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José Maria Ricciardi

Um banqueiro que chora abraçado a um amigo? Um banqueiro que não completa, mas que diz que devia era tê-los mandado todos à…? Um banqueiro que se apaixona por uma mulher casada e com três filhos e que não tem pejo em dizê-lo? Um banqueiro que não parece um banqueiro, como lhe disseram no futebol.

E um banqueiro que quis desde sempre ser banqueiro, mesmo que não tivesse sido educado para ser um banqueiro. Talvez isso quisesse dizer que queria ser como o pai, que foi banqueiro toda a vida. Ou, mais importante, elemento activo na família, onde são banqueiros há centena e meia de anos.

José Maria Ricciardi. Também Espírito Santo e Roquette. O Roquette não consta no BI mas o Espírito Santo sim. Em casa devem chamar-lhe Zé Maria. O primo Zé Maria. O Tio Zé Maria. Na recepção dizem que vão falar à secretária do Dr. Zé Maria. Os assessores referem-se ao Dr. Zé Maria.

Conta a história do casal de canários que quis ter. E que uma vez foi com a filha ao hospital e pensavam que ele era avozinho dela. É aquele que tem 54 anos e sonha levar os netos a ver os jogos do Sporting. O que tem pena de não poder comungar porque é casado com uma divorciada. O que não fala explicitamente de uma parte da família com quem não vai à bola – só alude. Nem confessa se sonha com a presidência do BES – pelo contrário, tece rasgados elogios ao primo Ricardo. Retrato tirado em hora e meia de conversa gravada.

É presidente do BES Investment.

 

 

Gostava de começar pelos apelidos. Como é que aprendeu a ser um Espírito Santo e como é que aprendeu a ser um Ricciardi?

A minha mãe era Espírito Santo e o meu pai é Ricciardi. A minha mãe já morreu. O meu pai está de óptima saúde, vai fazer para a semana 90 anos. Tenho um grande orgulho nas duas famílias. A família Ricciardi vem de Itália. No princípio do século XX, o meu bisavô emigrou para o Brasil. Não gostou. Voltou de barco para a Europa e o primeiro lugar onde atracou foi Portugal. As vicissitudes, como é que conheceu a minha bisavó e casou, isso não sei. O meu avô ainda falava italiano, os meus pais já não. O meu avô materno, Ricardo, que era um Espírito Santo, não teve filhos, só filhas (quatro); por isso é que o nosso último nome não é Espírito Santo. Ser Espírito Santo era ser uma pessoa muito importante. Antes do 25 de Abril havia uma diferenciação. A algumas pessoas da família, [este sentimento] fez-lhes bastante mal à cabeça.

 

Disse que tinha orgulho nas duas famílias; orgulho em quê?

A família Ricciardi foi sempre uma família de trabalho. Os valores com que me identifico – honestidade, seriedade, uma certa discrição na vida – vinham desse lado. Outra coisa: o meu avô Ricciardi casou-se com a irmã do José Alvalade. Por isso é que somos todos sportinguistas. O meu tio-avô foi fundador do Sporting. Alvalade era título, ele era Roquette. O meu pai ainda é Roquette, eu já não sou. Do lado Espírito Santo, [sinto orgulho] porque é uma família que, ao contrário do que se imagina, começou cá de baixo.

 

Conte-me a história da família como lha contaram a si. Quando eu perguntava como aprendeu a ser um Espírito Santo e um Ricciardi, no fundo, perguntava como é que vai tendo consciência quer do berço de ouro, quer da dinastia, quer do desígnio de ser banqueiro.

O meu bisavô era um filho ilegítimo. Foi educado num colégio de freiras e, como não tinha nome, puseram-lhe o nome Espírito Santo. Sendo o pai uma pessoa de sociedade, pagou-lhe os estudos às escondidas. Estou a falar em 1800 e tal. Foi assim que estudou; e depois começou a trabalhar do nada. Fez uma casa de câmbios que mais tarde se transformou num banco. Portanto, foi uma família que foi construída através do trabalho, do esforço e da dedicação.

 

Essa realidade é longínqua. Quando nasce, já é num berço de ouro.

Quando nasço, o meu avô era um dos principais banqueiros deste país. Entretanto, [na família] tinham-se casado com senhoras de sociedade, o que os ajudou muito.

