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Manuel Carvalho da Silva

“Tive uma fase decisiva: após a guerra colonial comecei a fazer formação profissional na área da organização do trabalho e fui trabalhar numa empresa a cujos quadros ainda pertenço. É uma multinacional de origem alemã. O responsável da minha área tinha esta tese: “Eh pá, um tipo vai fazendo esforços, é como o salto em altura. Põe-se a fasquia, e vamos treinando. Eu já salto 1,80m. Já estou a treinar para saltar 1,81m”. Quando estamos expostos no colectivo, desafiamos os outros a saltar 1,80m. Se no dia seguinte for necessário, temos de estar preparados para saltar 1,81m”. Manuel Carvalho da Silva tem esta história, este desafio, esta prática.

A vida dele fez-se de centímetro em centímetro. É um líder sindical que fala do pensamento de Max Weber. É um homem que se licenciou depois dos 50 e se doutorou há dois. Foi uma criança que trabalhou no campo. Foi um furriel que foi à guerra. Tem dois filhos crescidos e uma filha com apenas seis anos. Tem 60 anos. É de uma aldeia para os lados de Barcelos, onde o povo diz coisas como: “Trabalhar é honra”. Pela vida fora fez da Justiça Social uma palavra de ordem. É líder da CGTP.

(Antes de começar a entrevista, fiz o que sempre faço: esclareço que tudo o que fica gravado é transcrito. Também ajeitei a cadeira de modo a poder ficar frente a frente, e expliquei como era importante para mim apanhar o olhar do entrevistado. Foi então que ele disse…)

  

… Está a deixar-me um bocado nervoso.

 

Não acredito! Um líder de multidões não fica nervoso com tão pouco.

É mais fácil. No diálogo com as multidões, também há um tempo de aprendizagem e identificação, que, ao longo de uma intervenção, tem de se construir várias vezes. Em 1994, 95, em Braga, numa conferência sobre trabalho infantil, o D. Manuel Martins, antigo bispo de Setúbal, disse-me: “Tenho sempre uma preocupação quando estou a fazer uma homilia: fechar com alguma coisa que tenha conteúdo. Não importa que as pessoas fiquem de acordo connosco. O que importa é que fiquem a pensar sobre isso. É preciso que saiam daqui incomodadas”.

 

Preocupa-se, nas suas “homilias”, que fique lá a inquietação?

Sim. O que obriga a que, quem está a fazer o discurso, o faça com mais seriedade e empenho. Às vezes é um esforço físico dos diabos!, transpira-se imenso. O pensar dá muito trabalho [risos]. Há pessoas que até se incomodam quando digo isto, mas é verdade. Mas isto era a propósito da tensão que me estava a criar.

 

Começo por pedir-lhe que faça o seu auto-retrato. Olhando para fotografias antigas, percebe-se que a sua cara não mudou.

Mudou!, então não mudou?

 

A expressão é a mesma.

Sim. Essa é uma boa observação, que tem, talvez, a ver com a minha identidade. Ao longo da vida vou lendo livros, vendo filmes, participando em diálogos com as pessoas no dia-a-dia; dificilmente fico com grandes registos da identidade do personagem. Mas vou integrando os elementos na minha personalidade, na minha forma de encarar a vida. Não fico com aquilo compartimentado. Dilui-se. Isso levou-me a perceber uma outra coisa: o meu caminhar não tem sido de cortes, tem sido de integrações.

 

Mas o seu caminho é feito de blocos aparentemente desligados uns dos outros.

Nunca houve grandes rupturas. Não tive um tempo de ir à escola e um tempo de ir trabalhar. Fui à escola em criança e na passagem para a juventude à escola industrial. Comecei a trabalhar e procurei continuar a estudar. Mais tarde fui à universidade. E tudo isto fui fazendo caminhando. Quando me pede um auto-retrato, julgo que o traço mais significativo que posso apresentar é esse.

 

O da continuidade. Quanto, da sua infância e da primeira parte da sua vida, estão em si?

