte escreveu sobre essa apresentação que me fez pensar em Velásquez; apareço no final do ‘desfile’ tal como Velásquez se vê reflectido no espelho no quadro As Meninas. Confesso que não pensei nisso antes. Era uma representação de uma aula de desenho, com modelo nu – que segundo outras opiniões remetia para Caravaggio. Foi uma apresentação muito cenográfica, de uma colecção em tons que liguei aos materiais de desenho e escultura (gesso, mármore, alabastro, papel); e formas com pregas e panejamentos trabalhados à volta do corpo, como os tecidos que tapam e destapam os corpos nas poses dos modelos.

 

Essa trilogia, baseada na pintura, fica completa com uma colecção de homenagem a Paula Rego. Fez uma citação quase taxativa de alguns quadros, como O Anjo.

Fascina-me o universo dela. O estímulo visual e criativo é riquíssimo. Desenvolvi a colecção a partir das obras mais figurativas, e onde é visível a importância que a própria Paula Rego admite dar ao figurino. 

 

JAT por Luísa Ferreira 

fotografia de Luísa Ferreira

 

Na obra de Paula Rego, o figurino é essencial para a composição de personagens e situações. No seu caso, em muitas colecções, mais do que fazer vestidos, parece compor personagens que vão habitar esses vestidos.

Sempre me agradou a ideia de construir personagens. Satisfazem-me especialmente as colecções que, nesse sentido, são mais radicais, que levam até às últimas consequências uma ideia. Normalmente são as colecções que suscitam reacções mais díspares. Como a do inverno 2006/07, inspirada no universo da Idade Média e da Joana d’Arc; era também uma visita aos nossos arquivos de inverno (foi o ano em que assinalámos o 20º aniversário). Houve pessoas que adoraram e outras que odiaram. Outro caso: o verão de 2002, inspirado no romance Ligações Perigosas; a colecção era toda bege, as peças tinham frases bordadas, recados de amor, cartas, medalhões pendentes…

São os trabalhos de que mais gosto, sempre. Interessa-me mais isso do que apenas pensar em roupa para apresentar. O desfile é sempre uma representação de uma imagem. Ainda que todas as peças se possam vestir e que a proximidade do personagem com a realidade seja maior ou menor.

 

Ambiciona ser, mais do que tudo, um criador?, e menos um “desenhador”.

Tenho uma certa rejeição dessa palavra, que parece pretensiosa. Adoptámos dos franceses o le créateur, que é pomposo. Gosto do termo inglês: designer.

 

 

Entrevista feita para o catálogo da exposição retrospectiva de JAT no MUDE em 2010. No seu lançamento, estive à conversa no museu com o designer e outros que estiveram ligados à exposição. Aqui fica uma amostra. 

JAT e AMR por Gustavo Ramos

 fotografia de Gustavo Ramos

 

 

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