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Manoel Carlos (ou Maneco)

Se perguntarem no Brasil quem é Maneco, ou Manoel Carlos, todo o mundo saberá dizer. É o homem que faz das suas personagens femininas ícones de imperfeição e estoicismo – as Helenas – e que assina algumas das maiores novelas de sucesso do Brasil.

No dia de aniversário da Globo, o autor desmonta a máquina de fazer novelas. Conversa exclusiva numa cervejaria, no Leblon, claro.  

Vamos começar pelo princípio: eu não sabia como chegar a Manoel Carlos. Além de autor da Globo, dinossauro da televisão brasileira. O Maneco que comeu macarrão com Fernanda Montenegro, adaptou Dostoievski para televisão, realizou programas musicais como o “Fino da Bossa” (após o que comia uma pizza com Elis no boteco da esquina), conheceu Chico Buarque e Marieta Severo quando eles ainda não eram o Chico Buarque e a Marieta Severo (à saída do restaurante, no fim da entrevista, por coincidência, Maneco encontra Marieta).

Vivem no Leblon (Chico também). É a vida de classe média do Leblon que aparece nas suas novelas. Maneco é, mais do que tudo, um autor de novelas. Estreou-se em 1978 com “Maria, Maria”, foi colaborador de Gilberto Braga em “Água Viva”, teve em “Baila Comigo” a sua primeira novela das oito.   

As suas novelas falam d’ “A vida como ela é” – título roubado a Nelson Rodrigues, mesmo que o universo de Maneco em nada coincida com o de Rodrigues. Os dois têm diferentes maneiras de olhar e falar da vida, como ela é. Maneco fala de mulheres apaixonadas, de crianças que irrompem pela cena, de vidas no fio da navalha – os cenários hospitalares são quase obrigatórios –, de homens que nunca têm o mesmo carisma que as mulheres têm. Da imperfeição, do defeito, da falha, da ambiguidade da escolha, da redenção. Os cenários nunca são sujos, a música é sempre de bom gosto. Não é uma vida impostora a que ali conta. É a vida que ele vê passar na rua, no bairro.

Eu não sabia como chegar a Manoel Carlos, e para ontem. Tentei vários acessos. Disseram-me que Maneco estava a escrever, fechado, dia após dia, sobre a trama de “Viver a vida” (que passa actualmente na SIC). Tentei uma hipótese esdrúxula: fui à Livraria Argumento (onde o autor vai regularmente) fazer aquilo que fazem as aspirantes a actriz: deixar o meu cartão com a balconista, just in case. Por fim, comprei uma revista semanal de grande tiragem, li a crónica de Manoel Carlos (sobre a biografia de Warhol), enviei um email e sentei-me com ele no Leblon no dia seguinte.

Foram horas de conversa, antes do dilúvio que nesse fim de tarde se abateu sobre o Rio. (Era uma chuva de Verão se pensarmos na hecatombe recente). Manoel Carlos tem 77 anos e é um óptimo contador de histórias. O que espantaria é que o contador de histórias da Globo não contasse bem a sua história.

 

 

 

 

 

 

Comecemos por desmontar a máquina. Como é que se faz uma novela de sucesso?

Não há nenhuma receita para isso. O que há, ou já houve, de receita mostrou-se não-verdadeiro, não deu certo. Parte-se sempre do princípio de que uma novela deve atrair a atenção do maior número possível de pessoas, entre sete, dez anos e 100 anos, e que o Brasil é um país de dimensões intercontinentais, com muita variedade cultural. A receita boa seria uma história que alcançasse essa diversidade cultural toda – como um bom romance alcança, um bom romance brasileiro, português ou francês.

 

A história sabe para onde vai? Existe essa esquematização de raiz?

A novela é um produto cultural popular muito extenso. Hoje estou escrevendo o capítulo 158, são 215. Estou trabalhando nisso há um ano, e é todo o dia, todo o dia. É muito difícil saber, quando começa uma novela, como vai continuar. Você vai tacteando.

 

Tem temas base, personagens base, e a partir deles vai construindo a trama?

Exactamente. Parto de uma sinopse, que no meu caso é muito precária. A história central, que às vezes nem é muito central, é uma espinha dorsal, e depois há as histórias paralelas principais. Um capítulo é um pouco palavra puxa palavra, um capítulo vai puxando o outro.

 

Um exemplo.

