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Luís Nazaré

O que nos diz de uma pessoa a casa que ela tem? Os amigos com quem se dá. Os encontros e desencontros, as viagens e as portas de chegada. Se usa mocassins ou sapatos de berloque. Se tem uma mulher que veste de forma austera ou que usa vertiginosos saltos altos. Se as filhas estudam no Liceu Francês ou frequentam a escola do bairro. O que nos diz de uma pessoa os filmes que estão ao fundo, a cadeira Corbusier, mas revestida a pele tresmalhada, e não preta e lustrosa. Os recantos por onde entra luz. Um tapete para pousar o rato do computador onde Che Guevara lança um olhar revolucionário.

São várias as vidas, desconexos os pontos da cartografia. É preciso persegui-los de perto para integrar as idiossincrasias deste sujeito. Luís Nazaré, quase 50 anos. Um puto da Damaia que na verdade se sente de Queluz. Um benfiquista que as pessoas do bairro conhecem de ver na televisão. Um assessor de Guterres que não lhe confiaria assuntos do coração. Um bloguista que vem das empresas e que persegue os caminhos de Hemingway em Paris. Um professor que encontra na sua escola a sua casa. Um rapaz que recebia das mãos de Murteira Nabo os presentes de Natal da Marconi e que foi chamado pelo mesmo Murteira para trabalhar na casa, com o curso ainda fresco, fresco.

Luís Nazaré, um homem que sente devoção pelo seu partido (a expressão é dele), como outros sentem pela Virgem Maria (a comparação é minha). Ele afastou-se da religião muito cedo, a Virgem Maria nem é para aqui chamada. Mas é também a propósito da religião que se conclui a conversa e se percebe como a realidade pode ser distinta, consoante a grelha, e aqueles que connosco estão. Deus está nas pequenas coisas? Eis as pequenas e as grandes coisas do gestor que preside aos CTT. Portugal e um tempo, uma geração e um grupo de amigos escrevem-se nas próximas páginas.

 

Quem é que cá em casa vê o Nip/Tuck?

Todos. Um amigo nosso ofereceu-nos o pacote de DVD’s há ano e meio, dizendo-nos que a série é excelente.


É uma série de televisão muito famosa, mas recente em Portugal, passada no mundo da cirurgia plástica. Nesta sala também há Almodovar ou Frank Sinatra. Estas referências podem dizer mais sobre a vida das pessoas desta casa do que os seus dados curriculares…

Os livros, os discos, os DVD’s, os objectos, dizem muito sobre a maneira de ser da família, sem dúvida nenhuma. Temos uma vida muito simples, discreta, com bastante entrosamento com o bairro; conhecemos os comerciantes, as pessoas.

 

O homem do talho daqui do lado cumprimentou-o quando foi nomeado para a presidência dos CTT?

Ah, sim. Conhecem-me por causa das minhas passagens pelo Benfica e dos cargos públicos que vou tendo. A mercearia traz as coisas cá a casa – há essa dimensão – mas Alvalade tem também um certo cosmopolitismo.

 

Continuemos a olhar à volta e tentemos reconstituir quem é a partir destes vestígios...

Tenho uma relação próxima com os objectos, uma relação afectiva. Exuberância, zero. Os poucos objectos que se guardam transportam uma história: como nos cruzámos com eles, como os transportámos para cá. Não sei bem se o prato afectivo é mais forte que o prato racional, mas sou bastante afectivo. Mesmo no dia-a-dia, no exercício da minha actividade profissional, não consigo nunca despir-me do lado dos afectos, da convivência humana. Suponho que não tenho um temperamento completamente poético, nada disso, também tenho um lado racional…

 

Tem uma têmpera que parece ser mais passional, até pela impulsividade com que reage, com que se entrega às situações…

É.