Está a visão da família. Nasci num meio rural do norte do país, profundamente católico. O meu pai não sabia ler nem escrever, escrevia o nome com dificuldade. A minha mãe sabia ler com alguma dificuldade, embora gostasse muito de ler. Impressionam-me muito as dificuldades dessa infância. Quando as pessoas morrem numa aldeia, toca o sino; e o toque para um adulto não é o mesmo que para uma criança. Quando era miúdo, ouvia muitas vezes o toque da morte de uma criança. A maior parte das famílias das aldeias não tinham condições de ir a um médico, e não havia serviço de saúde. Ainda outro dia encontrei na Universidade do Minho um companheiro de escola, que era filho de uma família muito pobre; trabalhou, estudou, e hoje é professor na Universidade do Minho. Ele ia para a escola descalço, mesmo no inverno.

 

O auto-retrato: falou apenas da continuidade. Que outros traços aparecem? Como é que se vê?

Nunca me dediquei muito a olhar para mim. Eu não tenho projectos definidos, tenho sempre objectivos gerais. [Procuro] ser activo do ponto de vista do trabalho, da valorização do trabalho, ter um contributo produtivo para a sociedade.

 

O seu percurso não se faria sem uma enorme perseverança. E confiança.

Sim. A confiança muitas vezes é minada. Todos os dias há momentos de “eu não aguento”; mas depois retoma. Tenho essa vivência: conhecer a vida difícil, viver nela. Fui um privilegiado em relação a algumas crianças cuja condição estava aqui a situar. Os meus pais eram pequenos agricultores. Todas as semanas se cozia pão. E, se andávamos a brincar ou estávamos com fome, pelo menos pão havia, e o meu pai deixava que o comêssemos. Os outros não tinham isso.

 

Há palavras e expressões que usa muito nos seus discursos e intervenções: “destinos inevitáveis”, “caminhos irreversíveis” e “alternativa”. O seu destino não foi inevitável. O seu caminho não foi irreversível.

Só há um destino inevitável: o da morte.

 

Podia ter ficado técnico electricista.

Antes disso: podia ter ficado o micro-agricultor. Somos seis filhos. Quando terminei a quarta classe, o destino que me estava traçado era trabalhar com o meu pai, e fui trabalhar com o meu pai. Trabalhar, trabalhava-se desde pequenino.

 

Era entendido como ajuda ou como trabalho?

Era uma ajuda, às vezes muito dura. Na grelha de avaliação de hoje, era trabalho infantil. Um professor primário, que não tinha sido meu professor, mas que conhecia o meu trabalho na escola pela informação que a minha professora lhe dava, convenceu o meu pai a deixar-me fazer o exame de admissão à escola industrial. Deu-me algumas aulas de preparação, e fui. Fui sacado de trabalhador rural assim. Senão, não era sequer operário electricista: era trabalhador rural, que estava um pedaço abaixo na escala social.

 

Trabalhou como electricista. Era uma coisa de que gostava ou foi uma contingência?

Eu tinha um sonho em pequenino…, dois sonhos. Um de diversão e outro de projecto de vida. O sonho de diversão é que eu gostava de jogar à bola, embora não tivesse grande jeito. O meu pai não tinha dinheiro para me comprar uma bola, nem considerava que aquilo fosse uma utilidade. Eu sonhava que, por qualquer arte mágica, alguém desse um chuto numa bola e ela pudesse cair do telhado! Passava debaixo [da chaminé], olhava, e o meu sonho era que a bola caísse. O outro: é que a casa dos meus pais não tinha luz eléctrica.

 

Que idade tinha quando passou a ter luz em casa?

Para aí, 14 anos. Em casa dos meus avós maternos, que era mesmo ao lado, e onde nasci, aí havia electricidade. O escuro fazia-me impressão. “Se conseguisse ser electricista, engenheiro electrotécnico…”. O sonho era ter electricidade e ter um rádio. Gostava imenso de ouvir notícias. Em casa dos meus avós havia um rádio e às vezes ia lá ouvir.

 

Porque é que na casa deles havia essas condições e na casa dos seu pais não?

A minha avó materna era descendente de uma família com alguns bens. Eram muitos irmãos e acabaram, como diz o povo, por dar cabo daquilo tudo. O meu avô materno era mestre marceneiro, fazia talha. Conheci-os muito velhos. O meu avô tinha nascido em 1869.

 

O casamento dos seus pais era interclassista?

