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José António Vieira da Silva

Algumas palavras que usa muito: provável, talvez, dimensão. A atitude: evasiva, de quem só uma vez olha nos olhos ao longo de uma hora e meia de entrevista. E de quem não gosta de falar de si.

Vieira da Silva não fala como um homem que leu muito. Usa frases longas, recorre a orações subordinadas, integrantes, a detalhes que complicam a oração. A exposição não é linear. Os pormenores em que se detém podem ser os de um romance – o gabinete de Sócrates quando trabalhou com ele pela primeira vez, por exemplo. Ou detém-se em questões existenciais, mesmo que não esteja para psicologismos de trazer por casa. De quem somos e da nossa relação com o Tempo. O tal grande escultor. Da imagem que projectamos e de estarmos bem na nossa pele.

As palavras que é inesperado que vão bem com ele: apaixonado, romântico, inflamado. 

Não tem paciência para fotografias. Seria fácil dizer que não convive bem com a imagem. É um homem cuja vaidade não precisa que lhe puxem o lustro numa entrevista. Ainda pensou que ia falar de sustentabilidade… No fundo, sabia que não.

Talvez – uma das tais palavras que usa muito – tenha gostado de ser visto de perto, através de uma lupa. Olha, afinal de perto ele tem mais graça do que se espera, não é o chatarrão, tecnocrata, a figura anódina que alguns pensam que é… Pode ter pensado isto. É provável. Ele tem dimensões imprevistas.

O braço esquerdo do Primeiro-Ministro – o braço direito, como soe dizer-se, é Pedro Silva Pereira – é também a sua consciência social de esquerda. Não gostaria que dissessem que é de direita.

Tem uma voz surpreendente. Não é áspera, nem afirmativa. É mansa, por vezes doce. Fala para dentro. Pelo menos até fim de Setembro é Ministro do Trabalho e da Segurança Social. No futuro, ele gostava de ter um programa de rádio! Mas isso é no futuro, daqui a anos, depois de esgotar o seu ciclo político. Até onde irá entretanto? Até onde irá Vieira da Silva?

 

Em que circunstâncias se deu o seu encontro com José Sócrates?

Como é que o conheci? As primeiras vezes em que convivi com ele de forma mais próxima terão sido em 1997.

 

Houve uma especial empatia? Como é que se constrói uma relação de confiança entre os dois?

Trabalhámos de uma forma eficaz. Tive algumas reuniões no gabinete dele; não me recordo onde era, mas era interessante sob um ponto de vista estético. Houve uma sintonia numa certa perspectiva de olhar os problemas. Com esta preocupação: serem resolvidos. Havia pragmatismo, concentração na eficácia da resposta. Talvez tenha sido isso que começou a consolidar uma relação de trabalho, que se prolonga até ao presente.

 

É verdade que as condições em que foram marcadas eleições foram particulares, algo inesperadas. De qualquer modo, tinha a expectativa de ser ministro de Sócrates?

Expectativa, não posso dizer que tivesse. Fui Secretário de Estado de duas pastas no Governo de António Guterres. De certa forma, ser membro do Governo não era uma novidade, não era uma coisa que caísse de surpresa.  

 

Começa-se por ser Secretário de Estado. É um caminho.

Também é. O José Sócrates tinha-me convidado, depois do congresso do PS em 2004, em que não apoiei nenhum dos candidatos, para fazer parte da equipa. Uma equipa pequena, de uma dúzia de pessoas, do Secretariado Nacional do PS. Isto antes de estarem previstas eleições, como veio a aconteceu, num prazo muito curto [de tempo]. Não sei se pensei que era provável, ou possível, mas admiti… não sou capaz de recuar e refazer o meu quadro mental da altura.

 

Era um cenário plausível.

Era um cenário plausível.

 

Estou a perguntar-lhe também até onde é ambicioso. E se era uma coisa que queria.

Essa pergunta dificilmente pode ser respondida pelo próprio. Tenho bem a noção de como a nossa visão de nós próprios é algo em que temos dificuldade em ser isentos. Quando olhamos para nós próprios nem sempre é fácil dizer o que pretendemos. Há um conflito entre o que somos e a imagem que queremos ter de nós próprios.

