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José Tolentino Mendonça (2014)

José Tolentino Mendonça é padre e poeta. O seu livro mais recente, “A Mística do Instante”, é um ensaio que nos recentra em verbos primordiais, como escutar. Que nos coloca perguntas fundantes, como: “Existir, a que será que se destina?”. Se fosse preciso erguer uma bandeira, a de um manifesto político, poderia ser: “A vida não pode ser só isto”. Se fosse uma bandeira poética, o manifesto seria o mesmo. O espantoso em Tolentino: a sua capacidade de ligar mundo distantes, aparentemente impossíveis de serem ligados. De captar os caminhos internos do mundo e da palavra.

A entrevista foi a Universidade Católica, onde é vice-reitor. Citou Guimarães Rosa para dizer que “viver é perigoso”. Eu trago a Gal e o Caetano para completar: “Atenção, tudo é perigoso, tudo é divino maravilhoso”.

 

Usa muito no livro “A Mística do Instante” o verbo escutar. É diferente de ouvir. Escutar supõe uma atenção mais funda. Ouvir tem uma conotação mais apressada. Concorda com isto?

Sendo em parte a mesma experiência, são experiências diferentes. Penso que a velocidade, aí, pode de facto ser expressiva. O ouvir é um acompanhar apressado do outro, do que ele diz, do que ele revela naquele momento. O escutar é uma sintonização mais profunda. O exercício da atenção como hospitalidade daquilo que o outro é, é um estar mais lento. É uma “ralentização” da nossa passagem pela vida dos outros. Permite-nos colher informação que normalmente uma audição mais apressada não capta.

 

Usou outra palavra fundamental: velocidade. Isto atira-nos para esta “sociedade do cansaço”, onde tudo parece veloz, triturador. E onde escasseia o tempo para escutar o outro devagar, na sua essência. Como é que enfrentamos este desafio?

As nossas sociedades são extenuantes nos ritmos que pedem. É sempre para lá das margens. Perdemos o sentido dos limites. Não é só em termos do espaço, com a disseminação dos open spaces. Também com os telemóveis, e as comunicações, estamos sempre ligados.

 

Falsamente ligados?

O que me parece é que tudo isso tem um custo humano. Precisamos de descontinuidades. A vida humana não pode ser uma continuidade em que estamos sempre ligados, sempre metidos no trabalho, sempre disponíveis para uma actividade produtiva. Precisamos de alternância. Precisamos de modos de viver alternativos que possibilitem a ruminação da vida, a combustão da vida na sua variedade.

Deixámos de ter tempo para nós próprios, para a gratuitidade dos gestos. Deixámos de ter tempo para uma conversa. Em vez de ouvirmos palavras, ou frases, apenas ouvimos sílabas, rumores, que já não são nada. Isso implica uma diminuição da nossa qualidade de vida.

 

De que qualidade de vida estamos a falar?

Podemos até, materialmente, ter mais, mas a nossa capacidade de espanto, a nossa capacidade criativa, de afecto, a viagem interior que fazemos, está muito mais diminuída. É muito mais pobre. Nesse sentido, tornámo-nos analfabetos sensoriais. Se nunca escutamos, deixamos de saber o que é escutar.

 

Oiço-o falar em tempo para estar connosco próprios. Parece, à vez, uma evidência e uma miragem. Qualquer um de nós percebe da importância de ter esse tempo de compreensão de si próprio, e ao mesmo tempo não faz disso uma urgência. Parece sempre um projecto adiado, outro projecto ganha vantagem. Enquanto civilização parece que estamos muito neste beco: não conseguimos pôr mais perto de nós qualquer coisa que sabemos que é essencial.

Falta-nos um ethos social. Como sociedade, deixámos de valorizar a dimensão ética, o que condiciona todas as escolhas individuais. Estas tornaram-se uma espécie de fatalidade. Os nossos estilos de vida, mesmo nós não coincidindo afectivamente com eles, tornaram-se uma inevitabilidade. Um tem de ser assim. A nossa sociedade deixou de reflectir sobre ela própria e de construir um projecto que não seja apenas um projecto produtivo, mas que seja um projecto humano. Deixou de se reflectir socialmente a pessoa humana, a pessoa no seu todo, no conjunto das suas dimensões. O discurso tornou-se raso, tornou-se simplesmente funcional.