 

Há nesse relato, na vida do seu bisavô, um lado de aventura. É extraordinário um homem fazer um percurso desses no espaço de uma vida. E toda a afirmação posterior, também.

O meu avô Ricardo foi presidente do banco muito novo e morreu com a minha idade – 54 anos – numa operação. Tinha nascido em 1900. Nasci em Outubro de 1954, ele morreu em Fevereiro de 55. Fui o último neto que conheceu. Mas através do que me contavam, sabia que era uma pessoa importantíssima em Portugal. Falava línguas, o que, naquela época, não era óbvio. Tinha uma presença internacional importante, conhecia muita gente no estrangeiro. Era também antiquário. A palavra está incorrecta: era um coleccionador – ele não fazia negócios com as antiguidades.

 

É daí que vem a Fundação Ricardo Espírito Santo.

A fundação foi feita com o objectivo, não só de pôr em Portugal peças ligadas à história portuguesa – como Companhia das Índias – mas também criar oficinas para restauro e recuperação. A componente das antiguidades deu-lhe também um perfil mais internacional.

 

E aristocrático.

Sim. De todos os banqueiros [portugueses], era aquele que se movimentava melhor internacionalmente. Era um homem acima da média.

 

O que é que fazia dele um homem acima da média?

Muito inteligente, com muito bom ar, um charme muito grande.

 

Tinha também os olhos azuis? O aspecto físico era semelhante ao seu?

Não sou das pessoas da família mais parecidas com ele. Acho que tinha os olhos claros, mas não tenho a certeza. Se não tivesse morrido precocemente, teria tido um problema grave: era muito amigo do Salazar.

 

Voltaremos inevitavelmente à família, mas agora fale-me de si.  

Tive uma infância normal, numa casa com muita gente, muito movimento. A minha mãe adorava ter convidados. Sou o quinto de sete irmãos; tivemos as coisas normais das crianças. As primeiras imagens são de uma vida muito boa, agradável. Talvez não tenha tido consciência da situação privilegiada em que vivia, e que muitos outros não teriam.

 

O agregado familiar era alargado a outros membros da família, além dos pais e irmãos? Como viviam, como se fazia o dia a dia?

Vivíamos no Inverno em Lisboa e no Verão em Cascais. A casa em Cascais, que a minha mãe e o meu pai construíram quando nasci, era ao lado da casa do meu avô. Lembro-me das mudanças que se faziam em Maio ou Junho (é espantoso como as distâncias se encurtaram): era como ir hoje para África! A educação era um pouco contraditória. O meu pai vivia preocupado em que não houvesse excessos, que tivéssemos consciência de que a vida não se fazia daquelas facilidades; a minha mãe, exagerando e abusando de tudo o que podia para nos fazer uma vida [mais fácil].  

 

Lembra-se de algum objecto de que gostasse em particular e que andasse consigo entre as duas casas? Um peluche?, um brinquedo. Uma coisa sua que o fizesse sentir em casa.

Gostava imenso de pássaros, tinha gaiolas com pássaros e ficava preocupadíssimo (quando mudava de casa) se não os podia levar.

 

Pássaros? 

Voltei a eles, passados imensos anos. Eram sobretudo canários. Uma história curiosa: tinha seis, sete, oito anos e começaram a aparecer em Portugal os primeiros canários encarnados. Resultam de um cruzamento com o cardinalito da Venezuela. Ia fazer anos e a minha mãe perguntou-me o que é que queria; disse que gostava de ter um casal desses canários. O preço, de que já não me lembro, era uma brutalidade. “Nem pense nisso!, é uma loucura. Se quiser, peça ao seu pai.” [risos] Estávamos todos à mesa, a minha mãe numa cabeceira, o meu pai noutra. O meu pai, com aquele ar pragmático e objectivo, perguntou: “Para que é que isso serve?”. “Oh pai, é uma coisa de que gosto muito.” “Ai custa isso? Tomara eu ter isso dentro de uma gaiola, quanto mais um casal de canários!”

 

Deram-lhe ou não os canários?

Não. Era um preço absurdo.

 

Quando é que, na sua vida, teve esses canários?

Tive mais tarde. A vida foi evoluindo, desinteressei-me dessas coisas. Queria era sair à noite e ter namoradas – as coisas normais de um adolescente.

 

Gostou especialmente do sabiá, belo e cantador, nos anos em que viveu no Brasil?

