Anabela Mota Ribeiro

 

Leonardo Da Vinci

Leonardo, o revolucionário, encontrou na corte de Milão, sob o patronato de Ludovico Sforza, o espaço ideal para pensar, explorar, descobrir. O que resta desse período seminal, entre 1482 e 1499, pode ser visto na National Gallery, em Londres. Aviso: a exposição está esgotada até ao último dos seus dias, 5 de Fevereiro. A única hipótese de conseguir uma entrada é fazer fila desde madrugada e conseguir um dos 500 bilhetes que diariamente são disponibilizados. Os bilhetes só podem ser usados nesse dia.

Porque é que é indispensável ver Leonardo Da Vinci, Painter at the Court of Milan? Algumas respostas breves.

Leonardo, o experimentador, estava convencido de que a arte não era apenas um espelho no qual nos podíamos rever. Dominava-o a preocupação com a harmonia, a beleza, a emanação divina, o encontro com o humano naquilo que ele tem de tremendamente humano. Como num desenho no qual são visíveis dois cabelos, isolados, a cair sobre a cara de uma mulher.

Primeiro sintoma de uma revolução que operou: passou dos retratos em perfil, em posição rígida, em que o status daquele que era pintado era dado pela riqueza das sedas e das jóias, para um retrato em que importava a expressão facial, os gestos, a sugestão de movimento, o que isto nos dizia daquela personalidade. O indivíduo, com força e vontade próprias, era eternizado no quadro. Dois exemplos: A Dama com Arminho, para a qual posou a belíssima amante de Sforza, Cecília, então com 16 anos, e a mulher deste, Beatrice, em A Bela Ferronnière.

Nos incontáveis desenhos que acompanham as telas é possível perceber o processo de descoberta, infatigável, tantas vezes interrompido quando a solução foi encontrada, quando ela já é um degrau sobre o qual é possível continuar.

Leonardo, o pintor-filósofo, experimentou uma nova técnica para o fresco da Última Ceia. Usou, entre outros materiais, ovo. Infelizmente o resultado não foi brilhante, e pouco depois as cores deixaram de ser vívidas, apelativas, sensuais. Numa das salas, é possível ver numa fotografia gigante o fresco (que permanece em Milão) nas actuais condições, e no espaço contíguo uma tela imensa que é a melhor amostra disponível do que foi a Última Ceia pintada por Leonardo. É uma peça concretizada por um dos seus discípulos dilectos, incumbido pelo mestre de fazer uma cópia exacta do trabalho. Deste modo, é possível reencontrar hoje essa peça misteriosa, onde o espanto, o horror, a exaltação se encontram nas figuras de Cristo e dos apóstolos.

A exposição da National Gallery proporciona um encontro inédito, e provavelmente irrepetível, entre as duas versões que Leonardo fez para A Virgem nos Rochedos. A primeira foi pintada entre 1483/85 e a segunda entre 1491/92 e 1506/8. As duas telas, uma do Museu do Louvre e outra da National Gallery, aparentemente, são muito semelhantes. Mas quando apresentadas na mesma sala, uma em frente à outra, permitem assinalar diferenças notórias. Na natureza envolvente, na figura de S. João Baptista ou na intensidade das cores. Leonardo nunca as terá visto em conjunto.   

Há quem aponte Salvator Mundi como o grande quadro desta exposição. A restauração recente da tela permitiu perceber muitos dos métodos de trabalho de génio renascentista. O mais surpreendente: na mão de Cristo está uma esfera de cristal – um quartzo – que não era possível esculpir no século XVI pela ausência de ferramentas para esse efeito. Que dizer: Leonardo, o criador, pintou uma forma geométrica que nunca terá visto naquele material.

No total são nem 20 telas (Leonardo pintou muito poucas e terminou ainda menos), muitos desenhos, diferentes formas de uma luta contra a morte e o esquecimento. A arte, para um interpelador como Da Vinci, era uma forma de entendimento, de relação com a beleza e o eterno. O trabalho deste artista plural, que conheceu o seu período mais produtivo e fundador na corte de Milão, é um estímulo que nos deixa na interrogação.

Nota final: quem patrocina a exposição? Quem tem dinheiro para suportar uma exposição com estas características e quer associar a sua imagem a ela? Um banco suíço.  

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2011

 

 

publicado por AMR em 06.02.14

Anabela Mota Ribeiro

Anabela Mota Ribeiro