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José Manuel Fonseca de Moura

É um engenheiro que usa recorrentemente a palavra “talvez”. (Talvez seja mais exacto dizer que é um investigador nas áreas da engenharia.) Por insegurança?, por modéstia?, porque a realidade não é unívoca? Porque é que um engenheiro é menos peremptório do que esperaríamos?

José Manuel Fonseca de Moura foi o primeiro português a doutorar-se no MIT, entre 1970 e 1975. Na Carnegie Mellon University, onde ensina, é o Professor Moura. Mantém um accent português quando fala inglês.

Teve uma vida africana, teve uma vida portuguesa, tem uma vida americana. Breve cronologia: nasceu em 1946 em Moçambique. Mudou-se para Lisboa em 1963 para estudar no Instituto Superior Técnico, onde foi catedrático aos 33 anos. Estudou Engenharia Electrotécnica no MIT entre 1970 e 1975; especializou-se em radares, em instrumentos que guiam os aviões para aterrar, por exemplo; e em sonares, que permitem aos submarinos andar sem chocar com o fundo do mar. Era outro quando regressou a Portugal, em pleno Verão Quente, e participou na refundação do Técnico. Mudou de vida. Casou com Manuela Veloso, também professora em Carnegie Mellon, especialista na área da inteligência artificial. Foram para os Estados Unidos em 1984, com poucas malas e a esperança de voltar. Não voltaram.

Volta cada vez mais amiúde por causa do programa Carnegie Mellon - Portugal, lançado em 2006, e em fase de renegociação com a FCT e o Ministério da Educação. “É um programa de mestrados profissionais e de doutoramento. Em cinco anos, mais de 200 graduados dos mestrados profissionais de grau dual integraram-se em empresas portuguesas de alta tecnologia, há cerca de 80 doutorandos prosseguindo investigação de alto nível na Carnegie Mellon e em universidades portuguesas, e 25 projectos de investigação conjuntos com empresas. Há cerca de oito startups, algumas com financiamento obtido nos circuitos de capital de risco dos Estados Unidos. Para além do financiamento público, cerca de 20% foi financiamento de empresas, com a Portugal Telecom, a Siemens Networks e a Novabase como investidores institucionais, e mais de 80 empresas envolvidas nas actividades conjuntas de investigação.”

Fonseca de Moura é fellow da American Association for the Advancement of Science (AAAS) e sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.

 

 

Quem o vê chegar, pensa que é americano. Tem noção disso?

Talvez. Já são muitos anos.

 

Em que é que se sente português?

Mal aterro em Lisboa, sinto-me logo português. Faço vida de bairro. Saio de manhã para tomar pequeno-almoço no café do Sr. Alfredo. Nos EUA – talvez na Europa latina seja diferente – a vida é muito compartimentada.

 

Não tem um Sr. Alfredo no seu bairro em Pittsburgh?

De forma nenhuma. Temos pouca relação com os vizinhos. Conhecemo-nos vagamente, cumprimentamo-nos se nos vemos na rua, e é tudo. Conheço os meus colegas na universidade – mas não há relação pessoal. Tenho os meus alunos – outra relação de trabalho. Vivemos intensamente com os nossos filhos enquanto estão em casa; aos 18 anos saem, e dizemos que temos um empty nest, um ninho vazio.

 

Qual foi a primeira impressão dos EUA?

Primeira semana de Setembro de 1970. Aterrei em Boston, meti-me num táxi (amarelo, como nos filmes, embora hoje, em Boston, seja raro encontrar táxis amarelos). A impressão que mais perdura é o choque cultural. Em Portugal vivíamos em ditadura. Havia uma guerra colonial. Na universidade havia grande efervescência política. Nos EUA, toda a gente tecia comentários. Perguntavam-me como é que era a guerra em Angola e Moçambique.

 

Tinham a experiência da guerra do Vietname.

Eles falavam da guerra do Vietname. Em Portugal as pessoas eram extremamente cuidadosas, resguardavam a sua opinião.

