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José Manuel Félix Ribeiro

José Manuel Félix Ribeiro tem boa fama. É discreto e ao mesmo tempo desarvorado. Diz coisas com o cru de quem pensa alto e não tem medo de dizer o que pensa. No livro A Economia de uma Nação Rebelde faz diagnósticos, aponta soluções. Lê-se na contracapa: “Não temos de ser um protectorado germânico nem uma feitoria chinesa”.

Economista, fez carreira na Administração Pública. Os grandes eixos do seu discurso não são a dívida ou a despesa. São o crescimento ou essa palavra perdida que se chama estratégia.

Nasceu em 1948. Quando cheguei ao local da entrevista, estava a ler o Financial Times. Traz uma pasta como os professores de um mundo antigo.

 

 

O título do seu livro, A Economia de uma Nação Rebelde, aponta para uma natureza que não se deixa domar. Estuda as razões porque não crescemos, porque somos um país endividado. Porque é que não nos deixamos domar?

Não sei. O que sei é que ao longo da história surpreendemos em vários momentos pela solução que encontramos para as nossas desgraças. O que tentei com este livro foi dizer que Portugal está numa daquelas alturas em que tem que mostrar o que vale. Para isso, só se pode inspirar nos momentos em que foi rebelde.

 

Rebelde?

Rebeldia é uma expressão pouco usada. As pessoas são normalmente revoltadas ou descontentes. Ser rebelde supõe auto-estima. As circunstâncias são tão asfixiantes que temos que virar a mesa.

 

Para virar a mesa, é preciso saber porque estamos nesta situação? Compreender para mudar.

Sim, e compreender como é que o mundo está a evoluir. Entre que pingos da chuva podemos navegar.  

 

Não é o famoso desenrascanço português.

Não, não. É uma inteligência estratégica.

 

Escreve que é preciso repensar o que foi fundador nestes 40 anos de democracia. Se respondemos bem em determinados momentos, isso é uma reacção, não é uma estratégia.

Acho que tivemos uma estratégia muito clara e bem concebida quando perdemos o império, derrubámos um regime e nacionalizámos uma economia – não tendo estado numa guerra civil.

 

Está a falar dos três D’s.

Sim. E tivemos três pilares. A Europa (o local de acolhimento que deu uma garantia de que a democracia era protegida pelo exterior)...

 

... a que aspirávamos pertencer.

Sim. Estes 40 anos têm uma matriz pró-europeia enorme. Segundo pilar: o Estado Social, que é uma ideia do prof. Marcello Caetano. Num regime e noutro traduz uma necessidade de encontrar uma legitimidade popular.

 

Seria possível a implementação de um Estado Social num regime não-democrático, com Marcello?

Sim. O seu foi um período de crescimento económico, o que lhe deu folga. O único grande problema era a guerra de África. Terceiro pilar: o municipalismo. Éramos um país de emigração, que praticamente parou, e recebemos 800 mil pessoas, que se integraram, espalhando-se pelo país. O municipalismo, pelas oportunidades que deu, foi fundamental. A reabsorção de uma parte das pessoas que vieram das colónias foi feita no Estado.

 

Não foi notável que em menos de um ano tenhamos recebido tantas pessoas, sem convulsões sociais?

Foi. Fizemos uma transição formidável.

 

O seu ponto: foi também para responder à chegada massiva de retornados...

... que começou a aumentar o Estado. O Estado na autarquia e na administração central. Para lhes dar resposta na educação, na saúde e no emprego. [Nessa fase] tivemos uma estratégia. Ao longo do percurso europeu tivemos também uma estratégia, que foi estar no núcleo duro do processo de integração europeia.

 

Pertencer a uma Europa dos primeiros. Não ser um parente pobre.

