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Luís Sáragga Leal

Terça-feira de manhã, talvez demasiado cedo. Se o encontrasse à noite, por alturas de um magnífico sauterne, provavelmente a conversa seria outra. Mesmo assim, ele pediu um divã, a dada altura, e esperneou face às minhas investidas. Esperneou o suficiente, de modo a parecer decente e humilde, e não parecer nunca deselegante.

Faço uma óbvia associação (livre) com uma palavra cuja fonética se aproxima: galante. Luís Sáragga Leal é um homem galante. Pratica o estilo dos príncipes florentinos, de voz macia e olhos azuis, sempre arredados do sangue e da têmpera napolitana.

Numa manhã, a seco, depois de noites de sono curto, ele não estava disposto a embriagar-se num registo confessional. E eu percebi que mesmo com uma boa mesa e as estrelas por companhia, o cavalheiro nunca passaria determinadas marcas. Um gentleman.

Nós já nos conhecíamos e sabíamos ter em comum a paixão pelas artes plásticas. Quando falámos ao telefone, semanas antes, e já depois de eu ter pedido a entrevista, ele quis estar seguro de isto não ser um inquérito de Verão. Escusou-se delicadamente, sempre maximamente delicadamente, a abordagens mais intrusivas ao seu percurso. Apontámos uma data, uma manhã, madrugadora... Falámos do pai que foi juiz e depois advogado, dos livros do Perry Mason e do Dostoievski que marcaram as tardes da adolescência, do Sartre e do Camus que influenciaram a sua geração, do amigo António Maria Pereira com quem fundou o maior escritório de advogados do país, nos anos 60. Falámos das senhoras que ele procura quando chega a uma sala. E nem por uma vez falou da sua mãe. Falámos dos passos no tabuleiro que o fizeram ser quem é.

É o único advogado que eu conheço que tem no escritório peças de Joana Vasconcelos, Pedro Proença ou Daniel Blaufuks. Como já se disse, tem olhos azuis. Comecei por tentar saber de onde vinham...

 

Podemos começar pelo seu apelido? Vem de onde? Traz com ele uma história? Condicionou a sua história?

A história que me foi contada, vagamente romanceada, é que havia uma tribo do senhor Sáragga, do Norte de África, que se dedicava à pastorícia e que tinha gado, o que era sinal de fortuna nessa altura. Tudo se passa no princípio do século XVIII. Portugal tinha um défice alimentar e o senhor Sáragga forneceu carne ao reino, por altura das lutas liberais. Mas, como já era habitual, Portugal não só dependia alimentarmente do estrangeiro como também tinha carências financeiras; e o filho desse primeiro Sáragga terá ido a Londres negociar os financiamentos para o fornecimento de carne à coroa portuguesa. E aí terá encontrado a filha de um banqueiro... Desta conjugação comercial e financeira terá nascido a primeira família Sáragga em Portugal.

 

Em todos os enredos, atravessando as grandes decisões, encontramos sempre “la petite histoire”...

Não me preocupo muito com a genealogia. Tenho mais a ver, talvez, com o aspecto nómada do Norte de África - estou mesmo a vê-lo, o Sáragga, se calhar poligâmico... - , do que tenho a ver com o outro ramo da família, instalado em Londres, mais financeiro, cheio de rigores. Esse lado é muito dominante noutras pessoas da família, mas em mim não.


Ainda que a sua área preferencial, enquanto advogado, seja a financeira.

Sim, é o direito dos negócios. Gosto mais de dizer em inglês. Em Portugal “negócios” é uma palavra que está um bocadinho desvalorizada. Quase que se associa a negociatas. Mas é a minha área de actividade, o “business law”, e isso comporta o direito financeiro, os grandes projectos.

 

E a história prossegue, a partir desse cruzamento em Londres?