Era “semi”. O do meu avô com a minha avó materna era interclassista. Foi quase um rapto! O meu avô é que era a pessoa mais culta; viajou, foi ao Brasil em trabalho. No início do século passado, isso era qualquer coisa que dava mundo. Tinha conhecido em vida o Camilo de Castelo Branco, que viveu próximo de Famalicão. O meu pai vinha de uma família muito pobre. O pai dele tinha sido criado de servir. (Olhe que se prolonga muito a conversa, depois vê-se aflita para fazer o trabalho...

 

Não se preocupe, sou muito paciente.

Eu precisava de ser mais…)

 

Na sua infância, pôde perceber, na casa ao lado, que havia diferenças, e que havia coisas a que podia aspirar.

Sim, e outras posturas. O meu avô era anticlerical, o meu pai não.

As pessoas viviam com grande miséria. A agricultura era mesmo de subsistência. Não havia subsídios para coisa nenhuma quando o ano era mau; vinha uma geada, matava tudo. O meu pai começou a cultivar batatas em grande quantidade, porque tinham surgido fábricas têxteis na região de Famalicão, começou a haver emprego e as pessoas iam comprando; levava às feiras e vendia. Começou a plantar vinho, e isso fez com que a vida melhorasse. Foi na passagem dos anos 50 para os anos 60. Foi também por causa disso que pude ser liberto para ir para a Escola Industrial.

 

Nesse tempo, as crianças não eram uma prioridade. E, como disse, ajudavam/trabalhavam o que fosse preciso.

As crianças eram “a canalha” – a expressão era esta. Nas prioridades, surgiam no fundo da escala. Quem tinha que se alimentar em primeiro lugar era quem tinha de trabalhar.

 

O pai.

Claro. A minha mãe tinha sensibilidade e o meu pai também, mas o contexto não deixava de ser este. E não havia tempo para o convívio. O envolvimento no trabalho, o cansaço físico, uma família numerosa, as condições limitadas – não tínhamos casa de banho – não permitiam uma convivência. Pediu-me um retrato e eu fiz-lhe um retrato; agora não me deixa sair do retrato… [risos]

 

Podemos dar um salto, no calendário e na geografia. Como é que o marcou a guerra colonial?

Foi um sacrifício grande para uma geração. A geração que viveu a guerra guarda as suas recordações, os seus azedumes, e não tem grande espaço para as expor. As mães eram quem mais sentia a dureza, as amputações e as limitações que a guerra provocava. Havia muitos pais que diziam: “Aquilo até abre horizontes” – o que não deixa de ter uma dimensão de verdade. Em 61 começou a guerra em Angola; o meu primo foi logo no início; as mães iam pensando: “Às tantas o meu filho, que agora tem 13, 14 anos também vai”.

 

Era o seu caso. Nasceu em 48.

É. Fui para a tropa no final de 68 e para a guerra colonial no início de 1970, com 21 anos.

 

Foi com medo?

Um misto de medo e de expectativa. No final dos anos 60 falava-se de Cabinda como espaço de desenvolvimento significativo, “os americanos é que estão lá a comandar o petróleo”. Um dos choques foi que, de Luanda para Cabinda, fomos numa lancha costeira; duas impressões fortes: uma, atravessar a foz do Rio Zaire, que tem o segundo maior caudal do mundo; vi entrarem pelo mar dentro árvores e pedaços de terra que iam naquela torrente. Depois foi ver, através de uns binóculos, que o porto e o cais de atracagem eram uma coisa improvisada. “Onde nós caímos…, afinal isto não é o que se diz por aí”.

 

Mas também havia expectativa. Porquê?

Fui como furriel miliciano. Em relação ao salário daqui, ganhávamos bastante bem. Se não estou em erro, eram 3.500 escudos por mês – era significativo. O primeiro choque, lá, foi perceber que a ideia que tínhamos de África, a ideia que Salazar trabalhou – “Somos um todo” –, não correspondia à verdade. Não éramos “todo” nenhum. Vim convencido que a descolonização, (o conceito nem era muito utilizado entre nós), o fim daquilo ia ser violento. Também me deu a oportunidade de ler. Nunca li tanto como li na guerra colonial. Li quase tudo sobre o Mao Tsé Tung. “As Vinhas da Ira”, [de Steinbeck], “O Prémio”, do [Irving] Wallace, o “Pavilhão dos Cancerosos”, do Solzhenitsyn, marcaram-me imenso. E escrevi muito. Todos os dias escrevia. Sou capaz de ter perto de 200 cartas.