 

Vamos lá à história da sua vida…

A minha família é toda de Santa Maria da Feira. Fui nascer ao Porto, mas vim para Lisboa com um mês, perto disso. O meu pai trabalhava na Marconi. Toda a vida ouvi falar de comunicações à hora do jantar, desde pequenino estou ligado a este mundo das tecnologias. Quer o meu pai, quer a minha mãe (a minha mãe já cá não está), tinham uma forma muito empenhada, apaixonada, temperamental de estar na vida.

 

É filho único. Teve uma infância solitária?

Vou fazer 50 anos a 31 de Dezembro. Vivíamos na Damaia, mas nunca fiz lá vida. As minhas experiências mais antigas e marcantes enquanto jovem foram em Queluz, no antigo Liceu Passos Manuel. Grande parte dos meus amigos de infância são alunos dessa escola. Depois, quando fui para o ISEG passei a ter outros círculos. Sempre pensei que ia ser engenheiro. Tinha, e tenho, uma atracção por coisas manuais, por mecanismos, por perceber como é que as coisas funcionam.

 

Mas não foi engenheiro. Estudou Economia por razões que me disse serem fortuitas. Se as comunicações são o rio principal da sua vida, há correntes que surpreendem. A relação com a palavra é forte – basta lembrar a sua participação no Causa Nossa para notar a sua veia de bloguista e polemista apaixonado. E não sabia que gosta de cantar!

Há também o ensino, no ISEG. São mundos paralelos. Tenho dificuldade em viver num só mundo. Gosto de ir ao encontro das minhas paixões. A escrita e as letras, desde sempre. A minha mãe sempre leu muito, o meu pai também, e escreve.

 

O que é que liam, o que é que lhe davam a ler?

De todo o género, sempre foram muito ecléticos. Os livros são uma inspiração de vida, e são um farol.

 

Caetano Veloso diz/canta que são objectos transcendentes.
São, fazem-nos de alguma maneira transcender.

 

A socialização, na escola ou com os amigos do bairro, fez-se por via do Benfica? O mundo dos livros estava confinado a casa, ao pai e à mãe? São canais diferentes.

Tive uma infância feliz. Andei numa escola da câmara, tive uma excelente professora, da primeira à quarta classe, bases sólidas num tempo em que o ensino não era massificado como é hoje. Quando fui para o liceu, o salto foi enorme. Passei a ter que apanhar o comboio todos os dias, aos nove anos de idade. Adquiri forçosamente uma autonomia maior. A partir dos treze anos, tudo foi diferente. Eu e o meu núcleo de amigos adquirimos alguma consciência política. Comecei a fazer teatro, a interessar-me pela música.

 

Fazia parte daqueles grupos de jovens que tocavam viola e cantavam temas fraternos, muitas vezes associados à paróquia?

Não, nunca. Fiz a catequese como todos os miúdos faziam, mas divorciei-me da religião e da igreja por altura dos treze. Nunca mais regressei. Fiz diversos campos de férias, trabalhei nos verões. Trabalhei em fábricas, distribuí listas telefónicas, fiz inquéritos para as empresas públicas de transportes. Fi-lo sem ser empurrado pelos meus pais, para ter mais uns cobres e arredondar a minha semanada. Desde os 15, 16 anos, até ao fim da faculdade, sempre trabalhei para ter o máximo possível de autonomia.

 

Para que é que o dinheiro lhe servia?

Para as farras com os amigos, para ver concertos, comprar livros, pagar a gasolina, para as minhas viagens de Interrail. Fiz três, conheci a Europa toda.

 

Sempre em grupo. Não parece um filho único, a sua dinâmica é de grupo.

É verdade. Sempre andei acompanhado. Os meus amigos mais antigos são todos oriundos desse fase. Partilhámos emoções, experiências pessoais, experiências políticas, experiências das mais variadas naturezas.

 

Uma festa com os seus amigos, cá em casa, é uma coabitação de camadas distintas! Imaginemos os seus anos. Bom, como cola com o fim de ano, não é só uma festa de aniversário...