O jovem casal instala-se em Portugal e a família remonta a essa altura. Depois, há um elemento da família que é associado ao grupo dos Vencidos da Vida, das Conferências do Casino: o Salomão Sáragga, que foi colega do Eça e dessa geração. Não há muito mais, que eu saiba, laços artísticos na família.

 

Este intróito levanta duas questões: o que faz com que as pessoas se distingam e fiquem? Porque apontando com anos de distância, destaca apenas esses nomes e não outros. E depois, perceber que expectativa há em relação às gerações vindouras. Voltando à minha pergunta inicial, como é que isso condicionou a sua vida?

A minha vida foi determinada por factores muito mais recentes, e não tanto pelos meus antepassados, se é que essa história se confirma. A minha opção pelo Direito surgiu com alguma naturalidade porque o meu pai era juiz, e mais tarde foi advogado, já eu era também advogado. Portanto, sou advogado há mais tempo que o meu pai!

 

O que é que o fez abandonar a magistratura? Não é um percurso muito comum...

Não, não é, mas não foi um salto directo da magistratura para a advocacia, entre uma e outra teve funções políticas. Foi uma influência não só do meu pai, mas também da biblioteca jurídica que existia lá em casa. Sempre gostei muito de ler. Lia o que estava à mão e nessa altura li mais boletins do Ministério da Justiça do que, depois, na minha vida profissional. Tenho-me perguntado muitas vezes o que é que teria sido se não tivesse sido advogado. E certamente teria sido qualquer coisa no sector das artes. Talvez arquitecto. Tenho jeito e tenho alguma experiência a fazer e a desfazer casas. Mas nas artes plásticas sou bastante mais apreciativo do que activo. E nas grandes paixões da vida as pessoas não podem ser só contemplativas, têm que ser activas.


Se daqui a 50 anos eu falar com um Sáragga, ele pode referir-se a si, sobretudo, como alguém que investiu em arte? Alguém que tinha com a arte uma relação contemplativa e de fruição.

Hoje tudo é muito efémero. Vivemos numa sociedade de imensa informação e a triagem do tempo vai deixar tudo em cinzas. Não estou convencido que daqui a 50 anos eu seja recordado pelo que fiz. Se tivesse que resumir a minha vida hoje diria que tive um percurso profissional intenso. Contribuí para o nascimento de um dos primeiros escritórios organizados em Portugal e que continua a ser um escritório líder. Embora tenha começado só com o António Maria Pereira, agora somos mais de 200. A minha matriz profissional é muito mais a de um advogado em prática isolada do que a de um sócio de uma grande sociedade. Mas enfim, a evolução foi essa.

 

Perguntei pelo que fica de uma pessoa, de como a evocam. Do que me fala é do que o distingue profissionalmente, da capacidade de construir de raiz uma coisa que perdura e que, passados 40 anos, é líder. É uma coisa de que se sente especialmente orgulhoso?

Sinto. Neste momento as sociedades de advogados estão envoltas numa grande polémica. É um período de transição em que cada vez mais é notória uma distinção - espero que não venha a ser uma fractura -, entre uma forma mais tradicional de exercer a advocacia, e foi assim que eu comecei, e a forma organizativa como essa profissão é hoje exercida, que é a forma societária. Mas a raiz tem que ser a mesma: a advocacia. Mas o que me motiva mais é a minha relação com as artes, que sempre existiu, mas que esteve adormecida ou desvalorizada. A minha vida profissional condicionou toda a outra minha vida: a vida familiar, a vida afectiva, inclusivamente a relação com os amigos. Hoje condiciona-me menos...

 

Que idade tem?

Se esta entrevista tivesse sido feita antes do dia 23 de Junho eu tinha 50 e tal anos... Fiz 60 agora.

 

Ter 60 anos, um número redondo, fá-lo fazer contas com a vida?

A vida é um privilégio, é um dom que recebemos e devíamos desfrutá-la da maneira mais intensa possível. E estou sempre a fazer um balanço da minha vida.