 

Releu-as?

Em parte.

 

Que vida era a da sua companhia?

Vivemos dois anos dentro de um arame farpado. Não havia populações próximas. Brancos, não havia. Populações indígenas, os cabindas, viviam em pequenas sanzalas ali próximo. Para ir levar o lixo, era preciso ter um pelotão de segurança. Para jogar futebol, era preciso arranjar voluntários que fizessem segurança. Para ir buscar lenha, era preciso segurança. Não percebo é como é que chegavam lá tantos livros!

 

Mandavam-lhe livros da metrópole?

A minha namorada, que foi a minha primeira mulher, mandava-me alguns livros. Uma minha amiga, estudante de medicina, também. Como não tínhamos água potável, mandavam com regularidade cálcio; talvez tenha tido efeito, porque consegui que a minha dentição se mantivesse boa. Como fui furriel de transmissões e dirigia o serviço de informação, não tive de fazer tantas operações como outros camaradas, mas aquilo foi muito duro. Conheço um indivíduo no Alentejo, no concelho do Alandroal, que fez a guerra colonial e não sabe onde esteve! E não é uma pessoa com deficiência mental. É uma marca que apagou, e por outro lado é um distanciamento total.

 

Como se aquilo fosse uma outra existência, uma outra vida? No seu caso, até onde é que aquilo o marcou?

Marcou-me muito. Comecei a ter oportunidade de ler, trocar impressões com outros, discutir. Foi-se gerando um sentimento anti-guerra colonial em mim. Em situações de conflito a coisa é complicada; no limite, ou matas ou morres. Nunca estive em situações desse patamar.

 

Temia que qualquer coisa mais violenta deflagrasse e que isso ameaçasse a sua vida? Ou que o obrigasse ao “ou matas ou morres”? A ameaça, que é terrível, pairava sobre os dias...

Ah isso, sim.

 

Vou ou não ter coragem, como é que me vou portar.

Sim.

 

Lobo Antunes escreve que viu pessoas a borrarem-se de medo.

São esses sentimentos todos. Pouco tempo depois de estar lá, participei num destacamento. O comandante decidiu que eu ia nessa coluna; fomos a caminhar no meio da floresta, concentrados, à espera que acontecesse um primeiro disparo, ou que surgisse um rebentamento de uma armadilha. Seis ou sete quilómetros, numa zona muito arriscada. Cria tensões incríveis.

 

Tinha a expectativa de ali ganhar um bom dinheiro. Empregou-o em quê?

Ainda tinha uns milhares de escudos significativos. Casei-me pouco tempo depois de vir da tropa. Foi usado para a estruturação do casamento, da vida.

 

A experiência da guerra deu-lhe uma especial tenacidade? Fez com que perdesse o medo do confronto? Enquanto líder sindical, ambas são precisas.

É provável que uma parte significativa venha daí – é preciso resistir. Apeteceu-me fugir. A última vez que vim de férias, já tinha 17 meses, faltavam-me seis meses para acabar a comissão; estive preparado para fugir. O que era até um contra-senso…

 

Porquê depois de 17 meses?

Já tinha 15 meses de tropa aqui, com mais 18 meses lá… Estava revoltado com aquilo, havia tensões entre nós, na companhia. Um amigo, imensamente solidário, convenceu-me a não fugir. Mas o mais determinante foi a minha mãe. Um dia, já muito próximo do fim das férias, regressei a casa de madrugada; a minha mãe estava sentada na entrada para o meu quarto, numa salazita. Pediu-me para não fugir.

 

No fundo, não quis desgostá-la, e defraudar a ideia que ela tinha de si.

Foi um bocado isso.

 

Regressou em 72. Que vida foi a sua depois disso?

