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Luísa Schmidt

Luísa Schmidt é socióloga do Instituto de Ciências Sociais. Doutorou-se em Sociologia da Comunicação e do Ambiente. Colabora no semanário Expresso, onde assina uma coluna ligada ao tema.

No jornalismo aprecia a capacidade de intervenção rápida, «É o pontapé na porta». A investigação sociológica permite-lhe perceber como é que as coisas se organizam e funcionam, «Como é que o quarto se arruma?».

Faz parte da equipa de investigadores que montaram o OBSERVA - Observatório Permanente de  Ambiente, Sociedade e Opinião Pública, onde desenvolve projectos de investigação que articulam ciências sociais e ambiente.

Neste início de 2003 vai receber das mãos de Kofi Annan um prémio «pela sua extraordinária dedicação aos assuntos ambientais em Portugal».

 

Como representaria a relação de Portugal com a questão ambiental?

O desenvolvimento que o país teve caracterizou-se pelo modelo ruralista. Enquanto a Europa se desenvolvia, mantinhamo-nos auto-centrados. Uma das compensações para o nosso atraso era a beleza das nossas paisagens. O 25 de Abril não alterou muito este modelo. Os valores que surgiram eram políticos. Isto gerou um alheamento em relação às questões ambientais. No virar da década de 80, entrámos no comboio da economia de mercado e na euforia consumista. As lojas, o rock, os produtos de vários países do mundo, a imprensa. O lixo, por exemplo, é um dos resultados mais perversos do consumismo. Cresceu exponencialmente e não se falou disso durante 20 anos. Interessou muito mais acertar o passo pela Europa do ponto de vista da economia do que ter atenção ao modelo para o qual se estava a caminhar. 

 

A temática do ambiente há 20 anos seria olhada como despicienda, havia problemas mais urgentes a resolver.

Quando as pessoas acordaram, nos anos 90... Por um lado, tínhamos algumas condições asseguradas, podíamos olhar para esta. Por outro, as condições degradaram-se muito, e isso começou a sentir-se no quotidiano.

 

É aí que começamos a ripostar, quando a factura começa a ser paga no quotidiano?

Exactamente. Afinal, temos casas porreiras, mas temos uma lixeira à porta, ou uma fábrica que nos atira com fumo para cima. As pessoas ressentem-se. No interior é o esquecimento que os revolta, político e ambiental. É interessante verificar como muitos boicotes às eleições nos anos 90 foram por questões ambientais: o saneamento básico, a água que não vinha, a lixeira que não era fechada. Nos mega subúrbios as condições de vida são desumanas. Passa-se três, quatro, cinco horas por dia nos transportes, e além disso, leva-se com fumo, com buracos na rua, com um desleixo que o país tem.

 

Mas só ao cabo de muito tempo se percebem os efeitos nocivos do fumo e do desgaste da vida urbana. Não há consciência imediata disto.

As pessoas vivem um bocadinho anestesiadas. Estamos a crescer de uma maneira muito irracional. As nossas exigências são europeias e aquilo que temos à mão para conseguir cumprir é terceiro-mundista – os transportes, as comunicações, os serviços. Toda a organização tem um modelo obsoleto. A sociedade portuguesa não conseguiu dar o salto do ponto de vista administrativo, do ponto de vista da economia sustentável.

 

O caso das vacas loucas é interessante de ser analisado. O resultado de uma má alimentação é mais rapidamente visível. As implicações da qualidade da água e do ar não são flagrantes no imediato.

O que faz mover as pessoas e mais as preocupa é a questão da saúde articulada ao ambiente. É aquilo que as faz mudar. Depois, também há o efeito do esquecimento, que é tremendo num país que não vai sendo informado. Não temos estruturas de fiscalização ao nível alimentar suficientes, não sabemos a qualidade do que entra cá. Houve o boom, abriu-se o país... Lá está, a reforma administrativa. Era importante reforçar tudo o que diz respeito à fiscalização, controlo e regulação.

 

Mas não fiscalizamos e não reclamamos porquê? São ainda resquícios do tempo em que não tínhamos nada?

Este país sofre de uma falta de estratégia grave. A única maneira de se dar um salto consistente era fazer um pacto de regime sobre algumas áreas: a reforma administrativa, a educação, o ambiente. E viesse quem viesse em termos partidários, aquilo eram objectivos, estavam definidos e acabou-se. Espanha fez isso, Irlanda fez isso, e agora vêem-se os resultados. Cá, vêm uns e mudam, e não só mudam como apagam toda a memória e o que estava feito.