Coloquei uma garota de programa num capítulo em que o rapaz está triste porque a namorada que tem há tantos anos rompeu com ele. É um arquitecto todo certinho, vai a um bar e fica conversando com a moça. Dois dias depois volta, vai para um motel, mas não consegue ter uma relação porque está traumatizado com o fim do namoro. Mas a garota é muito compreensiva, e o rapaz volta novamente. Ou seja, ela ia entrar um dia e está há oito capítulos. Os jornais já estão dizendo que há possibilidade de ele se casar com ela! Esse personagem é absolutamente imprevisto e imprevisível, nem me ocorreu isto quando pensei na novela.

 

É volúvel ao impacto que as personagens têm na opinião pública?

Muito, muito volúvel. É um problema de experiência e sensibilidade para sentir o que vale a pena e o que não vale. Tive um caso numa novela de uma mulher que tinha câncer, estava meio terminal, fazendo quimioterapia; eu ia matá-la. Recebi uma carta de uma mulher com câncer, uma psicóloga de 47 anos, uma carta tão maravilhosa, tão lúcida, que suspendi a morte da personagem. Porque essa mulher dizia: “O senhor deve saber que numa cama de hospital a única diversão que temos é ver televisão, e eu vejo a sua novela. Na hora que vi que a mulher ia morrer de câncer, estava com meu marido e meus filhos, e todos ficaram profundamente incomodados. Eu gostaria de ver essa mulher com possibilidades de se curar. Para que eu também tivesse essa esperança”.

 

E aí, já estamos a jogar com a identificação do público, que é um elemento essencial nas novelas.

Isso. Recebi essa carta e fiquei até constrangido. Respondi (nunca respondi antes): para ficar tranquila, ela não ia morrer.

 

Em quase todas as novelas, há uma doença que é abordada. Com um fundo pedagógico? Disse que não há receitas, mas este é um dos ingredientes constantes.

Nas minhas, é muito comum. Tenho sempre um hospital, médicos.

 

Porquê?

Adoro. Acho o personagem médico muito bom e o hospital um cenário fantástico. É muito rico, na medida em que é um centro de vida e de morte extraordinário. Tem pediatria, oncologia, cirurgia plástica, tem mil possibilidades.

 

E é onde as pessoas estão mais expostas. Quando estão doentes, não importa o seu estatuto, estão todas no mesmo quadro de vulnerabilidade.

Sem dúvida. A minha filha que é actriz, tem 27 anos agora, quase morreu várias vezes quando era pequena (tinha três, quatro anos). Fiquei amigo de tantos médicos que conheço um pouco do quotidiano deles e da vida no hospital.

 

Ainda que nas novelas possa salvar, recuperar para a vida, nos hospitais nem sempre é assim.

Mas sempre morre alguém, não salvo todos. Em “Laços de família”, uma actriz extremamente carismática, a Carolina Dieckmann, tinha leucemia, rapava a cabeça. Ela estava mobilizando o país inteiro. Não tinha pensado matá-la, mas era um caso bem grave. Então, fiz entrar para o quarto ao lado no hospital uma outra moça também com leucemia; e matei a outra moça. Nem mostrei. Um dia passaram pelo quarto e a cama está arrumada. Todo o mundo entendeu. Esse tipo de coisa, tem que negociar com o público, não adianta ficar numa posição teimosa. Novela é que nem passarinho, é de quem pegar, novela é de todo o mundo. Novela, você constrói ouvindo uma coisa aqui, uma coisa ali.

 

Até onde é que consegue prever que certa personagem vai empatizar com o público?

Não consigo prever muito. Consigo prever uma parte, claro, porque depende de como você faz, do traçamento. Sei que personagem criança, se for bem feito, é muito atraente. (A maior parte dos autores não tem filhos, eu tive cinco. Desde os 19 anos. Tenho um filho de 57 anos e um filho de 18).

 

É a evocação da infância de cada um de nós? As crianças são atraentes porque encarnam a esperança?

Pode ser uma chata, mas não existe família sem criança. A criança é um telespectador muito fiel, mais que o adulto, vê todo o dia. Criança dá certo. Talvez as minhas novelas se diferenciem um pouco das dos meus colegas, porque as tramas familiares são as mais fortes. É a relação marido/mulher, a relação mãe/filha.

 

É a clássica disputa entre mulheres? O que é que está na base

disso?

Também existe, claro. Acho uma relação muito rica, entre mãe e filha. Na verdade, entre pais e filhos. Mas o pai é sempre um pouco distante. A figura masculina é pequena nas minhas novelas.