Respondi a anúncios do Centro de Emprego. Cheguei a casa numa segunda-feira à noite, e na quarta-feira fui prestar provas para um emprego. Fui admitido logo. Era razoavelmente bem pago, deram-me um salário de entrada de 4.500 escudos. Gostaram das minhas características e apostaram em mim; eu também estava empenhado naquilo. Depois começaram a surgir tensões internas entre mim e um dos sócios, que era gestor. Comecei a fazer alguma denúncia, embora discreta, a chamar à atenção para o desvio de aço – aquilo era uma fábrica de produção de talheres.

 

O líder sindical nasce aí.

Acabei por ser despedido quando estava a terminar esse período de formação. Ainda se gerou um movimento de solidariedade comigo, mas a repressão era muita e não havia espaço. Respondi a anúncios, nunca fiquei à espera. Quatro, cinco dias depois estava a fazer prestação de provas na empresa a cujo quadro agora pertenço.

 

Ficou aflito com a possibilidade de ficar desempregado?

Andava a preparar-me psicologicamente. Já tinha um filho. Vivi ali alguns dias…, “como é que isto se vai conduzir?”. Mas aí deita-se mão da confiança, e se é para resolver, vamos lá. Nesta empresa, consegui rapidamente mudar de trabalho e até com uma progressão salarial grande.

 

Já por duas vezes mencionou a importância do dinheiro que ganhava, quer na tropa, quer agora.

Eu vinha de uma família que tinha muitas limitações. Ganhar dinheiro era uma coisa importante. Mas não era no sentido de ser rico.

 

Queria ter o dinheiro suficiente para não ter que se preocupar?

Exactamente. Essa era a diferença.

 

Nunca quis enriquecer?

Nunca tive essa apetência.

 

Li num jornal que o seu ordenado enquanto líder da CGTP são 1600 euros.

É um pouco mais, com os complementos.

 

Se o dinheiro fosse o valor mais importante, o seu percurso tinha sido outro.

E com a passagem do tempo, isso tornou-se ainda mais evidente para mim. O dinheiro faz falta. Aspirar a ter um nível de vida razoável que nos permita viver com dignidade e ter algum conforto – não sou totalmente despido nesse quadro. Admiro quem é muito mais despido. Existem homens que entregam tudo a outros. Há figuras em Portugal que o fizeram, desde o Álvaro Cunhal a outros.

 

O Álvaro Cunhal tinha uma origem social diferente – faz diferença.

Profunda. Eu não deixarei nunca, para o bem e para o mal, de ser o indivíduo que nasceu no interior, na santa terrinha, filho de gente da terra, gente humilde, que faz um percurso. Consigo alguma formação e alguma inserção na sociedade, mas tenho um distanciamento. No espaço onde circulo há muita gente licenciada; tiveram um tempo de andar na universidade, a movimentação estudantil, a movimentação política. Eu não tenho isso. Os meus pares, aqueles que hoje estão no espaço de intervenção académica, também me vêem chegar como um estranho. Essa marca nunca desaparece.

 

A estratificação social é vincada.

Muito complexa. Podem fazer mil discursos e mil teses a dizer que se faz uma mobilidade social fácil. Mas ficam sempre marcas.

 

A propósito de mobilidade social: nem quando se doutorou, sentiu que estava num lugar diferente? Está evidentemente num lugar diferente.

Ainda é muito recente, só passaram dois anos. Comuniquei a um conjunto de pessoas [que ia defender a tese], outras tomaram conhecimento de outras formas. Um dos gestos que me marcaram foi ter aparecido um leque imenso de pessoas, de áreas diversas. Quiseram ir lá e, com essa ida, quiseram marcar uma atitude.

 

Quer apontar alguns nomes?

São conhecidos. A administração da minha empresa fez questão de se representar. Houve alguns empresários com quem tive contactos fortes ao longo do tempo. Governantes que já não [o] eram. O Silva Peneda, o Horta e Costa, o João Salgueiro, o Dr. Mário Soares, o Paulo Pedroso. Os amigos, o Carlos do Carmo, o Vitorino. A sala esteve repleta; alguns tiveram de ficar sentados no chão – como o Vital Moreira. Ou seja, na sociedade há muita gente que não aceita essas barreiras de estratificação de que estávamos a falar e que são dominantes.

 

Estava muito nervoso?

Acho que ficou mais nervoso o júri do que eu [risos]. Porque não é comum juntarem-se umas centenas de pessoas, ainda por cima, muitas delas referências na sociedade, e isso criou no júri uma exigência que foi notória. O processo levou quatro horas. Foi um massacre.