 

É isso que o faz recomeçar abundantes vezes? Há bocadinho estava a dizer que tinha uma grande experiência em fazer e desfazer casas. Estava a referir-se a experiências afectivas ou a uma interrogação sistemática e implacável à nossa vida?

Eu gosto bastante mais de ir para qualquer lado do que estar em qualquer lado. Quando realizo um projecto, esse projecto, normalmente, deixa de ter interesse. Gosto muito mais de ter desafios e de sentir que estou em evolução, em direcção a qualquer coisa, do que a noção de que já lá cheguei e que estou instalado confortavelmente nessa situação. Isto é verdade quer em termos profissionais, quer em termos afectivos. Sou muito mais uma pessoa que busca a felicidade do que vive em felicidade.

 

Não ouvi bem: vive a infelicidade?

Vivo em felicidade. A infelicidade, não sou capaz.

 

E sabe porquê? A maior parte das pessoas, paradoxalmente, vive numa relativa infelicidade sem ser capaz de romper com isso.

As pessoas procuram situações cómodas, definidas, estáveis. Gostam de estar. Eu gosto de me questionar, gosto de me desafiar, gosto de ir à procura, nem sempre tendo a certeza se encontro ou não. Esta atitude é talvez da minha maneira de ser. Amigas minhas dizem que sou um ansioso, um inquieto, estou sempre em busca de qualquer coisa.

 

É um “buscador”.

Um “buscador”, não sei se a palavra existe [nota: existe sim, segundo o dicionário Aurélio]. Sou certamente uma pessoa inquieta e por isso estou sempre a fazer uma avaliação do que foi o meu percurso em todos os sectores. Se fiz uma boa gestão do meu tempo, como é que posso melhorar essa gestão amanhã. Sempre me angustiaram as horas perdidas, as horas em que não se faz nada. Porque essas horas que se vivem pouco intensamente já não são transferíveis para um dia futuro. É um pouco como os lugares dos aviões: ou se vendem ou não podem ficar em stock para ser revendidos noutra altura. Eu tenho que saber o que vou fazer para merecer estar vivo.

 

Deixe-me ir ainda mais fundo e interrogar essa urgência.

Um divã, já! Eu que nunca fui a um psicanalista estou quase a ser psicanalisado...

 

Não foi? Com tanta ansiedade...

Todos nós fazemos psicanálise, ao conversarmos...

 

A psicanálise é mais impiedosa e feita com alguém que é neutro.

Por isso é que lhe estou a dizer: está a começar a fazer-me aqui psicanálise.

 

Eu estava a tentar saber da urgência. O que descreve é uma urgência em viver, em estar intimamente com a vida.

Vamos agora dar explicações em relação a uma área que nos une: as artes plásticas. Tenho uma grande paixão, é talvez a mais constante ao longo da vida, pelas artes plásticas. Mesmo nesse sector, e agora que tenho mais disponibilidade e tempo, passo a vida a querer ir mais além. Dando-lhe um exemplo: o trabalho da Fundação [PLMJ]. Começámos com um projecto pouco ambicioso quando mudámos para este escritório, e que foi encontrar algum acontecimento que celebrasse 30 anos de vida da sociedade. Convenci os meus sócios que a melhor forma era fazer uma exposição. Como tenho boas relações com galerias e pintores, consegui reunir cerca 180 obras de 80 artistas diferentes, que deram um panorama da produção artística nacional dos anos 80 até à actualidade.

 

Porque é que se concentraram nesse período?

Porque para trás as obras são mais raras, difíceis de encontrar, e essa raridade e dificuldade transformam-se num outro óbice, o financeiro. Foi assim que lançámos a base da nossa colecção, há quase dez anos. Começou com cerca de 40 obras, e desde então tenho perseguido esse projecto que levou à constituição da Fundação. Hoje temos uma colecção de pintura que vai-se aproximando a 200 obras de pintura, 50 obras de escultura e, mais recentemente, a colecção de fotografia.

 

Da paixão pela pintura, passou para a fotografia. O vosso acervo fotográfico é especialmente notado.

