Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Manuel de Brito

Brito, o marchand, diz: «Sou de outro tempo. Sei olhar para um quadro do Almada Negreiros porque vi o Almada Negreiros pintar, um quadro do Viana porque vi o Viana pintar, um quadro do Abel Manta porque vi o Abel Manta pintar».

É de um outro tempo, que lhe foi adverso: «Sou sócio dos Inválidos do Comércio desde os onze anos de idade. Como é que eu, marçano de uma papelaria na Baixa, não gostava da maneira como os mais novos tratavam os mais velhos... Pensava: a mim não me vão fazer isso. Quando chegar à idade deles, em vez de me tratarem mal, vou para os Inválidos do Comércio. Já pensava como é que me podia defender no futuro...».

Brito tem fascínio pela China. Um dia, Soares, o amigo Mário Soares, encarregou-o de uma mostra portuguesa na Cidade Proibida. «Conheci em Shangai um intelectual chinês que esteve seis anos com uma enxada nas mãos, no tempo do Mao. ”Como vê, não podemos agarrar o vento com as mãos”. Não podemos agarrar o vento com as mãos... Às vezes refugio-me em coisas destas. Ajudam-me a manter o caminho que vou traçando, que vou escolhendo».

Brito fala da Paula. A Paula é a Paula Rego. «Nós tínhamos um jardinzinho e um gato que vinha sempre receber as pessoas. Nisto passa um gafanhoto e o gato quis lá saber da Paula... Ela deitou as mãos à cabeça e disse: “Ai que ele vai magoar o gafanhoto!”. Depois escreveu-nos uma carta em duas páginas, que é a história contada em dois actos. De um lado está o gafanhoto a dar um raspanete ao gato, do outro já estão os dois a despedir-se e a apertar a mão».

Por fim: «Para ser um artista, primeiro, uma grande artista, depois, tem que trabalhar muito, tem que se cultivar muito, ler, visitar museus. Ver, ver, ver, ver».

Este homem fez-se. Cresceu com uma mãe gravadora. Empregou-se aos dez anos de idade. Transformou uma livraria universitária. Tornou-se marchand. É dono da mais institucional das galerias de arte portuguesas, a 111. O nome dele é Manuel de Brito. É casado e tem três filhos.  

  

Diz de si que é um intuitivo.

A minha base é essencialmente intuitiva. Aos dezassete anos era encarregado de uma livraria universitária. Era o número um da casa, à frente do patrão, que me disse: «Levas o ordenado que quiseres, porque sabes mais da casa a dormir do que eu acordado».Quando entrei na Escolar Editora analisei a situação: vendia livros usados e tinha quatro belíssimas montras com teias de aranha. Entrei como terceiro empregado.

 

Por baixo.

Era o mais baixo. Os outros empregados estavam ali para ganhar o sustento do dia-a-dia, não tinham outras ambições. Apresentei ao patrão um programa de desenvolvimento. Ficava ao lado da Faculdade de Ciências, via passar milhares de alunos e não tinha prestígio como livraria universitária. Ele não tinha dinheiro nem possibilidade de o arranjar. Aí é que teve de vir a mentalidade americana: inventei o caderno da faculdade de ciências. E depois os outros. Venderam-se milhares e milhares de cadernos mensalmente. Era dinheiro a entrar às pás.

 

Atribuiu a cada caderno uma cor, consoante o curso_ o mesmo que hoje se passa com as fitas e as pastas universitárias. Como é que se lembrou disto? Apelou ao sentido de pertença?

Joguei um bocadinho na vaidade humana. Cadernos, eles precisavam de comprar. Uma grande parte dos nossos clientes eram jovens do terceiro ciclo; iam entrar na universidade no ano seguinte, mas compravam já os cadernos da universidade. A pouco e pouco fui tomando as rédeas da casa. Todo aquele dinheiro começou a reverter para a aquisição de obras científicas actualizadas. Passados dois, três anos a livraria passou a ser considerada a melhor do país em termos científicos. Como é que chegámos lá? Assim como lhe relatei. O corpo docente da universidade e os alunos mais adiantados assistiam à abertura dos pacotes que vinham da América, Inglaterra, França, diariamente.

 

Estamos nos anos cinquenta?