 

E reactivo? Um discurso que é uma pura e instantânea reacção ao mundo, ao comentário do outro, mas sem uma dimensão crítica.

Sim. O que nos falta é também um recuo. Dar um passo atrás e olhar para a nossa vida com a distância necessária. Mesmo o comentário que hoje enche o espaço público: é um comentário muito em cima da própria realidade. Não se vê nada, em cima da realidade não se vê nada! Ou o que se vê é muito limitado. Rapidamente o espaço público e o espaço individual se tornam um esgrimir de fantasmas onde há uma desproporção muito grande. Coisas menores ganham um espaço e uma presença que efectivamente não têm quando as colocamos numa escala de prioridades. Uma escala em consonância com aquilo que é o interesse real da sociedade e da pessoa.

 

Voltando à velocidade, por oposição à lentidão. Como é que vamos encontrar esse espaço de interioridade e de lentidão que nos permite de novo escutar quem somos, antes mesmo de escutar o outro?

Cada vez mais cada um de nós tem de levantar a mão, e tem de esbracejar. Temos de ouvir os poetas quando dizem: “Não pode ser só isto”. Um grande manifesto político seria dizer: “Não pode ser só isto”.

 

A vida não pode ser só isto.

A vida não pode ser só isto. Uma sociedade não pode ser só isto. Os nossos dias não podem ser só isto. E ganhar espaço para trazer ao de cima, para verbalizar, para dar estatuto político e público a dimensões que são empurradas para uma clandestinidade nos nossos quotidianos. No fundo, porque é que estamos aqui?, qual é o sentido das nossas vidas? O que é que fizemos, o que é que não fizemos? Dar espaço para uma ponderação tem outra ressonância antropológica.

 

Essas perguntas, que são as fulcrais, as filosóficas, são interrogações adiadas. Muitas vezes, as pessoas não se querem confrontar com o vazio que pode resultar delas.

Mas não temos nada contra o vazio, contra a dificuldade.

 

Mas as pessoas têm medo do vazio.

É importante transferir esta questão para o domínio da sociedade. Chutar estas questões para o domínio pessoal, é aquilo que a sociedade faz, enxotando responsabilidades. A sociedade que não se constitui como projecto humano, é uma sociedade que perde a sua coesão interna. O que é que nos une?, é a contribuição tributária ou a condição humana?

É importante que esta reflexão seja feita, e que em termos sociais, em termos culturais, haja espaço para ela acontecer. É muito preocupante a situação de marginalidade a que a produção cultural hoje é votada. O que se reflecte nos teatros, o que se faz no cinema, o que se escreve nos livros, o que se debate na Filosofia, não é uma margem para uma mão de especialistas ou de fruidores daquele tipo de discurso. É um contributo fundamental para a própria sociedade descobrir o seu caminho, as vias da sua possibilidade.

 

Individualmente e socialmente estas grandes questões são também adiadas se se impõe a urgência do almoço, a inevitabilidade da conta do supermercado.

O Kierkegaard dizia que nas nossas sociedades substituímos o piloto do barco pelo cozinheiro. Ele, em vez de apontar para onde vamos, anuncia a ementa do almoço. Que viagem estamos a fazer, se, em vez de respondermos à questão para onde caminhamos, repetimos a ementa do almoço ou do jantar?

 

Estamos preocupados com a sobrevivência, com as condições dessa sobrevivência.

A preocupação pela sobrevivência é uma das preocupações mais nobres, mais fundamentais da vida humana. A questão é se estamos a pensar na sobrevivência ou se estamos entretidos com a sobrevivência. Sobrevivemos para alguma coisa. A sobrevivência não é a finalidade da própria vida, é um meio para a construção de outra coisa. Vivemos para quê? É esse tipo de abertura que é necessário rasgar.

 

Há uma canção do Caetano Veloso que diz: “Existirmos, a que será que se destina?”.

Essa é a pergunta. E uma pergunta a que não só os indivíduos têm que responder.

 

O que é que quer dizer com isso?

