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José Cutileiro

Encontrámo-nos no átrio do hotel. No final da entrevista falámos de filmes, de Rossellini e de Renoir. Aparentemente, nada que ver com a crise ou a Europa ou a austeridade ou a memória curta da Alemanha (o filme de Rossellini de que falámos, e que é o nosso preferido, é “Viagem a Itália”, e não “Alemanha Ano Zero”).

As coisas de que falámos na entrevista – assuntos europeus, a imprevisibilidade da movimentação das peças no xadrez, o facto de a Europa ter tido mais olhos que barriga na criação do Euro – não tinham que ver com “A Regra do Jogo”; mas ambos nos lembrámos de Octave, o personagem interpretado pelo próprio Renoir, que se sacrifica a um grande amor. (Neste ponto da História, é a Europa, uma certa ideia de Europa, que é sacrificada?) Talvez pudéssemos fazer uma outra entrevista para falar só de filmes, e do muito que se aprende neles, como quem não quer a coisa. Outro dia.

Disse-lhe que parecia um professor de Oxford. Pelo aprumo da vestimenta, uma certa combinação de cores, o cabo belíssimo da bengala (Eça chamava-lhe um nome mais elegante e João da Ega, o personagem d’”Os Maias”, poderia usar uma igual), o modo como se apoiava nela. Mas Oxford foi há uma eternidade. A sua vida de antropólogo, também. Embora o que aprendeu no trabalho de campo venha à tona, como a verdade e o azeite, nas circunstâncias mais inusitadas.

José Cutileiro, diplomata, tem um currículo espesso. Acompanhou de perto, tantas vezes no terreno, o pulsar da História das últimas décadas. É um eborense que se sente bem em Nova Iorque e em Bruxelas, onde vive (“é uma espécie de Nova Iorque dos pobres”). Por uma razão simples: “É que não há ninguém que seja de lá. Somos todos mais ou menos estrangeiros”. É um estrangeirado que nos ajuda a desenrolar e a compreender o mapa que esticamos sobre a mesa – e que parece no fio.

 

Já viu, mediou, trabalhou em muitos projectos europeus, conflitos, tratados, resoluções. Face a esta crise, ao que parece ser um beco sem saída, parece-lhe que ainda se vai a tempo de salvar a Europa?

Beco sem saída, não há. Há sempre saídas. Podem é ser más saídas. Tive alguma experiência, sobretudo de coisas jugoslavas, mas outras, também. Pelo facto de ser diplomata, de ter sido director-geral político no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa, de ter sido secretário-geral de uma organização que era a única organização de defesa europeia na altura, tenho acompanhado muito as questões europeias. A Europa teve mais olhos que barriga.

 

Em que momento? A ambição era excessiva, desadequada?

Quando se introduziu o Euro, não era preciso. E depois, à parte dos países originais, houve outros que se lhes juntaram. Que se juntaram cheios de esperança.

Em 2006 quando Chipre entrou para o Euro, o então governador do Banco Central, Jean-Claude Trichet, disse que era uma óptima ideia porque uma economia pequena e aberta como a de Chipre ficaria muito mais protegida das turbulências financeiras internacionais se fizesse parte do Euro. Isto mostra a grande dificuldade de fazer previsões sobre estas matérias.

 

Trichet deve estar a engolir em seco neste momento.

O Trichet não é tonto nenhum, sabia muito daquilo que fazia.

A coisa mais forte que os europeus têm é o Mercado Único. Os seis países fundadores fizeram um tratado aduaneiro a partir do qual cresceu aquilo a que os ingleses chamam single market (o marché unique dos franceses), e que nos transforma, a todos os membros da União Europeia, numa potência comercial no mundo.

 

A valência é essencialmente comercial?

Hoje não somos uma potência militar nem uma potência política, mas somos uma potência comercial muito importante. O Mercado Único permite-nos a todos negociar como uma única entidade perante concorrências muito grandes de outros países.