Anos cinquenta. A livraria ficava na Rua da Escola Politécnica, ao lado da Faculdade de Ciências. Conheci lá a Maria de Jesus [Barroso] antes de o Mário Soares a conhecer; ela morava ali perto e ia lá comprar os livros. A maior parte das livrarias tinha uns livros, outros não. Eu queria que na minha livraria houvesse tudo. Um dia, o actual rei de Espanha [Juan Carlos] e a sua irmã, ceguinha, foram lá com uma lista e perguntaram se tinha algum daqueles livros. Tinha todos. A partir daí, passei a ser o fornecedor dos livros de estudo do futuro rei.

 

O papel da livraria foi significativo, naqueles anos.

Foi muito estimulante. Havia tertúlias, a tertúlia dos políticos, a tertúlia dos artistas, e havia uma consideração extraordinária. Todas as pessoas, os catedráticos, os estudantes, perceberam que aquela casa tinha mudado, pela minha mão. Eu não era aluno da faculdade, mas era parte integrante.

 

Apesar de não ter formação académica.

Fiz o curso comercial incompleto. As afinidades políticas iam crescendo. Entrei em conflito com o regime, com a censura. O salazarismo era o inimigo comum. A minha colaboração podia ser politicamente útil. As pessoas respeitavam-me, sabiam que não fazia aquilo para vender mais uns livrinhos... Corri alguns riscos, por exemplo, em relação à minha integridade física, para valer a pessoas que queriam conquistar a liberdade. Pus em liberdade alguns estudantes universitários. Eu era amigo e era o amigo que era chamado.

 

Chegou a ser preso?
Preso, preso não. Ia aos interrogatórios, uma semana a ir todos os dias, três, quatro horas de interrogatórios, um processo de intimidação. Estavam convencidos de que pertencia ao Partido Comunista.

 

Mas também é verdade que todos os que eram adversários do regime eram apelidados de comunistas.

Eles queriam chegar cá e dizer: “Cá está, você é este. Sabemos o seu pseudónimo e o que você tem feito”. Saíam sempre insatisfeitos do bluff porque não podiam dizer que era do Partido Comunista ou do Partido Socialista. Com a minha posição face à política, escolhi sempre os homens e não os partidos. Era muito amigo do Lucas Pires, que era do CDS. Em determinada altura, fiz uma amizade com o Sá-Carneiro, que queria a minha colaboração na estrutura de uma fundação.

 

Quando Sá Carneiro morreu, estava empenhado em constituir-lhe uma colecção. Mas é a amizade com Mário Soares a mais significativa no seu percurso. Como é que se cruzam?

Vim para aqui há cerca de 50 anos, para a livraria da esquina, e o Mário Soares começou a vir à livraria. Tínhamos amigos comuns. Mário Soares percebeu que eu era dos dele, desde a Escola Politécnica, sendo um contestatário. Quando foi para o exílio, para França, eu ia lá com frequência e levava-lhe roupa, coisas assim.

 

A coragem é a marca mais distintiva de Mário Soares?

Disso não tenho dúvida. Quando faz a viagem para S. Tomé e Príncipe, (a mulher ficou a chorar...), chegou ao avião e disse que queria champanhe e comida de primeira! Em Pequim, o que nós brincámos!, o Mário Soares passava com o Presidente da China e ele é que parecia o Presidente da China!

 

Esforçou-se por ser uma pessoa respeitada. Talvez por ter tido uma infância tão dura, por ter sido continuamente desrespeitado pelo seu padrasto, com quem teve uma relação tumultuosa.

Faz sentido. Mas essas coisas não são estabelecidas por um código, por uma escolha. Talvez tivesse sido muito ajudado pelo ambiente que me rodeava. A Faculdade de Ciências foi uma escola de humanismo. Ainda hoje tenho na mente os meus espelhos, felizmente alguns ainda estão vivos. Pessoas como quem gostaria de ser, que admirava e procurava por todas as formas.

 

A sua mãe pôde vê-lo com sucesso? Quando faleceu tinha setenta anos.

Tinha algum sucesso, não muito. Estava condicionado pela minha vida material. Muito cedo, para fugir às sevícias do meu padrasto, fui morar para uma casa que me foi cedida. Nem sequer tinha banheira, lava-me com alguidares. Só três ou quatro anos depois é que consegui a minha casa, casa alugada, com mais conforto. O meu padrasto estava a perder a sua vítima constante.

 

Porque é que ele o tratava mal?