É muito fácil dizer que esse tipo de questões, cada um, no foro íntimo, como quer, resolve. Como sociedade temos a responsabilidade de responder. Hoje, grande parte do desânimo, do pessimismo, do desencanto que nos corrói como uma pandemia… Às vezes estamos muito preocupados com a pandemia do Ébola e esquecemo-nos que a par dessa, gravíssima, há outras pandemias para as quais não estamos a olhar. O desencanto, o desinteresse, a incapacidade de sonhar é uma doença mais grave que muitas outras que nos agitam.

 

As pessoas vão-se fechando nos seus casulos, perdendo o sentido do colectivo. É desta pandemia – de desmobilização – que está a falar?

Achei muito interessante uma frase do Prof. Adriano Moreira sobre o que é uma comunidade nacional. Ele dizia: “Uma comunidade nacional é uma comunidade de afecto”. Ter a possibilidade de um presente colectivo, e de caminhar para um futuro que nos une, em vez de um futuro que nos divida e faça olhar para os outros como uma ameaça, é fundamental. Isso é alguma coisa que temos que construir. Falta uma reflexão sobre Portugal.

 

Uma reflexão sobre a nossa identidade?

Não é Portugal como história, ou o Portugal mítico, ou o Portugal simbólico. Falta-nos uma reflexão sobre Portugal país humano, comunidade humana que somos. Este desencontro que vivemos, em vez de nos congregar, acaba por afastar-nos.

 

Sublinharia essa frase: estamos desencontrados uns dos outros. Quando fala desta sociedade, estamos a falar de algo mais que a sociedade portuguesa, estamos a falar deste modelo de sociedade ocidental.

Sim, este modelo europeu, ocidental, que tentamos reproduzir como bons alunos. Mas não sei se o bom aluno é esse. Não sei se o bom aluno é apenas aquele que reproduz o modelo, ou se o bom aluno é aquele que também investiga por si próprio e traz um contributo novo e transporta uma surpresa ao próprio modelo que recebeu. Penso que o lugar de Portugal terá de passar por trazer ao modelo europeu componentes que esse próprio modelo não tem.

 

Está a pensar em quê, especificamente?

Penso na nossa relação com o Atlântico. Este cruzamento de mundos com a América Latina, com África, com o Extremo Oriente. Esta miscigenação humana e cultural que tem sido tão importante na história nacional, e que muitas vezes não olhamos como um elemento precioso que podemos levar. Pode ser aí o lugar onde está o nosso verdadeiro capital.

 

Quando é que situa o começo da desmobilização? Não há muitas décadas, o que insuflava a Europa era a esperança. Como é que tão rapidamente chegámos a este ponto de alienação em que estamos todos um pouco atónitos mas sem saber como damos o passo seguinte?

Como país tivemos um marco temporal importante, há 40 anos, com a revolução de Abril. Uma reflexão concreta que podemos fazer é: como povo, como é que crescemos nestes 40 anos? Estamos mais perto ou mais longe uns dos outros? Aquilo que a um dado momento nos pareceu ser o ideário, o corpo utópico ao qual nos devíamos aproximar, estamos mais longe ou mais perto dele? Hoje, aquilo que separa as classes, a diferença entre ricos e pobres, a igualdade de oportunidades, a justiça, o acesso aos meios de cultura e da educação, o emprego, o horizonte de felicidade dos nossos concidadãos, é mais amplo ou é mais reduzido? Olhamos o mundo com mais confiança ou com mais incerteza?

O 25 de Abril, à sua maneira, foi uma ruptura social muito importante. Emergimos dali como nação com um determinado projecto, com uma determinada capacidade de estar juntos para construir alguma coisa, esta nossa sociedade democrática. Os 40 anos também é um tempo de avaliação. Dois discursos a propósito dos 40 anos do 25 de Abril marcaram-me muito. Um, o do General Eanes, que sobretudo falava da ideia de inacabamento.

 

Inacabamento?

O 25 de Abril constituiu um investimento simbólico ideal muito forte. Ver um protagonista de Abril, com a responsabilidade e o papel histórico do General Eanes, fazer aquela síntese, realista, com traços muito crus... Ainda nos falta tanto para chegar a Abril.

