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Júlio Resende

Júlio Silva Dias nasceu às nove e meia da manhã do dia 23 de Outubro do longínquo ano de 1917. O amor e admiração à mãe, professora de música de sensibilidade apuradíssima, farão com que adopte o seu apelido Resende. O seu pai era comerciante de fazendas. Nos anos trinta, com o irmão, o maestro Resende Dias que compõe muitos dos sucessos do cinema português, ilustrou banda desenhada que publicariam no mítico «Papagaio». A sua irmã foi seu primeiro modelo. E Goya, já nas Belas Artes, a sua primeira e capital influência. A tese da sua licenciatura chamou-se «Fantoches» e assume, nitidamente, influências goyescas. Com a ajuda de uma bolsa, foi para a Paris do pós guerra. De regresso a Portugal, auto exilou-se no Alentejo até volver ao seu Porto. Leccionou nas Belas Artes. A sua pintura passou por diferentes fases. Suavizou-se, na cor e no gesto.

Vive há quarenta anos na mesma casa, em Entre-os-Rios, a dois passos da Ribeira e a caminho de Gondomar. Nem um quilómetro acima fica «O lugar do desenho», uma fundação que simultaneamente reúne o acervo da sua obra e pretende promover a pintura junto dos mais novos.

Seguem-se memórias de um homem a quem o tempo trouxe lucidez e apaziguamento interior. Um homem que nasceu antes do fim da Primeira Guerra, assistiu à Segunda, a quarenta anos de ditadura e ao nascimento da democracia. Quase um século de acontecimentos vorazes que marcaram o mundo.

 

 

Que idade tem?

81, creio. Tenho que fazer a conta. [riso]

 

Sente-se um velho?

As pessoas lembram-mo. Sinto que o físico impõe que façamos algumas restrições e acautelemos os gestos. Não queria fazer um prognóstico muito negro porque não há razão para isso. A minha pintura tem resultado de estados ricos de vivências em diferentes pontos, obriga a que a pessoa se movimente com agilidade e facilidade. Já não posso contar com essa prerrogativa. Mas rodeio-me de coisas altamente ricas que se encarregam de me reportar a outros espaços geográficos.

 

A sua pintura, devido a essa dificuldade de locomoção, tem-se tornado mais introspectiva?

O resultado da experiência de Goa, em 96, ainda vigora dentro de mim com bastante intensidade. Estou desejoso de voltar a outra paleta de cor. Mas estou em forma. Venham as perguntas! Isto já eram respostas?

 

Já. A questão da velhice é interessante para percebermos como o vai influenciando.

Uma consequência da velhice é a experiência. Na pintura talvez não seja com a experiência que avançamos mais no sentido da criatividade. Quando há excessiva experiência talvez haja excessiva cautela. Suponho que a experiência deve existir dentro de nós mas não devemos fazer apelo dela.

 

Sente a angústia da tela em branco?

Há um embate que nos perturba e intimida. Quando se processa o primeiro contacto físico o que se segue está enriquecido de uma sensação de energia. No meu caso, vem mais do gesto que da cor. Vem do movimento de mão, de pincel. Que me lembre, só uma vez fiz um trabalho de uma assentada.

 

Que trabalho foi?

Foi um quadro que pintei em Paris em 1947 ao qual dei o nome «A velha». Foi só o momento de dar um salto ao atelier e emergiu de uma maneira muito espontânea e rápida.

 

O que foi tão forte que tivesse desencadeado a empreitada?

A motivação, a época. Estava numa janela do primeiro andar e vi a silhueta de uma pessoa de idade, andrajosa, caminhando num branco que era a neve. Surgiu-me como uma evocação às figuras da Ribeira. Estava tão longe, em Paris no pós-Guerra. Sendo uma figura estranha era uma figura do meu conhecimento. O quadro surgiu-me de uma maneira muito rápida e quase não

tive uma reflexão durante a execução.

 

Que é feito desse quadro?

