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Júlio Machado Vaz (2006)

Por fim, pergunto o  que é que o pode fazer viver com leveza. E ele responde coisas arrancadas à vida de todos os dias, tesouros banais: «Cantelães ao entardecer, a família reunida, um sorriso de mulher depois do amor. Mas em geral, viver é para mim um gozo lento, feito de tropeços. Habituei-me a isso, deixou de ser um drama. Drama seria parar».

Júlio Machado Vaz tem uma pacificada urgência de viver. Psiquiatra, comunicador, pai, filho, deitou-se literalmente no divã no livro «O Tempo dos Espelhos», experiência autobiográfica que o revela enquanto homem. Ei-lo, a céu aberto.

 

Há um tom "amarcordiano" no seu livro «O tempo dos espelhos». Todas as infâncias se parecem?

Não, não creio. Mas sou capaz de (quase) concordar no que às fantasias adultas acerca delas diz respeito. Com frequência suavizamos cores, recordações, feridas..., idealizamos, enfim! Os que podem, claro. Há infâncias tão agudas que não permitem o aparar de arestas.

 

Há um momento em que se percebe que se é mortal. A morte está, também, nos livros do Roth que lê, no Beatle Harrison que idolatrou, na família que parte mas que fica no coração. A hipocondria "esconde uma tristeza solitária". Como ultrapassar o medo?
Tem razão, o medo não desaparece, enfrenta-se. Neste caso, os anos trouxeram, como digo no livro, a pacificação pela mudança de acento tónico - do medo de morrer passei ao medo relacionado com o processo de morte. Essa mudança fez-me valorizar ainda mais a vida, que saboreio hoje como nunca o fiz no passado. Também porque o afunilar do caminho me "obrigou" a rever prioridades, exigências, caprichos. Compreendo hoje melhor uma frase do Eugénio de Andrade, solta em conversa banal: "Agora tenho tempo para os amigos, a música e os livros, o resto varro-o sem remorsos".

 

A psicanálise desencadeia, inevitavelmente, uma viagem interior, e um (ir)reconhecimento no espelho. Por que é que fazer análise mudou a sua vida? Por que é que ser psiquiatra mudou a sua vida?

A análise transformou uma comodista "vítima das agruras da vida" num homem responsável pelo seu destino, pese embora as limitações que a todos tolhem algumas opções. A psiquiatria foi uma escola de vida inigualável, pela extraordinária paleta de afectos e comportamentos que pôs sob os meus olhos. Trinta anos depois, as pessoas continuam a fascinar-me pelo sol e sombra que me depositam no colo. Na minha profissão existe o cansaço mas não a rotina.

 

O que é que, no seu mapa afectivo, reconhece como casa? A sua casa em Cantelães, lugar de chegada, é assumida como um "reinventar das origens". Mas no livro fala abundantemente dos seus lugares. A memória é o lugar que tudo acolhe...

Cantelães é "a" casa. Pelo que significa de chegada após um trajecto de vida e de trampolim para o que dela resta. E pelo privilégio de ter sido desenhada por meu filho mais velho, que melhor garantia poderia ter de que a lenda familiar continua a tecer-se? Mas outros lugares permanecem enroscados na memória, como este apartamento em que escrevo ou a casa de Anselmo Braamcamp. Como cantava Lennon e eu citei em «Muros»: "There are places I'll remember, all my life..., but I love you more".

 

As novas configurações da família, com a chegada e a partida de novos elementos, são um desafio. Fala de ser uma argamassa que une gerações...

Os netos foram e são uma festa indescritível. Mas, correndo o risco de escandalizar alguns, o "núcleo duro" da minha vida afectiva continua a ser preenchido por meus filhos. Porque vivemos a trio tanta coisa durante tanto tempo que será impossível experimentar algo de semelhante. Sei-o com a mesma certeza que me faz dizer que nunca a nível profissional me voltarei a aproximar do supremo gozo de fazer «O Sexo dos Anjos». Há geografias afectivas únicas, que não temem comparação, assim fomos - e somos! - eu, o Guilherme e o João.

 

Define-se como um "sub-depressivo". É fácil olhar para si, desde sempre, como sendo um melancólico, outonal, ventoso, nado e criado entre as brumas do Porto. Esse berço moldou-o?, e de que modo? 

