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Kalaf Epalanga

Kalaf é esquisito. É aquele dos Buraka Som Sistema, a banda que está a bombar em todo o mundo. Poeta-cantor, imensamente cool, porte de quem vem do reino dos Ovimbundos, viajante. A melhor definição para dizer quem é e o que faz: agitador cultural. A esquisitice tem que ver com ser estas coisas todas, peças de um puzzle difícil de concatenar. E todavia, sim. Nasceu em Benguela em 1978.

Kalaf é um angolano de Benguela. Lançou recentemente um livro de crónicas de título provocador: O Angolano que Comprou Lisboa (por metade do preço). O CCB dá-lhe carta branca para fazer o show que quiser, dia 29 de Maio. Ele é o show. Não é provável que recrie os jardins do designer belga Dries van Noten, mas esse aroma, o das rosas, subtil, estará lá. Vão estar coisas que não se vêem mas que fazem parte de quem é, e desta viagem que se faz na entrevista. Vão estar sembas e kizombas, o que resulta de lugares onde se incubam ideias, espécie de estufa que frequenta e onde se inventa o mundo. É muito raro uma pessoa fluir entre assuntos e mapas, protagonistas e ficções com este movimento leve. Que nos faz crer que isto anda mesmo tudo ligado. Kalaf Epalanga é assim. (Esqueçam o Kalaf Ângelo: há uma história no nome Epalanga, que é por onde tudo passa. Epalanga não é um nome neutro.)

Pediu um arroz de pato porque estava cheio de fome. Quase não comeu. Trazia umas calças Dries.

  

Não me ocorre mais ninguém que numa frase conseguisse juntar o músico Terry Callier, o designer de moda Dries van Noten, o jornalista Rafael Marques, o político Rui Tavares, o activista Martin Luther King, que é o que posso fazer depois de ler coisas sobre si. É uma boa amostra de quem é?

Bastante. Podia acrescentar outros nomes fundamentais. [O escritor] James Baldwin, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade. E recentemente [o escritor e cronista] Ruy Castro, estou apaixonado por Ruy Castro. Tenho os cronistas em grande estima. Os brasileiros, então.

 

Porquê o seu fascínio pelos cronistas?

Porque a crónica ocupa um lugar na literatura que é um pouco periférico. Não é consagrada. O Miguel Esteves Cardoso é um grande cronista. O facto de serem muito atentos e assertivos nas análises que fazem, aproxima-os do mundano, do que é corrente, do que é agora. Gosto disso.

 

O sentido da urgência, do agora, é fundamental para si?

Sim. E também a ideia de memória. O cronista muitas vezes faz-nos viajar, mas o ponto de partida é sempre o presente.

 

Pode ser esse cronista, pode escrever este tempo e este lugar?

Só daqui a 20 anos teria substância suficiente. Estou em Lisboa há 20 anos. Mas a Lisboa realmente fascinante começou antes. Tem que incluir a Lisboa de [Fernando] Pessoa. A Lisboa de Almada Negreiros, de Almeida Garrett.

 

Tem a capacidade de estar em plataformas muito distintas. Se há coisa que está a acontecer em Lisboa é o cruzamento de linhas, que não há muitos anos não se cruzavam. Está num ir e vir constante. No espaço e no que faz.

Durante muito tempo, para facilitar a minha vida, dizia que era músico. Embora não me sinta músico. Trabalho com música, é o meu nine to five.

 

Porque é que a música é o nine to five? Normalmente é o depois das nove às cinco.

A minha vida mudou a partir do momento em que comecei a acordar às nove da manhã para estar no estúdio às 10h. A ideia de que os músicos só acordam às três da tarde é verdadeira. Mas o mundo não funciona a partir das três da tarde. Sempre que mandávamos um e-mail, eu e o meu cúmplice, o Branko...

 

(Branko?

O nome dele é Branco. Tem um daqueles nomes compostos. Para dar um swing, ficou Branko.) Estávamos a iniciar-nos nas lides da música. Se mandássemos e-mails de manhã, conseguíamos respostas às três da tarde. Quando mandávamos um email às três da tarde, as decisões passavam para o dia seguinte. Num dia de trabalho nine to five, consegue-se ser produtivo. Para nós era importante sermos produtivos e eficazes. Já nos bastava ser esquisitos [risos].

 

Defina esquisitos.

A nossa música é esquisita.