 

De certeza que já se interrogou sobre isso. Porque é que os homens são menos fulgurantes, menos fortes, e as mulheres são as heroínas?

Na vida real as mulheres são as pessoas mais importantes. Fui criado só por mulheres.

 

Tem mais a ver com isso do que com o facto de o público ser mais feminino do que masculino?

Sim, sim. Escrevo para televisão há mais de 50 anos. Quando comecei, era uma coisa só vista por mulheres. Os homens não viam. Novela?, de jeito nenhum! Hoje em dia não é mais assim. Mas não foi por isso. As mulheres são confessionais, os homens não. Se uma mulher é traída pelo marido, ela reúne as amigas, conta que o marido está tendo um caso com a secretária, e todas a consolam. Homem é traído e…

 

Impõe-se o orgulho.

É. É tão difícil fazer um homem traído crível…, porque os homens não falam sobre isso. Julgo conhecer muito melhor o universo feminino do que o masculino. Fui criado mais pela minha mãe que pelo meu pai, com duas irmãs mais velhas, que também foram meio mães, por duas avós (não conheci os avôs), e por três tias solteironas que ajudaram a me criar. O meu contacto desde a infância com as mulheres foi muito intenso, e tenho mais amigas do que amigos.

 

Um autor, ainda que esteja a ficcionar, nunca deixa de ser quem ele é e a sua história? Atendendo à sua história, seria improvável que o seu universo criativo fosse dominado por homens.

Sem dúvida. Outro dia, José Mayer, o actor, me chamou à atenção: “Maneco, você reparou que todos os seus cenários são casa de mulher, nunca do homem?”. É verdade.

 

Ancestralmente o homem é aquele que vai caçar, que domina na ágora, a mulher é a que fica na retaguarda, em casa.

Nos outros autores é: “sala de João”, e o João tem mulher, tem filhos. Para mim será: “sala de Maria”. Instintivamente tudo pertence à mulher.

 

A família é o seu tópico essencial.

Quase exclusivamente.

 

Aparece pouco aquele que marcava as novelas, sobretudo nos anos 80: a luta entre ricos e pobres.

As minhas novelas nunca tiveram isso. Aliás, me chamam de elitista. As minhas novelas são como são por uma razão simples: só escrevo sobre aquilo que vivo diariamente. Para escrever uma novela passada num morro carioca, numa favela, preciso de ajuda, não conheço bem esse universo. Escrevo sempre sobre o bairro do Leblon porque vivo aqui. Se for morar na Barra, será na Barra. Gosto de ver os meus personagens andando na rua, comprando na padaria, vindo ao restaurante. O meu universo é o universo da classe média/alta porque é a classe a que pertenço. Não sou um autor realista. Mas sou um autor que não delira. Ninguém voa na minha novela, as pessoas têm os pés no chão.

 

Existe a preocupação da verosimilhança?

Tenho uma preocupação muito grande com o que é verosímil, não com o que é verdadeiro. Não estou me comparando, mas você pega a Madame Bovary, que para mim é o romance mais importante dos últimos séculos: é realista, mas muito bem tratado ficcionalmente.

 

Flaubert dizia: “Bovary c’est moi”.

Tudo aquilo sou eu mesmo. Reproduzo conversas da minha mãe, reproduzo conversas que tive, e tenho, com meus filhos, integralmente. Aproximo a minha ficção de dados reais. Faço uma listagem dos personagens mais importantes e dou data de nascimento para cada um deles, signo e horóscopo. Não acredito na astrologia, mas no Brasil as pessoas são muito ligadas em comportamentos ditados pelos astros. Às vezes ponho frases assim: “Isso é típico de um leonino”. São só ferramentas, me amparo nessas coisas.

 

As suas heroínas são Helena. A sua mãe é Helena?

Não. É a pergunta que mais ouço nestes anos todos. Quem foi Helena na minha vida? Ninguém. Tenho uma Helena na família, neta da minha irmã, tem dez anos de idade e uso Helena há 30 anos. Nunca tive uma namorada Helena, nenhuma irmã, nenhuma filha.

 

É uma evocação da Helena de Tróia?

É muito disso. Sempre me interessei pela mitologia. E pela Helena do Machado de Assis, que é um romance que li muito novo e que adaptei para televisão quando tinha 20 anos. Sempre achei que era mais um nome de personagem do que de pessoa da vida real.