É. Na opinião das pessoas, se não tivéssemos feito essa aposta de estar desde o princípio no centro, seríamos uma periferia maior. Espanha teria sempre uma ambição de estar no centro. Espanha é um dos grandes problemas da história portuguesa. Somos o único país da Europa que tem um único vizinho. E o vizinho é quatro vezes maior do que nós. Tem pujança, ambição, coisa que nos falta às vezes. Alinhar com esse vizinho, sem o império, constituiu um desafio importante.

 

Mencionou as nacionalizações. Como foi feita a gestão desse dossier?

Constituíram uma coisa relativamente lateral. Corresponderam a...

 

... a uma deriva socialista, pura e dura?

Sim.

 

Tem noção que quando diz isso a direita fica exultante e a esquerda condena o seu discurso?

Sei. Um dos trabalhos que mais gostei de fazer, em 72/73, feito com a minha primeira mulher, que já faleceu, e um colega,  chamava-se  “Grande Indústria, Banca e Grupos Financeiros, 1953-73 – História da Economia Portuguesa”. Deu-me a percepção de que os grupos económicos no período do Marcello Caetano estavam a fazer uma alteração substancial da maneira de pensar a sua actuação. O Estado já não os podia ajudar tanto, e descobrem que têm de fazer coisas para o exterior. O grupo que lidera isso é o grupo CUF. Champalimaud também tentou. Com Rogério Martins e Marcello houve uma liberalização e uma vaga de investimentos enorme. Esse período (1967-73) é o de um capitalismo – dos grupos – que criava esperança. Foi tudo decapitado.

 

Como não podia deixar de ser?

Acho que não. Não era obrigatório. Até achei que as nacionalizações podiam ser necessárias. Mas depois escrevi: “As pessoas que quiseram as nacionalizações foram conquistar castelos vazios. O que lá estava já não era capital. Era dívida”.

 

Porquê?

Porque todos estes grupos estavam a embarcar em grandes projectos. Isto tem uma consequência: expressa um convívio muito mau da população com os ricos. Coisa péssima. Os ricos são muito úteis.

 

Repito a pergunta: como não podia deixar de ser? Não era inevitável num país tão desigual a convivência difícil entre ricos e pobres?

Não há pobres por haver ricos. Em todas as economias baseadas no controlo sobre a terra, a pobreza é o oposto da riqueza. No capitalismo (que se liberta da terra) a possibilidade de ascender ao capital e à riqueza é muito maior. O que vemos depois do 25 de Abril é que a riqueza se democratiza em torno da terra. Do imobiliário, da corrupção à volta da terra. Mas estes ricos não são muito úteis.

Tivemos três motores a funcionar: um a exportar, outro a investir e outro a aumentar o consumo por causa das remessas dos emigrantes.

 

Qual é o nosso motor neste momento?

Não temos nenhum. Aquele período [marcelista] era um período de ouro se esquecêssemos o quadro político em que ele se enquadrava. A máquina funcionava. Isto terminou sobretudo com a crise do petróleo de 73 (levou tudo uma machadada quando estava a construir-se). Estou a querer dizer que hoje estamos num período deste tipo.

 

Semelhante ao de 73?

Sim. Aquilo que foi possível fazer num período de 35 anos, chegou ao fim. Temos que nos reinventar.

 

Queria ainda falar dos ricos. Qual é o problema dos ricos portugueses? Não têm capital suficiente? São ricos sobre-endividados? São ricos dependentes do Estado?

No final do Antigo Regime alguns dos ricos estavam a fazer uma mudança enorme de agulha. Falo sobretudo do José Manuel de Mello. Estavam pela primeira vez a viver sem o Estado. Apoiados pelo Estado mas a fazer coisas para fora, aliados a suecos, americanos. Estavam num processo de aprendizagem que era bom. O que é que veio a seguir?

 

Saíram no pós-revolução. A maior parte para o Brasil.

Quando voltaram tiveram de comprar aquilo que era deles. Endividaram-se no exterior para comprar. O que nós tivemos [nos anos da democracia] foi uma multidão de novos ricos. Uma multidão de novos ricos!    

 

Com outra expressão. Pequenos, pequenos novos ricos.