 

Está a pensar nos Buraka Som Sistema?

Em tudo o que fazemos na [editora] Enchufada, incluindo Buraka. Era extremamente esquisito. Não se fazia na altura. Muito poucas pessoas conheciam aquele género de música. Ouviam os singles e limitavam-se a isso. Pouca gente explorava os álbuns. Nós achávamos que os álbuns eram muito interessantes porque juntavam vários universos musicais, propunham coisas estimulantes. Insistimos muito que a kizomba, até mais que o kuduro, tinham um potencial de exportação.

 

O que é que faz a kizomba mais exportável?

Consegue casar melhor com o formato pop, com o formato canção, que se ouve na rádio a ir para o trabalho. O kuduro é essencialmente música de dança, e assim sendo está reduzida a um nicho. Os nossos discos sempre tiveram alguns apontamentos, algumas aproximações [a outros géneros]. A última aproximação, baptizámos de zuok bass.

O zuok é um primo da kizomba. É um ritmo das Antilhas francesas, é a kizomba que se ouve em Paris. Mas agora mudou-se para Lisboa um gigante do zuok francês, o congolês Kaysha. Lisboa transformou-se na capital da kizomba. Os músicos estão a mudar-se para cá. Nelson Freitas [músico holandês de origem cabo-verdiana] tem casa cá. A [cantora cabo-verdiana] Mayra Andrade está a considerar mudar-se para Lisboa.

 

Estava a dizer que a vossa música era esquisita.

Sim. Tivemos sorte no primeiro hit. O Yah!. Aquela canção conseguiu reunir toda uma comunidade de jovens. Toda uma geração que, não sendo do universo da kizomba, viveu exposta àquilo. De certa forma, reagiam contra, porque o kuduro, a kizomba sempre foi vazio, com pouca substância cultural. E nós, se calhar por estarmos envolvidos com toda essa coisa do Bairro Alto e da cena electrónica, abraçámos a fusão, o trazer a kizomba e o kuduro para o nosso mundo. Houve pessoas que reagiram bem. Logo na primeira semana tivemos enchentes. A seguir, a Red Bull fez uma coisa connosco nos Santos Populares. Depois o Lux chamou-nos. E no Verão, estávamos no Sudoeste. Tudo isto no espaço de seis meses, em 2006.

 

Disse que a música é o seu nine to five. Mas afinal quem é que é?

O Vítor Belanciano foi o primeiro jornalista que me deu tempo de antena. Chamou-me poeta-cantor. Embora nunca tenha editado nenhum livro de poesia. Eu vinha de uma escola de spoken word, fiz dois discos de spoken word em 2003. Esse era o meu métier. O meu sonho é resumir a minha biografia numa frase só, numa palavra, de preferência, duas, que provavelmente estarão, se um dia tiver uma página na Wikipedia...

 

Que são…?

Agitador cultural. É também do Belanciano. É a mais próxima daquilo que eu sou e do que faço. Tento não me levar a sério. Não me levando a sério consigo entrar e sair das caixas em que a sociedade nos coloca. Tanto posso estar com cronistas e com os da kizomba, e trazer tudo isso para as minhas crónicas, para a minha música, como posso estar com artistas plásticos ou com designers de moda.

 

Criou uma marca de roupa, mas falaremos da moda mais tarde. Para já, a relação com o artista plástico Nástio Mosquito.

A minha relação com o Nástio é engraçada. Conheci-o em Luanda. Fui para a primeira Trienal de Luanda, o primeiro evento de arte contemporânea na nossa capital. Tinha que estar, tinha que ver. E toda a gente me dizia: “Existe aqui um jovem igual a ti, com o cabelo em pé, óculos. Tens que conhecer”. Também lhe diziam o mesmo: “Está em Lisboa um gajo igualzinho a ti, diz coisas como tu, fala em cima das músicas”.

 

Quando o conheceu, teve a impressão de se olhar ao espelho? No sentido em que encontrou alguém que estava na mesma sintonia, que tinha um recorte aproximado.

Entendi porque é que as pessoas nos consideravam parecidos, mas estávamos em lugares diferentes. Temos alguns anos de diferença. Eu sabia mais ou menos ao que vinha e o que queria da música. Ele estava a dar os primeiros passos. Nasceu ali uma admiração, que acho que é mútua. Senti que não estava sozinho.

 

É uma coisa muito importante quando se tem essa estranheza.