 

Senta-se para escrever e depois tem uma equipa, a quem dá as directrizes? Como é que a máquina funciona no dia-a-dia?

Trabalham comigo oito pessoas. Adivinhe…, são oito mulheres. Tenho três pesquisadoras; digo que vou fazer um parto e tenho uma moça que levanta tudo, desde como está a sala de partos a quem participa do parto. No caso do personagem que teve a lesão medular e que está numa cadeira de rodas, tenho uma que só cuida dela.

 

Luciana é uma das personagens centrais da novela “Viver a Vida”.

A actriz que está assim, a Alinne [Moraes], é assistida por uma pesquisadora que se reporta ao Dr. Paulo Niemeyer, o maior neurocirurgião do Brasil. Ele é que orienta e diz o que ela pode ou não fazer, como pega no talher. Fora isso tenho cinco colaboradoras (cada autor da Globo pode ter quantas quiser) que já trabalham comigo há algum tempo. Elas escrevem e depois vem para mim. Evidentemente eu mudo, acrescento. Ou não mudo nada, acho óptimo e fica. Os 30 ou 40 primeiros capítulos escrevo absolutamente sozinho, e elas lêem assim que termino, antes que mande para a produção. É o primeiro feedback que tenho.

 

Como são elas?

Uma é casada, 42 anos, tem dois filhos. Uma é solteira, separou agora de um namorado com quem vivia há muito tempo. Uma outra é escritora, branca, casada com um negro, professor de literatura. A outra é gay. E a outra é casada com um rapaz que é dono de restaurante e que fez curso de literatura na Universidade Católica. Têm várias culturas: uma é bem de vida, a outra lida com uma dificuldade filha da mãe, uma tem filhos, a outra não pode ter filhos. Essa que é casada com o negro, conheço a luta que teve para vencer o preconceito da família – e não venceu, acabou por se distanciar. Tudo o que elas são vem na apreciação que fazem dos meus capítulos.

 

Numa segunda fase, elas começam a escrever.

Até que todos os personagens fundamentais entrem – são uns 60 –e tenham uma fisionomia reconhecível, não quero que elas escrevam, senão me confundem. Depois que sabem como eles pensam, começam a colaborar comigo.

 

Diariamente, tem uma reunião?

Fiz durante muito tempo uma reunião semanal, aqui nessa mesa; depois, quinzenal; agora, quando é necessário a gente faz. O computador mudou tudo, o telefone nem uso, sei que elas estão diante do computador o dia inteiro, como eu. Hoje vou ter uma reunião porque falta já pouco para acabar, precisamos definir os rumos dos personagens.

 

A distância entre a escrita, a gravação e a emissão vai sendo cada vez mais curta?

Se pudesse, escrevia hoje para gravar amanhã. Há até uma brincadeira que fazem comigo, outros me largam pau: de que escrevo na última hora. É também um pouco de folclore, na Globo dizem que não atraso. Eu preciso sentir o capítulo. É também por uma razão que se acentuou com a idade: não abri mão da minha vida pessoal.

 

Que é que isso quer dizer?

Vou ao cinema, venho jantar, saio com a minha mulher. Os autores normalmente ficam encarcerados um ano, não saem nem para o enterro da mãe. Evidentemente que reduzo muito. Quando não estou fazendo novela, aqui ou nos Estados Unidos, (vou muito para lá), vou ao cinema todos os dias. Escrevendo a novela vou uma vez por semana. Daqui a uma semana faço 77 anos, não tenho mais como abrir mão de nada. É muita vida já e sobra pouco para viver.

 

Escreve com que distância da emissão?

Varia muito. Normalmente os autores têm um distanciamento de 18 capítulos, às vezes até mais. Eu tenho de uma semana, dez dias. Está gravando hoje o que vai no ar daqui a uma semana. Não é problema para a Globo que hoje tem uma infra-estrutura em que grava um capítulo por dia se quiser. Sai cinco frentes de directores, cinco equipas de cameramen, é só coordenar. E tem que dar um tempo mínimo para os actores decorarem. Dou em cima da hora mas exijo que seja dito tudo direitinho.

 

Disse que já é muita vida para trás. Isto que agora faz, com este sucesso, aconteceu depois dos 50.

A primeira novela que escrevi para a TV Globo foi “Maria, Maria”, em 1976, tinha 40 e poucos anos. Sou da primeira geração que trabalhou para a televisão.

 

É um fundador.