Fazem-se sempre no dia 30, com a passagem da meia-noite.

 

Neste sótão onde estamos, coexistem os amigos de Queluz, que são muito diferentes dos amigos do blogue, dos amigos do Benfica, dos amigos da universidade, do mundo empresarial, da política. As suas vidas são estas todas, não é?

Exactamente. Os círculos de amizades que tenho são muito diferentes uns dos outros. É claro que há cruzamentos, que as pessoas depois se vão encontrando e que há capilaridades que se estabelecem.

 

Nunca cortou com um mundo, ou com uma parte da sua vida? Acrescenta sempre?

Nunca cortei.

 

Algum amigo da escola teve um percurso menos bom profissionalmente? O meu dentista dizia-me que foi pôr o carro na oficina e percebeu que o mecânico tinha andado com ele na primária. Tem amigos que pertencem ao um extracto sócio-económico-cultural diferente daquele que hoje tem?

Não tão diferente quanto isso. Felizmente que neste núcleo de amigos de infância todos estão bem, todos têm uma vida sem grandes preocupações.

 

A pergunta subjacente a isto é: o que é que dita a aproximação entre as pessoas?

Em relação aos amigos de infância, é tudo mais fácil. Quando não há zangas, incompatibilidades grandes... porque é que é mais fácil? Porque somos amigos desde o tempo em que não tínhamos casca. Conhecemo-nos sem couraça, sem as cascas que a vida nos vai colocando, uma após outra, ano após ano. Conhecemo-nos no tempo em que éramos o que éramos. Em relação aos outros círculos, são afinidades de diversas naturezas. Pessoais, de temperamento, de empatias particulares que se estabelecem.

 

Pode expor a sua vulnerabilidade mais facilmente a uma pessoa do grupo de Queluz....

Com certeza.

 

...do que ao António Guterres, de quem foi conselheiro?

Claro que sim.

 

Ou seja, não falaria ao Guterres de uma coisa do coração ou do sentimento?

Dificilmente. Não quer dizer que não possamos adquirir intimidades com pessoas que não fazem parte do nosso círculo mais antigo. Por vezes até é conveniente, encontrar alguém que não tem nada a ver com o nosso passado, que não está marcado pelas nossas histórias. São descobertas boas, significam que não ficamos cristalizados num naipe de gente.

 

O seu 11 é diversificado, estamos esclarecidos. Há pouco falou de encontros, de acasos e de escolhas, de circunstâncias fortuitas, que fizeram com que as coisas fossem de determinada maneira. Que outros momentos é que apontaria como essenciais?

Quando decidi ir viver para Paris, princípio de 82. Eu era um miudito, um economista recém-licenciado. Estava na Marconi, onde o meu pai esteve e para onde fui trabalhar.

 

Entrou para a Marconi pela mão do seu pai?

Entrei para a Marconi pela mão do Murteira Nabo, que era o Presidente do Conselho de Administração. O meu pai trabalhou para o Murteira Nabo e o Francisco Murteira Nabo, quando acabei o curso, chamou-me para o Gabinete de Estudos e Planeamento. E fui, com muito prazer. Aí está um amigo que conheço, não desde a tenra idade da escola, mas há muitos anos. Ia receber as prendas de Natal na Marconi, o Murteira Nabo entregou-me alguns, eu era miúdo... É uma pessoa por quem tenho grande estima e apreço.

 

Estava há um ano na Marconi e foi para Paris. Paris foi deslumbrante por causa do cosmopolitismo?

Completamente deslumbrante. Eu vivia em casa dos meus pais, fui para Paris com uma mala, quase como a Linda de Suza, um malão grande. Entretanto casei-me.

 

Lá?