Sim. Um rico útil é um rico capaz de telefonar para o Rockefeller e dizer: “Preciso disto”. Um rico útil é um rico que pertence à elite mundial ou europeia, que tem contactos com ela e que é capaz de fazer projectos com ela.

 

Quem são esses ricos em Portugal?

Hoje? Houve uma degradação... E democratizámos a riqueza a um nível baixo, formando um bloco: os bancos, as câmaras, os promotores imobiliários, os construtores civis, as obras públicas.

 

Quando está a falar de multidão de ricos está a falar de quem? Que tipo de vida têm esses?

Pessoas que passaram a ter um nível de vida muito melhor. Acumulam património, mas não acumulam capital. Não reinvestem.

 

Sublinha a diferença entre riqueza e capital, coisa muito esquecida em Portugal. Concorda?

Absolutamente. No fundo, não são aventureiros. Não quero dizer mal dos ricos nem dos pobres. Hoje temos as start-ups vindas das universidades, as PME’s. É um terreno fértil em termos de capacidade empresarial. Mas são muito pequeninos. Tenho um navio e preciso de lhe dar um novo rumo. E não tenho ninguém para dar o golpe de leme.

 

Ninguém: está a pensar num líder político?, num empresário?

Ninguém em termos empresariais. Precisamos de nos relacionar com grupos multinacionais através do Estado. Acho que o Estado tem um papel importante na reconversão da economia, ao contrário da maior parte dos economistas que acham que se pintarmos a casa e tivermos um bom comportamento, vem para cá tudo quanto é desejável. Não vem. Por uma razão simples: o mundo está cheio de sítios para ir.

Formámos uma geração muitíssimo mais qualificada do que alguma vez tivemos. Era fundamental para atrair investimento.

 

Porque é que não se investiu? Porque é que esta geração está a debandar?

Porque a Comissão Europeia não gosta. A CE tem alguma dificuldade em que façamos atracção de grandes projectos de investimento. Acha que temos é de pôr o dinheiro nas PME’s.

 

Quando fala de CE está a falar da Alemanha?

Não sei se é a Alemanha. É a máquina burocrática. Os alemães vieram muito para cá. Temos uma dívida de gratidão, se assim se pode chamar, ao investimento alemão. Auto-Europa, Siemens, Bosch, Continental (pneus).

 

Mas esse grande investimento, alemão, internacional, não é o fulcro da nossa economia.

Temos um peso grande de sectores de actividade, viradas para o mercado interno, que criam muito emprego mas não têm grande produtividade. E não têm capital. Vivem a crédito. Não lhe chamo economia capitalista, mas economia mercantil a crédito. Muito numerosa. A Troika enganou-se quando, ao deixar que houvesse uma contracção do crédito, dizimou uma parte deste tecido. É um tecido que não tem nada que ver com competitividade. São os restaurantes, os cafés.

 

Pequena construção civil e restauração: muito estava alicerçado aqui.

Claro. E no comércio. Quando contraem o crédito, aumentam o IVA, as rendas comerciais, quando fazem tudo ao mesmo tempo... É uma coisa de loucos. É não ter em conta que nós temos uma ecologia. Não se pode pedir a um estrangeiro que compreenda a ecologia desta selva se nós próprios não a conhecemos. Em Washington não têm que saber que há esta ecologia. Convém é que os que estão cá expliquem.

 

Estamos a despedir-nos da Troika. A fachada ficou pintada de fresco, apesar de as cores estarem esmaecidas. Não fomos à bancarrota, mas os números estão longe do esperado.

A Troika teve um papel fundamental. Vamos comparar. Tínhamos um automóvel. A certa altura, o automóvel deixou de ter certificação para circular na estrada.

 

Deixaram de nos emprestar dinheiro lá fora.

É o mesmo que ter um automóvel com uma certa idade, não fomos à vistoria, fomos apanhados pela polícia. O que a Troika veio fazer foi dar-nos outra vez as condições para circular na estrada.