É muito importante. Sempre disse que é impossível fazer revoluções com um soldado apenas.

 

Quaisquer revoluções?

Exacto. Precisamos de um exército. As revoluções não são feitas por generais. As revoluções são feitas por pessoas que sentem necessidade de mudança. E a mudança tem vários rostos. A minha agenda é diferente da agenda do Nástio, mas elas complementam-se. E aí está a importância de se estar em sintonia e em diálogo com a nossa geração. Com o nosso tempo.

O Nástio tem um sentido de urgência mais apressado que o meu. Desafia, exige de nós. É isso que é importante nas amizades: que nos provoquem.

 

É verdade que as revoluções não se fazem pelos generais. (Generais é uma palavra que tem uma certa conotação, ainda mais quando se fala com um angolano.) Mas precisamos de referências, de mentores. Precisamos de caras que liderem o processo. E aí voltamos a falar de Martin Luther King, Rafael Marques, Rui Tavares, Dries van Noten, Terry Callier. Porque é que aponta estas pessoas, que são agentes da sua revolução pessoal?

O Terry Callier foi a única pessoa a quem pedi um autógrafo. Minto, pedi a uma segunda pessoa, à [poeta-cantora] Ursula Rucker. O Terry Callier é como um herói. A dada altura da sua vida, não sei por que razão, desistiu da música e foi criar a filha. Acho que virou técnico informático. Até ser descoberto pelo Gil Scott Heron, que dizia que toda a gente devia ouvir Terry Callier. Sendo eu estudioso do género spoken word [que é também o de Gil Scott Heron], fui estudar Terry Callier. E tinha razão: toda a gente tem que ouvir Terry Callier. O que Terry Callier me obrigou a fazer foi a reconciliar-me com a minha cultura, com a minha música.

 

Com a cultura negra?

Também. O Terry Callier fez-me voltar a ouvir semba. De repente esbarramos com alguém que nos faz voltar para trás, identificar os pontos, ligar os pontos. O Terry Callier faz-me lembrar Rui Mingas, estranhamente. Aí está o meu segundo cantor favorito, o Rui Mingas. Sou um fã. Não do Mingas político. Ficou conhecido como o embaixador angolano em Portugal. O Mingas músico, o Mingas poeta, tem a mesma importância que um Tom Jobim para os brasileiros. E só tem dois discos.

 

E porquê o Terry Callier e não o Marvin Gaye ou o Stevie Wonder? Se o Terry Callier fosse tão conhecido como o Marvin Gaye ou o Stevie Wonder, gostaria dele da mesma maneira? Estamos a falar do seu interesse pelo que é periférico?

Talvez. Vi o filme Searching for Sugar Man, o documentário que ganhou o Óscar [2012] sobre o Sixto Rodriguez, que gravou dois discos e que desapareceu. Diziam que era tão bom, tão maravilhoso como o Bob Dylan. A profissão dele foi demolir casas, cuidar das filhas da maneira que podia. Uma história incrível. O Terry Callier merecia um filme, uma biografia. O que é que faz um músico desistir? Que mágoa é aquela, e como é que se carrega isso? Quando voltou, estava lá, na sua música, toda aquela dor.

Não sei se era [Fernando] Pessoa ou [Paulo] Leminski [poeta brasileiro] que dizia que admirava as pessoas que carregam uma certa dor, que lhes dá uma certa curvatura de ombros. Torna-nos mais sublimes e mais humanos. Mas também mais deuses. A dor tem essa capacidade.

 

Quem é que personificava, nos seus anos de formação, essa figura simultaneamente curvada pela dor e divina?

O meu avô materno. O meu nome Epalanga é herança do meu avô. Sou Kalaf Epalanga Alfredo Ângelo. Morreu recentemente, com quase 100 anos. Na família ninguém sabe bem a idade dele. A minha bisavó foi registá-lo numa paróquia, o senhor do registo perguntou: “Qual é a idade da criança?”, “Não sei, ele nasceu quando o milho estava dessa altura” [risos].

 

Conte a história do seu avô.

O meu avô decidiu ser padre. Estudou Teologia com os missionários, era a única maneira de se estudar no interior de Angola. Entretanto desistiu. Foi para Catumbela, estudou enfermagem, tornou-se enfermeiro do caminho-de-ferro da Catumbela. Depois, com a revolução, com o início da luta contra o colonialismo, 1961, abraçou o MPLA. Virou político e foi governador de uma vila da Catumbela. Era uma vila super importante, historicamente, que foi promovida a cidade.