Na época fazia-se de tudo. Não existiam pessoas especializadas. A televisão foi inaugurada de uma maneira improvisada, em São Paulo, por um louco, Assis Chateaubriand, dono dos Diários e Emissoras Associados. Os técnicos: mandou uma dúzia para os Estados Unidos, aprenderam e vieram. E gente para escrever? E para dirigir? E para representar? Não tinha ninguém. Por não terem como preencher toda a programação, recorreram ao teatro amador, que em São Paulo era forte. Eu era actor amador. A televisão foi inaugurada em Setembro de 1950 e em Março de 1951, seis meses depois, fiz 18 anos. Na mesma semana, estreei como actor de televisão.

 

Qual era o seu sonho de menino, ser galã de televisão?

De jeito nenhum. Era ser escritor. Quando era pequeno, via nas antologias um soneto do Olavo Bilac ou um conto do Machado de Assis e vinha assim: “da Academia Brasileira de Letras”. Eu dizia: “Quando crescer quero entrar para essa Academia”. Pensei que fosse uma escola. Fiz muita poesia e publiquei livros de poesia. Um dia, no grupo amador do meu bairro, iam fazer uma peça, o director falou: “Você gosta tanto de escrever, dá uma lida e mexe um pouquinho”.

 

Quando apareceu a televisão, dá o salto.

Eu e mais dois ou três que já morreram pegámos em scripts internacionais de cinema. Comecei a fazer script de televisão baseado nisso. Até hoje a nomenclatura usada é a mesma. Comecei a adaptar, fiz muito Tchekov e Pirandello. A televisão não tinha videotape e não tinha corte. Para ter uma outra cena com o mesmo actor, fazia-se uma cena intermediária para ele ter tempo de mudar de roupa. Às vezes o actor passava gatinhando do lado da câmara para ir no outro cenário…

 

Eram os primórdios da televisão brasileira.

Eram. Em 1955, 1956, 1957 escrevi para o grande teatro Tupi, feito por um grupo ao qual eu pertencia, com Sérgio Brito, Fernanda Montenegro, Natália Thimberg, Ítalo Rossi (os maiores actores brasileiros da época). Adaptei mais de 100 romances, 100 histórias para televisão, para esse grupo! Dostoievski fiz quatro, Balzac, cinco.

 

Como é que tinha tempo para fazer isso tudo, ler os livros e fazer a adaptação?

Tinha já um bom cabedal de leitura, tinha uma semana para fazer. Com 19, 20, 21 anos escrevia de manhã à noite, exactamente o que faço hoje. Chegava a levantar de manhã e ficar de pijama até à hora de dormir – e era máquina de escrever, com carbono, ficava todo azul.

 

Seria um bom título para si, “O homem da máquina de escrever”? Embora agora seja do computador.

[risos] A máquina de escrever, usei até há pouco tempo. Quando chegaram as máquinas eléctricas, cheguei a ter três, porque às vezes quebrava e não podia parar. Tenho uma leitura dinâmica incrível. Para fazer esse trabalho, não leio na horizontal, leio na vertical. Fiz um curso sobre isso em S. Paulo, na época do Kennedy (diziam que tinha a tal leitura dinâmica). Bato os olhos numa página e sei exactamente o que me interessa ler.

 

Como é que desde o princípio percebe o que é que realmente interessa e o que é que prende o leitor? Intuitivamente?

Intuitivamente, e o conhecimento que você tem de literatura. Nunca adaptei nada de que não gostasse ou que não conhecesse. Só quando fiz “Maria, Maria” é que nem o autor conhecia (Lindolfo Rocha, um autor brasileiro do começo do século XX). Foi o Paulo Mendes Campos, um escritor brasileiro, que sugeriu. Disse que ia dar uma bela novela das seis da tarde. Agora, quando adaptei Dostoievski, tinha lido todo o Dostoievski.

 

Em que momento da sua vida desistiu de ser um escritor que é admitido na Academia? Para muitos, o que faz é uma arte menor.

Foi um problema de sobrevivência. Me casei com 18 anos.

 

Porquê?

Porque me apaixonei por uma menina que era bailarina, que tinha 16 anos, e ela ficou grávida.

 

É sempre o contingente a definir a vida?

É. O meu primeiro filho nasceu quando eu ainda não tinha 19, o segundo nasce quando tinha 20. Precisava sustentar minha mulher, dois filhos e minha sogra. Meu pai me ajudou muito. Tive que me render à televisão porque era uma coisa que pagava muito bem. A demanda era grande e não havia mão-de-obra. Escrevia para o Rio de Janeiro os mesmos textos que eram feitos em São Paulo, escrevia para a TV Jornal do Comércio de Recife, escrevia para um grupo na TV de Belo Horizonte.