O outro “discurso” foi no programa que o Ricardo Araújo Pereira tinha na televisão [“Melhor do que Falecer”]. Um monólogo representado pela Maria do Céu Guerra. Foi um dos grandes momentos, não só de televisão, mas de cultura, e de política, e de humanidade dos últimos tempos. Víamos naquele diálogo, conformista, inconformista, um desencanto e um “talvez ainda seja possível”.

 

Nesse sketch, de modo irónico, a personagem da Maria do Céu Guerra dizia: “A liberdade faz muitas dores de cabeça, manifestam-se muito, fazem muito barulho”.

Essa ironia desassossega-nos. A verdade é que a desmobilização acaba por tomar conta de nós. Como sociedade, acabamos por buscar zonas de conforto que só falsamente nos dão conforto.

 

No livro desenvolve a ideia de que o corpo é a nossa língua materna. Gostava que explicasse como é isto.

Cada um de nós nasce com todas as condições para construir uma história, para ser protagonista. É aquele verso do Almada Negreiros: “Sonhei com um país onde todos chegavam a mestres”. Cada um de nós tem essa possibilidade de ser mestre da própria vida, de tocar a sabedoria, de tocar o sentido, de construir alguma coisa de essencial.

 

Ser o autor da sua peça?

Sim. As sociedades baseadas na ideia do consumo transmitem a ideia de que nos falta sempre alguma coisa. Mas se observarmos bem qualquer ser humano, ele tem tudo o que precisa para construir, não apenas uma história mas uma grande, uma inesquecível história. Isso passa em grande medida por aquilo que somos no nosso corpo. E por estas portas de construção vital e simbólica que são os nossos sentidos. Através da escuta, da visão, do paladar, do tacto, do olfacto, podemos construir uma aventura. E podemos a partir delas criar, ou intensificar, a nossa relação connosco, com os outros, com o mundo, com o mistério da vida. Também digo que o corpo é a língua materna de Deus.

 

Quando li essa passagem, no livro, estaquei. Não consigo imaginar Deus como um corpo. Consigo imaginá-lo como uma voz, mas não consigo chegar ao corpo que tem esta voz.

Isso é muito interessante. O nosso corpo não nos prepara apenas para entender o visível. O nosso olhar vê o visível, mas o olfacto vê o invisível (por exemplo). O arquitecto Pallasmaa tem aquele maravilhoso livro, “Os Olhos da Pele”. A nossa pele ajuda-nos a ver coisas que os nossos olhos não vêem. Porque situam-nos neste mundo, são âncoras para este real mais próximo, mais tangível. Ao mesmo tempo, dão-nos o sentido do intangível e do limite.

Eu vivo neste jogo de o mundo ser mais do que aquilo que consigo dizer acerca dele. Os sentidos são um laboratório da relação com o invisível, com o silêncio, com o inaudível. É por isso que digo que o corpo é a língua materna de Deus. Mas ter a consciência do que não vemos e do que não sabemos, é uma consciência profundamente humana. É isso que nos distingue, a consciência do limite, a aceitação dessa fronteira.

 

Lembrei-me do título de um dos volumes da autobiografia do Elias Canetti, Uma Luz em Meu Ouvido (na tradução brasileira).

É um belíssimo título.

 

Tem um capítulo no livro que vai neste sentido. Como se fosse possível cruzar os sentidos e as portas de acesso. Não é uma voz no meu ouvido ou uma luz nos meus olhos, é uma luz no meu ouvido. E isto, recebi-o com espanto.

Os sentidos são instrumentos para a complexidade que nós somos e que a experiência da existência é. Há uma dupla e, às vezes, uma tripla porta. Há uma frase do filme Cenas da Vida Conjugal, do Bergman, que me marca muito. Ele diz: “Aprendemos tantas coisas na vida, temos uma escolaridade cada vez mais dilatada no tempo, mas somos analfabetos emocionais”. No sentido de sermos analfabetos sensoriais. Não desenvolvemos os sentidos. Porventura cada um de nós tem um sentido mais desenvolvido do que o outro, mas a verdade é que nos falta uma educação para os sentidos. Um gourmet não é apenas um comilão. Um grande mestre teólogo e pedagogo brasileiro, falecido este ano, Rubem Alves, dizia que a coisa mais importante é a cozinha. Um professor, antes de levar o aluno para a sala devia fazê-lo passar pela cozinha. A cozinha não dá o alimento, dá o desejo. O paladar não é uma máquina de satisfação, é uma máquina de criar desejo. Isto mostra como cada um dos sentidos é uma dupla porta e nos ensina tanta coisa acerca da nossa humanidade.