Adoptou a doutrina marxista. Nunca mais voltou a pisar uma igreja. Era a pessoa mais honesta que conheci na vida. E todos temos essa referência, na família. Em Angola, uma pessoa ser muito honesta, é mau [risos].

 

Ai é?

Significa que as coisas vão passar por nós e não se vai pegar nada, não se vai ascender na sociedade.

O meu avô queria ser escritor, tinha um diário, que eu herdei.

 

De que é que fala? Dos demónios dentro dele, dos demónios cá fora? De coisas banais?

Da vontade de ser alguém melhor. De conduta. E isto num contexto de guerra. A guerra é terrível, destrói tudo, seca tudo, mesmo que não se esteja na frente de combate. Enquanto vimos essa sociedade a desmoronar-se, a relação humana a desfazer-se, está ali um homem, quase uma ilha, a tentar segurar-se. Essa era a dor dele. Tenho muitas perguntas.

 

Que perguntas é que gostava de lhe fazer?

Como é que conseguiu ser um político num país como aquele. E tentar saber se corrompeu, se foi corrompido, como é que resistiu. Se é que resistiu, não sei.

Depois há a minha avó, mãe da minha mãe, que era uma beata. Ia à igreja todo o dia, de manhã e à tarde. Os dois [avô e avó] eram muito engraçados.

 

Foi educado por eles?

Não, mas eram os pilares. Moravam perto, a 20 quilómetros de onde cresci, que foi em Benguela.

 

Porque é que Epalanga é uma homenagem ao seu avô?

O meu avô, por ser o filho mais velho, por ser muito culto e sensato, sempre foi tido como o soba. O soba é aquela entidade cacique, quase (para usar um termo próximo, via Brasil). Sempre teve essa coisa de conciliar, as pessoas iam pedir-lhe conselhos.

 

Ao perguntar pelo seu avô, estou a perguntar de onde é que vem.

Venho de uma região no sul de Angola, o reino dos Ovimbundos. Tenho uma origem, sou umbundo. O meu avô é do Huambo. O meu pai é da Ganda, já em Benguela mas na fronteira com o Huambo. No sul, nos Ovimbundos, “epalanga” é aquela pessoa que pode ser, ou não, familiar do monarca, mas que, na ausência do monarca, tem as suas funções administrativas. E, mais importante, é um conselheiro. O reino Ovimbundo tinha várias facções. Todas as facções e condados tinham um “epalanga” – um vice-rei. Às vezes, Epalanga virava nome de família. Tenho um primo que também é xará do meu avô.

 

O que é xará?

Aquele que tem o mesmo nome.

 

Como se escreve?

Nunca escrevi essa palavra. Há palavras que às vezes é com X, outras com CH. E às vezes trocamos. Por exemplo, tarrachinha. Nasceu como dança, depois virou género musical. Sub-género da kizomba. É uma dança super, ultra sensual. Os dançarinos não se movem e a mulher tem um movimento no quadril muito lascivo.

 

Todas as danças africanas, sobretudo para um europeu...

... são muito sexuais. Mas falamos de danças de família. Podemos estar num casamento e toda a gente dança daquela forma. Passa pela relação com o corpo.

 

Com que idade, em média, uma pessoa em Angola inicia a vida sexual?

Com 12, 13. Rapazes, essencialmente. Já ouviu falar das catorzinhas? Basicamente é pedofilia. Alguns senhores abastados seduzem adolescentes, de 13, 14 anos, namoram com elas. E isso é “permitido” por todos.

 

É uma coisa que se verifica agora?

Tornou-se um fenómeno, e encontrou-se nome para ele: as catorzinhas. A guerra consegue fazer-nos chegar muito baixo.

 

É uma marca da guerra?

Sem dúvida. Trata-se da miséria que a guerra transporta. Muitas vezes isto acontece nas barbas do pai dessa criança – não é outra coisa senão uma criança. A catorzinha sustenta toda a família. Se se torna namorada de um general, ele vai mimá-la.

 

Estamos a falar, também, de prostituição.

Sim. Eles seduzem essas miúdas. Chegam a ter quatro, cinco namoradas. Têm a esposa, a segunda, que é quase oficial e obrigatório [ter]...