 

Já me explica como é que se deu a possibilidade de ir para o MIT. Antes disso: porque é que foi engenheiro? É um engenheiro?, mais do que tudo?

Há um ditado que diz assim: se não sabes fazer, ensina. De modo que sou um daqueles engenheiros que não sabem fazer e que ensinam. [riso] Desde que me lembro de mim, queria ser engenheiro, queria ser engenheiro electrotécnico. Não sei porquê. Posso especular. Acho que o meu pai, que não tinha um curso superior (nem a minha mãe), queria ser engenheiro. Vivíamos em África. O meu pai veio à Europa (havia de quatro em quatro anos férias de seis meses). Levou-me dois livros, um de electricidade e um de física. Ambos livros de estudo, franceses. A que propósito?

 

Ele lia?

Era um self made man intelectual. Tinha uma cultura mais vasta do que a minha.

 

Está a fazer género. É uma forma de sublinhar o quanto o seu pai fez por ele próprio.

Goethe, Dante, autores franceses dos anos 60. Conhecia tudo. Fiquei com os livros dele. Aqueles nomes são nomes que o recordam. O André Malraux, por exemplo: não faço ideia do que é que escreveu. Sou um ignorante. O meu pai falava dele como um intelectual. Foi depois ministro do De Gaulle, não foi?

 

Foi. Entre 1958 e 1969. O seu pai fazia o quê?

Foi bem sucedido na vida. Partiu para África aos 18 anos num vapor, em 1929 ou 1930. Abriu uma repartição de Finanças na Beira, em 1942. Montou (com pessoas saídas da Companhia de Moçambique) um negócio de venda de algodão. Exportavam para a metrópole.

 

O que é que fez o seu pai transcender a sua condição social? Que conjugação de elementos fez dele um vencedor?

Moçambique. O espírito de África. Tenho um grande fascínio por aquela época de Moçambique. A gente tem de ir às nossas raízes, não é? As minhas são Moçambique, e adoptei as transmontanas do meu pai. Fui com os meus filhos a Lamego, a um colégio de jesuítas que frequentou. Encontrei o caderno de registos. Vi o nome do meu pai, as notas que teve. Tirei fotocópias. O meu pai ainda era vivo.

 

O que é que representava ir à procura das raízes?

Compreender, homenagear. Dar aos meus filhos a certeza de que a vida não é só para o futuro, também é a continuação de um passado. É um fascínio saber como é que as coisas começam.

 

Em Moçambique, a questão racial tinha importância? Dava-se com brancos, famílias burguesas? Sentia-se o segregacionismo?

Conheço muito pouco de África. Conheço a Beira, onde nasci, o corredor da Beira até à Rodésia, agora Zimbabwe. Conheço Lourenço Marques, agora Maputo. Em Moçambique havia segregação por razões económicas. Na Rodésia era completamente diferente. Nos hotéis onde passávamos férias não sei se não estaria escrito: “White only”. E sabíamos que culturalmente era assim. O nosso colonialismo, se alguma redenção tem, é essa. Mas isto pode ser uma grande mentira, um mito.

Deixe-me voltar à questão de há pouco – porque é que fui para o MIT. Lançavam-se foguetes, não sei se ainda se faz. Quando fazíamos a última cadeira, íamos para a frente do pavilhão central e o porteiro vendia-nos tantos foguetes quantos os anos que fazíamos. Como fiz seis anos, foram seis foguetes. Lançávamos (nós, os alunos) os foguetes. Era um grande barulho, e depois o silêncio. O silêncio de quem não sabe o que vai fazer. Decidi logo ali que a melhor coisa que tinha a fazer era voltar a ser estudante. Fui convidado pelo professor Abreu Faro (a pessoa que mais marcou o IST nos anos 60) para ser assistente. “Aceito, mas estou aqui interinamente porque quero continuar a estudar”. E era nos Estados Unidos.

 

Porquê os EUA?

Não sei. Conhecia bem Paris. Nos anos 60, o fora de Portugal era a França. Volto a dizer que talvez fosse a influência sibilina do pai. Por causa dos livros que tinha. E todos os Verões, nem que fosse de passagem, ia a Paris. No Sud Express, normalmente sozinho.