 

Nomeadamente a China e os Estados Unidos.

E os BRIC’s . O que é importante saber é que o Mercado Único não está acabado. Na energia estamos longe de ter chegado a uma posição como essa. Estamos muito à mercê de quem nos vende energia.

 

Da Rússia.

O caso mais importante é o da Rússia, mas há outros.

A meu ver não era preciso para nada fazer o Euro. Quando se fez o Euro, tal como tinha acontecido noutros passos da construção europeia, uma vez aquilo lançado, os ajustes consistiriam numa maior coordenação fiscal entre os países.

 

Numa procura de convergência entre os países do norte e os países do sul?

Também, mas mais tecnicamente, até em aspectos financeiros da moeda. Do que não se lembraram, e que tem que se perceber, é que já não havia União Soviética.

Houve um grande político belga, durante a Segunda Guerra Mundial e a seguir, que foi mais tarde primeiro-ministro da Bélgica e secretário-geral da NATO, Paul Henri Spaak. Num artigo publicado em 1970, e depois nas suas memórias, diz que já se chamou o “pai da Europa” a muita gente. (Ele não fala dele, – embora já o tenham apontado.) Fala-se de Adenauer, a pensar no esforço feito pelos alemães e pelos franceses a seguir à guerra para se entenderem, com a criação da Comunidade do Carvão e do Aço. Fala-se de Schuman, que era francês, de De Gasperi, que era italiano. Spaak disse: “Não, o pai da Europa foi o Estaline”.

 

Porquê?

Se não houvesse o terror absoluto do Estaline, se não houvesse o perigo que ele representava daquele lado, não teria havido nem construção europeia nem NATO. As duas instituições que permitiram aos europeus atravessar estes 50 anos, desde a guerra até ao fim do século XX, com segurança e com prosperidade, foram o resultado disso.

Quando a Moeda Única é introduzida, a Alemanha está reunificada, a União Soviética colapsou. Deixámos de ter o perigo soviético, e passámos a ter uma Alemanha forte outra vez. A construção europeia foi feita sobre uma Alemanha de rastos.

 

Toda a Europa estava de rastos no pós-guerra.

Os outros não estavam em muito melhor estado. Nem os franceses nem os ingleses. Se não fossem os Estados Unidos e o plano Marshall não se tinham aguentado. Mas a Alemanha não contava, estava arrasada. Houve um ministro de Roosevelt que disse que a Alemanha devia ser completamente devolvida à agricultura, que não devia ter uma única indústria.

 

Sobretudo era preciso não lhe dar espaço para alimentar uma reserva militar.

Mas isso foi tomado em conta e beneficiou a Alemanha, também, porque não teve despesas militares e pôde gastar dinheiro de outra maneira. Por fim, em 1953, como o perigo soviético era o grande perigo, e a Alemanha era precisa para a defesa do ocidente, uma grande parte da dívida das duas guerras alemãs foi perdoada e foram determinadas melhores condições para o pagamento do resto. É uma coisa de que os alemães não se têm lembrado ultimamente quando se fala na Grécia, em Chipre ou em Portugal.

 

A Alemanha tem a memória curta? Mais recentemente, basta olhar para a reunificação das duas Alemanhas e para o valor que foi atribuído ao marco da Alemanha de Leste.

A reunificação alemã também custou aos parceiros [europeus], custou-nos a nós, portugueses, custou a toda a gente. Não sei que países têm a memória mais curta ou mais longa. Faz-me confusão que nesta altura ninguém lembre aos alemães isto tudo. Publicamente. Em privado acredito que haja muita conversa.

Uma das caricaturas mais correntes agora é que os do sul são uns caloteiros, e os do norte, vistos pelo sul, são uns proto-nazis.

 

Como é que se extremaram estas duas posições?

Porque com o dinheiro não se brinca [riso]. Isto é muito sério, está a atingir muita gente. E é evidente que há diferenças entre o norte e o sul. Pessoalmente sempre achei que há uma linha horizontal algures na Europa.