 

E a imagem que os outros têm de nós.

Exactamente. Suponho, mas é apenas uma suposição, que as pessoas que me conhecem melhor diriam que eu não tinha essa ambição. Das coisas que fiz na vida política, uma coisa que correspondeu a uma expectativa que tinha desde jovem, foi ser deputado. Pode parecer estranho: ser deputado é pouco considerado. Mal. Mas é pouco considerado. Era uma coisa que sempre pensei que gostaria de fazer. Ser membro de governo, não fazia parte dos meus sonhos ou expectativas juvenis.

 

Porquê? Onde radica esse sonho?

Era uma coisa que me atraía. Era uma visão juvenil, de quem olha o mundo sobretudo para a frente, e não para trás. O que me atraiu fortemente no parlamento foi o debate, a esgrima da argumentação, a contraposição de posições. Quando era mais novo, e não posso dizer que mantenha a mesma posição, tinha uma grande empatia com o modelo britânico de organização de vida. Sempre fui anglófilo.

 

Pensei que ia dizer que a empatia era com o modelo judicial, e não com a organização da vida.

Isso não. Os filmes e livros de advogados nunca me influenciaram muito. Mas o parlamento como instituição, à imagem dos britânicos, sim. As vidas dos parlamentares ilustres, a intensidade do debate, o uso das várias formas de defender ideias (com mais agressividade, com mais ironia) eram muito apelativos.

 

De onde chega esse fascínio?

Pelos livros. Faço parte de uma geração que viveu num país marcado por dicotomias. Ou se era a favor deste ou se era a favor daquele. Deste desportista ou do outro. Na minha primeira infância, e é uma memória longínqua, em Portugal apoiava-se o Nicolau ou o Trindade [ciclistas]. A Simone de Oliveira ou a Madalena Iglésias.

 

Apoiava qual?

Claramente a Simone de Oliveira.

 

São diferentes tipos de mulher. Simone era mais fogosa, arrebatada.

Apaixonada. A outra, na sua expressão artística, era mais superficial. Eu tendia, talvez por ter uma dimensão romântica, para canções como o “Sol de Inverno”.

 

Ainda se ouviam cantores como o Tony de Matos e o Carlos Ramos?

A minha mãe cantava canções do Carlos Ramos. Cantava quando estava a passar a ferro. Gostava muito de a ouvir cantar as canções do Carlos Ramos quando estava a passar a ferro. Mas isto era a propósito das grandes dicotomias e das influências que se viviam antes de uma certa americanização do mundo. Eu era anglófilo.

 

Na sua geração as pessoas eram mais francófonas e francófilas.

É verdade. Mas sou da geração dos Beatles e do Jacques Brel. O meu fascínio pelo modelo inglês também tem a ver com o vanguardismo da experiência democrática britânica. Sempre achei que aquilo era de uma grande nobreza.

 

Só foi deputado depois de ter sido Secretário de Estado.

Certo. Lembro-me de ir para o Parlamento com uma certa excitação.

 

Foi pelo seu domínio das matérias que acedeu ao Governo? Entrou como um técnico? Começou por ser Secretário de Estado da Segurança Social.

Vim trabalhar com o Ferro Rodrigues, com quem já trabalhava na Universidade.

 

É um pouco o que faz com os seus Secretários de Estado e colaboradores: conhece-os da universidade. São técnicos.

Não creio que o Ferro Rodrigues me tenha convidado pelo meu domínio dos conteúdos técnicos.

 

Porque é que ele o convidou?

Porque me conhecia. Do ponto de vista do meu trabalho, das minhas capacidades e incapacidades.

 

O que é que quer dizer com “conhecia-me”? Conhecia a sua atitude política, as suas convicções?

Também. Conheço o Ferro Rodrigues desde a minha juventude; fui colega dele na universidade e na vida política da altura. Algumas das áreas deste ministério, de facto, eu trabalhava nelas; outras, não.