O Porto é assim - esplendorosamente cinzento, pudera eu dizer o mesmo! O afecto sub-depressivo nunca me impediu de apreciar o milagre de estar vivo ou de  rir de mim próprio, condição sine qua non do humor, característica indispensável para suportar este mundo avesso à transcendência em que vivemos. Acresce que conheci a depressão "por dentro" e saí de novo para céu aberto. Que importa se não comungo de risos fáceis e por isso - para mim - menos preciosos? Os amigos não se queixam, os amores não falharam por isso, a profissão não sofreu, bem pelo contrário! É quanto basta.

 

O que escreve agora no seu diário, nem que seja sob a forma de blog, é substancialmente diferente do que escreveu nas páginas do seu diário que ofereceu a Eugénio de Andrade? Ou seja, é um homem diferente? O que o fez assim?

Sou um homem mais pacificado, logo, mais aberto por menos paranóico. Fez-me assim a vida vivida, com as respectivas nódoas negras e "medalhas". Quando escrevo textos pessoais no blog sei que alguns entenderão e outros rumarão a outras paragens por não lhes interessar. Há muito que abandonei a nostalgia de agradar a todos. Bem assim como a de gostar de todos... No fundo, já não preciso da aprovação alheia para me sentir alguém, não aspiro a reconhecimento público, embora o aceite com gratidão. Faço o meu caminho com os outros, apesar dos outros e não para os outros.

 

O seu pai perguntava se o seu querido filho não se deixava arrastar pelo prazer da frase... E fala disso como um epitáfio que lhe assentaria. Mais do que escrever um romance, quis fazer da sua vida um romance?

Nunca por uma ambição estética. Neruda confessou que viveu e isso resume tudo. Poderia ter eu vivido mais? De uma forma menos sofrida? Mais cedo? Seguramente. Mas não é tempo de lamentos, e sim de viver o que resta o melhor possível. A minha vida não foi nem será um romance apaixonante para os outros, de tão banal. Mas continuará a ser vivida apaixonadamente, como merece.

 

Este livro-introspecção é de um inesperado despudor, inclusive físico. Falar de entranhas, exames à próstata, minudências da higiéne, revela que superou o nojo?

O físico nunca me inspirou nojo, não partilho o horror judaico-cristão pelo corpo e seus caprichos ou meros rituais. Quando me vejo ao espelho não traço uma linha imaginária entre Espírito e Carne, "vejo-os" entrelaçados. O pudor que reduziu a metade «O Tempo dos Espelhos» foi relacionado com os outros e o seu direito a uma privacidade que procurei salvaguardar religiosamente. Tarefa difícil num livro autobiográfico. Não existimos numa campânula de vácuo afectivo e corporal. A minha própria exposição não me preocupou. Aceito que alguns a considerem até exibicionista, escrevi tão fundo quanto sentia necessário e ponto final.

 

É "o grande comunicador que ama cada vez mais o silêncio, que ama as crianças em pequenas doses". Paradoxalmente, parece haver de si para si um biombo. Pode ainda perder-se? Derrubar paredes, abrir comportas...

Posso perder-me, mas não através do meu estatuto de comunicador. Esse está cada vez mais delimitado e reduzido, pode viajar frenético mas nos carris que lhe imponho. A perder-me, será - com muito gosto! - nas suas margens, no leito do outro, que verdadeiramente sou eu e não uma imagem no ecrã ou uma voz na rádio.

 

Sabe que "descrever-se como fracassado é um exagero histérico". Diz que acalentou sonhos faraónicos no passado. Decretou falência porque, afinal, a vida foi outra e não aquela que idealizou. Proponho um exercício: mais que tudo, como falarão de si as pessoas quando partir? Consegue antecipar, ou tem pavor disso, ou não lhe interessa?

Cada vez me interessa a memória de menos gente. Mas a dessa..., apavora-me! Quero ser recordado como um bom pai, um bom amigo, um bom professor. No amor, ao menos!, como um filho da puta bem intencionado. Quando essas pessoas morrerem, aceito viver ainda um bocadinho no imaginário das que as terão ouvido, depois será o nada. Como para quase todos, afinal, o génio não existe por aí ao Deus dará e um nome na esquina de uma rua não garante doce recordação ou juvenil curiosidade.

 

 

Publicado originalmente na revista LA Mag em 2006

 

 

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