Está num coleccionador do Porto. Era dos quadros mais importantes. Fiz um gesto que jamais se apagou da minha memória e da minha escrita. É um tipo de curva que está lá, ainda hoje a sinto.

 

Costuma reflectir enquanto pinta?

Sim, infelizmente. São sempre momentos um bocado duros, e, quantas vezes, só são ultrapassáveis quando reiniciamos o gesto.

 

Que decisões pode encontrar enquanto pinta? 

Na vida quotidiana não sou diferente do que sou no atelier. Cromaticamente há uma evolução que vem dos anos 40 e que é sempre na busca de um colorido mais optimista, de cores mais puras. Pode querer dizer quer estou mais compreensivo e tolerante das coisas da vida. A vida resulta de uma dinâmica tão natural. Há uma gama de cores que se aceita como um equilíbrio muito grande. É um processo que se tem que cumprir. Estou muito aberto a esse processo. Antigamente nem pensava nele.

 

Não pensava nele quando era jovem?
Não. Teria uma coisa que deixei de ter há muito tempo: uma ambição de me manter na agitação das coisas, tão temporais e tão pouco estáveis. 

 

Com que sonhava o jovem Júlio, em Paris com uma bolsa?

Não sonhava, vivia a concretização de um sonho. Fiz uma tentativa de ocupar o tempo em actividades que pudessem ser válidas no meu regresso.

 

Quanto tempo esteve em Paris?

Estive um ano e meio, mais um mês ou dois. Vi a minha bolsa cortada e tive de regressar mais cedo. Frequentei as Belas Artes para aquilatar os processos de ensino que lá se praticavam. Ocupava as manhãs no Louvre a copiar os mestres que me interessavam mais. E viajei pela Bélgica, Holanda, Inglaterra, Itália.

 

Participou da vida boémia e romantizada que temos dos pintores, sobretudo dos parisienses?

Fui com a minha mulher e a minha filha de sete meses. Tinha outra perspectiva de ocupação do tempo. A minha vida foi muito condicionada, até por razões económicas. A bolsa não dava para me alargar muito.

 

Era suficiente para viverem os três?

Não. Foram momentos difíceis. Há o facto de ter ido para Paris logo após a guerra. A subsistência era muito difícil.

 

Como era Paris no pós-Guerra?

Artisticamente havia dois ou três movimentos que se digladiavam no sentido de terem a liderança estética: a pintura não figurativa, com grandes exposições e muito impacto de público e, ao contrário, o salão das «realités nouvelles» mais ligada à função política da arte. Ainda se viam os surrealistas. Na vida de Paris a dificuldade manifestava-se diariamente na rua. Fiz uma viagem de bicicleta com um colega francês pela Bretanha e senti bem o que eram aquelas feridas. Na Itália também senti muito os efeitos da Guerra. Tive a sorte de ver outras zonas, turisticamente famosas, numa altura em que não havia turismo: Florença, Veneza. A primeira vez que lá fui, Veneza estava coberta de neve. Foi um ano com um Inverno excepcionalmente rigoroso, o de 1947.

 

Foi uma das razões porque começou a fumar?

Fevereiro de 47. Não fui um grande fumador. Em Paris comecei a fumar Gitanes e Gauloises, um tabaco muito grosseiro. O fumo incomodava-me; estava a pintar com o cigarro na boca e o fumo ia para os olhos. Pensei que no cachimbo o fumo saía mais longe dos olhos e, mais do que isso, era o calor nas mãos.

 

Comunicaram-lhe por carta que teria de regressar?

Sim. Tive um aborrecimento, pedi para me dizerem porquê, sempre tinha cumprido os formulários.

 

Deram-lhe alguma resposta plausível?

Nunca. Já estava no Alentejo quando achei que devia dar uma satisfação aos gastos do erário público e fiz uma exposição em Lisboa em 51/52 [riso]. Disse cá para mim «Não vão dizer que não fiz nada ou que não trabalhei».

 

Como foi o regresso a Portugal? França tinha uma situação peculiar porque vivia o pós guerra, mas em Portugal era a ditadura.