 

Na cultura também. Curiosamente uma e outra são olhadas em termos políticos como secundárias. E quando é preciso poupar, é por aí que se começa.

Mas é o futuro. Não se investe em sectores que podem trazer futuro a um país que não tem recursos. O Ambiente, a Cultura, a Ciência. Este país tem sol, tem uns sítios bonitos que estão a ser estragados, e pouco mais. Portanto, é investir nas pessoas, é dar-lhes formação.

 

Os políticos têm uma relação difícil com o ambiente. As soluções, como são estruturais, não produzem resultados imediatos, são impopulares, não granjeiam votos. E mais uma vez, quem vier a seguir que apague a luz.

Falta cultura ambiental no país. Falta convicção nas medidas que se implantam. Como é que se pode proteger uma área se as pessoas não sabem o que estão a proteger?

 

É inevitavelmente tensa a relação entre ambiente e desenvolvimento? A despeito da poluição, quando se criam fábricas, criam-se postos de trabalho.

É o velho argumento, «Como há outros problemas mais importantes, como por exemplo o emprego, não vamos atacar esta questão». Isto é uma mentira! Olhe para a ria de Aveiro e para o Vale do Ave. A poluição hipotecou a possibilidade de vida daqueles cursos de água. Entretanto as fábricas não se modernizaram e fecharam, foram-se os dinheiros da CEE e as pessoas foram na mesma para o desemprego. Com a agravante de agora não terem recursos ligados ao rio.

 

Temos consciência de que a natureza funciona em rede. Como escreve no seu livro «Portugal Ambiental», «Quando Sines desregula as chaminés, morrem os laranjais de Santiago do Cacém». Todavia, esquecemos isso, tratamos os assuntos como se estivessem separados.

Não há uma visão sistémica dos problemas. Mesmo os que são tratados, são à superfície. As pessoas só vêem uma pontinha do iceberg e não percebem a implicação que está por detrás. Por exemplo, os resíduos industriais, muito falados com a co-incineração. O resíduo industrial está a poluir a água subterrânea que bebemos, a água que rega os nossos legumes. Está a entrar na nossa cadeia alimentar. Ora, esta visão sistémica nunca é dada pelas notícias, nunca é explicada por quem deve explicar _ que é o Ministério do Ambiente.

 

Há bons indicadores em relação ao que está a ser feito? Por exemplo, as campanhas que apelam à divisão dos lixos, têm funcionado?

As pessoas têm apetência para participar; não sabem é o que fazer para participar aos diversos níveis. A separação dos lixos foi uma medida importante. Mas era também importante perceber toda a sequência, não só deixar o lixo nos eco-pontos, mas explicar para que é que aquilo serve, que indústrias estão a sair dali, que empregos se criaram. É preciso mostrar a sequência para que as pessoas vejam o resultado daquilo em que se empenham. Isso é muito importante na vida cívica.

 

As nossas estruturas primam pela ineficácia. Há a ideia de que não vale a pena o trabalho, o desgaste, o tempo perdido.

Vou à Câmara?, não me atendem. Meto em tribunal?, aquilo não anda. A ineficácia das suas acções é desmobilizadora. É fundamental sentir que a justiça está a funcionar. Uma das maiores doenças do país é a impunidade. A maior poluição que temos é a impunidade. É tremenda para o funcionamento da democracia. 

 

Estes crimes ligados ao ambiente, como não têm um corpo visível, tendem a ser esquecidos. Nos outros, podemos horrorizar-nos porque lhes conhecemos o contorno.

A questão da visibilidade é muito importante. Quando morrem peixes nos rios, ou agora a maré negra, fica tudo muito indignado. E ainda bem. Mas depois, no quotidiano, esquece-se o assunto. No outro dia um investigador do Ave dizia-me: «Já nem temos o privilégio de aparecer na televisão. Já não há peixes para morrer!». Isto para dizer que é precisa atenção. Mas se o sistema de justiça funcionasse, tudo seria muito diferente.

 

Uma acção concertada é dificílima. Cada um de nós pode tomar a iniciativa?

Há a escala individual e também a escala organizada do colectivo. As pessoas, sozinhas, conseguem determinadas coisas. Mas não conseguem outras. Se quero contestar uma urbanização, tenho de me organizar em grupo.

 

Recentemente a Bastonária da Ordem dos Arquitectos, Helena Roseta, pediu que se olhasse para a construção civil, que é sabido ser um dos cancros do país.