A sua falta de educação leva-o a ter uns ciúmes enormes da minha mãe. Eu era o resultado do amor da minha mãe com outro homem, e isso era imperdoável. Mas quando casou com a minha mãe, sabia que eu existia...

Com pouco mais de vinte anos saí de casa.

 

Foi um ginasta empenhado. A prática do desporto esbarrava em estigmas vários. O desporto consentido era o futebol ou o boxe – ou outro que implicasse força e exaltasse a masculinidade.

Saía da livraria e ia a correr para o ginásio. Às escondidas. Eu dizia que fazia desporto na clandestinidade! Um dia, o encarregado da [livraria] Sá da Costa comentou: “Ontem à noite estava no pavilhão dos desportos com o meu filho e, quando estavam perfilados, vi um indivíduo muito parecido contigo, um indivíduo que andava aos pulos como um macaco”.

 

Porque é que lhe deu para a ginástica? Era uma vaidade com o físico?

Era.

 

Queria ser bonito e atlético? Para ser bem sucedido junto das raparigas?

Sempre fui bem sucedido junto das raparigas. Eu gostava de desporto. Era um processo de realização como outro qualquer. A ginástica compensou-me. Um quarto de hora depois de fazer o aquecimento, entrava no ritmo dos saltos, da barra, das argolas. Saía de lá outro homem. Mais tarde fiz outros desportos, natação, caça submarina. (Passei umas férias no Algarve, em Cabanas de Tavira, com o [Júlio] Pomar; ele pintava ao ar livre e eu ia com a Arlete [a mulher], num barquito de borracha, apanhar peixe para o almoço e jantar).

 

Moldou-se a si próprio? A sua mãe foi uma figura tutelar?

A minha mãe não teve grande influência na minha educação. O que teve uma importância extraordinária foi saber que eu era tudo para a minha mãe. Era uma mulher fabulosa. Um dia enamorou-se de um indivíduo, foram para o Brasil, fugiram, como se dizia na altura. Nasci no Rio de Janeiro, onde vivi até aos três anos.

 

Lembra-se do seu pai?

Só me lembro de um momento, quando olhei para mim e percebi que era gente. Estava no cais de Alcântara e a minha mãe disse: “Esperas aqui muito direitinho, que vou ali buscar a mala”. Foi quando desembarcámos.

 

O que é que os fez regressar a Portugal?

O meu pai era um homem casado. Apaixonou-se pela minha mãe e foram ser felizes para o Brasil. Quando a ex-mulher foi atrás dele, disse à minha mãe que tinha uns problemas para resolver (uns negócios), que viesse à frente, que ele depois vinha cá ter. Agora começam a faltar-me elementos... A nossa relação escrita acabou quando eu tinha cinco anos, altura em que o meu pai morreu, em Manaus, segundo as informações que nos deram. Quando fui para a escola primária, o meu pai estar vivo ou ter morrido, era igual: nunca o conheci.

 

Não tinha outra família? Estava sozinho com a sua mãe?

Nada, nada. Os dois. Vivíamos um para o outro, no interior do Castelo de São Jorge, a minha mãe era timbradora, um ofício que aprendeu no Brasil. No dia em que fiz o exame da instrução primária, o encarregado da casa onde a minha mãe trabalhava disse: “Francisca, vais ali a São Paulo comprar umas calças compridas para o teu filho; a partir de amanhã, vai ser cá empregado.” Mas fui matricular-me na Escola Comercial Patrício Prazeres, para onde ia à noite.

 

Por sua iniciativa.

Por minha iniciativa. Tentava encontrar um caminho. O caminho de uma vivência correcta, de uma vivência que me desse alguma felicidade. Quando vou para a escola comercial adoptei definitivamente a nacionalidade portuguesa. O meu pai tinha morrido, ponto assente, não pensei mais nisso. Mas pelos trinta, já andava a alimentar um atrito dentro de mim... Como é que nasci, como é que o meu pai morreu? E fui ao Brasil. Com muitas dificuldades, confesso. Corri várias cidades à procura, nos locais onde tinha andado. Em S. Paulo soube que tinha pedido um documento ao consulado de Santos há seis anos! E, nessa noite, fui no primeiro ônibus para Santos.

 

Nessa viagem, estava preparado para tudo?

Estava preparado só para saber, para conhecer a minha história. Nunca me passou pela cabeça que o ia encontrar vivo.