 

Tinham a conforto financeiro que permitia isso?

Tínhamos. O Prof. Faro aceitou a minha opção. Depois não pude ser assistente por razões políticas. Compreendi a atitude do director, que aliás era meu amigo.

 

Não ter havido nenhum português a fazer o doutoramento no MIT era uma coisa que o inibia ou atraía?

(Talvez o Prof. Cerveira, de quem fui assistente de investigação, e que se tinha doutorado no Colorado, fosse uma sugestão para me doutorar nos EUA...) Não, não me inibia. Nos EUA havia 60, 100 universidades de renome. Mas eu só queria uma. Tive a sorte de ser aceite.

    

Agora está a armar-se em modesto.

Acho que foi sorte. Antes de mim, houve muito bons alunos no Técnico. Talvez nos Estados Unidos olhassem para a Europa e não vissem Portugal. Não faço ideia. Sei que fui escolhido. As propinas eram enormes, tive três bolsas. Uma bolsa da Invotan, da JNICT [Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica] e uma bolsa do Instituto de Alta Cultura.

 

Novo recuo no tempo. Mudou-se para Lisboa em 1963, já tinham acontecido as grandes revoltas estudantis. Que ambiente encontrou? Viveu onde?

O meu irmão, que também era aluno do Técnico, arranjou-me um quarto na casa da Dona Yvone, na Avenida João Crisóstomo. Os nossos pais só se mudaram para Lisboa um ano depois. A Dona Yvone era uma figura única, francesa, casada com um engenheiro. Muito austera, uma espécie de avó. Tinha a casa que nem um brinco, artefactos mecânicos em que não podíamos tocar.

O período era dominado pelas guerras coloniais. Eu estudava muito. Era um tecnocrata. Meti-me na associação de estudantes, preocupava-me com os aspectos da educação, mas também era parte daquele movimento. O governo fechava as escolas. A discussão dominante de um grupo, relativamente circunscrita, passava a ser do colectivo.

 

Alguma vez foi preso?

Só fui preso por uma noite. No dia 5 de Outubro de 1969, Mário Soares resolveu pôr uma coroa de flores na estátua do António José de Almeida, ao lado do Técnico. Claro que nos juntámos uns, ali à volta. Veio, não a PIDE, mas a Legião Portuguesa, não-fardados. Desatámos a fugir. Uns foram apanhados e outros não. Fui passar a noite aos calabouços do Governo Civil. Nem se pode dizer que é prisão.

 

Durante esses anos, mesmo que o seu quadro fosse atípico (porque era bom aluno, porque os seus pais tinham posses, porque tinha a vida almofadada) o medo era um sentimento vincado? Medo em relação ao futuro.

Até tarde, não me lembro de ter medo. É estranho. Mas não me lembro. Quando vim dos EUA, já depois do 25 de Abril, fiz uma tropa de 15 dias. Mas se quiser falar de angústia, ah, sim, sempre fui um angustiado. Sempre me perguntei: “Que é que será de mim dentro de cinco anos? Será que vou ser bem sucedido?” Uma angústia metafísica. Medo físico, não.

 

Procurava o confronto? Físico e não só.

Hoje sou uma pessoa que detesta meter-se em conflitos. Sou um apaziguador. O que é péssimo. Não sei se esta busca de consensos não é um medo da colisão. Mas nessa altura zangava-me imenso.

 

Em Portugal evita-se o conflito, e tudo é pessoalizado. Nos EUA é comum, por exemplo, ser desfeito por uma plateia, e lidar bem com essa conflitualidade. 

Ponto de vista interessante. Nos EUA há conflito mas as pessoas percebem que não é pessoal. Exprimem as suas opiniões, fortes, viram costas e vão à sua vida. Excepto os políticos. Lemos o jornal e nem percebemos como é que podem voltar a falar uns com os outros. Nós, como vivemos muito a profissão, não temos discussões políticas praticamente com ninguém. Temos as nossas preferências, mas não as manifestamos.