Eu não estava desperto para a fotografia e fui provocado por dois amigos, críticos de arte, “você já sabe alguma coisa de pintura, devia agora dispor-se à fotografia”. Foi um desafio. Comprei os livros, assinei as revistas, comecei a ir a exposições.

 

Quando falámos há semanas para marcar esta entrevista, disse-me que ia a Barcelona e eu sugeri-lhe a exposição da Diane Arbus que aí se pode ver. Foi? É só para saber o que faz do que lhe dizem...

Fui. A fotografia foi uma paixão avassaladora. As paixões também se vivem desta maneira, o último pensamento antes de adormecermos e dos primeiros quando acordamos. Permitiu-me constituir o que é hoje, talvez, a colecção antológica mais representativa da fotografia portuguesa, dos anos 40/50 até à actualidade. Temos neste momento em acervo mais de 600 fotografias, representando mais de 150 artistas nacionais. Pode parecer fácil, mas para quem numa fase já adiantada da sua vida abre os olhos para a fotografia, é um esforço importante de aprendizagem, de selectividade. Comprar a eito não tem graça, é preciso comprar com critério.

 

De facto, era mais certo fixar-se no Caravaggio e nas referências clássicas. É menos previsível que uma pessoa com o seu estatuto social se interesse por jovens artistas que vivem em Berlim num contexto mais ou menos comunitário. Mas tergiversámos, onde nós estávamos era na sua interrogação e interpelação à vida...

Mas foi intencional!, ainda não acabei. Deixe-me falar-lhe da minha nova paixão, que é o vídeo. Se a fotografia foi a forma de expressão plástica por excelência do fim do século XX, o vídeo vai ser a forma de expressão plástica do princípio do século XXI. A fotografia deu um grande salto com as novas tecnologias. Pode-se gostar muito de Fernando Lemos, que está nesta sala, e de todos os que estiveram na exposição Em Foco (pioneiros que usavam o negativo a preto e branco, em suporte analógico, e máquinas com limitações do ponto de vista mecânico). Mas nesta mesma sala, no extremo oposto, temos uma fotografia da Rita Sobral Campos que não era possível, pelas suas dimensões e características, há 20 anos. Se há seis, oito anos, assisti à erupção da fotografia nas principais mostras, diria que mais de 50% das peças apresentadas na última Bienal de Veneza, a mais vanguardista das mostras, era vídeo.

 

Como é que se sente nesses ambientes? Como é que um senhor advogado, e dito desta maneira não estou a envelhecê-lo, estou só a sublinhar o seu porte, se sente em Veneza ou em Basel?

Tenho uma personalidade multifacetada, está-me a ver aqui às dez da manhã, de fato azul escuro, gravatinha, na minha faceta de advogado. Se me encontrasse em Veneza ou em Basel encontrar-me-ia de jeans, t-shirt, com outro semblante. Quando se vai a estes sítios vai-se para tentar perceber, para fazer uma reciclagem visual do que está a ser feito.

 

Vamos imaginar que a sua vida é posta em exposição. Há diferentes maneiras de organizar esta exposição: cronologicamente, tematicamente, geograficamente, ou até conjugalmente. Como seria a sua?

A minha vida não seria tanto em fases... A minha vida, se hoje a quisesse caracterizar, é mais pela ideia de esforço. Tenho uma forte componente profissional, como já lhe disse. Outra constante têm sido as amizades e os afectos. Sou extremamente afectivo, sentimental, cultivo imenso as amizades, sobretudo as femininas.

 

No fundo, no fundo, tem um certo prazer nisso...

Tenho. Não posso agora negar o meu percurso de vida... A terceira [ideia dominante] é a dos desafios e riscos. Gosto de me desafiar permanentemente, em todos os sectores, mesmo profissionalmente. Não quero estar a fazer hoje o que aprendi há cinco anos - isso está feito e dominado. Era talvez mais cómodo, e até mais rentável, mas não era estimulante.