 

Continua a ser essencial, para entender a Europa, esta Europa, ler o que Max Weber escreveu sobre o protestantismo dos países do norte e o catolicismo dos países do sul? A fissura pode ser esta?

É evidente que isso se nota. É uma grande discussão de que nunca fui um protagonista. Li o que outros escreveram. O Max Weber faz-me imenso sentido. Por outro lado, não se esqueça que Veneza e outras repúblicas italianas foram grandes focos de capitalismo e não eram protestantes, e foi antes da Reforma. Não sei se é tão categórico e definitivo, mas é sedutor e convincente. Às vezes penso na ética protestante. Vivi na Suécia dois anos. Há uma espécie de tessitura de hipocrisia na sociedade, que é enorme, e que não existe aqui no sul.

 

Passa por quê, essa hipocrisia?

Voltando ao Weber: temos que mostrar que fomos salvos. Há a noção de que a aparência é muito importante. Quando se fazem coisas más tem de se fingir que se fazem coisas boas.

Retomo a sua pergunta: julgo que a Europa está numa fase muito complicada. O que em 1953 ajudou a tornar a vida na Alemanha menos dura, a integrar a Alemanha no processo europeu, foi o medo da Rússia soviética. Infelizmente agora não vejo de quem é que se possa ter medo.

 

Da China.

Estão longe.

 

Um medo da força económica da China, e não da força militar Evidentemente o mapa é outro, o cenário é outro.

Com certeza. E tem-se medo também de outras [potências]. A Índia vai ser uma coisa importante. Mas nada disto concentra os espíritos como concentrava um grande exército que podia de repente entrar por aquelas planícies adentro. Não temos muitos estímulos exteriores para nos corrigirmos.

 

Disse que o grande trunfo da Europa é ter um mercado comum. A ideia de Estado Social, de uma solidariedade que atravessa as sociedades e as nações, é uma marca identitária da Europa. É a falência deste princípio que nos faz sentir que a Europa está a desmoronar-se? É isto que está em causa, também?

O que dá a força à Europa é esse mercado. O Estado Social europeu é possível enquanto a sociedade for suficientemente próspera para poder pagá-lo (com uma grande concorrência de outras partes do mundo que torna a venda dos nossos produtos mais difícil).

Neste momento, com uma crise tão complicada à volta do Euro… O Euro é mais um pretexto. Não é o Euro. É a crise das dívidas soberanas. Nalguns países, as crises da banca. De tal maneira que quase todo o mundo está a sair da crise e a Europa é a que está a sair mais devagar, ou não começou a sair ainda. Esse modelo social europeu foi possível num clima de prosperidade, e em grande parte porque [a Europa] não tinha que se defender.

 

Como assim?

A paz foi mantida, durante muitos anos, durante a Guerra Fria, enquanto a União Soviética durou. Havia uma protecção nuclear americana que era dissuasiva, e despesas militares enormes que os europeus, na sua maioria, não fizeram. Uns países gastaram mais do que os outros, o Reino Unido e a França especialmente.

Uma das vantagens da NATO não foi só impedir um ataque russo, mas impedir-nos de andarmos à pancada uns com os outros. E agora não sei por quanto tempo continuaremos a não andar à pancada uns com os outros. Não sou capaz de prever praticamente nada.

Pode ser que isto tudo se arrume, ainda. Há uma grande quantidade de coisas que os europeus têm em comum e que continuam a funcionar. Bruxelas é 24 horas por dia, 365 dias por ano, 27 países a negociar sobre as mais variadas coisas. É um activo que não é fácil de destruir, mas tem-se feito o possível ultimamente [riso].

 

Não sabe quanto mais tempo vamos conseguir estar sem andar à pancada uns com os outros...

E disse-lhe também que não sei fazer previsões.

 

Têm surgido vozes nos últimos tempos a dizer que não é de excluir um cenário de guerra na Europa.