 

Não tem ideia em quem votam os seus colegas de departamento?

Não. Desconfia-se. Não há a vivacidade das discussões que me lembro de ter havido em Portugal – não sei se ainda há. Se calhar, também em Portugal as pessoas não são vivazes como eram.

 

Se calhar, Portugal já não é o mesmo.

Se calhar já não verbalizam com a mesma força. E outra coisa: às vezes, os problemas não têm uma solução única. As respostas só são 80% certas, ou 70% certas. Não há respostas 100% certas. Há uma hipótese de erro, de variação na solução.

 

Chega ao MIT, no estado de Massachusetts...

É em Cambridge. Cambridge é a cidade do lado de lá de Boston, capital do estado de Massachusetts. Há um rio entre elas. O MIT e Harvard são em Cambridge. Os americanos tentam copiar os ingleses [riso].

 

Era palpável a cultura de excelência? Estava entre uma elite.

Tinha uma grande vontade de aprender assuntos técnicos. Fiquei fascinado ao reconhecer certos nomes. Nomes de professores que eram autores de livros pelos quais eu tinha estudado. Mas não tinha a sensação de estar num mundo exclusivo. Outro aspecto interessante na América (era assim no MIT, seria também noutras universidades) era a diversidade das pessoas. Os professores eram de todas as nacionalidades.

 

A sua mulher, Manuela Veloso, contou numa conferência que na primeira semana esperava que o professor tornasse flexível a data de entrega de um essay. Foi com surpresa que percebeu que ela não existia. Teve histórias assim?

Não me recordo. Eu era muito certinho. Diziam-me que era para fazer naquele dia, e fazia.

 

Quando é que desalinhou?

Nunca desalinhei. Sabe o que é?, gosto muito do que faço.

 

Uma provocação: ter-se apaixonado por uma aluna foi o seu momento de desalinho?

Foi um grande desalinho. Digo-lhe mais: se tivesse sido nos EUA, tinha sido uma coisa diferente. Mas às vezes não controlamos as coisas. Foi o que foi. Ambos nos demos muito bem. Estou a falar por ela... Eu dei-me muito bem. Acreditava que a felicidade era o principal. Quando se está apaixonado nem se mede bem o que se faz. Aquilo é o que tem de acontecer naquele preciso momento. Tudo passa a ser relativo. Tudo passou a ser relativo.

 

Essa paixão, que resultou no seu segundo casamento, aconteceu depois de 1975, quando regressou doutorado a Portugal. Porque é que decidiu regressar?

Primeiro porque, como lhe disse, tinha sido apoiado pelo governo português [Instituto de Alta Cultura]. Havia uma obrigação moral de voltar. A segunda é que tínhamos saído de uma ditadura. O país parecia que se podia fazer todo de novo. E cada um de nós ia ter a capacidade de mudar, de fazer, de ser (como hoje se diz) agente de mudança. A resposta estaria incompleta se não falasse da família, dos amigos, dos colaboradores.

 

Participou na refundação do Técnico. Pode falar mais disso?

Tentei formar uma equipa nas áreas em que trabalhava. O Técnico vivia momentos de sobressalto. Os estudantes continuavam a fazer greve, por isto ou por aquilo. Eu tinha a mania que havia de trazer muitas coisas dos métodos americanos. (Era outra pessoa depois do MIT.)

 

Por exemplo?

Os tais trabalhos semanais. Que houvesse só 15 semanas de aulas. Que os exames fossem só de uma semana. Que houvesse pequenos exames ao longo do semestre. Métodos que me pareciam razoáveis mas que embateram com os alunos. Fui-me adaptando. Voltou a haver reuniões, plenários. Candidatei-me, com três colegas, e vi-me na comissão directiva. O que leva dez anos, tentámos fazer em seis meses.

Depois veio o ministro Sottomayor Cardia dizer: “As universidades não podem ser geridas desta maneira”. Nos últimos dois meses destes seis, em vez de estarmos a tratar dos problemas da escola, que era o que nos interessava, fazíamos contestação ao Sottomayor Cardia.

 

Ficou/ficaram reféns da máquina?