 

Percebo que o seu caminho é mais um contínuo do que uma divisão em diferentes compartimentos, diferentes salas de exposição. Mas ainda não percebi o que é que o faz correr.

Eu também não lhe disse que corria. Disse-lhe que estava num percurso. Às vezes num passo mais acelerado, quando tenho objectivos mais determinados para atingir. Não procuro a notoriedade, sou uma pessoa discreta. Profissionalmente posso orgulhar-me do passado que tive, embora espere ter ainda futuro. E nas outras eleições, também não me desgosta o que vejo e estou convicto que vou ter outros desafios.

 

Não se sente, apesar dos 60 anos, acabado. Estaria sempre pronto para começar de novo, amanhã?

Tem sido uma pergunta que me tenho posto. Se ainda tenho tempo para ter um grande desafio pela frente. E não sei. Não sei responder porque esse desafio ainda não apareceu. Mas se esse desafio aparecer, vou com certeza encontrar a vida para o viver.

 

Gostava que aparecesse?

Gostava. Não me vejo nada com vida de reformado, com pequenos hobbies, a fazer colecções. Gosto imenso de viajar, de agarrar o ritmo, o estilo do sítio para onde vou; e não ir com a pele de europeu, a máquina fotográfica... Procuro muito mais sensações do que imagens fotográficas. Não tenho álbuns de fotografia.

 

Parece procurar a espessura de uma personagem de romance, de um protagonista. Cada um de nós identifica-se sempre com o herói, e tanto melhor e mais fácil a identificação se ele tiver fraquezas, vulnerabilidades.

A maior parte das pessoas gostava de personificar um ideal, e muitas vezes vive em função desse arquétipo, que construiu e que quer deixar a alguém. Não vivo em função disso. Não tenho nenhum ideal que gostaria de ter sido ou de ser. Como também não tenho heróis. Se me perguntasse quem é a pessoa que mais admiro, teria alguma dificuldade em apontar.

 

Mas é uma boa questão, essa.

Não consigo dizer. Teria que ir buscar bocadinhos de 100 pessoas e era difícil explicar qual era o bocadinho que ia buscar a cada uma delas. Vou vivendo em funções dos estímulos, das paixões.


Estava a lembrar-me de Ulisses. As pessoas têm a ideia de que regressa para Penélope, que esperou por ele 20 anos, fazendo e desfazendo a teia. Mas a verdade é que depois do reencontro com a mulher, Ulisses vai ao encontro da casa da sua infância, a casa do seu pai. É uma coisa comoventíssima. Posta em linguagem de Verão, faz perguntar a que casa queremos voltar?, a que pessoa queremos agradar?

Não tenho os heróis com quem me procuro identificar, não tenho esses referenciais passados, não tenho uma imagem que queria construir para impressionar a, b ou c. E sobretudo para impressionar terceiros indeterminados.

 

Não estou a falar de impressionar a opinião pública, mas um ser concreto.

Neste momento estou estimuladíssimo a tentar impressioná-la a si.

 

Porquê? Por que é que a minha opinião lhe interessa?

Porque estamos a conversar. Não tenho essa vontade de ser reconhecido e consagrado.

 

Isso já é.

Não disse em pequenino: “Quero ser advogado, muito famoso e fazer um escritório”. Foi-me acontecendo na vida.

 

Para além da leitura dos boletins do seu pai, leu nas intermináveis tardes de Verão o Doistoievski?

Li.

 

Isso sim, marca um indivíduo.
Marca, marca de uma maneira mais intelectual. Pensei que me ia falar do Perry Mason. Eu lia indiscriminadamente. A minha geração foi influenciada pelo Sartre, pela Simone de Beauvoir, Camus, “O Mito de Sísifo”...

 

“O Mito de Sísifo”? Faz sentido...