Difícil. A única preocupação foi a de encontrar um espaço que me permitisse uma concentração. Em Paris não tive tempo para meditar: era ver, absorver, apontar e seguir para outro sítio.

 

Voltando a Portugal, o que foi mais difícil na adaptação?

Estive desterrado voluntariamente no Alentejo numa vilazinha ignorada chamada Viana do Alentejo. Dois anos no ensino, é a minha sina. Estava a fazer uma coisa que pouco adiantava. Ensinar o que quer que seja no campo da criatividade é uma coisa que não se entende bem.

 

Há, pelo menos, técnicas que é possível ensinar.

Não é tão líquido como isso, há técnicas que não servem para todas as pessoas. 

 

Para si não foi fulcral ter passado pelas Belas Artes ou ter ido para Paris? Está a falar da diferença entre aprender e ensinar?

Nas coisas criativas o mais importante é a consciencialização do que pretende ser o acto criativo. O que será benéfico é o encontro com pessoas que possam enriquecer o diálogo.

 

Quais são as marcas mais fortes que guarda do Alentejo?

Acho que escolhi muito bem, ou foi a Providência, porque em Portugal não encontraria geográfica e humanamente sítio melhor para aquilo que era a minha pretensão. A reflexão transparece em toda essa fase, no desenho, no esqueleto, na estrutura. O aspecto da cor foi posto de lado.

 

Era uma fase muito mais negra.

A minha atenção foi toda para a construção, porque entendi que o desenho era mais importante para a definição de uma personalidade. O meu problema era «Como é que um português vai pintar, desenvolver a sua linha criativa quando o mundo foi este que acabei de ver?» É um problema que hoje não se poria, temos um conhecimento do mundo que na altura não tínhamos.

 

Com que pessoas do meio é que se dava?

Não podia escolher muito [riso]. Quando fiz essa exposição em Lisboa o Almada deu-me um cumprimento especial, o meu conhecimento com ele partiu daí. Conheci o Pomar aqui no Porto, ainda estudante. O Lanhas, o Nadir Afonso. Lisboa estava mais longe do que está hoje, não tínhamos uma convivência grande com os seus artistas. Nunca me incomodou estar afastado.

 

Existe nas artes plásticas, ainda hoje, uma cisão entre o norte e o sul?

Cisão implica um corte; não há um corte. São diferentes moldes de ver o mundo.

 

Apesar da limitação da bolsa, não teve a tentação de uma carreira internacional, fixando-se em Paris?

Não, por uma maneira de ser que tenho. Não vou dizer que seja um sentimental a ponto de fazer como outros fizeram: pintores de grande qualidade que acabaram por ficar dentro de um saudosismo e de uma pintura um pouco obsoleta. Na minha vida tive três vezes francas hipóteses de viver fora: Suiça, Moçambique e Brasil, para leccionar na Universidade de Pernambuco. Na altura estava aqui inserido e as coisas não se proporcionaram para me deixarem ir; se calhar ainda bem. Se fosse para o Brasil dizia de outra maneira. Gosto muito do Brasil.

 

A fase «brasileira», nos anos 70, foi fulcral na sua pintura.

Fui lá pela primeira vez em 70, e até 84 tenho passado lá períodos. Mesmo que sejam só quinze dias, se forem bem aproveitados... Sou um homem muito económico, aproveito muito bem o tempo.

 

Durante esse período está só a absorver ou também exercita?

Gasto mais tempo a absorver do que a concretizar o que quer que seja. Quando estou a absorver também estou a concretizar. Simplesmente é uma fase de encher o mais possível o meu caderno de apontamentos.

 

Desenha todos os dias?

Viagem sem desenhos não existe. Não fiz uma viagem que não trouxesse material para trabalhar.

 

São como que notas, desenhadas?

Desenhadas e escritas. O mais importante resulta de uma auto reflexão mais do que dizem os críticos. Estou a dizer isto e há belíssimos críticos, pessoas justas, precisas, isentas, claras na sua exposição.

 

Há pouco colocava a questão da internacionalização.