Nunca me tinha lembrado dessa expressão, mas é isso. Vistos de fora, talvez pensassem que éramos uns políticos. Mas éramos puros tecnocratas. Se calhar com falta de tacto político. Se calhar a instituição não estava preparada. Se calhar leva tempo. Mas a meio do percurso estávamos com um processo que não tinha nada a ver com o que queríamos fazer.

 

Passaram 35 anos sobre essa história. Consegue olhar atentamente a “máquina Portugal” e perceber as pedras que impedem o normal funcionamento?

Se nos referirmos ao momento actual, estamos a viver uma crise que tem contornos singulares. Desta vez, a solução quase que não está nas nossas mãos, nas mãos do povo português. Porque estamos inseridos nesta máquina, FMI, Europa, diabo a quatro. Anteriormente, apesar das divergências, tínhamos de aprender a lidar uns com os outros; agora, quem quer que seja está a ser determinado pelo “lá fora”. 

 

Em Portugal diz-se que é preciso fazer reformas estruturais. Mas depois ficamos aquém da implementação dessas reformas. Porque é que não conseguimos revolver a terra, fixar novos alicerces, refazer o edifício de raiz? Estamos atados, tomamos um paliativo.

Temos de ter uma perspectiva histórica. Hoje passeava pelo Largo do Carmo. Andei de metro. Em 2012 o país é muito diferente do que era quando saí, em 1984. Era um país tacanho. A infra-estrutura do país, que foi reformulada nos anos 90 e 2000, tem 20 anos. Auto-estradas, metros, comboios, pontes: aparentemente foi o que nos trouxe ao estado de endividamento em que estamos. Mas o que é facto é que é uma infra-estrutura impecável.

 

Aponte outras grandes diferenças no país.

As tecnológicas. As telecomunicações. Temos uma penetração de telemóvel de topo.

 

Pode ser só um sinal de provincianismo.

Não sei se é. Em 1979 a tecnologia usada era a dos anos 50. Mecânica. Não permitia nenhuma expansão da rede telefónica. Você não se lembra, porque não pediu um telefone nos anos 70 e 80, mas se pedisse tinha uma lista de espera de meses. Nos domínios em que me conheço – telecomunicações – e nos domínios que posso experimentar quando me transporto de um sítio para o outro – infra-estruturas – Portugal evoluiu tremendamente. Estes domínios são condições sine qua non para o país se desenvolver, e estão cá. Se calhar há que refocar a atenção das pessoas.

 

O que é refocar?

Vou dar-lhe um exemplo. Nas universidades americanas [há a prática de] ir pedir dinheiro aos antigos alunos. Um antigo aluno que enriqueceu gosta de dar dinheiro para pôr o nome no edifício. Detesta dar dinheiro a um edifício que tenha o nome de outra pessoa e que precisa de ser mantido. Agora imagine: vou investir na universidade, no sistema educacional, na instrução primária; quem é que vai ver resultados? Só vai vê-los daqui a 20 ou 30 anos. Temos de ver como é que o país vai evoluir não de hoje para amanhã mas daqui a 20 anos. Uma das refocagens que vamos ter de fazer é apostar nas pessoas. E não é uma meia dúzia que vai fazer a diferença.

 

Em 1982/83 o FMI estava em Portugal. A situação era muito diferente para si daquela que hoje têm muitos investigadores? Foi no ano seguinte, 84, que se fixou nos EUA.

Não há uma razão, há razões, para ter ido. Uma delas foi essa que apontou. Em 1983 o país atravessou uma crise económica que se reflectiu na universidade, em particular nos centros de investigação. Houve um estrangulamento das actividades. Depois, vindo dos EUA, passei nove anos intensos aqui; mas do que gosto é de fazer investigação, de ter alunos. Não estava a fazer aquilo que, olhando a minha vida 20 anos para a frente, gostaria de fazer.

 

O que é que ambicionava?

Para mim, o sucesso está em doutorar pessoas. Sou obcecado pelos meus alunos. Em Portugal, tinha alunos quase doutorados. Sete, nove. Iam ser professores, independentes. Já não precisavam de mim.

