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Margarida Cardoso

Margarida Cardoso é cineasta. “Yvone Kane”, que ficciona a figura de uma guerrilheira moçambicana no pós-independência, é o seu último filme. Tinha 12 anos em 74.

 

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo” – Fernando Pessoa. Pode falar-me de alguns dos sonhos do seu mundo? 

Adoro viver e não ser “nada”. O que me move é criar com o meu trabalho e a minha vida (que nunca separo), o maior número de momentos em que possa sentir essa excitação de estar vivo, de compreender o mundo, mesmo sabendo que nunca o conseguirei. Gosto de passar essa energia aos outros. Nem sempre através da exaltação da felicidade, muitas vezes explorando um lado mais melancólico que está tão bem expresso neste poema de Pessoa.

 

Outro verso de Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. O problema é que viver é preciso. Quais são as dificuldades concretas do viver que acha mais preocupantes em Portugal?

Navegar é só para alguns, muito poucos. Viver sem a possibilidade de sonhar é para muitos. A mim toca-me ver o desamparo de muitas pessoas que me rodeiam. Neste Portugal real, pessoas que trabalham incansavelmente para sobreviver mas a quem falta o poder e a capacidade de se defenderem, são roubadas e desrespeitadas por uma quantidade assustadora de teias de influências e de pequenas e grandes corrupções. O que mais me impressiona na sociedade portuguesa é a forma patológica com que evitamos admitir aquilo que somos: um país corrupto.

 

Um país corrupto?

A corrupção prende-nos há séculos numa desigualdade de oportunidades evidente que não nos deixa evoluir nem crescer. A meu ver, a grande luta que temos pela frente passa por denunciar e limpar, mas acima de tudo por não ter vergonha de chamar as coisas pelo nome.

 

Há 40 anos tivemos um Verão Quente, com o país a rasgar-se. Que sequelas temos dessa fractura ideológica?

Voltei de Moçambique com 12 anos, em final de 1974. Aterrei – literalmente, pois o meu pai era piloto da Força Aérea – num país em pleno PREC. Esses anos marcaram-me muito. Os adultos que deveriam tocar conta de nós estavam maravilhosamente distraídos a discutir política. “Política” era a palavra que se ouvia mais vezes por minuto.

 

Como é que a sua família se situava, politicamente?

O meu pai, hoje um homem de esquerda, era, nesses meses quentes, um homem de direita. Foi preso na sequência do 11 de Março de 75. Nunca fui visitar o meu pai à prisão, mas comprei-lhe um baralho de cartas que ele ainda guarda religiosamente. Felizmente conseguimos relativizar tudo o que de mau se passou. Um dia, o homem que assinou o mandado de captura do meu pai veio falar comigo e mostrar grande apreço pelo meu trabalho. Nunca lhe falei do meu pai...

 

Porquê?

Já não valia a pena falar dessas coisa. Os tempos são outros? E nós seremos outros?

 

Também há 40 anos, o país recebeu 700 mil retornados, Angola, Moçambique e Cabo Verde tornaram-se independentes. Quer contar a sua experiência?

Muitas das família que conhecíamos em Moçambique voltaram também em 74, 75. São pessoas muito corajosas, que tiveram de se integrar usando os atributos de um colono, na sua própria terra. Tiveram de se fazer à vida, abrindo negócios e plantando as terras. Revolucionaram muitos lugares com o seu espírito empreendedor. Nunca simpatizei com o discurso que adoptaram de vítimas da revolução, mas compreendo que se sintam vítimas.

Nunca foi feito um trabalho sério para encontrar uma narrativa coerente para a descolonização – talvez por que seja impossível. Conseguimos um sucesso na integração de 700 mil pessoas, mas um terrível falhanço [no processo de] apagar dessas pessoas a perplexidade de terem sido traídas, a raiva e a dor da perda. Muitos destes sentimentos estão na base da disfunção da sociedade em que vivemos hoje.

 

Diz o guerreiro Aquiles ao rei Agamémnon, na “Ilíada”: “Ah, como te vestes de vergonha, zeloso do teu proveito”. Os portugueses estão divorciados dos políticos? Que parte ocupa neste divórcio a acusação ou suspeição de que são corruptos (demasiado zelosos do seu proveito...)?

Confesso que acho a classe política (generalizando, e apesar das excepções) de uma incompetência inaceitável. A forma impreparada com que fazem o seu trabalho deve-se ao facto de não saberem quem são os portugueses. As pessoas, o povo, ou os eleitores, são vistos como crianças. O vazio do discurso e a retórica primária é tão pouco inteligente que eu fico a desconfiar se vivem neste planeta... O meu pai costuma dividir as pessoas entre aquelas com quem ele iria à guerra, e as outras, com quem não iria. Posso dizer que não iria à guerra com nenhum dos nossos políticos mais influentes.

 

Oficialmente saímos da crise. Disse-se que Portugal tinha vivido acima das suas possibilidades e que era preciso aprender a viver de outra maneira. Aprendemos?

Com a crise aprendemos que o Estado somos nós. Para muitas pessoas o Estado era um pote de dinheiro que uns senhores de gravata geriam. Quando ouvíamos as notícias das habituais derrapagens orçamentais nas obras públicas, ingenuamente pensávamos que não nos iam passar a factura desses roubos. A crise fez com que todos começássemos – tarde de mais – a juntar as peças do puzzle. As mesmas pessoas que nos incentivaram a gastar o que não tínhamos são as mesmas que nos dizem agora que gastámos de mais. O perigo é que elas continuam aí prontas para uma nova ronda. O discurso do “alívio” da crise fez aumentar, há poucos meses, o crédito pessoal para a compra de... automóveis.

 

O que é que não fizemos nestes quatro anos e devíamos ter feito? Que reformas?

Ninguém assume que precisamos de revolução, e não de reformazinhas. Se alguém nos mostrasse um modelo que funcionasse, independentemente dos sacrifícios, tenho a certeza de que os portugueses aceitariam. Mas a opção política é deixar as pessoas à tona da água, respirando com dificuldade até que eventualmente se afoguem. O que aconteceu com a Grécia veio reforçar essa ideia.

 

Se pudesse escrever uma carta a alguém, gritar alguma coisa (um insulto, uma advertência, um conselho, uma declaração) seria o quê e a quem?

Escrevia um bilhetinho a quem poderá mudar as coisas em Portugal nos próximos anos: “Querido X, mostra-nos o que queres fazer, que já se faz tarde. Uma ideia, qualquer coisinha...Coragem, por favor!”

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2015

 

 

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