Vim casar-me cá. A minha mulher foi viver e trabalhar para lá. A minha mulher é economista e foi minha colega de curso. Fui viver para o Quartier Latin. Eu tinha uma paixão enorme pelo Hemingway. A sensibilidade, aquele lado heróico, internacionalista, tudo isso me fascinava, e conhecia a história toda do Hemingway em Paris.

 

“Paris É Uma Festa”!

Tinha fixado todo o percurso: onde é que ele vivia, as ruas por onde passava. Demorei mais tempo do que o que seria normal para encontrar um apartamento, [porque] fiz questão que fosse um apartamento [na zona] onde Hemingway vivia! E assim foi: vivia na rue d’École Politechnique, mesmo ao pé do Panteão, num quarto andar, com traves no tecto. Estamos a falar do Quartier Latin genuíno, e não do turístico de Saint Germain. É uma zona verdadeiramente boémia.

 

Com quem é que se dava? Hemingway deu-se com a comunidade intelectual que fervilhava na Paris daquele tempo.

Ele teve uma convivência com o meio intelectual e artístico extraordinária. Ezra Pound e por aí fora. Eu tive uma ligação muito engraçada ao mundo do cinema. Na esquina em frente a casa havia um bar- restaurante chamado La Méthode, onde se batia grande parte do mundo do cinema. Com 25, 26, 27 anos conheci Serge Gainsbourg, a Miou-Miou, a Isabelle Hupert.

 

Quantos anos esteve em Paris?

Seis. Ah, mudou-me muito. A experiência de vida internacional muda-nos muito. Ganhamos mundo. Sair-se deste rectângulo, respirar fora deste rectângulo é muito importante.

 

Apontou o escritor americano como um herói. Aponte um herói português.

Do século XX, muito poucos. Distingo três, um no mundo das letras, dois no mundo da intervenção cívica e política. Pessoa é um herói, só um herói consegue desmultiplicar-se e dar-se a conhecer “in many different ways” como Pessoa fez, e com riqueza, com mundo. No campo da intervenção cívica e política, Mário Soares e Salgueiro Maia.

 

Salgueiro Maia é um ícone de uma geração e de um movimento. Diz-se “os heróis de Abril” e Salgueiro Maia é a personificação disso.

Não por acaso. Do ponto de vista operacional foi um dos mais importantes, senão o mais importante. Depois, pelo despojamento absoluto que revelou em relação às circunstâncias materiais, às recompensas. E pela atitude extremamente discreta, pura. O desencanto por que passou nestes últimos anos… O desencanto que muitos tiveram quando as sequelas de Abril revelaram os lados menos interessantes da esperança que a todos abraçou...

 

Há uma nostalgia da pureza e do equilíbrio nisso que diz?

Claro que sim. E que não regressa mais. A esperança, o brilho nos olhos, a confiança, a atitude de crença num futuro melhor.

 

A “malta” acreditava mesmo em “amanhãs que cantam”…
Acreditava que era possível criar um homem novo. Que era possível criar um sistema, um regime, um país, onde os valores da solidariedade, da participação, da pluralidade fossem determinantes, ficassem inculcados no modo de ser das pessoas em geral. Isso morreu. E é irreversível. Foi uma janela radiosa, de esperança.

 

Como apanhou o 25 de Abril?

Não fui para o liceu, não apanhei o comboio para Queluz, vim para Lisboa com mais dois amigos de infância, estivemos ao pé dos soldados, no Rossio, de metralhadora. Foi uma experiência comovente. Tínhamos já uma consciência política, ouvíamos os álbuns proibidos, do Sérgio Godinho, do Zé Mário [Branco], do Zeca [Afonso], do Adriano [Correia de Oliveira]. Era uma geração. Acabámos por verificar, todos nós, que não há homem novo.


“Mea culpa”, todos se aburguesaram.

Claro que sim. Todos se acondicionaram. Toda a gente delirou, em larga medida por desconhecimento de como as coisas deviam funcionar.


Está a falar do PREC?