Com certeza que não. O Helmut Kohl (que não era um filósofo, tinha feito um bocado de História, era a formação dele, e que era um político de enorme capacidade), dizia duas coisas de que me lembro. “Nós [a geração dele] somos os últimos políticos que nos lembramos da guerra. Os que vierem a seguir, não. E não vai ser a mesma coisa”. Outra coisa que dizia é que se a União Europeia se escavacasse, era a guerra.

Assustamo-nos muito com as guerras hoje em dia porque nos lembramos das bombas atómicas. Mas pode-se fazer imensa coisa com fisgas, à paulada [riso].

 

Essa sugestão da fisga e da paulada parece uma caricatura, uma imagem paleolítica quando olhamos para os testes na Coreia do Norte, por exemplo. Ou para todo o arsenal militar das super potências. Por isso temos uma visão apocalíptica da guerra.

A Coreia: não sabemos se o homem é maluco e se aquilo tem, apesar de tudo, controlo, se é uma provocação que saberá ou não parar… Quando era pequeno tinha um automóvel de brinquedo, um Chucco, uma marca alemã, que se punha em cima de uma mesa, e que, quando chegava à borda da mesa, virava para dentro. Nunca caía. Não sei se o coreano tem um automóvel Chucco na barriga ou não. Mesmo um tipo visivelmente perturbado como era o Khadafi, a certa altura percebeu que não lhe servia de nada ter um arsenal nuclear. O que ele queria era fazer as pazes e esquecer aquilo.

 

Está a dizer que as armas atómicas têm, mais do que tudo, um efeito dissuasor.

Com certeza. E sabemos que a sério só foram usadas em Hiroshima e Nagasaki. Mas há muitas outras armas que não são nucleares, que não são químicas, que não são biológicas, e que matam que se farta. Canhões, metralhadoras, carros de assalto, navios. Coisas muito sofisticadas, modernas.

 

Ou não tão sofisticadas, e que também matam que se farta. Basta olhar para a Síria.

A Síria é uma história diferente. Ali usam o que têm, o que arranjam, o que lhes dão, o que conseguem comprar. Aquilo é um horror. Era um sistema muito duro e brutal, mas o que vai sair dali, para muita gente, vai ser pior. As forças [políticas e religiosas] estão divididas. Há um ingrediente fortíssimo de radicalismo islâmico. Essa gente normalmente está ali para salvar o mundo e ensinar a verdade. E depois há um tricô que nós, portugueses, não conhecemos, não temos. Vou contar-lhe uma história.

 

Conte.

A certa altura fui antropólogo e estava a fazer trabalho de campo. Vivia numa aldeia alentejana e comia numa taberna, numa salinha onde a senhora também tinha o correio. De vez em quando havia gente de fora. Turistas, que vinham ver a terra, que era bonita. E se isso acontecia, normalmente aos domingos, eu ia comer para a cozinha. Um dia chegaram dois casais, umas crianças, duas famílias do Porto. A Sra. Antónia, quando voltou para a cozinha, vinha furiosa, e disse assim: “Queriam pão de milho. Filhos da puta!”.

Quando estava na Jugoslávia [nos cenários de mediação para a paz], pensei nisto. Daqui à limpeza étnica vai um passo muito curto. Se uma pessoa que quer pão de milho – porque vem do norte de Portugal – é um filho da puta, com um bocadinho mais de mau jeito chega-se à pancada.

 

Odeia-se pela diferença.

Exactamente. Odeia-se pela diferença. A diferença implica uma rivalidade e ficamos em risco.

Voltando à Síria. A Síria é um buraco e é muito fácil dizer que é indecente, que não se tem feito nada. Se toda a gente quisesse fazer da mesma maneira, talvez já se tivesse feito qualquer coisa. Mas a Rússia não quer. E a Rússia tem uma importância enorme ali. Não vai mexer, não vai facilitar a vida.