Voltei para o MIT com uma licença sabática. A Manuela diz sempre que fomos por um ano. Mas quando me apanhei lá e finalmente comecei a fazer aquilo que gostava de fazer (e que era estar sentado na minha secretária a estudar, a ler, a escrever papers, a falar com outras pessoas sobre coisas técnicas) começou a tornar-se difícil voltar ao que era [em Portugal]. Tinha 38 anos. Era temerário.

 

Qual era o risco?

Eu era professor catedrático do Técnico. Desde os 33, creio. Uma honra enorme para mim.

 

Como é que se chega a catedrático aos 33 anos?

Por sorte. Não tinha já track record nenhum nos EUA. Tinha menos papers publicados do que colegas que se tinham formado comigo. No panorama dos EUA era quase um suicídio dizer: “Agora quero vir para aqui”. Uma vez mais tive sorte.

 

Porque é que insiste nesse elemento? Um engenheiro não conta com a sorte.

Não, não conta.

 

Dizer que foi sorte é uma forma de ser modesto?

Talvez. Talvez eu não acredite completamente no sucesso do que faço. Em 1986 estávamos para voltar. Mas a primeira instituição a que concorri ofereceu-me emprego.

 

Carnegie Mellon já era Carnegie Mellon? Ou seja, uma universidade com o prestígio que hoje tem.

Era uma universidade em grande ascensão. Não era tão conhecida. Entusiasmaram-me as pessoas, a visão, a capacidade (que aparentavam) de fazer coisas.

 

Quais é que foram os seus grandes trunfos profissionalmente? Vamos esquecer a palavra “sorte”. Não estou a pedir-lhe que seja imodesto, mas que olhe para o seu currículo e me diga o que é que nele e nas suas capacidades marcaram a diferença.

Ser muito focado. Estive aqueles seis meses na direcção do Técnico; demiti-me. No dia a seguir disse: “O que quero é ter alunos de doutoramento. É para aí que me vou virar”. Nos EUA, a mesma coisa. Um exemplo: não sabia escrever propostas de investigação. E sem dinheiro, não se pode recrutar estudantes, fazer investigação, nada. Sabia que tinha de aprender a fazer aquilo. Escrevemos e estamos convencidos de que escrevemos a melhor proposta do mundo. Depois vêm as reviews que dizem que o trabalho não presta para nada, que está mal escrito, que não se percebe o que é. Apanhamos baldes de água fria. Mas uma pessoa não pode desistir. Tem de ter os olhos bem fixos na meta, [perguntar]: “Porque é que isto não foi bem sucedido?”. Levei quatro anos de grandes dificuldades nesse aspecto. As minhas propostas eram sempre recusadas. Um dia, acertei no modo de as escrever.

 

Como é que nunca desistiu?

Tem de continuar a acreditar. Tem de ficar muito zangado e desesperado nos dois dias que se seguem, mas depois fazer tábua rasa, e continuar a melhorar, a aprender, ter determinação. Não quer dizer que hoje em dia todas as propostas que escrevo sejam bem sucedidas.

Também é preciso saber optar. Podia ter seguido uma carreira de cargos administrativos. Podia ter ido para chefe de departamento, para director de escola. E houve oportunidades, pessoas que me convidaram. É uma tentação.

 

A tentação de ter poder, de massajar o ego.

Também é bom. E pensar que “naquela posição” mudava isto e aquilo. Ser-se investigador é um caminho difícil porque não se tem um determinado reconhecimento. Tenho de estar satisfeito com a opção que tomei. Não posso olhar para trás e dizer: “Devia ter feito aquilo”. Ou sim, talvez se deva dizer isso. Mas passageiramente, só. Porque optámos e temos de ser felizes com as escolhas que fazemos.

 

Disse numa conferência na Casa da Música, no Porto, que era fundamental “saber traduzir na pergunta certa a busca da solução”. É por falta de focagem que muitas vezes não se sabe fazer a pergunta?