 

Satisfação, desejo. Atenção, rotina. Essência e excesso. Silêncio e ruído. Procura e respostas. Tinha elencado esta série de pares, e opostos.

A vida é esse balanço. Se nos deixamos ficar apenas numa parte não percebemos o jogo, a brincadeira que a vida é. A vida não é só uma pergunta. Também não é uma resposta. É uma travessia entre essas dualidades, entre essas possibilidades, esses modos de existência. Nesse sentido somos o homo viator, o homem que atravessa, que viaja pela sua própria história. O que podemos colher de mais importante é o espanto, o assombro.

 

Qual é o sinónimo que imediatamente lhe ocorre para espanto?

Aberto.

 

E infância, parece-lhe bem, como sinónimo?

A infância é uma máquina de espanto. Já todos passámos por essa máquina, mas é bom que a conservemos. E que essa disponibilidade para aprender, para ver, ouvir, perguntar, persista. Vivemos com os olhos colados nos sapatos, e deixámos de abrir a janela, de olhar para as estrelas. Desistimos de olhar mais para longe. Aquilo que move a história não são os nossos sapatos, é um ponto que algures contemplamos mais longe.

Há uma história engraçada, oriental, que conta de um velhote que quer chegar ao cume de uma montanha. Faz uma paragem numa estalagem do caminho e o estalajadeiro convence-o de que já não tem condições de chegar ao cume. E ele diz: “Já atirei para lá o meu coração, e por isso sei que vou chegar”. A coisa mais importante é atirarmos para longe o nosso coração. Haveremos de chegar, com maior ou menor dificuldade, com maior ou menor lentidão.

 

O seu sinónimo para espanto: “aberto”. De facto, não há nada mais aberto que uma criança. É como se fosse uma casa com as portas e as janelas abertas, com uma total disponibilidade.

Quando abrimos as nossas janelas, a nossa casa fica espantada. Abre-se ao espanto do dia, da luz, a claridade, daquilo que a rua traz. A abertura é a condição do espanto. O contrário é o fechamento, a clausura.

 

Mesmo que com ele venha uma convulsão?

“Viver é perigoso”, dizia João Guimarães Rosa. É esse risco que torna a vida alguma coisa digna de ser vivida.

 

Vamos imaginar este quarto que está com uma temperatura climatizada, constante, à qual nos adaptámos. De repente, se se abre uma janela, há uma entrada de um ar de uma outra temperatura, e há um distúrbio que é causado.

Bendito distúrbio.

 

A nossa primeira reacção, normalmente, é a de recusar o distúrbio. Queremos continuar no conforto. Somos um animal de hábitos, tradicional.

Os distúrbios permitem-nos tomar consciência do sítio onde estamos. As crises são máquinas de consciência, de intensificar a nossa atenção aos próprios processos, àquilo que estamos a viver. Senão, caímos num automatismo muito grande.

É muito interessante ligar esta conversa aos sentidos. Há antropólogos que criticam a sociedade norte-americana dizendo que é uma sociedade que procura uma neutralidade em relação ao cheiro. Há uma indústria dos perfumes, dos incensos, dos desodorizantes. Enquanto outras sociedades, por exemplo, as muçulmanas, as orientais, são sociedades que vivem muito mais na rua, que cozinham na rua, onde o cheiro faz parte do quotidiano. Nós segmentamos muito os cheiros e procuramos quase um estado inodoro. E isso também diz muito da artificialidade com que vivemos.

Muitas vezes, o que a nossa casa precisa é que abramos a janela, em vez de estarmos exasperadamente a introduzir um novo purificador do ar. Precisamos de uma boa corrente de ar. E isso é uma metáfora para a própria vida.

 

O problema é o medo que nós, sociedade, temos de abrir a janela, e o que resulta desse bendito distúrbio.