Não é ter receio disto ou daquilo, nós fixamo-nos onde nos sentimos bem. A minha filha, por exemplo, vive na Alemanha. Uma vez estava em Paris e punha a mim próprio essa pergunta. Pensei que se pudesse acontecer queria viver fora de Paris. Pode dizer-se que Paris é que era. Não é estar no centro que me interessa. Quero estar num sítio onde possa reflectir. O centro é para o desgaste imediato do coração. Hoje nem tem tanta importância viver em Paris ou em Lisboa ou no Porto. Naquela altura tinha por razões que conhecemos. Depende do que nos propomos fazer. Não tenho a pretensão de fazer discursos com a minha pintura. Os meus interesses são de olhar para as coisas mais prosaicas e exprimir o que sinto com elas. Não sou pessoa para estar nas fileiras dos grandes filósofos.

 

E dos grandes pintores? Se pensar quem são os grandes pintores portugueses, situa-se neles?

Não me situo.

 

Está a ser excessivamente modesto.

Temos pintores muito bons. Cada um tem o seu percurso, com variantes por vezes surpreendentes mas compreensíveis. É no seu cômputo que podemos ter a imagem do que é a pintura portuguesa. Os portugueses são expressionistas. Eu sou expressionista? Sei lá. É o que dizem. Um dia disseram que sou expressionista lírico. Não gostei muito que tivessem dito, mas é uma coisa possível.

 

E ser o melhor, estar no grupo dos melhores, saber que há pessoas que fazem distâncias para o ver. Sentia essa ambição?

Não me escondo pelos cantos mas nunca me viu num grupo ou numa fotografia à beira de pessoas importantes. Não tenho feitio para isso. As pessoas que depois mexem com estas coisas procuram que eu esteja aqui e ali colocado. Por mim...

 

Tem um agente? É o mestre que quantifica um quadro ou tem alguém que se ocupa disso?

 O tempo mudou muito. Antigamente se me fizesse essa pergunta sabia dizer, «Isto custa tanto». Hoje não sei muito bem, não sou pessoa de contas. Tenho uma ideia que os valores mudaram muito, mas não domino isso. Há uma pessoa que encontrei e estou satisfeito com ela, um galerista. Trabalho ainda com bastante vigor, sinto-me feliz. Se o mal que tenho nos membros inferiores fosse nos membros superiores se calhar não pintava. Não posso andar tanto, mas posso mexer os braços.

 

É um alívio para si não ter de se ocupar das coisas prosaicas?

É, não fui dotado para estas coisas.

 

A sua obra, para jovens amantes de pintura, é incomportável. Este pormenor não lhe custa?

Custa-me um bocado. Não sei se são caros ou se não. É evidente que o trabalho resulta de um esforço. Ás vezes, faz-se o esforço e não se obtém o resultado. Nem tudo o que faço me agrada. Se eu fosse o Picasso, de dia pintava dois ou três quadros, assinava-os e pronto. Infelizmente não tenho essa capacidade. As coisas aparentemente resultam, mas é com um certo esforço.

 

Ainda lhe acontece chegar ao fim, não gostar e rasgar?

Tenho ali na prancheta um estudo. Já é o terceiro ou quarto dia que estou a tentar fazer e só agora comecei por encontrar uma ideia, um processo para atingir um fim. Não posso dizer que o resultado disto compense o esforço e o trabalho que tive. Essas coisas não sei. O que sinto é que sou um homem bafejado pela sorte de fazer coisas que resultam ao cabo de dezenas de anos e estão a resultar da maneira que eu antevia ou sentiria que era a melhor para um artista viver. Quanto aos jovens, não vejo outra maneira senão exprimir-me no processo mecânico dos múltiplos feitos com grande qualidade: a serigrafia.

 

Vive exclusivamente da pintura desde que, aos setenta anos, se reformou das Belas Artes?

Tenho uma reforma, não sei bem de quanto [riso].

 

Leccionava porque lhe dava prazer? Com certeza já antes podia viver exclusivamente da pintura?