Fui para o Brasil com 20 e tal anos. Estava mais virado para o samba! Desfilei na Escola de Samba da Portela e ganhei! Foi o último ano em que a Portela ganhou. [As cores da] Portela são azul e branco e o símbolo é uma águia… É a única coisa com uma águia de que gosto.

 

Para um sportinguista doente, isso é um sacrilégio!

Isto foi em 1977 ou 78, já lá vão 30 anos. Por acaso, há dois ou três anos jantei no Rio de Janeiro com o Secretário dos Transportes, que entrou para a directoria da Portela. “Está na presença de uma das pessoas que desfilaram na última vez que a Escola ganhou.” “Você deve ser pé quente…”, “Pois sou.”

 

Como foi a sua experiência?

A Escola entrou na avenida [do Sambódromo] entre as cinco e as seis da manhã, de domingo para segunda. Via-se os recortes dos diferentes morros. Eram 60, 70, 80 mil pessoas a assistir nas bancadas. A bateria [do samba], composta por umas 700 pessoas, entrou, começou a tocar, tremeu o chão… Com o dia a nascer. É uma coisa que não se consegue descrever.

 

Marisa Monte e Lula Buarque de Hollanda fizeram um documentário dedicado à Escola de Samba da Portela. E ela produziu um disco com o repertório clássico que foi editado pela Verve.

Não sabia, vou procurar.

 

Um e outro são upper classe e fazem uma homenagem a gente talentosíssima, mas humilde. Os músicos da Portela são engraxadores de sapatos, arrumadores de carros, gasolineiros. Mas Lula e Marisa são ali, e por via da música, iguais. Onde quero chegar é se sentiu também o prazer de ser um igual. No desfile, não importava nada o seu dinheiro ou apelidos.

Nada, nada. Era um anónimo. Fui treinar no Portelão, como eles lhe chamam, na zona norte [do Rio, uma zona pobre]. Vive-se ali a alegria do povo.

 

Em algum desses momentos em que estava a desfilar se lembrou de Lovaina onde estudou ou do seu berço de ouro?

Não, não me lembrei de nada disso.

 

Essa sensação que descreve, essa alegria na simplicidade, fez-me pensar novamente nos pássaros. “Para que é que isso serve?” foi uma pergunta que o perseguiu pela vida fora?

Nunca perdi a noção de que a vida não se faz só de números ou objectivos, mas também de sentimentos. Não podemos deixar de vibrar, de chorar, de rir, de gostar, de detestar. Às vezes encaixo mal em certas figuras que tenho de fazer pela minha responsabilidade…

 

Por exemplo.

Vou para o futebol – já disse Filipe Soares Franco várias vezes: não quero ir para a tribuna não porque não consigo ver golos, não me posso manifestar ou chamar nomes ao árbitro. O futebol tem essa característica: igualiza o comportamento das pessoas. Uma vez, num final de uma Taça de Portugal, (que nós ganhámos ao Porto, se não me engano), estava um tipo ao meu lado de tal maneira incomodado que disse: “Oh pá, você nem parece um banqueiro!” “Nesta altura, quero lá saber se sou banqueiro!” Hoje em dia, uma pessoa ser espontânea, que é uma coisa admirável, é mal visto. “Este tipo é um descontrolado “.

 

Essa genuinidade e essa espontaneidade têm um preço.

Têm. Tenho pago.

 

Qual é o preço que tem pago?

Se vive num mundo em que as outras pessoas não gostam, nem olham para este tipo de comportamento como uma coisa positiva, se a pessoa tem uma certa tendência para o ter, não é bem vista. (Estou a simplificar um bocado, mas é isto).

 

No que é que isso dá? Vão dizer-lhe: “Está a portar-se mal”, “Não vá ali”? Recriminam-no? Penalizam-no?

Com certeza. De um banqueiro, espera-se uma pessoa tranquila, serena, controlada. Enfim, esperava-se!, que os tempos também já não são o que foram – senão não estávamos nestas vergonhas.  (Estou a caricaturar um bocado, mas temos este problema em Portugal: as pessoas nunca dizem bem tudo o que pensam, tudo o que sentem…)

 

Foi educado para ser um banqueiro e para se portar como é suposto que um banqueiro se porte. Certo?

Nunca fui educado para ser banqueiro.