 

A amante principal?

Sim. E têm as namoradas.

 

Disse que a iniciação sexual é cedo. Sobretudo para os rapazes. A transição para a idade adulta faz-se a partir do momento em que se tem uma relação sexual?

Sim. Mas o ritual da circuncisão é também uma passagem.

 

A circuncisão, é com quantos anos?

Varia. Geralmente 12, 13.

 

Aqui, na circuncisão, o menino vai ao médico, o médico faz a circuncisão. Não existe esse rito de passagem. Como é que é lá?

Obviamente não é num contexto urbano, nas cidades vai-se ao médico. Mas se se vive no reino, no interior, a 100 quilómetros, ou 50 da grande cidade, há pessoas que ainda vivem segundo uma tradição, e a circuncisão faz parte. Há uma figura, o xamã ou o curandeiro, alguém que tem essa responsabilidade. Juntam os rapazes, isolam-nos, há uns cânticos, fazem umas danças.

 

O que é que dessa coisa tribal, profunda, aparece na música que faz, na poesia que faz? Ao mesmo tempo, olhamos para si e vemos esta síntese urbana.

Sou totalmente urbano. Mas o meu primo, o Tininho, que foi quem me ensinou a diferenciar o certo do errado, aquela figura com 15 anos mais que eu, ou 20... Fala impecavelmente línguas tradicionais. Se há coisa que lamento é não falar nenhuma língua tradicional. Lembro-me de viajar com ele por Angola: uma bênção. Foi aí que decidi assinar Epalanga e acabar com esse Ângelo para o resto dos meus dias.

 

Houve uma fase em que assinava Kalaf Ângelo.

Encontrei vários epalangas naquela região. Pessoas iguaizinhas a nós, com os mesmos trejeitos, e a falarem outra língua. Sentimo-nos estrangeiros. Entendo, sinto, reconheço, mas está um vidro entre nós. Se existe a coisa tribal em mim é mais por essa ausência, por não conseguir tocar o outro lado.

 

Mesmo não compreendendo o que diziam, havia um reconhecimento mútuo, nos trejeitos.

Sofro dessa coisa terrível que é a saudade do futuro. Estou sempre a ir para a frente. Durante muito tempo, nunca voltei para a terra. Essencialmente sou lisboeta. Agora, a cada regresso a Angola, faço questão de mergulhar em lugares onde nunca pus os pés. Sinto uma religiosidade esquisita. Não é propriamente devota de Jesus Cristo, criador. É tão profundo que não consigo encontrar palavras para dizer exactamente como é que essa espiritualidade está em mim, como é que depois transborda para aquilo que faço.

 

Veio para Lisboa aos 17 anos com o sonho de ser escritor?

Não. Vim com 17 com vontade de pegar um curso muito prático que pudesse aplicar em Angola. No primeiro ano, ano e meio, nem desfiz a mala. A ideia era aprender o que tinha que aprender, voltar e viver a minha vida.

 

Queria fazer o quê?

Gestão. Queria saber como é que as empresas funcionam, queria trabalhar com empresas. Sentia que tinha algum jeito para comércio. Tenho um irmão pintor. Pinta muito bem, talentoso, péssimo a promover-se. Quando éramos miúdos, eu pintava o Bruce Lee, um ícone qualquer do momento, pegava naquilo, ia ao mercado e vendia o quadro. Não demorava lá muito tempo. Depois voltava e tínhamos dinheiro para o gelado, o cinema.

 

Viveram em que condições materiais? Sempre com a noção da privação?

O país estava em guerra e a guerra tem uma omnipresença. Meio que ali a pairar, nunca próxima. Só vi o que era uma cidade a ser atacada e bombardeada em 1992, com as eleições e o retomar da guerra civil. O meu primo Tininho foi militar, foi para a Rússia estudar no curso das forças armadas. Ao mesmo tempo tentava-se viver, ser feliz. Andar de bicicleta, namorar, ouvir música.

 

Os seus pais falavam muito de política, da guerra?

Aí está uma coisa engraçada do meu avô: sempre nos aconselhou, quase de forma violenta, a não nos metermos em política. Mais nenhum membro da nossa família é político. Na nossa família, política não era uma carreira [expectável]. Mas todos têm esse sentido de servir o próximo, é uma família de funcionários públicos.

 

O seu pai é médico.