 

Mas o que sentiu quando soube que, até há pelo menos seis anos, ele estava vivo? Que havia engano, que se tratava de outra pessoa?

Senti um abandono de filho. Refez a sua vida e abandonou-nos... Mas já agora, queria conversar com ele. Durante a noite escrevi uma carta para a minha mulher, a dizer por onde tinha andado, o que tinha feito. A minha vida podia interferir com a vida material das pessoas que estavam com ele. De modo que no dia seguinte de manhã, depois de pôr a carta no correio, pego na máquina fotográfica e vou bater à porta de uma vivenda, perto da zona portuária. «Queria falar com fulano”.

 

Ele tinha o seu nome?

Manuel Pais de Oliveira. O Brito é da minha mãe. Eu tenho perfilhação, mas não usei.

 

Apresentou-se como filho?

Disse que era um amigo de um amigo do Rio de Janeiro. Estava ainda vivo, pensavam que morria na véspera. Dava saltos na cama... Entrei, fiz-lhe uma fotografia ainda em vida. Identifiquei-me como filho dele, puxei de uma fotografia igual a uma que estava no móvel. Ele não tinha outro filho, a pessoa que me abriu a porta era sua enteada. Eu era filho único.

 

Chegou a falar com ele?

Fiquei na dúvida se ele percebeu... Ou se, no delírio em que estava... É uma história de ficção. O fim era iminente, estava a acabar. Saí e fui almoçar, bebi uma garrafa de vinho e não sei quantas de cerveja. Com o aturdimento, foi como se tivesse bebido água. Depois passei ao pé de uma livraria e comprei o «Liberdade, liberdade», que estava proibido em Portugal. Senti um desgosto tremendo por não ter tido a possibilidade de falar com ele.

 

O que é que gostaria de lhe ter dito?

Era incapaz de lhe fazer uma condenação. Era o meu pai, era incapaz. Foram outras forças, que não só as dele, que lhe cortaram o acesso. Fizeram-lhe um cerco para que não me contactasse. Gostava de ter um diálogo com ele. Porque é que me escreveu cartas chamando-me ‘meu querido filhinho’. Porque é que deixei de ser isso.

 

Ainda as guarda?

Ainda.

 

Antes desse pressentimento, dessa urgência que o levou ao Brasil...

O seu termo é muito correcto. Eu tinha uma urgência em ir ao Brasil. Não há dúvida nenhuma de que há uma corrente telepática. Na ia à procura de nada, ia à procura da minha identidade. Corri quilómetros a chorar. Ninguém sabia de mim.

 

Voltemos então ao seu primeiro emprego, quando era ainda menino.

Sabe como é que na altura era tratado na Escola Comercial? Algumas das vezes estava desejoso de chegar à aula e adormecia de imediato. A pedagogia era uma bofetada!, que adormecer era uma falta de respeito com o professor. Estava a pensar desistir quando os miúdos da Baixa me falaram de um emprego formidável: “Trabalhamos de noite e de dia vamos para a praia e para o cinema”. Aí começa o meu calculismo: estive dois anos a trabalhar nos correios, com uma bicicleta, a distribuir telegramas da meia-noite às oito da manhã; às nove entrava na escola, saía ao meio-dia, comia qualquer coisa e dormia umas três horas.

 

O seu percurso é solitário. Os amigos, fá-los na livraria

Sempre sozinho. E sempre maltratado, muito maltratado. A parte negra da minha vida foi até à adolescência. Porque aos dezassete anos já estou como primeiro empregado na Escolar Editora.

 

Teve uma existência sofrida, negra. Quando a relembra, de que é que sente orgulho?

[Silêncio] Ando à volta com o termo orgulho. Tenho uma sensação de dever cumprido relativamente à minha vida.

 

Que relação tem com o dinheiro?

Costumo dizer: “O dinheiro não é para se gastar, o dinheiro é para usar”. Sou incapaz de fazer despesas se não tiver uma razão forte.

 

A sua mulher disse numa entrevista que pode ter uma atitude miserabilista em relação às coisas.

Sou contra o miserabilismo. Sou mesmo contra o miserabilismo. Eu aprecio o conforto, aprecio a casa que tenho, simpática, com vista para o Tejo. Há dois anos ofereceram-me uma pequena fortuna por ela e respondi que me interessava a casa, que o dinheiro não me interessava nada.