 

Quando se olha para o seu currículo não é estranho que tenha estudado Economia em Lovaina… 

Está bem, mas justiça seja feita ao meu pai e à minha mãe: ninguém me pediu para fazer isso. Foi uma vontade que tive desde criança. O meu pai, um dia, era eu muito pequeno, levou-me à sede do banco, na Rua do Comércio. O fascínio das crianças é a caixa-forte. As portas grossíssimas, de aço, com imensas fechaduras, imensos guardas... Havia muito mais notas do que há hoje, porque os outros meios de pagamento (os cartões, os cheques) ainda não se tinham desenvolvido. Não havia os dispensadores, as máquinas que contam as notas; contavam-se à mão. Os tipos contavam a uma velocidade que as notas nem se viam! Fiquei fascinado! Foi a primeira vez que disse: “Quero trabalhar num banco”.

 

O seu pai aplaudiu imenso, não?

O meu pai só queria que fôssemos bons alunos e cumpríssemos as obrigações. “Você tem de ser isto, tem de fazer aquilo” – nunca fez. Deu-nos total liberdade. Como disse, viveu sempre um pouco preocupado com facilidades em excesso e mordomias [que tínhamos], e que teve maus efeitos em pessoas da família.

 

Ele não tinha tido essas facilidades?

O meu avô Ricciardi teve problemas na vida profissional. Durante a Segunda Guerra, a minha avó passou por dificuldades sérias. O meu pai também – coisa que nós nunca passámos.

 

O que são dificuldades sérias? Só para eu perceber a escala.

Faltar dinheiro em casa para se viver minimamente.

 

O seu pai era um homem que falava, contava histórias?

Nunca foi muito aberto, não era de grandes falatórios. Mas falava aquilo que era fundamental: incutia valores. A minha mãe tinha uma personalidade diferente; era corajosa, frontal, espontânea. Esta parte que eu tenho, vem dela. Era também generosa; era até um bocado descontrolada nesse sentido, não tinha limites.

 

Foi a sua mãe que se apaixonou pelo seu pai?

Não sei, é um assunto que nunca abordei.  

 

Ele era de uma classe social diferente?

O meu pai era um Roquette. Não eram de uma classe social diferente, mas não tinham, nem pouco mais ou menos, o dinheiro que a minha mãe tinha. O meu pai foi oficial da marinha, foi piloto aviador. Deixou a carreira militar porque o meu avô, como não tinha filhos, pediu-lhe para ir trabalhar com ele. Esteve no banco até ao 25 de Abril. Trinta e tal anos.

 

Em criança, era expansivo, genuíno como é hoje?

Tive choques grandes com a minha mãe. De tal maneira que fui morar para casa da minha tia, mãe do Ricardo Salgado. Sou quase irmão deles, mais do que primo: vivi lá alguns anos. Ela foi a minha segunda mãe. Entre os sete, 12 anos. Depois voltei. A minha mãe, apesar de gostar de mim, fez sempre algumas diferenças entre mim e os meus irmãos.

 

Que diferenças?

Afectivas.

 

Porquê?

Não sei. Talvez porque tivesse uma personalidade parecida com ela.

 

Trocando em miúdos, e era um miúdo, achava que ela não gostava de si da mesma maneira.

Pois. Achava, como criança, que ela não gostava tanto de mim como gostava de outros meus irmãos. E como sempre fui um lutador, como nunca me agachei, nunca me resignei perante as injustiças ou aquilo que achava que não estava certo, a minha reacção foi ir viver com a minha tia. Mais tarde, o relacionamento com a minha mãe foi extraordinário. Em vez de ficar azedo, dei a volta por cima. Curiosamente, fui o filho em quem ela se apoiou nos seus últimos largos anos.

 

Teve uma preceptora, foi à escola? Como foi a sua educação escolar?

Tínhamos o que se chamava – nome pomposo – uma mademoiselle. Uma senhora francesa que era uma espécie de preceptora. Cuidava de nós. Neste meio social, havia uma distância maior entre pais e filhos.

 

Lembra-se de o seu pai e a sua mãe, por exemplo, lhe fazerem festas, o sentarem no colo? 

Não muito. Havia muitas preceptoras e empregadas [que se ocupavam de tudo]. Isso fazia com que os pais tivessem uma vida menos directa, menos cúmplice do que aquela que temos hoje com os nossos filhos.

 

Se estivesse doente, os seus pais levavam-no ao hospital ou havia uma mademoiselle ou alguém do pessoal que se ocupava disso?