Estou sempre a começar. Estou a empurrar a pedra pela montanha acima e quando lá chego, acho que não já não há mais montanha. Provavelmente, não consigo aguentar a pedra quando não há um objectivo para a fazer rolar, e deixo-a cair. Identifico-me bastante com essa imagem do mito de Sísifo. É uma maneira de dizer que na minha opção como advogado, no extremo oposto dos existencialistas e dos nihilistas, (o Nietzsche também me marcou nos primeiros anos), marcaram-me os livros do Perry Mason, que é uma coisa bastante prosaica. Esta imagem do advogado, que à última da hora resolve todos os problemas, fascinou-me.

 

O que é que o fascinava, exactamente? Resolver todos os problemas? Desvendar a intriga? É que são duas coisas, embora estejam muitas vezes ligadas.

O que é aliciante na advocacia, além de descobrir a verdade, mas isso é mais para quem faz processo penal, é que é um jogo de inteligência e de estratégia. São duas características do xadrez. A advocacia, para mim, é a aplicação deste princípio fundamental do xadrez: a definição de uma estratégia para atingir um objectivo. O objectivo é ganhar o rei. Gosto mais do objectivo de conquistar a dama, mas enfim, no xadrez é o rei...

 

E isso serve para quê? O que é que se ganha quando se conquista a dama ou rei?

Já sei que estava a pensar que é o dinheiro. Não é.

 

Nem por sombras. Tenho a convicção de que o dinheiro interessa pouco, ultrapassado um determinado patamar.

Não me acrescenta. Acrescenta-me realmente o gozo profissional de ser bem sucedido. Embora não seja daqueles fundamentalistas que tentam impor-se de uma forma impositiva aos colegas e à parte contrária. Prefiro ganhar com elegância, com subtileza, do que com estrondo e sangue. Sobretudo numa negociação, quando se começa a fazer sangue, dificilmente se é bem-sucedido.

 

Essa questão da elegância é importante, não é?

É, muito importante. Na advocacia e em tudo na vida.

 

Sentiria embaraço, ou mesmo vergonha, se a situação resvalasse para o sangue e se tornasse deselegante?

Prefiro não o fazer.

 

Tem sentimentos de culpa?

Tenho, em relação a todas as pessoas que me rodeiam, que de uma maneira ou de outra dependem de mim ou com quem me cruzo na vida.

 

Esta pergunta pode parecer extemporânea, mas estava a pensar que toda esta conversa é demasiado olhos azuis... Tem de haver aqui um bocadinho de sangue. E o sangue, ou essa parte mais vulnerável, talvez passe pela culpa.

Todos nós nos cruzamos na vida, profissional, afectiva e outras, e a quem numas agradamos a outras desagradamos. Sou capaz de ser determinado na busca da felicidade. Mas a busca da felicidade quando é desnecessária e abusivamente feita à custa da felicidade de outra pessoa, é diminuída. Tenho alguma preocupação com o desgosto, com o desconforto que provoco nas outras pessoas e, na vida profissional, com o sentimento de derrota ou insucesso que inflijo às outras pessoas.

 

Quis ser magnânimo?

Quer-me apanhar... “Faz aos outros aquilo que gostas ou gostaste que te tivessem feito a ti”. A prática neste escritório, e posso orgulhar-me de ter sido eu a inspirá-la, é que, se eu ambicionei e consegui ser sócio deste escritório, todas as pessoas que aqui entram, desde os mais jovens, até os estagiários, podem também ambicionar a ser sócios.

 

O que é que isso na prática quer dizer?

Somos o escritório que tem o maior número de sócios e de chamados associados seniores ou de júnior partners, em que há uma maior democracia. Temos a preocupação constante que um advogado, por muito jovem que seja, não se proletarize, não passe a ser um prestador de serviços jurídicos. Que seja um advogado com as mesmas características, com a mesma matriz que seria se estivesse sozinho.

 

Quer falar-me desse encontro, que imagino determinante, com o António Maria Pereira?