 

Este elemento não é despiciendo: tivemos a esperança de que o carro ia sair novo deste processo.

O carro não saiu nada novo! 

 

O português espera sempre por um momento destes para se refazer, começar de novo, “agora é que nos vamos endireitar”. A ladainha conhecida. O sebastianismo.  

A Troika permitiu que nós, que estávamos proibidos de circular... Não estávamos só proibidos de nos endividar; tínhamos uma chancela tal que os investidores internacionais, se quisessem vir para cá, tinham dúvidas em vir para cá. Portanto nós podemos voltar a circular. É esse o significado de voltar aos mercados. O grande problema está em que o automóvel não foi transformado. As actividades típicas deste automóvel são as mesmas. Temos que fazer uma grande reparação, meter-lhe um motor novo. Isso não tem nada a ver com a Troika.

 

Não tem a ver com o dinheiro que nos emprestam?

Não tem a ver com a Troika. A Troika veio cá para um outro objectivo. A Troika teve três agendas diferentes. A agenda da Comissão Europeia, a agenda do Banco Central Europeu e a agenda do Fundo Monetário Internacional. Gostava de perceber até que ponto essas agendas foram articuladas convenientemente, de início. A CE veio com uma missão: mostrar que era capaz, perante os alemães, de pôr em ordem as contas públicas de um país que tinha ultrapassado os limites. Escondendo que ela, em 2009, tinha estimulado este actor a gastar dinheiro.

 

Tem um capítulo no seu livro em que diz, justamente: “De Bruxelas, autorização para gastar. De Bruxelas, a exigência de poupar.” Passámos rapidamente de uma a outra.

A necessidade de consolidação orçamental era muito importante. A necessidade de resolver a situação do sector empresarial público (que é uma fonte de prejuízo) era muito importante. Mas há aqui um problema: não foi por causa de o Estado ser grande que deixámos de crescer.

 

Pode esmiuçar? Fala-se muito do Estado gordo e da dívida. Fala-se menos de crescimento. 

O problema é que deixámos de crescer. A partir de 92/93 crescemos devagarinho e depois estivemos uma década praticamente parados – num período em que a economia mundial estava muito boa. Podíamos ter aproveitado. Não aconteceu. Fim do Cavaquismo, 94. A maioria que vem a seguir tem de trazer novidade. 

 

O que trouxe Guterres? A paixão pela Educação.

Trouxe mais Estado Social.

 

Não era inevitável que a despesa com o Estado Social aumentasse? Ele ainda não estava consolidado.

Era inevitável. O que quero dizer é que não há uma relação de causalidade entre ter um Estado maior e um crescimento baixo. Simultaneidade não é causalidade.

 

Estabelece-se frequentemente uma associação entre as duas curvas.

Estou a crescer pouco, o Estado está cada vez maior, logo, se reduzir o Estado passo a crescer: é falso! Nós deixámos de crescer por umas razões e aumentámos o Estado por outras. Como não cresço, tenho menos impostos, menos capacidade de financiar o Estado, isto vai aumentando e vou-me endividando.

 

Tudo mudou quando entrámos no Euro.

A dívida só foi possível quando entrámos no Euro. Até então ninguém nos emprestava dinheiro (naquela quantidade). Endividámo-nos para tentar gerir a situação de um Estado grande num país sem crescimento. O que é que estão agora a fazer? Assim: vamos ajustar o Estado e daí, quase com certeza, vai haver crescimento.

 

Falso?

Não estou de acordo com isto. Acho que é um equívoco. 

 

Esse equívoco serve projectos eleitoralistas. As pessoas precisam de encontrar responsáveis pela situação em que se encontram. É fácil misturar os dois planos e dizer: a culpa de não crescermos e do Estado gordo é do Governo anterior. 