 

Por isso falei de domínio técnico.

Não sou um tecnocrata.

 

Não foi isso que insinuei. Tem esse fantasma, que as pessoas olhem para si como um tecnocrata?

De maneira nenhuma. Já não tenho fantasmas, desde pequenino. A imagem que fazem de mim, com toda a sinceridade, não é uma coisa que me tire o sono. Dizem que sou discreto, que sou isto e aquilo… Não é isso que condiciona significativamente a minha atitude na vida e a forma de exercer as minhas responsabilidades políticas e públicas. Como é que lhe hei-de dizer? Tenho responsabilidades, penso que sei o que tenho que fazer e tento fazê-lo da melhor maneira possível. Tenho eventualmente um defeito: quando estou a acabar uma coisa, estou logo a pensar na seguinte. Não vivo angustiado a revisitar uma coisa que fiz. Ou então não a revisito por causa da angústia de não a ter feito tão bem quando deveria.

 

Parece angustiado e introvertido. Pela sua maneira de falar, de olhar…

Angustiado, não…

 

Ou então é por saber que gosta de Pessoa. Já lá vamos.

[Sou] angustiado no sentido de ter maior preocupação com as coisas que vêm do que com aquelas que foram. Pode parecer arrogante – como agora está na moda dizer –, mas a minha principal recompensa é sentir-me bem com o que faço. Obviamente preocupo-me com o que os outros pensam – quem está num cargo público não pode deixar de ser preocupar. Mas a minha principal preocupação é a maneira como sou capaz de conviver com o que fiz.

 

Conte-me quem é. Que pessoa é esta que não tem fantasmas desde pequenino? Nasceu na Marinha Grande em 53. Não sei mais nada.

Sobre isso não há muito a dizer, nem gosto de falar disso.

 

Que criança era, que sonhos tinha, porque é que era como era?

Quem é que sabe por que é que é como é? Talvez fosse uma criança introvertida. Talvez tenha mantido essa característica. Tenho irmãs, sou o mais novo da família e o único rapaz. Os meus pais estavam avançados na idade quando nasci. Fui o esperado rapaz. Isso acompanhou-me toda a vida.

 

Quantas raparigas tinha tido a sua mãe?

Duas. Nasci quando a minha mãe tinha 39 anos, o meu pai 40 e poucos. Eu tive um filho com 25 anos.

 

Sentiu-se desejado e esperado. Mencionou que essa sensação o acompanhou a vida toda. Ter sido querido é normalmente acompanhado de um sentimento de sermos gostados.

[Transmite] uma sensação de segurança. Não quero entrar em psicologismo barato, nunca tive atracção pela interpretação psicológica dos comportamentos. Mas sentirmo-nos alvo de muita atenção, reforça a nossa auto-confiança

 

Era um ambiente de gineceu, o seu.

Um bocadinho. Vivi muito rodeado de mulheres. Mas não sei se isso tem influência na forma como exerço as minhas actividades públicas.

 

Estou a tentar conhecer esta pessoa. Como é que as coisas se ligam? Por exemplo, não sei por que é que a Segurança Social e o Trabalho são temas que lhe interessam. Estará esse interesse desligado…

… da minha maneira de ser? Não, não está. A minha vida não tem nada de extraordinário: vivi os anos de formação cívica num período forte da nossa vida colectiva. Tinha pouco mais do que 20 anos quando se deu o 25 de Abril. Isto vai reforçar a sua ideia, que não corresponde à verdade, de ser uma pessoa introvertida e angustiada…, mas li um livro famoso de um escritor francês que começa assim: “Eu tinha 20 anos e não permitia a ninguém dizer que era essa a mais bela idade da vida”.

 

Porque é que isso o marcou?

Tem-se a ideia, que eu detesto, de que a juventude é uma idade em que tudo é glorioso. Num certo sentido, é. Mas é também um momento em que as pessoas vivem de forma mais intensa as suas dúvidas e angústias. Eu vivi isso.

 

Isso coincidiu com a saída de casa e a vinda para a universidade? O momento em que ficou por sua conta?