Sim. A minha mãe trabalhava no Ministério do Trabalho (uma espécie de Segurança Social). Éramos classe média, não uma classe média alta, embora tivéssemos um avô político. Infelizmente o senhor era muito honesto [risos].

 

Volto a lembrar-me do que disse num tom meio irónico: em Angola não se pode ser muito honesto senão não se apanha nada. Pode-se ser meio honesto?

Sim.

 

Está a dizer que é preciso saber escapar entre os pingos da chuva?

Na contracapa do livro O Angolano que Comprou Lisboa (por Metade do Preço), tem uma frase: “Pior que não ter dinheiro, é não ter esquema para remediar a situação”. O esquema: é preciso arte. É preciso ter ginga. Os muito honestos não têm ginga nenhuma e sofrem com isso.

 

O Rafael Marques não tem ginga?

O Rafael tem ginga. Não sei se o Rafael Marques vive confortavelmente. O dinheiro não nos define. Sou a prova disso. Fui educado para trabalhar e ter um salário e pagar contas. Não tenho nada a que possa chamar meu, gasto tudo. Gasto em viagens, é o meu vício. Há, [num plano] inconsciente, essa ideia de servir uma causa maior, de servir algo mais importante. Mas é preciso ginga para viver numa sociedade como aquela. Quando digo ginga não é os esquemas, [num sentido] pejorativo. É uma questão de vida ou de morte. Não há outra forma de sobreviver numa situação tão extrema – tem que se saber virar, mesmo.

 

Ter ginga é sabermos virar-nos.

Sabermos desenvencilhar-nos. Imagine o que é estar numa sociedade onde uma aspirina custa mais do que uma cerveja. É uma sociedade que está constantemente a pôr-nos à prova. É impossível relaxar. É impossível tirar o pé do acelerador. Nem os que estão bem conseguem fazer isso. É uma sociedade que já tem alguns anos de paz mais que ainda não se conseguiu livrar desse fardo.

 

O que vemos são marcas do passado recente?

Na sociedade angolana, hoje, estamos a sofrer as sequelas desses mais de 30 anos de guerra civil. Não houve transição nenhuma, do colonialismo passou-se para a guerra civil. Pela primeira vez as pessoas estão a respirar, a respirar num pós-guerra que é também traumatizante. O mundo à nossa volta não ficou à nossa espera. O mundo não disse: “Reconstruam-se, invistam em cultura, em educação, em saúde, que ficamos aqui à espera”. Não, o mundo chegou lá, e disse: “Queremos petróleo, vamos negociar”.

Não fizemos uma auto-reflexão, não houve uma terapia social de como voltar a construir os pilares da sociedade. Como encarar a questão das catorzinhas, por exemplo. (Quem fosse apanhado, devia ir para a cadeia, ponto!) O que é que as pessoas fazem? Calam-se, anulam-se, escondem-se, curvam-se. Essa questão do Rafael Marques, da liberdade de imprensa, todas as fobias que os nossos dirigentes têm em relação à opinião, o direito à manifestação: tudo isso é herança. Há dez ou 15 anos, resolvia-se isto à bala.

 

De repente, o Dries van Noten, designer belga, parece uma coisa completamente diferente desta de que temos vindo a falar. De todas as coisas de que temos vindo a falar.

Não é. Na essência, é um artista. Acontece que usa o vestuário como tela. Ele é jardineiro. A minha mãe e as minhas tias têm uma relação com flores muito íntima, muito próxima. Há certas flores que dão na mão de uma e não dão na mão de outra. É muito esquisito, mas é verdade.

Quando observo o Dries, há sempre algo mais. É das pessoas mais misteriosas que conheço no mundo do design. O Margiela também é misterioso. Também belga. O Dries tem uma humanidade que só os jardineiros conseguem. Faz-nos reparar em detalhes que não vimos. Até ver os jardins e as flores do Dries, nunca me tinha perguntado porque é que as rosas funcionam com a minha tia Carmo e não funcionam com a minha mãe. E porque é que os lírios funcionam com a minha tia Bia e não funcionam com a tia Carmo.

 

Qual é a sua flor?

Não tenho, vivo em constante movimento. Não posso ter nada em casa.

 

Qual é aquela que gosta de contemplar?

Não sei se se chama assim. Em Angola chamava-se rosa de porcelana. [mostra no Google] É esta. Conhece?

 

 

 Publicado originalmente no Público em 2015

 

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