Se fosse uma coisa mais de trazer por casa, íamos com alguma empregada ou mademoiselle – há que assumir isso. Se fosse grave, a minha mãe ia. Fui operado às amígdalas e tive uma complicação, quase [corri] perigo de vida; lembro-me de ir com a minha mãe para o Hospital de Santa Maria sem conseguir respirar.

 

Quando é que veio para o mundo real? Se falhou a escola, que é uma primeira fase de socialização, quando é que deu o salto para o mundo cá fora?

As escolas em que andei não eram muito elitistas. Comecei pela Escola Ave Maria, que era uma escola para onde rapazes e raparigas de um certo meio social iam; mas também havia gente de outros meios sociais, que não pagavam (era-lhes oferecido ou tinham bolsas). Já não era uma coisa completamente monocromática. Depois fui para o liceu Pedro Nunes, com pessoas dos mais diversos meios sociais. Foi aí que comecei a ter uma visão mais realista da sociedade.

 

Quando foi viver para casa dos seus tios, já era claro que o Ricardo Salgado seria o eleito, o sucessor?

De maneira nenhuma. Tinha pessoas da família muito mais velhas, pessoas que morreram precocemente – isto sem tirar qualquer mérito ao Ricardo. O meu primo Manuel Ricardo morreu com 59 anos, o meu primo António morreu com 50 ou 60 anos. O Ricardo era um estudante. Eu tinha sete ou oito anos e ele tem mais 11 do que eu. Estava a entrar na universidade. Portanto, disso não se tinha qualquer ideia.

 

O que quero saber é se nessa casa, onde era mais um irmão do que um primo, havia esse culto – preparar os meninos para serem coisas extraordinárias, possíveis sucessores, de aquilo ser uma dinastia e fazerem parte dela.

Nunca senti isso. Talvez só se começasse a sentir quando entrámos na fase universitária. Começámos a ganhar a consciência de que pertencíamos a uma família que tinha um banco importante, uma companhia de seguros e outras indústrias em África. Uns abraçaram Economia e Gestão, outros, não. Entrávamos pelo nível mais baixo e fazíamos o percurso exactamente igual ao dos outros – prática que foi feita em todas as gerações. A prova disso: ao mais alto nível, estamos três pessoas no banco e a família tem centenas de pessoas.

 

Mas não começam a contar notas, ou começam?

Eu fiz tudo. Trabalhei nos balcões. Às vezes tinha problemas de consciência, insegurança. Perguntava-me se estava em certos lugares devido ao meu mérito ou devido a ser quem era. Tive essa dúvida. Percebi que era por mérito.

 

Ou seja, é uma meritocracia.

Sem qualquer dúvida. Acho que é uma das razões pelas quais a gente ainda cá esta. Se começássemos a entrar na bandalheira, dar lugar a pessoas por serem da família, sem terem qualquer competência – que é o que se vê noutras situações – a história acabaria da pior maneira possível. A todos é dada a oportunidade. Os que têm mais capacidade vão mais longe e os que têm menos não vão.

 

Mas isso sabe agora. Ou tinha a ideia que acabaria sempre por se safar?

Tive aquela idade patética em que, por ser quem era, tinha o rei na barriga – não percebendo que as importâncias das pessoas têm a ver com aquilo que conseguem fazer ou com o mérito. Com a ajuda do meu pai, e no devido tempo, percebi que isso era absolutamente incorrecto. Percebi que somos aquilo que merecemos ser, em função daquilo que somos, e não do nome que temos ou do suposto dinheiro que temos. Comecei a fazer esses raciocínios, no meu entender certos, relativamente cedo; mas houve outras pessoas da minha família que não o fizeram.

 

O que é “cedo”? E qual foi esse período da insegurança?

Os meus 20 e poucos anos. Vou dar-lhe um exemplo: antes do 25 de Abril, uma das boites mais em moda era o Stones. Eu ia muito e, como era um Espírito Santo, era muito bem tratado. Se queria mesa, arranjavam mesa, se chegava à porta e estava gente, eu entrava e outros não entravam. A seguir ao 11 de Março de 75, meu pai foi preso, a minha família estava toda em Caxias.

O 11 de Março tinha sido o dia da nacionalização da banca e eu, na minha ingenuidade, achei que ia ao Stones e que estava tudo na mesma.

 

Como é que foi recebido?