É uma ideia que discuto muito com os meus alunos. No processo de investigação formulamos objectivos. “Vamos ver se conseguimos ir à Lua”. Trabalhamos e vemos que é um objectivo inatingível. Temos de ser capazes de voltar ao princípio e reformular a pergunta de uma maneira diferente, com aquilo que aprendemos. Não significa que tenha sido um trabalho errado. Ajudou-nos a pensar melhor na pergunta. Ao fim de algumas tentativas, com alguma experiência, às tantas conseguimos ver a solução; ainda sem saber como chegar lá; mas conseguimos fazer a pergunta certa. Não é linear. Mas os escolhos já estão à nossa medida. Isto também nos ajuda na vida. “Para onde é que eu quero ir, ao fim e ao cabo?”

 

A pergunta certa, para qualquer um de nós, é: para onde é que quero ir?

É. Que é que quero fazer? E não é amanhã. Embora amanhã também interesse. Dentro de cinco anos. Eu tinha sempre um horizonte de dez anos. Era péssimo. Como nunca estava “lá”, nunca havia a grande satisfação dos passos intermédios. Reconheço isso. “Onde é que me imagino daqui a dez anos? Como investigador? Então não posso ser department director.” 

 

Outra pergunta fulcral: o que é que o gratifica? O que é que o faz prosseguir?

Uma é a parte profissional. Já lhe disse: ter alunos de sucesso. Projecto-me muito através dos meus alunos. O reverso: a família. Vejo-me tremendamente no sucesso da minha mulher e dos meus filhos. E dos meus amigos, é claro.

 

Porque é que não está a falar do seu sucesso? Porque é que não é o protagonista dessa narrativa?

Porque lhe estou a mentir. [riso] A verdade é que adoro ser bem sucedido. Mas sou melhor se ajudar ao sucesso dos outros. Ou se puder reivindicar um bocadinho do sucesso dos outros. Se souber que faço parte, que compartilho. Com os filhos e a Manuela: não faço nada para o sucesso deles. Mas tenho um orgulho imenso em falar desse sucesso.

 

Na maneira como fala disso é mais português do que americano. O americano tem normalmente uma atitude mais exuberante em relação ao seu sucesso. Um português, com o seu percurso, impõe a si próprio alguma modéstia?

Os americanos apontam-me isso. “José, quando começamos a falar das tuas coisas, mudas a conversa”. Quando vejo portugueses em Carnegie Mellon, e vejo uma modéstia, reconheço esse traço da nossa cultura. Mas uma pessoa tem que deixar que os outros se refiram a ela, e que isso seja natural.

 

O país onde vive e trabalha não é o mesmo de há 30 anos. Quais são as mudanças mais significativas?

Quando voltei, foram os anos Reagan. Seu eu olhar para trás, há dois momentos significativos. A luta pelos civil rights e a guerra do Vietname. Passados esses dois cataclismos, tudo o resto são mudanças naturais. Mesmo a vitória do Obama, um afro-american, não foi uma coisa banal, mas é uma mudança quase natural. A guerra do Iraque, o 11 de Setembro, os anos Bush: são mais do que diferenças de opinião, mas não são cataclismos.

 

Em que momentos é que se sente americano?

Quando aterro em Pittsburgh. Durante muitos anos, a Manuela e eu dizíamos que estávamos temporariamente nos EUA. “Pronto, é só mais um ano.” Uma vez aterrei e pensei que tinha chegado a casa. Foi um momento terrível. Mas foi quando me senti americano.  

 

Onde é que quer acabar?

Infelizmente vou ter de acabar nos EUA. Por causa dos meus filhos. Os três vivem nos EUA. É um segredo enorme que lhe estou a dizer e que nunca disse a ninguém.

 

Posso publicar?

Pode. Nunca disse a ninguém porque há sempre a vaga impressão de que vamos voltar. Mas temos de ser realistas. Quando os nossos filhos se estabelecem, e culturalmente começam a ser mais americanos do que portugueses, temos de viver ao lado deles. Não é como cá, a extended family não vive toda no mesmo estado. Mas sempre é mais fácil estar lá.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2011 

 

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