Claro. A partir de certa altura, com o endividamento, deixámos de poder circular na estrada, e isso tem que ver com o crescimento e não com a dimensão do Estado. Ou seja, o automóvel deita muito fumo. “Arranjem maneira de não gastar tanta gasolina e não deitar tanto fumo.” Foi o que a gente esteve a fazer. Pode circular outra vez. Vai continuar a andar devagaríssimo.

 

A famosa reforma do Estado, anunciada como uma das obras que fazem a diferença: o que é que pensa sobre o assunto?

Não se pode fazer uma reforma do Estado sem haver um compromisso para décadas. O problema não é o Estado, o problema é que o modelo mudou. Estávamos habituados a que houvesse capitalismo e socialismo. Não conseguimos habituar-nos à ideia de que há várias capitalismos. O capitalismo da Europa continental – o do Euro – é muito diferente do capitalismo anglo-saxónico, onde se democratizou o empreendedorismo. Criou-se uma mitologia na Europa que faz do capitalismo americano uma coisa bárbara.

 

Desenfreado, sem protecção social. A marca negativa é essa.

No capitalismo europeu a protecção social é assegurada pelo Estado ou pela Segurança Social (por um acordo entre patrões e trabalhadores). Deste lado, o mundo empresarial é financiado pelos bancos. O mundo da zona euro é de Estado e bancos. Em certos momentos os bancos vão-se abaixo e o Estado mete dinheiro. A partir de certa altura o Estado tem dívida, baixa o seu rating, e os bancos vêem também o seu rating afectado.

 

Pescadinha de rabo na boca...

No mundo anglo-saxónico, as famílias devem ter património (a casa) e poupança institucional (fundos de pensões, seguros de vida). O Estado intervém supletivamente – herança do Roosevelt – para ajudar as pessoas que não conseguem fazer estas duas coisas. O sistema financeiro americano não está assente nos bancos, está assente no mercado de capitais. “Eu quero acções que me dêem segurança, que me dêem crescimento”. Escolhem. Os bancos, não. São dinossáuricos.

 

Em resumo: falta ao sistema continental o empreendedorismo que é a razão do sucesso e do crescimento do capitalismo anglo-saxónico.

Sim. Isto aqui está tudo pendurado nos bancos. E os bancos cada vez podem correr menos riscos.

 

Não correram enormes riscos? Olhemos para os portugueses e pensemos no quanto se sobre-alavancaram em relação às regras de Basileia, por exemplo.

Correram riscos de outra natureza. O que fizeram foi diferente. “Vou oferecer aos meus depositantes, não o depósito, mas fundos.” Ou seja, captaram depositantes. Hoje só sabem vender casas e crédito ao consumo. Em suma, a Europa não tem futuro com este modelo. O que estamos a tentar é que o BCE salve o parque jurássico para salvar o Euro.  

 

Mario Draghi não tem força em relação a Angela Merkel, que parece ser, verdadeiramente, quem manda?

Note: a Alemanha é isto. Um sistema financeiro continental com um Estado muito grande.

 

Mas cresce muito e o problema não se nota.

Cresce muito agora. Nos anos 90 esteve muito mal.

 

Fomos tergiversando. Mas começámos por falar da reforma do Estado.

Reforma do Estado não é uma palavra correcta. A reforma do modelo capitalista é que é a questão decisiva.

 

Em que sentido?

Posso aumentar a componente privada na protecção social, introduzir competição na oferta de ensino, por exemplo.

 

De certa maneira diz que devíamos ter um sistema híbrido, entre o que os europeus reconhecem como conquista do pós-Segunda Guerra (o Estado Social), e aquilo que no código anglo-saxónico garante a sua sustentabilidade, nomeadamente um regime mais liberal na economia e com espaço para o empreendedorismo.

Sim. E com uma profunda transformação do sistema financeiro.

 

A transformação do sistema financeiro é a pedra de toque que agiliza todo o processo?

Para mim, é. Como só temos bancos e os bancos estão aflitos, isto vai acabar como? Todos os bancos vão mudar de proprietário, ser controlados a partir do estrangeiro.