Era um período completamente revolucionário; eu era considerada uma pessoa fascista e tinha a família na prisão. A maioria das pessoas não me falava, começou a virar-me as costas. Pessoas que passavam a vida lá em casa, amigos dos meus irmãos mais velhos que fingiam que não me conheciam. Outros, comportaram-se exactamente da mesma maneira. Perguntei se havia uma mesa e não havia mesa nenhuma. Depois entrou um oficial do MFA e tiraram umas pessoas da mesa mais importante para sentaram o oficial, com uma garrafa de champagne.

 

Foi a primeira vez que foi tratado dessa maneira?

Foi aí que tive o maior ensinamento da minha vida: nós valemos é por aquilo que somos, pelas pessoas que gostam verdadeiramente de nós e se dão genuinamente connosco e não por aquilo que representamos. O nome que temos pode ser uma coisa circunstancial.

 

Nunca mais voltou ao Stones?

Depois de me formar em Lovaina, fui trabalhar para o Brasil.

Só voltei a Portugal nos anos 90. Estava a trabalhar no grupo, estávamos a recomprar a Tranquilidade, ainda nem tínhamos começado a recomprar o Banco Espírito Santo. Voltei ao Stones, fui outra vez extraordinariamente bem tratado, levaram-me quase ao colo. Toda a gente já me conhecia, já me abraçava, sentaram-me na mesa – juro – onde tinha estado esse oficial do MFA, um dos principais do 25 de Abril, ofereceram-me uma garrafa de champagne. E eu, em vez de os mandar todos…, até me ri. Percebi. Aliás, já tinha percebido há muito tempo. Se amanhã tivéssemos um problema grave ou ficássemos outra vez sem o banco, tudo se ia repetir.

 

Do que estamos a falar é do peso do dinheiro.

Estamos a falar de como muitas pessoas se comportam nas sociedades.

 

A pergunta é: o que tem realmente valor? E as palavras-chave, aqui, são dinheiro, estatuto, nome, mérito.

Há 60 anos, um grande médico ou um grande professor, não era um tipo com dinheiro – Salazar nunca pagou muito bem. Mas se tivesse grande mérito, era promovido socialmente, as pessoas convidavam-no para casa, ouviam-no, respeitavam-no. O meu pai acha que isto está um bocado ao contrário. Qualquer tipo que dê uma golpada, desde que seja bem sucedido, é levado em ombros. Um médico, se não ganhar muito dinheiro, ninguém lhe liga nada. É uma sociedade que tem um nível de hipocrisia tremendo.

 

Não me diga que nunca foi hipócrita… Nelson Rodrigues escreveu que todo o homem tem, pelo menos uma vez na vida, um acto de grande canalhice.

Com certeza que devo ter feito algumas, disse algumas mentiras, tenho muitos defeitos e cometi muitos erros. Mas não me deixei deslumbrar. Tenho a consciência de que o poder é transitório e fugaz. Na situação em que eu ou outros estamos, muita da relação que se cria não é genuína. Não é uma coisa que hoje me impressione muito – ao princípio, sim.

 

Conte-me agora como é que foi Lovaina, onde se formou, numa altura em que a sua família estava numa situação periclitante.

Quando acabei o segundo ano do curso na [Universidade] Católica, estávamos em 1975. As contas ficaram todas congeladas. O meu pai, pelo facto de ter trabalhado muitos anos nos petróleos de Angola, cujo maior accionista era a Petrofina, (na época, a maior empresa da Bélgica), foi ajudado. Eles é que emprestaram ao meu pai dinheiro para viver. E pôs-se a hipótese de eu ir para Lovaina. O meu pai deve ter falado com os belgas e arranjaram o dinheiro suficiente para eu poder ir. Fui viver de uma forma diferente daquela a que estava habituado.

 

Que vida passou a ser a sua?

Deixei de ter empregadas, passei a ter de lavar a roupa, a loiça, limpar o apartamento…, coisas normais da vida.

 

Nunca tinha feito isso?

Nunca. Tinha tido sempre gente a fazer tudo desde o dia em que nasci. Fez-me muito bem. Leuven era uma cidade escura, antiga, bonita, em que se vê o sol de três em três meses, chovia 270 dias por ano. Aterrei num apartamento que era metade desta sala [onde nos encontramos], com uma kitchenette, não conhecia ninguém.

 

Alguma vez chorou nesse período?