Construção civil, financiamento aos partidos, clubes de futebol: é a alavanca mais obscura do país. O desordenamento do território é grave porque é o mais irreversível. Um rio pode-se sempre despoluir; agora, a partir do momento em que se destrói uma paisagem natural, uma praia, acabou!

 

Nesta conversa fica claro que tudo isto funciona em rede. Mas quando ouvimos as notícias, do que se fala é da co-incineração, dos aterros, de coisas conjunturais.

A questão ambiental é transversal a todas as decisões. Quando tomamos decisões sobre a agricultura, devíamos levar em conta a questão ambiental ligada à água, produtos, pesticidas, etc. As pescas, a mesma coisa. Em termos ideais, poderia existir não um Ministério do Ambiente mas uma Secção de Ambiente que remetesse directamente para a Presidência do Conselho de Ministros. É importante, de qualquer maneira, que haja um ministério, sempre tem visibilidade.

 

Focalizemos agora em questões práticas. Buraco de ozono: o que é que cada um de nós pode fazer?

O que podemos fazer é falar nisso – exigir informação, fazer o tema entrar na nossa agenda mental. Há algumas coisas concretas que a indústria já se encarregou de fazer; tais como produzir aerossóis e electrodomésticos livres de CFC’s. O que cada um deve fazer é proteger-se dos ultra-violetas, usando cremes protectores solares e procurando sombra, muita sombra...

 

Porque é tão importante poupar água? Há pequenas formas de poupança que aconselhe?

É importante porque é um recurso muito escasso. Quem vai frequentemente a países como Cabo Verde, apercebe-se bem da dimensão do problema. Em Portugal a prioridade é não sujar a água. Claro que poupá-la também é importante. Pode-se controlar a vedação das torneiras e em especial do autoclismo – quando mal vedados podem representar uma perda até 590m3 por mês. Ou não deixar correr a água enquanto se lava os dentes ou faz a barba.

 

As oscilações no clima, as grandes catástrofes naturais, são já uma amostra de qualquer coisa que está a acontecer ao planeta. A Terra parece em convulsão. O que pode ser feito?

Fazer pressão em termos de informação e acção cívica para que as causas e os causadores cessem urgentemente de agravar o problema. Tal como o buraco do ozono, esta é uma questão geo-política que apela a uma responsabilização global. Há zonas que vão ser mais depressa e mais intensamente afectadas, e devemos todos sentir-nos responsáveis. À escala pessoa, pode-se poupar energia usando lâmpadas e electrodomésticos mais eficientes, que são também mais duradouros. E fazer melhorias em casa no sentido de perder menos energia, retendo calor e protegendo do frio.

 

Haverá uma forma de produzir menos lixo numa sociedade que promove o descartável?

A primeira coisa a fazer é pressionar o comércio, é preferir uma marca que não venda mais embalagem que mercadoria! A segunda coisa é fazer a separação dos lixos de modo a que sejam reciclados.

 

As cidades continuam sujas?

Encerraram as lixeiras, mas as cidades estão um verdadeiro nojo, os cães fazem na rua... As campanhas não resultaram. Precisamos de outras muito mais fortes para o país ganhar estima.

 

Estamos com falta de brio?

Estamos descrentes em relação ao futuro do país. A auto-estima é fundamental para darmos o salto. Quem vive ao pé de rios sujos, tende a sujar os rios. É preciso romper este ciclo.

 

E o carro?

Uma das questões fundamentais é a da utilização do transporte rodoviário. Mas com uma rede de metro microscópica, uns autocarros que parecem umas sardinhas em lata a roncar, não podemos generalizar o uso dos transportes públicos! Ainda não está montada uma rede que nos permita abdicar do automóvel, mas com o problema das alterações climáticas e da poluição quotidiana que sofremos, é uma coisa que vamos ter de fazer a curto prazo.

 

Como é que despertou para esta temática?

Nesta matéria, quanto mais se sabe, mais se precisa de saber. Aqui está tudo: as questões sociais de fundo, as políticas, as económicas. Comecei por interessar-me pelo consumo. O ambiente é o reverso da medalha do consumo. Sempre fui sensível às questões da natureza e senti que o país estava a descuidar todas as questões ambientais. À medida que me fui interessando, ganhei consciência crítica em relação a todos os sectores e mais entusiasmo em relação à matéria. Ao fim e ao cabo, é a própria sociedade, é o homem, que decide ir por um caminho ou por outro, que pode inverter ou alterar os comportamentos. Há uma forma de intervenção cívica e política que é importante.

 

 

Publicado originalmente na Revista Elle em 2003

 

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