Sim. Foi uma transição sem sobressalto. Não parti com a insegurança de quem está a largar uma coisa; por ser o filho que fui, sabia que tinha sempre [esse recuo].

 

Veio para Lisboa estudar. Viveu até essa altura na Marinha Grande?

Não. Os meus pais mudaram de cidade; fiz a terceira classe na Marinha Grande e o resto em Alcanena. Vim para Lisboa em 71, um dos picos da contestação estudantil. Foi aí que fiz a minha iniciação à vida política.

 

Havia algum indício nesse sentido? O seu pai era politicamente empenhado?

O meu pai era muito interessado. A política, num sentido lato, sempre esteve presente nas conversas familiares. Não vivia num ambiente em que se dizia: não podemos falar, que podem estar a ouvir-nos.

 

O que fazia o seu pai?

Teve várias actividades. Foi pequeno industrial uma parte da vida, e depois trabalhou [por conta de outrem]. Morreu relativamente cedo. Eu tinha 27 anos.

 

Significa que não assistiu ao seu crescimento pessoal, profissional, político.

Não. A minha mãe, sim. Morreu em 2004, pouco antes de ter ido para ministro.

 

Foi neles que pensou quando assinou o livro na tomada de posse?

Não. Não pensei em nada de especial. Devo ter pensado que estava a assinar o livro. Ou se me tinha esquecido dos óculos – qualquer coisa mais prosaica.

 

Não pensou em nenhum momento no orgulho que teriam em si? Que era uma pena não assistirem aquilo.

Tenho uma memória afectiva forte dos meus pais, mas não tenho essa reflexão. Não me atravessa. O meu pai gostava de mim, e eu dele, e chega. Não gostaria mais ou menos por eu ser ministro ou outra coisa qualquer.

 

Ouvi raras vezes a resposta que acaba de me dar. Que denota a consciência de que importa mais a relação do que a situação.

É verdade. Admito que a minha mãe tenha pensado: “O teu pai gostaria de te ver”. Mas eu nunca pensei nisso. Não considero a política uma carreira.

 

Mesmo que ande nela há uns anos.

Sim. Tenho a noção, ou quero ter, que o exercício de cargos públicos é mesmo um exercício de serviço público. Atrai-me a noção de coisa pública.

 

Está implícito o dever de retribuir o que a sociedade lhe deu? Porquê esse gosto em servir os outros?

Não lhe chamo servir os outros. Não tenho uma visão de serviço no sentido de dádiva, mas de responsabilidade cívica. Só está nestes cargos quem quer. Não acredito nos que dizem que estão nestes cargos com ganhos de espírito ou missão de sacrifício. Quem está a desempenhar cargos públicos como quem está a cumprir um castigo, não o faz bem. Mas o prazer que dá ajudar a resolver um problema, ajudar a encontrar uma solução diferente, uma síntese adequada para as diferentes realidades que estão em jogo... Isto tem muito a ver com o que somos, como crescemos, como nos formámos.

 

Isso que o alimenta tem ainda a ver com o que viveu na universidade, com o espírito do 25 de Abril?

É provável que sim.

 

O que é que sentiu? Abriu-se um mundo? Encontrou iguais? Sentiu-se pertença de um grupo?

Tudo isso e mais algumas coisas. Quando um jovem vem daquilo a que se chama “a província” e entra na faculdade – eu entrei em Económicas – sente um choque grande. Entrei numa espécie de zona libertada! As paredes estavam cheias de cartazes, escritos à mão, a falar das mais diferentes coisas, da Guerra do Vietname à greve na TAP. A pessoa sente que está a passar uma fronteira. E encontra pessoas, muito mais pessoas, com quem se identifica.

 

Os grandes interlocutores, até ter vindo para Lisboa, eram os livros?