Estou, essencialmente. Valia tudo. No 25 de Novembro, no 11 de Março, naquelas datas, tínhamos acabado o Liceu, andávamos no Serviço Cívico. Foi um ano em que se fez pouco, faziam-se umas tarefas aqui e acolá, uns biscates aqui e ali, e no resto do tempo divertíamo-nos. Em Queluz, o nosso liceu era ao lado do Regimento de Infantaria de Queluz, que pertencia ao COPCON. Em pleno estado de sítio, estávamos no quartel, bebíamos cerveja com os militares… Havia uma osmose muito grande.

 

Fazia biscates, mas sabia que o seu futuro era outro: tirar um curso para ter uma situação mais estável, realizar-se profissionalmente. Nunca perdeu o norte?

Nunca. Eu queria prosseguir com a minha formação. A política estava presente na minha vida desde os treze anos, mas nunca em exclusividade. É um dos meus eixos, uma das minhas cordas, como dizia o Pirandello.

 

Tinha o norte bem apontado, é isso?

Era aquilo que eu queria, não por questões de carreira.

 

Não por questões de carreira? É um homem muito novo, Presidente dos CTT, há doze anos era conselheiro do Primeiro-Ministro para a indústria, comércio e turismo. Isto não se faz sem determinação. A carreira é inegavelmente importante, era um foco.

Era um foco. No momento em que rumei para o lado da economia, a economia passou a apaixonar-me. E a gestão das organizações. E fazer coisas. E poder ter uma influência no rumo das coisas.

 

Profissão: gestor. É assim que se vê?

Vejo-me sobretudo como gestor. Gosto de me ver como professor, também, porque é um lado que me completa e apaixona. A escola é uma grande paixão. Há três causas colectivas a que serei sempre fiel: a minha escola, o meu clube e o meu partido. Tenho muito orgulho em ser do ISEG, em ter feito a minha vida no ISEG. O meu clube é uma paixão antiga, e o meu partido é também uma escolha antiga.

 

Em relação ao ISEG, há em si um desejo de retribuição? Como se aquela casa lhe tivesse permitido concretizar a sua vida de uma boa maneira.

Isso faz parte, também.

 

Imagine que cai em desgraça, deixa de trabalhar em empresas públicas ou privadas; ocorre-lhe pensar que lhe resta sempre um lugar, e que esse lugar é a escola?

Penso nisso. Nunca sabemos o que nos pode acontecer. Virar-me-ia sempre, não tenho dúvidas. Já dei muitas voltas, já fiz mudanças radicais de vida, de lugares, de contextos profissionais, mas há algumas, poucas, coisas que são eternas. Uma delas é o sentimento de pertença. E a minha escola, o ISEG é minha casa.


Esse sentimento de pertença, tem-no em relação ao partido? Falo da noção de estarmos integrados num colectivo, de haver um lugar para nós naquele sítio. Não se está à margem, não se é proscrito, não se é abandonado.

Sim. As coisas não se me colocam tanto numa lógica de refúgio, mas numa lógica de partilha de valores e de experiências.

 

É profundamente gregário. Nunca viveu sozinho, (se exceptuarmos esse pequeno período em Paris)?

Não. Mas não tenho dificuldade em estar sozinho. Tenho até, por ventura, uma dose de individualismo superior à que gostaria de ter. Mas sinto-me bem inserido em grupo.

 

Escrevia para o Causa Nossa. É curioso que aquele blogue apanhe pessoas como o Vicente Jorge Silva, o Jorge Wemans, o Luís Osório, o Vital, o Luís Filipe Borges, de mundos e gerações diferentes; mas para quem a palavra é um reduto essencial. Sente-se especialmente agradado por ser admitido num baralho onde é a carta mais inesperada?

Agradado, sobretudo, por fazer parte de um grupo de pessoas que se prezam e são amigas. Juntámo-nos por iniciativa do Vicente, num restaurante no Bairro Alto, para discutir questões de política, de sociedade. O que é que tínhamos em comum?