A mudança do modelo capitalista envolve também o reconhecimento de que o período da mão de obra acabou. Hoje o paradigma é o do capital humano.

 

Como assim?

O capitalismo moderno, na Europa, para sobreviver precisa de pessoas que tenham empenho na sua qualificação e na melhoria de rendimento que resulta dessa qualificação.

 

Porque é que a única maneira de sobrevivermos, na sua opinião?

Para o resto, mão de obra desqualificada e barata, há aos pontapés no mundo inteiro. Eu não quero mão de obra barata para me tornar competitivo, eu quero trabalhadores que acumulam capital humano estimulados pelo mundo empresarial. 

 

Isto é ainda a Europa a redefinir-se/reorganizar-se 25 anos depois da queda do Muro de Berlim?

É. As pessoas não deram conta que a construção europeia é um projecto completamente artificial. Porquê? Nasce de duas coisas: um adversário à porta (é feita num contexto onde a União Soviética existia e tinha um enorme poder militar) e o maior país amputado e derrotado na guerra [Alemanha]. Em 1991 acontecem duas coisas: a União Soviética implode e a Alemanha reunifica-se. Como é possível acreditar que a seguir a isto a Europa vai ser a mesma?

 

Qual foi o salto que a Europa quis dar?

Vamos transformar-nos numa grande potência, todos juntos. A seguir vem o Euro.

 

Faz sentido. O problema é o modo como isso foi implementado.   

Isto tudo é inveja dos americanos. [riso] (Eu gosto muito dos americanos.) A Europa é como aquelas pessoas de idade que dantes jogavam no casino e agora estão sentadas à sombra de uma árvore a jogar à sueca. Têm uma enorme nostalgia do casino.

 

E agora?

A construção europeia actualmente é um conjunto de pessoas que estavam a jogar à sueca e dizem: “Vamos abrir um casino”. Um desastre.

 

A Europa tem a mania das grandezas, é isso?

Veja o que ela fez com a Ucrânia.

 

Vamos de novo centrar-nos em Portugal. Precisamos de um compromisso de décadas para sair do estado em que estamos. Compromisso entre partidos?

É preciso um consenso maioritário. Não se faz reforma do Estado com PS, PSD, CDS. Ou há uma mudança que envolve um conjunto de forças políticas amplo para reformar o modelo de capitalismo (Estado, sistema financeiro, mercado de trabalho, tudo junto) e assumir um compromisso para os próximos 30 anos, ou não há nenhuma reforma do Estado. Pela simples razão de o Tribunal Constitucional, com toda a razão, dizer que não dá.

 

Com toda a razão porque são medidas políticas que violam a Constituição?

Sim. Mas o que estou a dizer é que é preciso mudar a Constituição.

 

O que é que responde àqueles que dizem que vivem num país em que é o TC que governa?

Digo o seguinte: nunca se faz uma mudança de compromisso sob uma intervenção estrangeira. Não consigo fazer um compromisso que apareça como um ditame do estrangeiro. As resistências internas são enormes. Tenho de ter de moto-próprio uma capacidade política para dizer: “Tenho esta proposta, arriscada, que temos de fazer por isto e isto. Vamos chegar a acordo”. Mas não é com o manual de instruções da Troika.

 

Estivemos a cumprir um manual de instruções?

Estivemos. E agora dão-nos outra vez a carta para voltarmos a circular.

 

Acha que em breve vamos voltar a perder gasolina e deitar fumo (para manter a metáfora do automóvel)?

Claro. Não quero transmitir a ideia pessimista de que foi tudo tempo perdido. Não foi. Se não tivessem feito isto, nem carta tínhamos para andar.

 

Esperava mais?

Esperava diferente. Esperava uma coisa mais inteligente.

 

A Troika devia ter-nos obrigado/ podia ter-nos obrigado a fazer diferente, de um modo mais inteligente?