 

Quando interfere com uma parte sentimental, as coisas deixam de ter preço?

É verdade. Quando um quadro entra na minha colecção, é da minha colecção e acabou. Ofereçam o que oferecerem, não está à venda. Todavia, há meia dúzia de anos surgiu uma casa, no Porto... Se comprasse esta casa...

 

É então verdade que só se desfez de dois quadros da sua colecção, um Pomar e um Vieira da Silva, para comprar duas casas?

Cheguei à conclusão de que afinal tudo se vende.

 

Vendeu os quadros para não pedir dinheiro ao banco. Nunca, nunca pediu dinheiro ao banco?

Nunca. Nunca, nunca, nunca.

 

Porquê?

Porque não precisava. Porque dei sempre o passo em função da perna. Considero o dinheiro uma ferramenta, não um fim a atingir.

 

Os seus quadros podem valer 35, 40 mil contos, o suficiente para comprar uma casa em Lisboa e outra no Porto. Tem uma fortuna incalculável, portanto. Quantos Pomares, quantos Paulas Rego, quantos Vieiras...

Mas tenho uma tranquilidade total relativamente a isso. Quando olho para trás não me envergonho do património que tenho. Comprei quadros à Paula Rego a 30 e 60 contos que, hoje, se os puser no mercado internacional, nomeadamente em Londres, vendo por 30 mil contos. Não fiz nada de incorrecto.


Esse é o seu métier.

Nunca tive minas de ouro. Fugi sempre a negócios paralelos. Gosto de livros e gosto de arte. Se quisesse ganhar mais dinheiro não estava aqui agora. Estava reformado e andava pelo mundo a comprar e a vender. Realmente, nunca fui ofuscado pelo dinheiro. Quando era miúdo, uma vez comi uma laranja, com as gorjetas dos telegramas; era muito boa e pensei: ‘vou comer mais uma’; mas depois pensei: ‘E amanhã, se não me derem gorjetas, não como laranja... Não pode ser, fico hoje com uma laranja e amanhã compro outra”. Chamo a isto a gestão das laranjas. Não é piada política, nenhuma. É uma coisa de estômago.

 

É irónico ouvi-lo falar da gestão das laranjas numa sala cujas paredes estão revestida a obras de arte... Tem ali um quadro com dedicatória da Sonia Delauney. Como é que a conheceu?

Conhecia-a por razões comerciais. Conheci muitos artistas e sou amigo do peito de muitos, começando por aí. Um galerista francês fez-me a apresentação. De repente, apareceu-lhe Portugal, de que há muitos anos não ouvia falava – como sabe, ela viveu cá. Revelou uma simpatia extraordinária. Era uma senhora de setenta e tantos anos, muito bonita, eu era bastante mais novo. Eu brincava dizendo que estava apaixonada por mim!, porque não me recebia sem ir à cabeleireira pratear o cabelo.

 

Visitava-a na sua casa em Paris? Falavam em português?

Com a Sonia falava sempre em francês, ela não falava português. Costumava ver na parede uma gravura, para a qual olhava repetidamente. «Gosta da gravura? É S. Petersburgo. Foi a única coisa que trouxe quando fugi da Rússia. É um símbolo da minha vida”. Um dia foi à parede, tirou a gravura e ofereceu-ma. Este é um dos grandes momentos da minha vida.

 

Porque é que acha que ela o fez?

Porque percebeu que eu estava a ver com os meus sentimentos. Estava a gostar da gravura e também fiquei a gostar da história que me tinha contado.

 

Ela sabia que a sua mãe tinha sido gravadora?

Não fazia ideia, nunca falámos de nada. Ela conhecia-me como marchand.

 

O que é que o fez apostar na Paula Rego? Durante décadas, a carreira dela foi muito discreta, ninguém lhe ligava nenhuma...

Nas duas primeiras exposições, a Paulo Rego não vendeu um único quadro. Aliás, da segunda saíram dois quadros para pagar honorários a um advogado. As pessoas achavam que ela era perversa. Eu achava que ela era suficientemente doida para ser uma grande artista. Aquilo não era nada avulso. Por vezes, comporta-se como se estivesse no palco, no teatro... Numa conferência de imprensa no CCB, um jovem jornalista quis sobressair e perguntou: “Tem ali um macaco com o rabo cortado. Porque é que a senhora cortou o rabo ao macaco?”. A Paula, assim com um ar de provinciana, com um ar de quem não percebeu bem, disse: “Não sei, foi assim”. Depois acrescentou: “Espere aí, já me lembro: era um quadro falhado, para estar bem tinha que ter três pintinhas de sangue, então cortei o rabo ao macaco para fazer as pintinhas de sangue”. Saiu-lhe.