Seguramente. A sua pergunta tem uma resposta claramente afirmativa. Não quer dizer que não falasse com pessoas, que não fizesse o que faziam todos os jovens da minha idade. Mas os livros eram a minha vida. Encontrar outros, muitos outros, mais próximos de nós do que suporíamos, é uma grande ruptura. É a passagem para uma realidade em que se ganha muito mais consciência dessa realidade. E pensamos, muitas vezes erradamente, que percebemos melhor o que nos rodeia. O que estava longe de ser um exercício de pacificação. Pelo contrário. (Não gosto de falar destes assuntos, mas você é que faz as perguntas).

 

Porque é que adensou a angústia?

Porque a pessoa tem a consciência que se vive num mundo fechado, ameaçado, que se está a caminho de uma guerra que não se compreende.

 

Pairava o fantasma da Guerra Colonial…

Não conheço nenhum jovem dessa altura que não o tivesse.

Quando era miúdo lembro-me dos dias da inspecção. Eram uns senhores que iam pelos concelhos seleccionar os mancebos que estavam preparados para servir as Forças Armadas. Depois havia sempre um baile em que as pessoas afogavam as suas mágoas… Sentimento estranho: os felizardos eram os que eram rejeitados. Lembro-me de pessoas que tinham problemas, físicos, intelectuais, e por isso eram “livres” – era a expressão que se usava – e recebiam os parabéns de toda a gente. É um universo de pernas para o ar, era um filme do Fellini, era uma situação absurda.

 

O que é que pensava que lhe ia acontecer?

Quando o vivi, já tinha uma consciência política. Nem tinha a certeza de que iria para a guerra. Havia outras possibilidades. A guerra era um desafio político. O que discutíamos era o que é que cada um de nós faria se… Eu não tinha a certeza, não sei o que teria feito se não viesse o 25 de Abril e me tivesse libertado desta questão.

 

Estudou Economia. Porque é que não escolheu Letras, sendo o amante dos livros que era?

Quando tinha 16, 17 anos, achei que a questão social era mais urgente. Saí de casa pensando inscrever-me numa alínea de Letras; tive de fazer uma viagem de 20, 30 minutos de autocarro; cheguei lá e inscrevi-me na alínea que praticamente só dava acesso a Economia.

 

E isso sozinho?

Sim. Chegavam-se os ecos de Económicas ser uma escola muito politizada, onde o movimento estudantil era forte. Fui para um curso que tinha a ver com essas preocupações e não para um curso que tinha a ver com a minha evolução. Em casa não tinha qualquer pressão para ser isto ou aquilo.

 

Por que via chegaram os livros à sua vida?

Lia tudo o que me aparecia à frente, em minha casa sempre houve muitos livros. E havia as bibliotecas itinerantes da Gulbenkian; umas carrinhas Citroen, de chapa ondulada; subia-se as escadinhas e era só livros à volta!, uma coisa fantástica. Desde os meus cinco, seis anos que ia lá. Depois passou a ser uma biblioteca fixa. Na época complicada dos 14, 15 anos, ia de três em três dias buscar quatro ou cinco livros para ler.

 

Escrevia?

Tinha que escrever! [riso] Mas não são coisas – infelizmente para mim – que tivessem qualidade.

 

Quando é que percebeu que não tinham qualidade?

Nunca percebi, mas gosto de dizer isto! [riso] Não é essa a minha vida e essas coisas, mesmo que eu tivesse talento, só se fazem com opções, com trabalho.

 

Portanto, estudou Economia.

Na área da Economia, tenho uma vocação mais forte para as questões do Território. Por isso é que, quando desempenhei funções nas Obras Públicas [Secretário de Estado] gostei imenso.

 

Curioso. Não lhe conhecia essa ligação. Quando me detive no seu currículo e tentei perceber por que foi Secretário de Estado das Obras Públicas, achei que era um tacho político.

Não acho que o determinante no exercício de um cargo público seja o conhecimento técnico dos dossiers; ou melhor, a preparação prévia. Um cargo político é um cargo político, em que é preciso tomar decisões políticas. Hoje, não tenho tempo para usar as minhas eventuais competências técnicas para me ajudar a tomar decisões; tenho de ter outras pessoas a fazer isso para mim. Nos países nórdicos, é comum os ministros transitarem de umas pastas para as outras, da Educação para as Finanças. Aliás, já aconteceu também em Portugal.