Se calhar. Mas não havia ambiente. Avançou-se muito à custa de algumas galerias; os museus tiveram o seu papel, sobretudo em Lisboa. Houve gerações que deram corpo a estas coisas, que se sacrificaram: o Grupo dos Independentes teve um papel importantíssimo, o cinema também. 

 

Há quinze anos não era assim?

Não. A mim, surpreende-me que em Lisboa haja tantas manifestações de provincianismo. Podemos dizer que o Porto é provinciano; mas nós só agora temos uma acção cultural com um certo nível. Lisboa já vai em muitos anos, com a Gulbenkian, a Culturgest, o Centro cultural de Belém, aquilo e aqueloutro.

 

Quer dar um exemplo dessas manifestações provincianas?

Basta ver televisão. Como é que se aguenta tanta coisa de um nível tão baixo, aquilo é feito em Lisboa, não é? C’os diabos, então eles não têm já uma experiência de altíssimo nível? Esta é um bocado valente mas não tem nada de mal.

 

Quando foi a Lisboa pela última vez ver uma exposição?

Desloco-me agora com bastante dificuldade e não tenho muito tempo. A última exposição que vi foi no Museu do Azulejo; era minha, por acaso [gargalhada]. Não pense que estou a leste dos acontecimentos, já vi muita coisa. Neste momento estou mais interessado em aproveitar o tempo que tenho.

 

Sente a urgência do tempo?

Não é só de hoje, sempre fui assim.

 

Alguma vez sentiu a premência da morte?

É uma coisa que nem vale a pena estar a pensar, é tão evidente. Mas está tudo tão bem que isso não me perturba. Não estou a fazer um brilharete, estou a dizer sinceramente. Já tenho tido umas coisadas, umas coisitas.

 

Mas tem medo?

Se tivesse medo era relativamente à estrutura. Não é medo, é apreensão. É também o sentido material das coisas. Amanhã o que será disto, «O lugar do desenho» como é que fica? Curiosidade. De resto nada, tudo bem.

 

Como é que gostaria de ser recordado.

Nada é susceptível de ser recordado. Tudo tem um fim e o fim é a coisa mais verdade que há. Não queria que me chamassem um homem com ideias fora do contexto. Havia alguma razão para levantar a voz, em salvaguarda da vida no que ela tem de mais auferível, das coisas vitais que manifestam vida na vida e que são a demonstração das regras cósmicas. Estou a falar assim difícil, mas é. Olho para a natureza e vejo o grande plano, e depois as coisas mais minúsculas e tudo isto tem uma lógica muito grande.

 

Acredita em Deus?

Acredito. Se me perguntar qual é a prefiguração de Deus, não sei.

 

Como pintaria Deus?

Esse problema põe-se-me muitas vezes. Uma vez pediram-me para experimentar fazer uma Anunciação. Até é uma coisa bonita. A iconografia diz-nos que há a imagem da Virgem e a dos anjos. Os anjos têm asas, é um acessório que define o contexto. Depois disseram-me «Olhe que os anjos agora já não têm asas». «Então já não faço a pintura». Estas regras, às tantas, mudam. Assim como a cor, o significado da cor, vai mudando.

 

A imagem do Diabo é muito nítida, com a cauda, os chifres e o vermelho. A de Deus é muita mais difusa.

A iconografia quando quer mostrar Deus mostra com configuração humana. Duvido se será uma configuração humana. Acredito que há qualquer coisa que nos pode surpreender muito, nos inquieta por não sabermos o que é, mas que existe. Sou católico, não sou praticante enquanto não vir que as coisas estão conducentes com a imagem que tenho de Deus.

 

A sua formação foi católica?

Sim, os meus pais eram católicos. Seguiam as regras essenciais numa prática directa, eram pessoas sensíveis às dificuldades dos outros.

 

É verdade que, em miúdo, ajudava o seu pai fazendo desenhos de publicidade, de móveis, de candeeiros?