 

Serem socialistas?

Socialistas inscritos, socialistas não inscritos, malta de fronteira, muita. E havia mais gente do mundo da economia, com profissões mais prosaicas do que o mundo do jornalismo, ou das letras, ou das artes.

 

Há algum preconceito das pessoas das letras em relação aos da economia. Nem todos os gestores citam Pirandello. Por isso perguntava se não sente uma íntima gratificação pelo facto de essas pessoas o reconhecerem como um igual.

Talvez, nunca tinha pensado nisso. Mas hoje os vasos são muito mais comunicantes entre os diversos mundos. Dantes havia os práticos e os teóricos, se quisermos simplificar.

 

Os de escola comercial e os de liceu.

Ora bem. E dentro dos teóricos, a malta das letras e a malta das ciências, das coisas concretas e prosaicas, e a malta das coisas poéticas e intangíveis. Hoje há muito mais “links” e talvez haja um prazer especial, da parte de uns e de outros, de cruzar experiências. Há uma coisa em comum a toda esta malta do Causa Nossa: nenhum de nós é ortodoxo. Somos espíritos muito livres, ninguém nos diz qual é o caminho.

 

Deixou de escrever há cerca de um ano. Porquê?

Não é por falta de tempo, é porque não dá. Quando se está no desempenho de um cargo público… Legalmente, nada me impediria de escrever sobre tudo e mais alguma coisa em formato livre, como fazia no passado; mas é incómodo. Ganhamos algumas inibições. Não no sentido de passarmos a dizer o contrário do que dizíamos, ou de passarmos a ser falsos connosco próprios, mas no sentido em que legitimamente outros diriam: “Por que é que você está a escrever acerca desse tema?”.

 

Não teria a mesma liberdade, para, por exemplar, devastar o engenheiro Sócrates. Vamos imaginar que lhe apetecia zurzir de alto a baixo o Primeiro-ministro: não seria possível.

Nem me apeteceria. Nunca o faria porque seria tremendamente injusto. Mas, se por exercício teórico quisesse destroçar alguém, uma causa, como fiz diversas vezes, hoje não ficaria bem. Então prefiro não escrever.

 

Foi nomeado para a presidência dos CTT por este governo socialista, e é apontado como um “boy”. É uma coisa que o incomoda especialmente?

Por um lado sim, por outro lado não. Sou militante do Partido Socialista desde o dia 2 de Dezembro de 79. Nunca o escondi, nunca o esconderei. Há um ideário no partido socialista e na corrente socialista europeia em que me reconheço, independentemente da expressão prática das políticas. Pertenço a uma força política, mas pertenço enquanto escolha cidadã, nunca tive nenhuma carreira política. O “boy”, no sentido depreciativo que se instalou há uns anos...


É uma expressão do engenheiro Guterres, “no jobs for the boys”.

Nesse sentido do “boy” que necessita que a sua força política ascenda ao poder para que, “boys” e “girls”, enfileirem e arranjem lugares simpáticos, já não é tão agradável. Desse ponto de vista, não corresponde minimamente à trajectória. Eu tenho uma paixão grande pela política, tenho esta devoção pelo Partido Socialista, mas não dependo da política para coisa alguma na minha profissão. Isso permite-me que eu continue a sentir-me um espírito livre.

 

Quando em 95 esteve com Guterres, e mais tarde com Ferro Rodrigues, estava à procura de uma carreira política? Tinha a ambição de ser secretário de Estado, ministro? De ser um líder, no fundo.

Não. Gosto de comandar, por isso gosto de ser gestor. Sinto que posso congregar gente, convocar dinâmicas, e ao longo da vida penso que consegui algumas realizações interessantes. Não só eu: as equipas com que tenho trabalhado. As grandes realizações são colectivas, não há volta a dar-lhe.