 

Gosta do que escreveu nessa altura?

Gosto, descontando toda essa técnica, ou falta de técnica.

 

Como é que era esse jovem rapaz a escrever, que mundo é que ele espelhava?

Era extremamente literário. Com 14, 15 anos de idade tinha lido todos os romances de Machado de Assis, José de Alencar, Eça de Queirós (escondido da família, eu e minhas irmãs, porque meus pais não permitiam que se lesse Eça de Queirós).

 

O que é que fez durante o período da ditadura militar?

Nunca sofri censura política. A censura que senti foi a moralista, conservadora – porque tem uma prostituta na novela… Mas durante esse tempo, fiquei desempregado muitas vezes. Recebia metade do salário, a outra metade ficava para o mês seguinte. Muita televisão fechou, muitos grupos se dissolveram. Já estava escrevendo para televisão e fui vendedor de assinatura de revista, de porta em porta.

 

É curioso que o dinheiro, que é uma mola na vida das pessoas, e que o foi na sua, não apareça permanentemente nas suas novelas.

Nem um pouco. Quando minha mulher deixou de amamentar, eu andava quilómetros a pé para ir buscar leite para o “nenêm” na casa dos meus pais, porque estava sem dinheiro para comprar.

 

Não usar o dinheiro como tema, é uma recusa desse quadro, disso que viveu?

Não, até conto isso com muito carinho. Foi uma época de dureza mas de muitos sonhos, de muita juventude. Não passei isso sozinho. Outro dia estava com a Fernanda [Montenegro], conversando sobre isso; nós fazíamos teatro na Companhia Maria Della Costa, em 1954, e íamos para casa de um (ou a minha ou a da Fernanda) fazer macarrão para todo o mundo comer. Macarrão com pão, água, às vezes dava para comprar uma cerveja. Ninguém tinha dinheiro para ir no restaurante. Tínhamos salário, trabalhávamos numa companhia profissional, mas o dinheiro era curto.

 

A razão de usar nas novelas muitos actores de teatro tem a ver com a sua relação antiga com o teatro?

Tem. Considero o teatro pai e mãe do acto de representar. Para mim, vem do teatro, já tem crédito. Na televisão não precisa nem saber ler, a não ser para decorar.

 

Fale-me agora dos anos em que foi director e realizador de programas de televisão, nomeadamente do “Fantástico” e do “Fino da Bossa”.

Em todos esses programas, eu escrevi. No “Fino da Bossa”, tudo o que Elis Regina dizia era eu que escrevia, e era o director e produtor do programa. No “Fantástico” fui o primeiro director-geral, mas escrevia aquelas “cabeças” em que aparecia a Regina Duarte e que anunciavam o número. Eu tinha um programa que inaugurou a TV Excelsior chamado “Brasil 60”. Um dia, vim ao Rio de Janeiro para dirigir o primeiro show do Chico Buarque no Canecão. Ele me convidou.


Chico apareceu no programa de Elis Regina, o “Fino da Bossa”.

É. Mas antes disso, quando lançou o primeiro disco, “Pedro, pedreiro”, eu fazia um programa na TV Record, “Astros do disco”, e botava sempre ele para defender [a música]. Como se ele vendesse muito... Mas não vendia, não. Éramos muito amigos. Com o Roberto Carlos foi a mesma história. Bom, vim fazer o Chico no Rio em 1971 – era uma coisa pretensiosa. Chico já era uma paixão das moças. Fiquei no Rio de Janeiro. A oportunidade existia. Eu era aquele homem que fazia tudo.

 

Como se deu o encontro com Elis Regina?

Fiz o “Brasil 60”, apresentado pela Bibi Ferreira [actriz e cantora]. Em 1961 ou 1962, os patrocinadores do programa fizeram uma reunião comigo e disseram que gostavam de uma apresentadora de Porto Alegre. Fui para lá, desfilaram vários cantores e cantoras na Rádio Gaúcha e ela era surpreendentemente melhor que todos eles.

 

De certa maneira, foi quem descobriu Elis Regina.