Foi determinante, muito determinante. E já deu para perceber, como sou um afectivo, que reconheço o valor dos outros e os contributos que tiveram para a minha vida. O António Maria teve um grande contributo. Comecei a trabalhar com ele mesmo antes de me formar, tinha acabado o meu terceiro ano. À tarde. Aproveitei essa oportunidade que ele me deu intensamente.

 

Que expectativas tinha? Que tipo de advogado queria ser?

Não tinha qualquer expectativa. Em Portugal não havia sociedades de advogados nessa altura. O António Maria trabalhava sozinho e criou-se uma empatia e uma amizade extraordinária entre nós, apesar de ele ser mais velho do que eu. Foi estruturante na minha maneira de ser, no meu estilo profissional, também. Acho que foi da conjugação, entre aquilo que ele me deixou fazer, o meu empenhamento em fazer, e, se calhar, a capacidade para ir fazendo, que resultou o sucesso deste escritório.

 

Quando foi trabalhar com o António Maria Pereira, ainda estudante, era porque queria aprender?, porque se queria independentizar?, porque queria ganhar dinheiro?

Era tudo isso, resumiu bem. Tinha uma curiosidade imensa. Estava a investir cinco anos da minha vida a tirar um curso e queria saber para que é que ele servia, o que é que iria fazer depois desses cinco anos. A maior parte das pessoas hoje, os jovens, não têm essa curiosidade – o que é que vão fazer da sua vida.

 

Mas sabia o que ia fazer à sua vida?

Estava perfeitamente determinado a ser advogado. O direito é um gosto, foi uma escolha, da qual não estou arrependido. Sabia que queria ser advogado, mas não sabia o que era ser advogado. A minha influência ainda era um bocadinho o Dostoievski, por um lado, e o Perry Manson, por outro. Quando comecei a ver os primeiros julgamentos, com o António Maria e outros colegas, é que comecei a ver como é que era a vida de advogado. A influência do António Maria foi muito grande, não só por aquilo que me ensinou mas também por aquilo que me permitiu aprender.

 

Está a sublinhar a diferença entre aprender e ser ensinado porquê?

Na vida é muito mais importante o que aprendemos do que o que nos ensinam. Aquilo que nos ensinam acaba por passar muito mais depressa do que aquilo que aprendemos com as nossas próprias dificuldades.

 

Vamos imaginar que isto é uma sala de refeições e não uma sala de reuniões. Se não conhecesse os outros comensais, de que é que falaria com eles? As obras de arte são sempre um bom tópico, especialmente para começar a conversa... Nesta sala há algumas peças maravilhosas. Botelho, ao fundo, ou Fernando Lemos e Rita Sobral Campos a que já fez referência.

Primeiro, faria uma selecção com quem é que iria falar. Muito provavelmente, se estivessem senhoras, faria essa primeira selecção. Tenho muito mais empatia com as mulheres do que com os homens. Depois, procuraria a linguagem do olhar. As pessoas que não conseguem suportar um olhar, que não dialogam com os olhos, interessam-me menos. Feitas estas duas limitações, ou exclusões, o tema poderia passar pela arte. Mas poderia passar por perguntar qual a razão de estar nesta sala, qual a razão que nos fez estar juntos hoje. Quando se põem problemas abstractos suscitam-se respostas mais imaginativas e criativas. Quando se fala sobre coisas evidentes e concretas, como o quadro e a fotografias, as pessoas ficam limitadas à partida sobre a resposta que vão dar.

 

As perguntas mais abstractas suscitam respostas criativas, de acordo. Mas também é certo que as perguntas simples, como “é feliz ou infeliz?”, provocam no outro um desconcerto incrível.

Esta conversa já foi elucidativa. Disse coisas que normalmente não diria...


Sente-se desconfortável de as ter dito?

Não, prefiro uma conversa deste tipo aos inquéritos de verão, “qual é o seu restaurante favorito?, qual é a sua cidade e o livro que está a ler?”.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2006

 

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