 

Estava só a provocá-lo, dizendo que parecia um tacho, e a perceber como reagia. Porquê a proximidade com o Trabalho e a Segurança Social?

Eu gostava, gosto, de uma visão de síntese. Sou mais da Economia Aplicada. É por aí que chego a estas questões. Tenho esse gosto. Tive a vantagem de trabalhar anos como dirigente aqui no ministério, em cargos mais técnicos. Nesta máquina, eu já fui um deles, e as pessoas reconhecem-me como tal.

 

O Partido Socialista é uma segunda casa? É um homem do PS há anos.

Não tantos.

 

O primeiro cargo político é de 99. Tem pelo menos dez anos de proximidade.

Sim. Assumo com muita tranquilidade a pertença a essa família política. Não foi a minha família de origem. Formei-me politicamente na extrema-esquerda, na esquerda radical. Militei apenas no Movimento de Esquerda Socialista. Quando ultrapassei essa fase, em 70 e muitos, a minha aproximação ideológica foi ao PS. Nunca me passou pela cabeça outra alternativa.

 

Quando ouve dizer, a seu respeito, que é a consciência de esquerda de José Sócrates…

Ah, não ligo nenhuma. Não dou a mínima importância. Não me incomoda nada que digam que sou da ala esquerda. Incomodar-me-ia se dissessem que sou de direita.

 

Voltando ao período em que foi Secretário de Estado de Ferro Rodrigues: pensou que poderia ser ministro?

Ministro da pasta em que ele estava? Nunca.

 

Houve um momento em que percebeu que aquele lugar, se Ferro saísse, ia ser para Paulo Pedroso e não para si?

Ahhh, não penso nesses termos. Não tenho essa capacidade de cenarização.

 

Não é ambicioso dessa maneira?

Não, não sou. Tenho a ambição de fazer bem feitas as coisas em que estou envolvido. Se as pessoas cuja opinião aprecio, e que trabalham comigo, me dizem: “Essa solução é um disparate”, eu, por muito que esteja convencido, penso que alguma coisa deve estar a correr mal na minha cabeça…

 

As pessoas têm à vontade para lhe dizer: essa solução é um disparate?

Espero que sim. Acho que sim. Trabalho com muita abertura.

 

Mesmo sendo pessoas muito jovens, pupilos seus?

Talvez seja por isso. As pessoas jovens têm mais capacidade de contestar os argumentos da autoridade vinda da idade.

 

Considera-os como um igual, e não discípulos?

Claro. Ainda ontem comentava com um Secretário de Estado – quando lhe fiz o convite nem sabia bem a idade dele – “Pensava que era mais velho”.

 

O senhor é relativamente novo. Tem 56.

“Relativamente”: agradeço a sua gentileza! [risos]

 

Tem imensos cabelos brancos. Talvez por isso pareça mais velho.

(Pode parecer pretensioso, tantas citações…) Há um romancista português, que diz: “Depois dos 30 é-se inevitavelmente velho”. Peço desculpa se lhe diz respeito também a si. Quantos anos é que já passei depois dos 30?

 

Sente-se com que idade?

Ahhhh, esse é que é o problema. [pausa] É a pergunta mais difícil que já me fizeram. Vou tentar explicar o conflito que isso me provoca, que é grande. Tenho uma grande noção da idade que tenho e dos limites que isso põe. Também tenho a noção que uma parte de nós funciona como se fôssemos eternamente jovens. Achamos que nunca mudamos, que a nossa voz é sempre a mesma… Mas não é verdade. Nós é que perdemos a noção da passagem do tempo. O Tempo é uma questão muito forte na minha existência.

 

Isso é também, e voltando à primeira parte da nossa conversa, a diferença entre olhar para trás e olhar para a frente. O que lhe falta fazer. O que já fez e não lhe interessa tanto assim.

