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Marco Martins

Quando Marco Martins chega à mesa do café, traz consigo um livro de autobiografias. Autobiografias de artistas plásticos. Parecia evidente que começaríamos pela sua biografia, contada na primeira pessoa. Os factos são muito simples de enumerar: nasceu em Lisboa em 72, o pai tem uma galeria de arte, tem duas irmãs mais velhas. Frequentou o Liceu Camões e a escola António Arroio. Mas eu estava mais interessada no que se passa na sua cabeça para lá dos factos. Por isso pedi-lhe que esquecesse que sou jornalista e que era suposto falarmos de «Alice». Resulta que a biografia é a mesma, mas contada a partir de outras histórias.

Aos sete anos foi a Nova Iorque e experimentou o impacto de estar numa grande urbe; e, sobretudo, o espanto de visitar um espaço como o MoMa (o mais importante museu de arte contemporânea do mundo). Mesmo que não tenha compreendido as obras que desfilavam ante os seus olhos, persistiu uma sensação de estranheza e prazer. «A fruição de uma peça de arte pode ser uma coisa eminentemente física».

Nessa altura, ainda não sabia que ia ser realizador. Mas aos 12 anos, já. Aos 12, usava a câmara para se expressar. A intenção não era, e sublinha-o naquele fim de tarde em que nos encontrámos, documentar. Não queria registar as festas de anos ou os dias de praia. Ele queria contar histórias, fazer pequenos filmes a imitar os filmes que via no cinema. No seu mundo de então entravam gangsters, raptos, monstros e cenas de terror. As testemunhas, eram os amigos e a família.

Falamos já de família? Mas será de família que ele fala quando fala do que acontece a uma família cuja filha de três anos desapareceu? «Alice», a sua primeira longa metragem, vista por cerca de 40 mil pessoas, premiada no Festival de Cannes como revelação de um talento, escolhida para figurar entre o que de melhor se faz no cinema europeu no European Film Awards, em Berlim; «Alice» é o que me faz falar com Marco Martins.

O enunciado primordial era fazer um filme sobre alguém que perdeu alguém em Lisboa.

«Eu queria trabalhar a solidão das grandes cidades. É uma espécie de pulsão neo-realista! Gosto muito, muito de filmes sobre a ausência. O tema da ausência pode ser um sub-género na cinematografia contemporânea». Um sub-genéro sedutor, mesmo que profundamente triste. E cita Kieslovski, Atom Egoyan, Wenders de «Paris Texas».

Pergunto se faz sentido dizer que a privação, a carência são mobilizadoras, que o impelem para o fazer – ele já tinha assumido que é todo «pró-activo». Confirma que faz imenso sentido. E fala da criação como uma possibilidade de comunicação.

«Alice», que escolheu para estrear a sua forma de expressão, narra a história do desaparecimento de uma criança e do que acontece a um casal (interpretado por Nuno Lopes e Beatriz Batarda) numa cidade inóspita, onde ninguém reage quando estendem um papel a dizer «Desapareceu». Que fazer, então? Como lidar com isto? Que futuro podemos esperar?

O filme de Marco Martins, desvendando o interior silencioso de um homem, conta esta história em imagens. A temperatura do filme é a de um azul frio, condizente com o Inverno que se abate sobre as ruas da Baixa, e, principalmente, com o coração dorido de Mário (o pai). O cineasta deposita um cuidado extremo na informação visual que é passada, no lado plástico de cada personagem. O trabalho de anos como realizador de publicidade apurou este sentido. «Há uma caracterização de ambientes e personagens que vem da publicidade. Ajudou-me imenso. Um décor nunca será para mim um pano de fundo. Um décor é parte da personagem».

Voltemos aos factos que constam da biografia: fez curtas metragens assim que saiu do Conservatório. Foi assistente de João Canijo durante três anos. Percebeu que podia continuar assistente a vida toda num país onde se filma pouquíssimo. Realizou inúmeros filmes publicitários. «O meu êxito como realizador de publicidade é maior do que o meu êxito como realizador do «Alice». Isso permite-me escolher. Neste momento faço cerca de oito filmes por ano, o que é pouco». Foi o dinheiro da publicidade, regrado ano após ano, que lhe permitiu concentrar-se no filme a partir do momento em que soube que lhe tinha sido atribuído um subsídio. Pensar que alguém poupa dinheiro, e que estanca a torneira, durante três anos, para concretizar o seu sonho, tem algo de comovente...

Anos antes, frequentou cursos de escrita de argumentos e direcção de actores em Nova Iorque ou Los Angeles. Foi num desses cursos que conheceu Arthur Miller, e que teve como “colegas” no imenso anfiteatro John Turturro ou Spike Lee. «Havia alguns produtores que acompanham as conferências. E, a 15 minutos do fim, as pessoas aproximavam-se deles com pilhas de guiões e cartões!! Percebi que seria tão difícil fazer um filme nos Estados Unidos como é em Portugal. De facto, a minha vida não seria substancialmente diferente se eu tivesse nascido em Nova Iorque ou em Paris».

Viajar mostrou-lhe o mundo de um modo descomplexado. Os americanos já não são “os americanos”. Têm acesso a coisas que ele não tem, mas não são “os americanos”... «Aquele sentimento que temos muito, de estarmos aqui isolados, à margem do que lá fora está a acontecer, isso não tenho. Sinto muita pena que a nossa cultura seja marginal. O cinema asiático ou argentino é visto no mundo inteiro. Eu tenho dificuldade que o meu filme passe no estrangeiro, que seja exibido em locais que não os festivais». Sabe que o filme não terá maior projecção por ser português, por não estarem criados esses canais. Sabe, e tem intenção de se concentrar nisso. Para mudar isso.

 

 

Publicado originalmente na revista das Selecções do Reader's Digest em 2005

 

 

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