 

É como se representasse continuamente. Mas quem é que constitui a sua plateia?

A Paula não faz teatro para ninguém. Ela é assim. Antes de a exposição abrir, vimo-la os dois, sozinhos, e às tantas perguntei-lhe quem era aquela criancinha, aquela que estava no quadro grande, com um ar de atrasada mental... “Atrasada mental, no meu quadro? Ah, é a minha neta!”.

 

Apostou nela porque era absolutamente vibrante?

De uma imaginação infinita. Aquilo não era superficial.

 

Foi também galerista da Menez, a cujo trabalho se adere mais facilmente, porque é mais canónica. A Paula rompe com tudo. As duas eram amigas muito próximas. Acompanhou-as sempre?

Muito amigas. A Menez lidava com pouca gente, meia dúzia de pessoas. Dava-se com a Sophia de Mello Breyner, a Graça Morais, o Mário, a Paula Rego, nós [Manuel de Brito e família]. Passava o tempo no atelier, ouvindo os seus discos, lendo os seus livros e pintando. Conhece a história da Menez, com certeza...

 

Sim. Uma história imensamente trágica pontuada pela morte. A Menez era a mulher mais triste que conheceu?

Eu era capaz de tirar triste e substituir por corajosa... Se me morresse um filho, seria o descalabro. Perder três filhos adultos, e de uma maneira violenta, dois suicídios e um carcinoma... É muito para uma pessoa. Ter sobrevivido e concomitantemente ter feito o percurso mais importante da sua carreira, é extraordinário. Vinha lá de dentro. Talvez por isso, a Paula visitava-a no atelier e dizia: “Vira lá os teus quadros, esconde-os, que eu roubo-te as ideias todas.” Morreu no dia exacto em que um quadro seu foi apresentado na Cidade Proibida, na China.

 

O que é que o faz gostar de um quadro? Como se educa o olhar e o gosto?

Há trinta e tantos anos fui à Bienal de Veneza. Foi uma exposição escandalosa, o próprio Papa esteve para excomungar aquilo tudo. Eu olhava para os americanos, e, saloio, não percebia nada. As pessoas com quem viajei, um escultor e dois pintores, tentavam convencer-me de que as coisas eram boas. Não dizia que não prestava... Se o júri da nomeação e o júri da atribuição era constituído pelos principais directores de museus, quem era eu para chegar a Veneza e dizer que não prestava?

 

Portanto, atitude humilde.

Não podia ser de outra forma. Mas a partir daí – e isso já é o meu temperamento – lia tudo quanto aparecia sobre Pop Art americana. Só me convenci de que sabia verdadeiramente o que era a Pop Art depois do 25 de Abril, quando vi o que se passava nas ruas, quando vi o comportamento das multidões. As coisas que se passavam na América, ao tempo da Pop Art, não podíamos entendê-las num país adormecido. Não vivíamos aquilo na pele.

 

Quer dizer que tem de haver uma compreensão afectiva do objecto em questão?

De certo modo. Muitas vezes não tinha elementos culturais, não tinha sabedoria para dizer: isto sim, isto não. Nunca acreditei que a intuição fosse suficiente para dizer: o quadro é bom, o quadro é mau. Mas a intuição tem-me servido muito.

 

Privou com algumas das figuras mais importantes do século XX português. Como Almada Negreiros ou Mário Soares. A sua vida teria sido outra se não tivesse encontrado as pessoas que encontrou? Estas duas, por exemplo?

Não tenho dúvida. Considero que foi uma sorte enorme, um privilégio, ter encontrado as pessoas que encontrei. Eram quem eu copiava. Tinha vaidade em ser considerado um deles, não o sendo. Ia para a associação da Faculdade de Ciências jogar pingue-pongue com os alunos, tratava os professores por tu... Eu sentia que era uma figura querida.

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 2004

Manuel de Brito morreu em 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em destaque

Entradas recentes