Às vezes aparecem-me tantos desenhos a 25 tostões! Havia um rodapé no jornal que todos os dias saía com reclames; havia que preenchê-los com uma figuração. Tinha que inventar assuntos para as coisas mais insólitas. Ia a fábricas de candeeiros para fazer os candeeiros, desenhava os sapatos e o cliente dizia que os sapatos não eram bem assim! Tinha os meus 14, 15, 16, 17 anos.

 

Fazia-o para ajudar o seu pai ou não?

O meu pai gostava que eu fosse comerciante e eu tinha uma aversão por essas coisas. Era um comerciante falido, um homem muito honrado que nunca conseguiu vencer na vida, coitadito do meu pai. Era de uma aldeia do norte e nos verdes anos veio para aqui como caixeiro. Na sociedade de então havia um sarau anual onde ia a fina flor e onde se exibiam pessoas que se juntavam para fazer ginástica. Uns faziam umas coisas específicas e criaram uma companhia de circo que dava uns espectáculos a favor disto ou daquilo. Eu o meu irmão fazíamos uma parelha de palhaços; eu era o palhaço pobre. Cheguei a tocar serrote, banjo. O meu irmão era bom executante.

 

Foi com esse irmão que fez a banda desenhada publicada no «Papagaio»?

Ele escreveu umas coisas, eu também acabei por escrever. Todas as semanas tinha de fazer anedotas, criadas por mim. Acordava de noite e tomava notas. Tenho montes!

 

Guarda tudo?

Vim a descobrir que tinha isso para aí.

 

Fazia para publicar e ajudar os seus pais ou por gosto?

Não, aí já estava no início do professorado. Em Paris, era uma espécie de correspondente do «O Primeiro de Janeiro». Fazia uns bonecos, uns cartoons. Com o meu irmão colaborei no «Papagaio» e no »Mosquito». Ainda agora continuo a fazer cartoons. Não era para ajudar. Decidi fazer o curso e não tive qualquer tipo de obstrução por parte dos meus pais. A minha mãe era artista, era pianista e professora do conservatório. Quando fui para as Belas Artes quis demonstrar que estava independente (fazendo aqueles bonecos).

 

Desde cedo era claro para si que queria ser pintor?

Ah sim, a partir dos anos 30 comecei a ver que era mesmo a minha vida. Acabei o curso das Belas Artes em 45, em 46 fiz a tese, em 47 fui para Paris.

 

Mas o que o fez decidir-se absolutamente pela pintura não foi um pequeno acidente que teve na mão? Não estava vocacionado também para a música?

E hoje tenho pena porque gosto muito de música. Mas aconteceu essa coisa. Devia ter sete ou oito anos. Tinha um tio-padrinho que era oficial do exército. Encontrei uma cápsula que tentei apagar com uma vela e aquilo explodiu-me na mão.

 

Ficou em pânico?

Tenho a imagem figurada no meu espírito para todo o sempre. O meu pai tinha um estabelecimento em baixo, aquilo aconteceu no segundo andar da casa em que vivíamos; ou subiram a escada ou fui eu que desci. Do que me lembro é que um caixeiro do meu pai me levou ao colo dali ao Hospital. O meu pai ia aflito e eu dizia-lhe «Papá isto não é nada». Parece que estive internado três meses. O meu gosto pela música não teve hipótese.

 

Foi com pena? Até porque a sua mãe era, segundo sei, a sua grande influência.

O meu irmão era mais dotado. Eu estava mesmo destinado para a pintura. A minha mãe era um vulcão de ideias mas muito desprendida relativamente a dinheiros. Havia uma diferença de idades grande entre os meus pais. Não sei se é possível imaginar-nos na época.

 

Não havia televisão, nem automóveis, nem telefone em casa.

Tinha um tio, uma figura irreverente, que um dia aparece lá com uma telefonia, ouvia-se só com auscultadores. Em frente da nossa casa vendia-se café torrado, ele mandou a empregada dizer para pararem com a máquina de moer café porque estava a apanhar um posto francês e a máquina fazia interferência.

 

Imagino a sua surpresa quando viu televisão pela primeira vez.