Acho que sim. Uma vez até chorei abraçado a um amigo que foi comigo, o Bernardo Horta e Costa. A gente conseguiu entreajudar-se. É claro que depois fomo-nos adaptando àquilo.

 

Quando acabou a licenciatura, foi para o Brasil. Aí, o quadro era outro.

Nos primeiros tempos no Brasil, a família Espírito Santo era conhecida, mas não era a mesma coisa que em Portugal. Estávamos a recomeçar. Sou da geração que teve o privilégio de passar por uma fase em que não tínhamos o mesmo estatuto que tivemos antes e que já temos outra vez. Isso deu-nos mais realismo, os pés assentes no chão, consciência de que isto é efémero. E que o valor se constrói por aquilo que a gente faz e não pelo que tem.

 

Ocorreu-lhe ir trabalhar para outra empresa? Ou sempre foi claro que era preciso continuar nesta família e repor o estatuto de que gozavam?

Quando comecei a trabalhar, ou mesmo quando estava a estudar, a família estava a tentar recuperar tudo o que tinha perdido. Eu estava já apontado para ali…

 

Sentia aquela como uma luta também sua, e não apenas uma luta da família, para a qual tinha sido arregimentado?

Exacto, e participei nela. Já tive um papel activo, por exemplo, na reprivatização do Banco Espírito Santo em 1992. Quem liderou essa operação em termos operacionais foi o Ricardo. Formei-me em 77/78, vivi no Brasil até 81/82. O Zé Roquette, nessa altura, estava connosco. Foi fundamental nessa fase da reconstrução. Era meu primo pelo lado Ricciardi; apesar de ser um bocado mais velho do que eu, está na minha geração.

 

Vai para o Brasil, está a família a recomeçar. Todavia, não é uma situação tão constrangedora como aquela que viveu em Lovaina, onde tudo era ainda incerto. 

Quando fui viver para o Brasil, fui para casa de um irmão, que já lá estava. A casa era agradável, não era nada má. Era um apartamento na Lagoa [Rodrigo de Freitas], um dos sítios mais bonitos no Rio de Janeiro. Andava de autocarro – nada de extraordinário. Mas não tinha três chauffeurs e 20 empregados como em Portugal.

 

O fantasma da pobreza alguma vez o atormentou realmente?

Não. Percebi que podíamos passar para níveis materiais diferentes daqueles que tínhamos, mas isso nunca me assustou.

 

Quando é que deixou de lhe fazer medo?

Se tivesse de ser, tinha de ser. Nunca tive o medo de viver com um nível material [diferente].

 

Falou de períodos em que se sentia inseguro em relação ao seu verdadeiramente o seu valor, ao que conquistava por si próprio.

Tive um bocado essa obsessão.

 

Em que período?

Talvez quando voltámos e comecei a fazer a minha carreira cá. Mas a minha vida foi a pulso, degrau a degrau.

 

Casar tarde teve alguma coisa que ver com essa insegurança? Que é uma forma de dizer: elas gostam de mim ou gostam do meu dinheiro.

Não. Ter casado tarde tem duas explicações simples. Uma é ter tido um namoro comprido – daqueles tão compridos que acabam por não dar em casamento.

 

Era uma pessoa do seu meio social, presumo.

Era. Outra coisa: sou católico praticante, sempre imaginei que ia casar na igreja, com uma mulher solteira, e apaixonei-me por uma mulher casada que já tinha filhos! Foi um drama para mim. A minha mãe ficou chateadíssima. Muita gente da família achou que eu não estava bom da cabeça. Socialmente foi duro. As pessoas achavam que me estava a querer divertir e a destruir um casamento… Tinha uma grande paixão por ela; tanto tinha que casei. Os meus enteados sempre foram extraordinários comigo, nunca disseram: “O tio não é o meu pai”. Gosto deles como se fossem meus filhos. São os irmãos da minha filha. Não estou arrependido, mas demorou tempo e obrigou-me a casar tarde.

 

A questão base é se, também nesse campo, o nome, o dinheiro, o status lhe pesaram. Até porque casamentos interclassistas, só nas novelas brasileiras.

A minha mulher, graças a Deus, não tem essas características. Claro que foi logo acusada disso. Quis casar comigo com separação de bens, era professora universitária, tinha feito o doutoramento, ela é que foi à luta na família dela. Nunca tive nenhuma dúvida a esse respeito. Sinto-me suficientemente inteligente para perceber se uma pessoa anda comigo porque gosta de mim e não porque está a fim do status, do dinheiro, o que for. Se amanhã varrer as ruas – com todo o respeito por quem o faz – essa pessoa olha para mim da mesma maneira.