 

Nunca quis ser o herói? E estou a associar herói e líder, que são muito diferentes...

Líder, com certeza que sim. Não tenho as qualidades necessárias para ser herói. E os tempos de hoje já não são tão propícios aos heroísmos. A complexidade é muito maior, a difusão, a percepção, os critérios de valorização…, a matriz é muito difusa, veloz, em transformação permanente. O heroísmo exige tempo e estabilidade.

 

Recuperemos o tema dos heróis, para completar o retrato. As estrelas que pontuam o seu mapa, a par dos vestígios e das notas curriculares. O que é que o faz escolher Hemingway ou Mário Soares?

Vou dar-lhe alguns exemplos dos meus heróis. O Tintim. O Corto Maltese. Afonso de Albuquerque. Camões. Camões é um herói absoluto, enquanto português não há outro como Camões.

 

Camões, ainda por cima, teve a dimensão aventurosa de salvar Os Lusíadas a nado. Isso conta para o considerar um herói desse tamanho?
Com certeza. Camões tem tudo: cultura, universalismo, paixão, entrega, um amor extraordinário a Portugal. E sobrevivente. E mal amado. Até nisso.

 

Até nisso? Mas não se sente mal amado, ou sente?

Não, não sinto. Mas a trajectória e a vida de Camões representam bem aquilo que Portugal tem sido desde o seu nascimento. É uma história de sofrimento.

 

O sofrimento e o ser mal amado esculpem o nosso edifício, esses em quem nos transformamos. Para voltar a Caetano, “a dor define a nossa vida toda”. Mas não falou muito da dor ou da perda, falou mais do encontro, da acumulação...

A perda maior que tive na minha vida foi a perda da minha mãe. É uma perda irreparável. Mas não posso dizer que a vida me tenha corrido mal. Tenho alguns momentos desagradáveis, não vou dizer momentos de infelicidade. No liceu, a minha experiência com a disciplina de Religião e Moral é pavorosa. Explica o afastamento que desde muito cedo tive em relação às coisas da religião. Tive o professor mais malfadado, um personagem tenebroso… Era conhecido como o Chico Moralista. Leigo, não era um eclesiástico. Primeiro e segundo ano.

 

Porque é que era tão mau?

Fazia investidas regulares pelas nossas pastas; quem tinha livros de banda desenhada, apanhava uma grande tareia. Era um tirano absoluto, um sádico. Nem sei se vive ainda, nem quero saber. Mas recordar-me-ei toda a vida dessa experiência que não era nem de religião e muitíssimo menos de moral.

 

No filme Má Educação, de Almodovar, jovens eram abusados num quadro de internato – havia, inclusive, abusos sexuais. Quando viu o filme, lembrou-se do Chico Moralista?

Claro que me lembrei. Lembro-me muitas vezes do Chico Moralista. Mas lembro sem rancor, nunca mais voltei a vê-lo, acabou. Mas claro que me lembrei. Mais tarde, no quinto ano, tive um professor de Religião e Moral que a primeira coisa que fez, quando chegou à nossa aula, foi pôr a tocar num gravador de cassetes “Os Vampiros” do Zeca Afonso. Duas ou três aulas depois deu-nos a ouvir o elogio do Fidel ao Che – outro dos meus heróis de juventude.

 

Ainda é?

Sim. O meu “mousepad” é do Che. Tem aquele percurso que sabemos, de genuinidade, de entrega que seduz, de uma forma desinteressada, pese embora os muitos erros, as muitas loucuras. Mas ninguém é perfeito e o mundo é feito dessa vontade.

 

Dois professores distintos. Duas realidades para a mesma disciplina de Religião e Moral. Como a vida?

A realidade parece-nos uma ou outra completamente oposta, consoante o filtro, os óculos que temos, e acima de tudo, consoante aqueles que estão connosco mão na mão, que nos conduzem e ensinam a ver.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Março de 2007

 

 

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