Mas isso foi ontem, a televisão foi ontem. Quando levei a televisão para a minha casa no Porto, a primeira imagem que deu foi da morte do Kennedy. Agora já não nos surpreendemos, isto vai progredindo de tal modo!

 

Viveu todo um século de um avanço extraordinário ao nível da tecnologia. Em miúdo imaginaria que um computador poderia reproduzir com uma fidelidade espantosa o seu trabalho?

Os faxes, por exemplo, mete-se aqui e recebe-se lá. Abro os olhos e vejo o plástico. É uma coisa do pós-Guerra.

 

Ao nível da alimentação, que grandes alterações se deram?

Em bugigangas houve mais. O pequeno-almoço, para mim, é igual: o prosaico café com leite, uma torrada ou pão com manteiga (já não como manteiga).

 

Ainda gosta de comer fora?

Estou muito caseiro.

 

Quem é que o vem visitar? Tem um melhor amigo ou amiga?

Tenho, não são muitos. O verdadeiro amigo só se detecta pelo tempo. Fazer uma viagem também é um bom processo para se conhecer um amigo. Tenho dois ou três ou quatro amigos, não tenho mais que isso.

 

Vêm da sua meninice?

Fora da família, do meu tempo, já não tenho ninguém. Há outros que têm vindo e devo considerá-los amigos. O homem tem duas coisas importantes: o coração, em primeiro lugar, e depois a mente. Um bom doseamento... Também não gosto dos equilíbrios excessivos. Diz-se que no meio está a virtude; se calhar não.

 

Faz a apologia do caos?

Não, faço a apologia do diálogo. As forças opõem-se porque é essa a sua função. É o branco e o preto, o vermelho e o azul. Se me perguntar qual é a obra mais equilibrada tenho dificuldade. No Rafael, que é uma lição da regra, não há nada a discutir nem há oscilação. Prefiro mil vezes um pintor como o Piero della Francesca ou o Vermeer; não são tão calmos como parecem. 

 

De que quadro seu não seria capaz de se desfazer?

Já estou tão desgarrado... Havia coisas de que não me queria desfazer e que já não me pertencem. Há outras que mantenho como tipificando momentos significativos na minha vida.

 

Por exemplo.

Só tenho um quadro do Alentejo. Dessas obras, de que só tenho um exemplo, não queria desgarrar-me. As outras já não são minhas. O quadro de que falei há pouco («A velha»), gostava muito de o ter. Simplesmente já não lhe chego porque vale um preço que não tenho.

 

É uma situação bizarra. Se pudesse comprava esse quadro?

O quadro foi vendido sei lá por quanto, na altura teria um grande interesse para mim mas tinha de o vender. Tive momentos em que a sala estava cheia de quadros e não saíam. Não foram facilidades, a minha vida. O senhor que tem o quadro perguntou-me qual seria o preço do quadro. Disse-lhe que não sabia nem era a pessoa mais indicada para o dizer. Depois telefonou-me a dizer que valia vinte mil contos ou qualquer coisa assim. E na altura pensei que gostava de comprar o quadro mas não tinha esse dinheiro. Hoje comprava-o, palavra de honra que comprava, se pudesse.

 

Que faz ao dinheiro que ganha? Só nesta sala tem milhares e milhares de contos.

Trabalho por duas razões fundamentais: dar razão à minha existência e tirar o benefício que isso possa dar. Estou a olhar para a minha vida, não vou pintar sempre. Gasto em coisas comezinhas. Vivo aqui há perto de 40 anos e de há um ano a esta parte tenho pensado no conforto próprio de uma pessoa da minha idade. Não apanhar frio, por exemplo. Tive que modificar as portadas, só agora pus portadas duplas. Mas não vou estar agora a dizer em que gasto o dinheiro! [riso]. E dou muitos quadros. Nem tudo se transforma em dinheiro no imediato. É tão engraçada esta pergunta. Se há coisa que me irrita na vida é o dinheiro.  

 

 

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em1999

Júlio Resende morreu em 2011

    

 

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