Não podemos estar à espera de uma transformação individual ou de transformações sociais sem medo. A criança tem medo, quando começa a andar. Nós temos medo nas experiências decisivas da nossa vida. O medo é um sentimento muito humano. O que nos trava não é o medo, muitas vezes é o medo de ter medo.

 

Como assim?

É a dificuldade de conviver com os nossos medos, dar-lhes um nome, dar-lhes uma dignidade, escutá-los, falar deles, expô-los. Se me meto a fazer uma grande viagem, é importante que tenha medo: o medo também me protege. Mas o medo também me sufoca, e tenho de encontrar aqui um ponto de equilíbrio. O equilíbrio passa por perder o medo ao medo.

 

Não usámos ainda a palavra alegria, que é um sentido cada vez mais escasso e precioso.

A alegria tem de ser o fio de Ariadne da própria vida, aquilo que nos guia. É o fio que nos pode fazer sair do labirinto. E a alegria não depende unicamente das circunstâncias. Não é a alegria por isto ou por aquilo. Não é a alegria de ter conseguido ou a alegria de ter obtido. Tem que ser a alegria.

 

Uma alegria gratuita?

Sim. Uma alegria pelo essencial.

 

Hoje a alegria está muito associada ao prémio, à compensação do esforço.

E a alegria tem de ser sem porquê. Tem de ser como o que o Angelo Silesius, o místico, dizia da rosa, “a rosa sem porquê”. Tem de ser a alegria de ser, a alegria de estar, a alegria de viver. Em vez de associarmos a alegria a uma espécie de medalha de bom comportamento. A alegria tem que ser o que está antes daquilo a que chamamos alegria.

 

Lembrei-me da cara do Papa Francisco, que é uma expressão de alegria.

Essa cara é um ícone. De uma alegria para todos. Uma alegria de um mestre de humanidade.

 

Fazemos a entrevista no dia a seguir ao anúncio do restabelecimento das relações entre Cuba e os Estados Unidos. Nas negociações intervieram o Papa Francisco e o Papa Bento XVI. É como se a alegria fosse um motor. Não faz o caminho todo, mas pode ser um motor.

A alegria não é uma consequência, a alegria é uma causa. E se é uma causa, há determinadas coisas que vão acontecer por causa da alegria, em nome da alegria. Porque é a alegria que a gera. Se a alegria for apenas uma consequência ela vai estar ausente dos processos. Surge no fim, como um ornamento, como a cereja em cima do bolo. E a alegria é uma força da vida que precisamos redescobrir como sociedade.

 

O outro elenco que fiz, a partir do seu livro, foi dos verbos caminhar, ligar, escutar, buscar e dar. Todos estes têm sentidos diferentes se forem reflexivos.

É um exercício tão importante e que fazemos tão pouco, dar reflexividade aos verbos. Dar reflexividade à vida. Aquilo que fazemos, faz-nos. O livro que lemos, lê-nos. O gesto que oferecemos, é-nos oferecido. Isso torna a vida completamente diferente.

 

Gostava de perguntar pela língua materna da sua infância. E pelo sentimento de que fomos/somos o Menino Jesus dos nossos pais.

Os cristãos vivem, antes do Natal o tempo do Advento, que quer dizer espera. É muito importante ligar o que nasce ao que é esperado. Ligar a realidade ao desejo. E ligar a evidência da história ao seu próprio sonho. Vimos de uma interioridade biológica, afectiva, simbólica, geracional, histórica. Vimos desse interior para a exterioridade. Este trânsito documenta melhor do que qualquer outra coisa a vida. A marca dessa viagem tem de se tornar em nós uma arte.

São Paulo, num dos textos fundamentais da história do Ocidente, a Carta aos Romanos, diz que o mundo inteiro sofre as dores de parto. No fundo, estamos a participar num parto. Grande parte das nossas dores actuais são dores de um parto. Se pensarmos que, em vez das dores da agonia, são as dores do nascimento, a vida ganha outra ressonância.

 

Achamos todos que estamos num fim de ciclo, que isto são dores da agonia...

Mas são dores de parto.

 

E temos o desejo de que qualquer coisa nova surja. Entretanto definhamos.

Temos de sentir que estamos a fecundar. Estamos a fecundar o tempo. E a morte, outra coisa não é que um outro nascimento.

 

 Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2014

 

 

 

 

 

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