Não. Os elementos europeus da Troika vieram formatar Portugal para que o país continue na União Económica e Monetária sob liderança alemã. Ponto final parágrafo. O FMI veio para pôr Portugal mais competitivo e resolver o problema da balança de pagamentos. Quando começou a haver muito desemprego, teve uma resposta que não acho correcta; foi dizer: “Temos que baixar os salários até que haja emprego”.

 

Discorda, então.

Discordo. A questão é que as diferentes agendas coincidiram no manual de instruções.

 

E foram três choques em simultâneo.

Nós chamámos uma junta médica. Não!, chamámos um hospital e o hospital mandou uma junta médica. Devíamos ter percebido melhor o jogo entre as forças – dentro da Troika. Estamos cegos para isso porque a nossa ideia é a de que os europeus é que são bons. Não percebemos que algumas das coisas absurdas resultaram de imposições europeias.

 

Talvez não estejamos tão incapazes de perceber isso. A diabolização da Alemanha e de Merkel nos anos mais recentes – sempre apontados como os maus da fita – é sintomática. Cresceu um sentimento anti-alemão.

É verdade.

 

Faltam dias para acabar o período Troika. Que balanço faz destes três anos?

Estou contente porque o país voltou a ter carta de condução para andar na estrada europeia e mundial. Resta-nos agora o trabalho de pôr o carro na oficina e pô-lo a andar melhor. Era bom que fizéssemos isso sem precisar de uma Troika.

 

Sem precisar de novo de uma Troika?

Sim, de novo.

 

Está a dizer que isto pode não ficar por aqui.

Não. O que estou a dizer é que temos de tratar muito bem da relação entre consolidação orçamental, crescimento e política do sistema financeiro. Nos livros que escrevi tento explicar o que é que podemos fazer – no mundo – que nos permita crescer.

 

Porque é que praticamente não falámos de política e da importância das ideias? Estou a perguntar pelo papel da política. Ainda central?, ou ela foi de tal maneira engolida pelos problemas do sector financeiro que parece que saiu do mapa?

Os grandes políticos não se distinguem por ser grandes governantes. Os grandes políticos são aqueles que são capazes de formular uma ideia que mobiliza. As pessoas não se mobilizam para fazer o TGV. O Soares foi um grande político e não se interessava por nada disto [aponta para um desenho onde escreveu TGV].

 

Soares não se preocuparia com o TGV?

Soares falava da Europa, de prosperidade, de justiça social.

 

Trazia com ele um ideário.

Sim. Que no fundo é um conjunto de sonhos e pesadelos. Sonhos que quero realizar, pesadelos que afasto. Nesse sentido, não temos políticos que desbloqueiem este nó. Não temos políticos. Temos gestores. Para construir um novo compromisso para os próximos 30 anos, precisamos de políticos.

 

E precisamos que eles tenham a inteligência de contratar bons gestores.

Sim.

 

Ouço-o falar de 30 anos...

20 anos. Compromisso para o futuro. Se é verdade o que estou a dizer, que estamos num momento semelhante ao de 73, que é o momento do impasse, temos que romper e ter um novo discurso. Um novo ponto de encontro para as gerações mais novas, que têm que ter uma parte do seu imaginário concretizável neste país. Não é com um conjunto de gestores que isso se faz.

 

Quarenta anos depois da revolução, esperava ver o país, as pessoas exangues?

O país não está só exangue. O 25 de Abril trouxe um péssimo Estado e uma sociedade muito melhor.

 

Está a referir-se à máquina administrativa de um Estado péssimo? Sondagens recentes revelam que uma grossa parte da população considera o Estado Social o melhor do que a revolução trouxe.

Os dirigentes do Estado estão sem estratégia. Felizmente que tiveram um manual de instruções. Senão, não faziam a menor ideia do que tinham que fazer.

 

Está a falar de quem?

Sabe tão bem como eu. [riso] Temos de encontrar alguma coisa semelhante à estratégia protagonizada por Soares no passado (Europa, Estado Social). Uma estratégia. Não há-de ser a minha geração...

 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2014 

 

 

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