 

A resolução da crise europeia pode passar por uma reconfiguração do mapa, pelo papel da Rússia nessa reconfiguração, nomeadamente no plano energético?

Não.

 

O que fizeram ao dinheiro russo no Chipre vai ter uma factura a médio prazo.

Não. O dinheiro russo no Chipre era relativamente pouco. Há muito mais dinheiro russo na Alemanha ou no Reino Unido. É dinheiro que já tinha sido lavado. Os russos não gostaram nada, mesmo. O que se está a fazer é terrível e é um péssimo precedente para as coisas europeias. (Agora dizem todos que não é um precedente. Há um personagem curioso, o ministro das Finanças holandês, que disse que era óptimo, que assim é que se iam resolver as coisas daqui para o futuro.)

A Rússia é um problema muito complicado. Está condenada a ser governada numa espécie de ditadura com um aparato democrático à roda. Em meados do século XVIII foi publicado em Amesterdão, em francês, o código russo da Imperatriz Catarina. Dizia que a Rússia é grande demais para ser governada por mais do que uma pessoa [riso]. Tem sido assim. A Rússia não atrai ninguém.

 

Quem é que pode fazer face à Alemanha?

Os dois únicos que podem fazer qualquer coisa são os britânicos e os franceses. Julgo que o poder actual britânico tem cedido muito ao que pensa que é o sentimento das pessoas (faz parte desta maré populista em que quem chefia acha que tem de seguir os outros e não lhes impor qualquer coisa). E isso é mau. Os ingleses, se estivessem um bocadinho mais engagé na Europa… Mas não estão. E não estão no Euro.

Se François Hollande fosse uma espécie de pequeno De Gaulle – que não é –, podia anunciar a Angela Merkel que cancelava a participação na próxima cimeira franco-alemã por achar que o eixo franco-alemão já não existe e que a Alemanha se está a comportar (nas questões financeiras) de uma maneira que ele não considera boas para a Europa e para a França. Se fizesse isto, os alemães apanhavam um enorme susto. A Europa foi o único sucedâneo que tiveram, durante muitos anos, de uma pátria. Eles não podiam ter uma pátria: estavam divididos. E tinham uma grande culpa associada.

 

Essa culpa está expiada?

Ultimamente, provavelmente, muita gente está convencida de que ela não existe. Mas acho que ainda estará por lá. Em relação aos outros [países] , a culpa estava quase expiada. Se, na Grécia, quando o Papandreou era primeiro-ministro e disse que afinal o défice era muito maior, se nessa altura fosse Khol [o chanceler], e Khol tivesse dito: “Essa dívida europeia é nossa”, tinha-se gasto muitíssimo menos dinheiro [do que se gastou nesta crise] e não se tinha chegado a este apuro.

 

Estamos a falar de líderes, da força e do desígnio desses líderes, nomeadamente de Merkel e de Hollande. De decisões políticas.

Pois. A Merkel é um líder considerável neste sentido. Consegue ser o político mais popular da Alemanha, a uma grande distância dos outros. E numa democracia um político quer ser reeleito. A ideia que se tem hoje na Alemanha, e que me dizem que está muito viva, das maldades e das imperfeições e das velhacarias dos povos do sul, foi-lhes em grande parte ensinada pelos seus próprios políticos.

Durante esta crise, Merkel teve uma linha muito curiosa: havia um problema qualquer e ela dizia que não; por fim dizia que sim, e quando dizia que sim, já custava muito mais dinheiro. E já havia aquilo que os espanhóis chamam de mala leche, um mau sentimento de uns países em relação aos outros.

 

A França: conta da mesma maneira?

A França de hoje é um país muito mais fraco do que era em relação a uma Alemanha dividida.

 

Isso acontece porque o Hollande é um líder fraco? Com Sarkozy, e se calhar era só pelo estilo histriónico de Sarkozy, parecia que a França tinha mais importância neste tabuleiro do que hoje tem.