Fui. Depois contou-se isso de outra maneira. Mas a primeira vez que ela se apresentou foi num programa meu. Foi chamada imediatamente para o Rio de Janeiro porque só aqui é que acontecem as coisas, até hoje. Quando fui fazer o “Fino da Bossa”, lembrámo-nos imediatamente da Elis Regina. Ela já tinha ganho o festival, com “Arrastão”, do Edu Lobo. Fiz dois anos o programa com ela. Aí ela ficou namorando o Ronaldo Bôscoli, e ele, que era muito meu amigo, ficou cheio de cerimónia para dizer se eu me aborreceria se ele passasse a ser o director do programa. Porque ia casar com ela.

 

O Bôscoli tinha trocado a Nara Leão pela Maysa, e acabou por casar com a Elis. A primeira troca marca uma cisão no grupo da Bossa Nova.

Ele tinha um apelido muito engraçado, sabe? “Cometa”. Porque estava sempre na cauda de uma estrela [risos]. Por coincidência, as três morreram de maneira muito dramática. Ele morreu com uma cirrose brutal, bebia muito. Mas não só ele, todo o mundo na época bebia muito.

 

Ainda não falámos dos excessos que marcaram uma geração. Álcool, maconha, cocaína.

Fumei maconha três ou quatro vezes porque alguém estava fumando e experimentei. Não tive nenhum amigo que fumasse maconha. Elis é de uma geração posterior. A entrada da cocaína nesse circuito artístico é mais recente. Na época da minha juventude, a maconha era uma coisa consumida por vagabundo. Quando era menino, o sujeito que conheci que fumava maconha era um negro chamado Genésio, guardador de carro de um posto de gasolina.

 

Havia uma distinção social a partir das drogas que eram consumidas.

Muito. Em 1948, 1949, quando inaugurou o Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo, se falava em cocaína e morfina, dos poetas que usavam cocaína. Mas era um negócio que para nós soava estranho, não tinha nem ideia se era pó, se era injectável. A minha geração é álcool e cigarro. Fui um bebedor de uísque, de seis, sete doses todas as noites. Parei de beber em 2001 (não posso esquecer porque foi o ano das Torres [Gémeas] e estava em Nova Iorque). Parei de fumar também.

 

Isso aparece nas suas novelas? Há um lado que nunca é completamente sujo, dependente. Enquanto espelho de uma sociedade, isso quase não tem presença.

Às vezes menciono, mas é proibido. Você pode dizer que fulano é um drogado mas não pode mostrar consumindo droga. Há pouco tempo usei: “Me dá um tapinha”. Me dá uma fumada de maconha. Ou “bagulho”, que no morro carioca é maconha (o “Benê”, que mora no morro, fala).

 

Voltando ao seu percurso. Que outras coisas destacaria?

Fazendo o “Fino da Bossa”, tivemos a ideia de fazer o “Bossaudade”. Era pegar a velha guarda e em contraposição a Bossa Nova. Contratámos a Elizeth Cardoso, “a divina”. Disso nasceu a “Jovem Guarda”. Ficou Elis Regina, Elizeth Cardoso e Roberto Carlos. Como tínhamos um elenco muito grande de cantores fizemos “Essa noite se improvisa”.

 

Título de Pirandello.

Que eu dei, e que no Rio passava com o nome “A palavra é”. Chico Buarque se destacou muito, ganhava todas. Tínhamos mais de 400 contratados e precisava dar vazão a isso: havia dois programas musicais por dia para pôr essa gente a cantar. Nessa época se trabalhava na televisão como se fosse um emprego qualquer. Todos íamos para a televisão 10, 10 e meia da manhã, saíamos para almoçar em casa, voltámos e ficávamos até às sete horas da noite; depois íamos para o teatro e lá fazíamos os programas, terminava tudo pelas 11 horas. Elis, Elizeth, nós todos, comíamos numa pizzaria perto. Íamos para casa dormir e no dia seguinte de manhã voltávamos.

 

Como quem vai para o escritório.

Sim. Depois os artistas ficaram muito importantes – não eram. Mesmo em termos de dinheiro, não eram. Me lembro do primeiro salário do Roberto Carlos, 2000 cruzeiros. Quem assinou o primeiro contrato dele e da Elis com a TV Record fui eu, em nome de Paulo Machado de Carvalho, que era o dono. Não era esse profissionalismo até certo ponto selvagem que se instalou depois. Me lembro que oferecemos o que seriam agora 2000 reais para o Roberto, para o Erasmo [Carlos] 1500, para a Wanderléa 1500. O Roberto disse que não fazia a não ser que os três salários fossem iguais. O Roberto foi sempre um homem de extremo bom carácter. O Chico [Buarque] também. Mesmo com muitas dificuldades. Eles ganhavam muito mal, o show era precário. Isso aproximava muito as pessoas.