 

Era simultaneamente um sinal de respeito pelo seu percurso e pelo conhecimento?

O sinal para comigo não posso negar, quando falamos de percurso.

 

O Partido Comunista, a pertença a esse grupo ideológico, a essa larga família, foi fundamental nesse percurso?

É uma família grande. É uma das componentes importantes no meu processo, na minha construção.

 

Enquanto indivíduo e enquanto líder sindical?

Enquanto indivíduo e enquanto líder sindical. A grelha de análise dos problemas do mundo, essa, é uma. Já falámos de outras, da família e do seu contexto. Falámos de outra que é a cultura católica. Há valores e há referências que se mantêm fortes e que me levaram a nunca renegar [o catolicismo]. Olho para a sociedade com alguma abertura, com alguma disponibilidade para ver correntes de pensamento diversas.

 

Essa abertura na maneira como olha a sociedade, é um sinal da sua heterodoxia? Se tivesse sido mais ortodoxo talvez tivesse sido secretário-geral do PC? Isso passou-lhe pela cabeça, foi um objectivo?

Não, nunca! Conheço-me e conheço o partido o suficiente para, desde há imenso tempo, dizer que esses dois factores nunca produziriam convergência possível para se concretizar essa hipótese.

 

Porquê?

Como disse, conheço-me e conheço o partido. Os porquês são esses.

 

Então, quais são as incompatibilidades?

Não falei em incompatibilidades. Disse que não produziriam as convergências necessárias. Exactamente pela minha formação. Há dimensões da minha formação que, por um lado, não ajudam a essa convergência; e há posturas do partido que também não ajudam a essa convergência. Isso para mim é uma coisa tão clara há tanto tempo, tão, tão clara.

 

Não foi um desígnio ser líder do PC?

Em determinados momentos, alguns camaradas forçavam essa minha ligação à vida do partido. Houve períodos em que intervim mais, mas nunca fui candidato a deputado, e muito menos eleito. Progressivamente fui tendo menos ligação à vida partidária. Sou militante, com o meu quadro de valores, no terreno. É essa a minha participação, não há outra. Nos primeiros anos em que fui coordenador da CGTP, alguns amigos diziam: “Devias ter uma presença e até uma função dentro do partido mais elevada, porque isso te dava autoridade”. E houve outros da direcção do partido que falaram comigo: “Estás disposto a fazer um compromisso?”. Eu interroguei-os: “Para quê, com que projecto, para onde?”.

 

Porquê essa “recusa”?

Em vários momentos aferi que não havia essa convergência. Até costumava brincar: “Acabem com isso!, se for necessário escrever numa folha de papel selado que não sou candidato partidário, escrevo, porque esse é o meu sentimento, a minha convicção profunda”. Nunca falei disto com este pormenor, mas essa foi sempre a atitude. Depois, a minha vivência do sindicalismo é uma vivência de percorrer o país, observar as coisas, ir às empresas, debater, cruzar as minhas posições com as dos outros. Isso levou-me à tal – para usar o conceito que você usou – heterodoxia. A formação académica reforçou isso.

 

Alguma vez foi à biblioteca do British Museum, onde Marx escreveu “O Capital”?

Não.

 

Marx foi para si um herói?

Marx não pode ser um herói para mim porque não viveu no meu tempo.

 

Aponte-me um herói.

Não tenho heróis.

 

Todos precisamos dos nossos mitos, dos nossos heróis particulares.

De referências fortes. Os nossos heróis vão surgindo. Surgem nos autores que lemos, nas pessoas que conhecemos, numa ou noutra figura com que a gente se impressiona. Muitos dos meus heróis são delegados sindicais ou dirigentes sindicais de base com quem me cruzei ao longo do tempo. Que são seres humanos comuns. Mas uma das coisas que me impressionaram foi quando Nelson Mandela foi libertado. Fui ao 1º congresso do ANC, na África do Sul. Eram quatro ou cinco mil delegados e toda a gente queria falar. A força do Mandela, e a sua tranquilidade, impressionavam. Um homem que vem de tanto tempo de prisão, tão condicionado, e que tem aquela paz…

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2009

 

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