Sarkozy resolveu que se ia colar à Merkel de alto a baixo, mas que o ia fazer mostrando-se um igual. E fez isso, de facto. Sarkozy era um personagem muito diferente de Hollande e a França ter-se-ia dado melhor se pudesse pôr os dois num shaker e fazer um personagem qualquer [risos]. Um “Hollandy”, um “Sarkollande”.

 

Hollande é uma decepção para si? Esperava mais dele?

Não, não esperava. É um homem inteligente. Nunca o conheci.

 

Ele era, há um ano, quando foi eleito, uma espécie de esperança da esquerda europeia – isto numa Europa que estava em quase todos os países a virar à direita.

A esquerda conseguiu manter uma certa importância política quando deixou de acreditar, ou pelo menos de dizer que acreditava, numa quantidade de patetices que durante muitas décadas funcionaram mas que hoje já não funcionam. A visão do mundo e da economia de uma grande parte da esquerda europeia é patética. Parece a Casa dos Estudantes do Império à solta.

 

Está a dizer que o Estado Social, que é uma das bandeiras da esquerda, e que é uma das marcas da construção europeia…

O Estado Social foi em grande parte uma consequência do sindicalismo. O sindicalismo foi a grande força da Europa não-comunista, da Europa Ocidental em que os comunistas não tomaram o poder.

 

Foi também uma necessidade do pós-guerra em que a Europa estava em escombros e era preciso acudir aos desvalidos.

O que acudiu aos desvalidos foi sobretudo o Plano Marshall.

Vou contar-lhe uma pequena história. Durante a Segunda Guerra Mundial foi embaixador britânico em Moscovo um homem que veio a ser ministro das Finanças do primeiro governo trabalhista, Sir Stafford Cripps. O Churchill perguntou uma vez ao Estaline o que é que ele tinha achado do Stafford Cripps. O Estaline disse: “Um homem encantador. Só tinha um problema: queria explicar-me a mim o que era o socialismo”. [risos] Eu acho que o socialismo era aquilo, e depois, aqui deste lado, havia o que se podia arranjar.

 

Considera, então, que é inexorável o fim do Estado Social na Europa?

Não. Mas vai ser mais calibrado. Hoje em Portugal uma pessoa vai à Caixa, ou tem uma destas protecções que existem; a quantidade de análises que se pedem quando uma pessoa está doente... Há uma despesa brutal que vem da Saúde que não vai poder ser mantida. Como é que se pode introduzir nisto um certo bom senso sem ao mesmo tempo parecer que se estão a favorecer algumas pessoas e não outras?

 

Alguma coisa pode mudar com as eleições na Alemanha? Ainda faltam muitos meses.

Faltam cada vez menos meses, qualquer dia estamos lá.

 

Daqui até Setembro, muita coisa pode acontecer na Europa, não?

A Europa não nos mantém distraídos, temos que dar por ela. Sabia-se que Chipre, tão pequenino, ia ser um problema, e foi o que foi. A Eslovénia talvez tenha um problema um dia destes. Outros países.

 

Itália continua sem formar governo.

Sempre achei que uma das grandes forças da Itália era o facto de o governo ser praticamente desnecessário. A Itália tinha péssimos políticos e óptimos fabricantes de roupa e de carros, de tudo.

O que se diz é que, [na Alemanha], havidas as eleições, vai-se organizar um governo, provavelmente uma grande coligação, que poderá tomar medidas mais eficazes para acudir às dificuldades no sul da Europa sem medo da opinião pública. O problema aqui é que as dificuldades do sul já começam a ser as da Alemanha. A Alemanha exporta um bocado para fora da União Europeia, mas o grosso da sua exportação é para dentro da União Europeia.

 

É do seu próprio interesse não abandonar estes pobres preguiçosos porque são eles que compram a sua indústria...

Exactamente.

 

Pode ser por aí, e não por nenhum outro bom sentimento, que revejam o seu comportamento?

Bom sentimento?, alguma vez? Nem eles nem nós, nem ninguém.