Não é isso. Tenho vivido sempre com responsabilidades significativas. Sou ministro, serei mais uns meses, tenho funções a cumprir, assumi responsabilidades perante os outros. Não são coisas de pormenor. Gosto muito de chegar a casa, de fazer o jantar e que o jantar me saia bem. Mas isso não tem a relevância que tem, por exemplo, aceitar ser cabeça de lista do PS [por Setúbal]. Não posso desiludir os que confiaram em mim. Não posso desiludir-me a mim próprio, por ter aceite esta tarefa pensando que a podia fazer bem. É aí que concentro grande parte da minha vida.

 

O conflito que descreveu atira-nos para a questão do envelhecimento.

Não é nada original em pessoas da minha idade. O tema do envelhecimento e do Tempo está presente em muita da literatura contemporânea.

 

Philip Roth é um dos seus autores?

É a questão central dos últimos livros dele. Tenho-o lido com intensidade.

 

E Pessoa, foi um herói em algum momento da sua vida?

Isso começa a estar fora de moda… É uma coisa trágica, o sentimento colectivo de apoucarmos as coisas que são grandes. E agora, também Pessoa caiu na tragédia de ser considerado banal. Alguém disse que tanto Pessoa já enjoa. A mim não me enjoa. Não temos noção da felicidade que é para uma comunidade ou uma língua ter alguém que a use da forma tão magistral como ele a fez. O meu heterónimo? Depende das fases da vida. Quando era novo era Ricardo Reis. Agora não sou capaz de me fixar.

 

Lembra-se de ter pensado que queria que a sua vida fosse empolgante, vibrante, complexa, como as que lia nos livros?

Claro. Quem é que não? Quando tinha 12, 13 anos li todos os livros que uma criança lia. Tentei que os filhos lessem, e não consegui; percebi que já tinham passado alguns anos… Li todos os livros de Júlio Verne. Li-os com paixão, com essa paixão do romance, do impossível.

 

E daí que vem o lado romântico, a que aludiu no começo da entrevista?

Talvez.

 

Cá fora, não parece um romântico. Parece um homem discreto.

E sou. Toda a gente tem uma outra vida dentro dela. Nós é que não olhamos com atenção. Cada vez mais vivemos fechados. E é muito cómodo catalogar.

 

Quis que a sua vida, lida de fora, fosse um grande romance?

Não sei se é bem isso.

 

Ou que a sua vida, vivida por dentro, fosse muito interessante.

É mais isso. Eu tinha uma grande predilecção por ler os romances de Camilo Castelo Branco.

 

Inflamado. Quem é que havia à sua volta inflamado, dado a paixões avassaladoras?

Ninguém. Depois há sempre contrapontos. Há quem pense que eu sou muito racional; se calhar sou. Identifico essa fase da minha vida como uma fase interessante. Essas grandes decisões, o confronto com elas, reconforta-nos muito. Fazem-nos sentir que a vida precisa dessas coisas e que faz sentido ser vivida assim.

 

O seu estrabismo, e o modo como o viveu, sobretudo na adolescência, complexou-o e fechou-o nos livros?

Complexou, eventualmente. Fechar nos livros, não, que sempre tive uma vida exterior muito intensa. Quando cheguei à universidade assumi logo a vontade de participar na vida colectiva, intervir, falar nos plenários, ser eleito. Nunca fui um rato de biblioteca. Os meus amigos de juventude foram tanto os livros quanto os meus colegas com quem bebia cervejas – e bebi muitas!

 

Isso nunca o diminuiu?, nunca deixou que tivesse um peso significativo na sua vida?

Isso não posso dizer. Mas do que conheço da vida política, que é muito exposta, há muita gente que a faz como um contraponto a alguma timidez. É mais fácil vencer a timidez a falar para 500 pessoas do que numa entrevista.

 

É a primeira vez que me olha nos olhos, agora que está a dizer isso.

É por acaso.

 

Não gosta de falar de si porque eu sou jornalista ou normalmente é assim?

As duas coisas.

 

As pessoas à sua volta sabem que leu muito, nomeadamente um autor como Camilo Castelo Branco?

Poucas. Eu não falo de mim.

 

  

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2009

 

 

 

 

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