 

O seu comportamento, a todos os níveis heterodoxo, para um banqueiro, custou-lhe a presidência do grupo? Poderia ter sido sua, e não do seu primo, se tivesse sido ortodoxo?

Acho que não. A presidência do meu primo é absolutamente merecida. Ele é que liderou toda a reconstrução, não fui eu. Está onde está por mérito: ninguém lhe deu o lugar. E essa visão da minha família, que ficou revoltada e persegue: não temos essas características (pelo menos hoje).

 

No filme de Capra “Não o levarás contigo”, James Stewart é filho de um milionário e apaixona-se pela secretária do pai. Um dia vai a casa dela e percebe que lá todos fazem o que querem – o que, para ele, constitui a máxima riqueza. O filme termina com ele a recusar a presidência do grupo e a dizer ao pai que vai fazer o que sempre sonhou: casar com a mulher que ama e – veja-se o humor do Capra – descobrir porque é que a relva é verde!

Queria ter outra liberdade…

 

Consta que gostava, não de saber porque é que a relva é verde, mas de ser presidente daquele rectângulo relvado do Sporting…

Gostava, não escondo isso. Tenho uma grande paixão pelo Sporting Clube de Portugal. Mas não é compatível exercer as funções que exerço no grupo e ser presidente do Sporting.

 

Porquê?

Ser presidente de um grande clube é um full time job. Tinha que sair dos lugares que ocupo no grupo. E tenho a noção – se calhar é pretensão minha – que já começo a fazer alguma falta. Insubstituíveis, como costumamos dizer, estão os cemitérios cheios deles… Mas sinto que faria mossa. E faria mossa noutro aspecto: tenho o nome Espírito Santo, amanhã ia pegar-me com o presidente do Benfica ou do Porto e sabe como são as pessoas do ponto de vista futebolístico: primárias.

 

Que consequências teria?

Poderia afectar o banco.

 

Está a dizer que os portistas e benfiquistas poderiam boicotar o BES…

Teria consequências negativas. São as razões principais porque não estou em condições de fazer essa opção. E era preciso ver se teria capacidades para ser presidente de um clube.

 

Leva a sua filha ao Sporting?

Levo! A minha mulher acha que exagero, que lhe faço lavagens ao cérebro. Uma história verdadeira: a minha filha tinha três ou quatro anos e pronunciou a palavra Benfica. Fiquei petrificado! Mas que é isto? “Deve ter sido o marido da empregada que é do Benfica…” Fiquei a ruminar no que devia fazer. A minha filha vivia vidrada na Branca de Neve e nos Sete Anões. “Ó Teresinha, você está a ver a Bruxa Má? É o Benfica!”. A minha filha, minha única filha, não vai ser do Benfica! Digo isto com grande respeito pelo Benfica. O Sporting não seria o mesmo sem o Benfica e vice-versa, não é?

 

Quem é o seu rival? Como diz, o Sporting precisa do Benfica e vice-versa. É preciso alguém com quem competir.

O meu rival como? Não vejo a minha vida profissional em termos de rivalidade. Estou onde estou porque é o que os accionistas entendem. Tenho as responsabilidades que tenho pela mesma razão. No dia em que individualmente sentir que o trabalho que tenho de fazer não é aquele que acho que devia fazer, isso é uma ilação minha. Nesta organização, apesar de termos os nossos problemas e discussões, que soubemos dirimir internamente, se não tivéssemos mantido a coesão, não existiríamos. Veja-se o exemplo de alguns dos nossos concorrentes, e o efeito que [a falta de coesão] teve.

 

Só no futebol é que é preciso ter um antagonista contra o qual lutar?

 Os rivais, aqui, são os nossos concorrentes. Alguns deles com enormíssimo mérito. Aprendi na vida que quanto mais concorrência, melhor.

 

Para terminar, descreva-me uma brincadeira com a sua filha. Tem alguma relação com uma brincadeira do seu passado?

Gosto imenso de ler com ela os livros dos Cinco. Fico tristíssimo por ela não ter a mesma paciência para ler os livros da Enid Blyton. Gostava imenso de os ler na minha infância.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2009

 

 

 

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