 

Quando é que o sucesso e o dinheiro foram uma certeza na sua vida?
Para valer, foi em 1960 com a TV Excelsior, onde fui um dos directores e escrevia programas de televisão.

 

Outro capítulo, outro personagem – como nas novelas. Para falarmos do seu percurso pessoal. Como é que podemos definir este “personagem” que você é nos seus traços principais? O que é que é determinante na sua vida?

Nunca ter parado de trabalhar. É um personagem que tem que trabalhar porque tem família muito cedo, carrega-a muito cedo. Talvez isso resulte no facto de ter sempre criança em novela. Não me lembro de mim sem criança, a vida inteira trabalhei com criança perto, interrompendo. Nunca fechei a porta do meu escritório. Parava no meio do capítulo para apontar [afiar] lápis para filho. Talvez isso seja uma resposta ao meu pai. Para ele o trabalho estava sempre em primeiro lugar.

 

O que é que ele fazia?

Era um industrial, muito bem de vida. Acabou feliz e modestamente com a minha mãe. Já morreram os dois. O meu pai orgulhava-se muito de dizer que não levava problemas para casa. A família era uma coisa totalmente à parte. A vida do trabalho, dos amigos, do clube social, era outra vida. Nunca vi meu pai comer em mangas de camisa, nunca vi o meu pai sem paletó e sem gravata, só quando levantava de manhã ou quando ia dormir de pijama. Essa coisa da formalidade, da família muito querida mas muito distante, sou o oposto. Minha mulher morou em Paris um ano, sozinha, eu fiquei com os filhos; e morreu muito cedo, com 37 anos fiquei viúvo. Tudo isso dá uma proximidade. Até hoje não durmo direito se um filho não chegou.

 

A sua mãe, como era?

Sou muito parecido com ela, quase de uma maneira mediúnica. De uns anos para cá, estou com a letra parecida com a da minha mãe. Essa afinidade, nunca senti com o meu pai. Estava sempre com pressa.

 

Tudo isso se reflecte nos seus ambientes.

O meu pai foi muito bom pai-ausente, a minha mãe muito presente. Se tinha problemas, meu pai me despachava, que eu era muito levado, malcriado. Ele me mandava para casa da minha avó. Com 11 anos, não aguentou mais e me trancou num colégio interno, distante. Fiquei nesse colégio quatro anos, com padres agostinianos, uma disciplina brutal, e foi a melhor coisa que podia ter acontecido na minha vida.

 

Porquê?

Foi onde descobri a literatura. Os padres eram espanhóis, falavam do Cervantes, contavam dos espectáculos que tinham visto em Espanha, Portugal, Itália. Li Kafka com 17 anos, em espanhol. Havia teatro porque eles incentivavam. Apanhei muito, eles batiam muito.

 

As suas Helenas são estóicas.

São. O que gosto muito nas minhas Helenas é que são extremamente imperfeitas como heroínas. Todas elas mentem, todas elas traem, têm muitas fraquezas humanas. Sou capaz de mencionar todas as traições que elas fizeram.

 

E as suas, consegue identificá-las? Até onde é que são as suas imperfeições que ali estão?

Não saberia identificar com muita correcção, mas certamente estou lá. Tudo o que se escreve é autobiográfico, mesmo que se disfarce. Para mim escrever é um acto de confissão.

 

Há um outro aspecto nas suas novelas: as heroínas são imperfeitas, mas quase sempre se recuperam e acabam virtuosas.

É porque elas erram muito por amor ou em nome do amor.

 

Quando é que se permitiu a irresponsabilidade?

Nunca me permito muito. Mas sou tolerante às imperfeições e irresponsabilidades dos meus filhos. Muito mais que minhas três mulheres. Aquele pai: “vou contar para o seu pai!”, no meu caso foi sempre: “vou contar para a sua mãe”. Nunca bati num filho, nunca castiguei de maneira enérgica. Fui preso nesse colégio para ser castigado, para ser recuperado. Meu pai acertou por vias tortas, acertou errando. E nunca me formei em nada, não tenho nem diploma de grupo escolar nem de alfabetização. Fiz muitos cursos de literatura portuguesa e brasileira. Sou um autodidacta absoluto.

 

 

Publicado originalmente no Público

 

 

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