 

Estava a ser irónica.

A Alemanha é recuperada em grande parte pelo facto de ser um baluarte importante contra a União Soviética (a partir de 1953, oito anos depois do fim da guerra, percebe-se que é fundamental na luta de contenção da União Soviética). E aí a dívida começa a ser perdoada. Entretanto tinha havido o processo de construção europeu e a Alemanha era um dos fundadores, com a França. Depois, a Alemanha não é membro fundador da NATO, em 1949, mas entra pouco depois.

 

É um negociador, enquanto diplomata, para a paz. Quem é que sentaria à mesa para começar a negociar e a tratar da resolução da crise europeia?

A primeira coisa é que a “crise europeia” é um grande palavrão. Há muitas crises, todas juntas. Não me cabe fazer essa escolha. Temos regimes democráticos, é esta gente que vai ter que negociar e ver como é que se sai disto. E sobretudo ver como é que consegue repor a economia em marcha.

 

Como é que se põe a economia em marcha num clima de austeridade? Vamos olhar para a Espanha, para a Grécia, para Portugal.

Aí estou em discordância categórica [das políticas que têm sido seguidas]. A austeridade não é a melhor [política] para tirar estes países do buraco em que estão. Devia minorar-se a austeridade. É preciso pagar as dívidas e pôr as contas em ordem, mas não é preciso fazê-lo tão depressa. Há aquela história do cavalo inglês... Conhece-a?

 

Não.

Um inglês tinha um cavalo e estava a treinar o cavalo para viver sem comer. Quando o cavalo estava quase, quase habituado a viver sem comer, morreu.

 

Renegociar a dívida é imperativo, nomeadamente para Portugal? Uma renegociação da dívida parece-lhe necessária para não matar o cavalo?

As coisas estão todas ligadas umas com as outras, as pessoas que estão actualmente no governo e a Troika. Era preciso, com certeza, renegociar a dívida.

 

Como é que lhe parece Portugal, visto de fora? Temos estado a falar sobretudo da Europa, que é onde desde sempre se movimenta.

Não é desde sempre. Fui embaixador na África do Sul, em Moçambique. Portugal. A maneira mais sintética de mostrar a minha relação com Portugal está num verso do Alexandre O’Neill, num poema que se chama Feira Cabisbaixa, e que uso como citação do começo de um livro (que publiquei primeiro em Inglaterra e depois em Portugal). “Portugal, questão que eu tenho comigo mesmo”. Há dias em que I don’t like Portugal, but I always love Portugal. É assim.

 

O título genérico destas entrevistas é Ampola Miraculosa, título de um livro do Alexandre O’Neill. Escolhi-o para falar globalmente de Portugal porque há uma parte de nós que alimenta uma espera messiânica.

Imagine (era muito pior) se houvesse um tarado que convencesse toda a gente que ele é que sabe...

 

Esta questão consigo mesmo, que tem por ser português, traduz-se no essencial em quê? Quais são as constâncias?

Quer a visão do Alexandre [O’Neill], quer o aproveitamento dela que eu possa fazer, vinham muito de termos vivido – eu até aos 40 anos e ele até mais tarde – sob um regime com o qual não estávamos de acordo e pelo qual nos sentíamos oprimidos. Mal ou bem eu vivi no estrangeiro uma parte desses anos. E depois veio a democracia. Nessa altura, como dizia um amigo meu, o português foi destapado [riso]. E quando se tirou a tampa, não havia propriamente democratas impolutos – havia toda a gente.

Dos sítios onde vivi, não me lembro de ter estado com gente que eu preferisse que fosse a minha. Eles têm muitas vezes as mesmas complicações que nós temos, e outras vezes têm outras que não são necessariamente melhores que as nossas. Portugal não tem, nem uma maldição específica nem um messianismo ou uma bênção. Somos o povo menos eleito que há. Calhou-nos isto, e ainda bem.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2013

 

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