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Margarida Vila-Nova

Margarida Vila-Nova já foi Scarlett. Tinha oito anos e repetia com a heroína de E Tudo o Vento Levou que amanhã é um novo dia. Procurava aquela emoção, aquela entrega. Puxava as VHS para trás até partir a fita. Esta é a história de uma bela actriz que não fez Shakespeare. Faz telenovela, é líder de audiência. Algum problema? Esta é a história de uma actriz que começou com Filipe La Féria. Dá para parar com os preconceitos?

Margarida Vila-Nova tem 32 anos, é actriz. Tem uma luz que não se sabe de onde vem e que nos obriga a olhar para ela quando está em cena. Mais do que tudo, faz televisão. Também teatro e cinema. Nos últimos anos mudou-se para Macau, abriu uma mercearia de produtos portugueses, mergulhou num quotidiano anónimo. Um corte absoluto com a vida supostamente glamorosa das actrizes de telenovela que são líderes de audiência. Entretanto tinha casado, um filho, estava à espera do segundo. Queria fazer como naquela canção da Elis Regina: ter somente a certeza dos amigos do peito e nada mais, ter os filhos de cuca legal. Ter a cuca dela também legal. Ou seja, feliz – o que quer que isso queira dizer.

Passou o último ano em Portugal, protagonizou a telenovela da SIC Mar Salgado, participou no filme do marido, o realizador Ivo Ferreira, que trabalha as cartas que António Lobo Antunes escreveu à mulher, durante a guerra colonial.

Chegou à entrevista antes da hora, com a descontracção de quem vem do mar. Entregou-se às fotografias e depois à conversa como se entrega a tudo o que faz. No momento, só existe aquilo. É uma jovem mulher que quer fazer da sua vida um grande enredo. E vivê-la com verdade. Daqui a dias, volta para Macau. Há um ciclo que aqui se encerra. 

 

Representar, aprende-se?

Claro que se aprende. Há métodos, técnicas. Não fiz o conservatório, fui fazendo workshops. A melhor aprendizagem é a nossa bagagem de vida, a bagagem emocional. E não é só por os anos passarem, pelos filhos, pelo casamento, pela perda que ganhamos essa bagagem. É por ver os outros representar. São os espectáculos que vamos acumulando, os textos que vamos lendo, as músicas que vamos ouvindo. A dança, a fotografia. Um actor tem que ser culto sobre um assunto, sobre a vida, sobre o outro, para poder interpretá-lo de forma livre e madura.

 

Olhando para trás, era mais ou menos previsível, ou obrigatório, que a sua vida viesse dar à representação?

Sim! É uma relação de amor/ódio. É como se estivesse completa, quando estou a representar. Ao mesmo tempo, sempre que vou iniciar um projecto, é uma angústia. É o medo de não me superar. Sou naturalmente insatisfeita, sou extremamente insegura.

 

Não se nota.

É porque gosto muito do que faço. Sou mais feliz quando represento. Ajuda-me a descobrir o mundo. Os meus pais são produtores. Cresci rodeada de encenadores, fotógrafos, bailarinos, coreógrafos, pintores. É certo que isso me inspirou e levou a representar. O meu marido goza comigo: “Gostavas de ter uma vida organizada, das nove às cinco. Esse espírito pequeno-burguês que te acompanha...”.

 

Quando era criança imaginava o quê? Quando imaginava um futuro organizado, ele correspondia sobretudo a quê?

Eu queria ser caixa de supermercado. Ficava fascinada com as unhas pintadas! Em parte cumpri alguns dos meus sonhos de criança. Queria casar-me, queria ter filhos. Esse percurso familiar, conquistei. Ou encontrei-o.

Há 20 anos, os artistas em Portugal eram uns outsiders. Sentia-me sempre uma outsider. Vestia-me de maneira diferente, via espectáculos diferentes, os meus pais eram diferentes. Andei em escolas tradicionais, no Jardim Escola João de Deus, no Lar da Criança, onde havia um padrão. Nunca fiz parte do padrão.

 

Como é que se vestia?

Pessimamente [risos]. Só reparo nisso nas fotografias. Lembro-me de uns collants brancos canelados, com umas camisas aos quadrados, umas botas vermelhas. Lembro-me de ir à Gulbenkian ver um espectáculo com um vestido cor-de-rosa até aos pés, de dama de honor, comprado numa feira, em segunda mão, em Inglaterra. Era uma grande liberdade de poder ser, pensar, criar.

 

O que descreve é uma criança livre e excêntrica num mundo de adultos, a fazer vida de adulto.

Fazia a vida dos adultos. Os meus pais separaram-se quando eu tinha um ano. Cresci com os amigos da minha mãe. Andávamos sempre em bando. Sempre me trataram como uma pessoa. Não era uma criança nem era uma adulta, era uma pessoa.

 

Quando é que foi criança?

Era criança com os meus avós. Tinha uma relação muito próxima. Ainda tenho. Fazíamos as férias no Algarve, piqueniques, o Jardim Zoológico. Com horários, regras.

Às vezes faltava à escola porque as férias da minha mãe nunca eram previsíveis. E ficava angustiadíssima porque faltava à escola. Contudo, esses dias permitiam-me ver o Botticelli, o Michelangelo, o Rafael, outros pintores e artistas. Ver Roma, Veneza. Há um universo que só pude conhecer por causa da transgressão. Sempre quis tudo ao mesmo tempo. E coisas contrárias. É como representar: a minha maior paixão e o meu maior medo. Por isso a família, um equilíbrio, saber onde é que está o norte e o sul...

 

Os seus filhos têm seis e três anos. Sente com a infância deles que vive, ou revive, a sua infância? Em moldes diferentes.

Sim. Há uma característica [comum] entre mim e o Ivo [Ferreira, o marido e pai das crianças]. Ele também é filho de pais actores, cresceu entre A Comuna e O Bando. Crescemos com adultos, tornámo-nos adultos muito cedo. Tratamos os nossos filhos como pessoas. Não como crianças, não como adultos, mas como seres pensantes. E sim, faltam às aulas para ir viajar.

 

Teve assim tanto mal faltar às aulas? O dever ser tomou conta da vida quotidiana, da educação das crianças.

É verdade. Eu andei sempre a trocar de escola e a trocar de casa. A minha mãe gostava muito de trocar de casa. Cada vez que via a minha mãe a forrar prateleiras já sabia que tinha esgotado tudo o que havia para fazer dentro de casa. Mudávamos de ano a ano, de dois em dois anos no máximo. (O meu pai não, e na casa dele sempre tive o meu quarto.)

O mesmo com a escola. De cada vez que construía o meu universo escolar, entre amizades e professores, mudava. Não me assustam as mudanças hoje em dia. Posso gostar mais, posso gostar menos, empacotar uma casa, uma vida, não me angustia.

 

Não tem medo do futuro, do que possa resultar da mudança. É isso?

Estou de regresso a Macau e não me assusta regressar. O que me espera lá não é necessariamente melhor nem pior. Não há nada aqui que me faça ficar.

 

Mudou-se para Macau em 2011. Era a actriz que protagonizava as novelas de maior audiência, no pico da fama, da forma. De repente retira-se para o Oriente e vai abrir uma mercearia.

Foi por tudo isso que me fui embora. Tinha esgotado o meu caminho. Não era exactamente esse percurso que eu esperava, que ambicionava. Queria muito ser actriz. Queria ser uma grande actriz. Não esperava ser a actriz do prime time. Sentia-me esgotada. Sentia que tinha que parar.

 

Quantos anos estavam para trás, de novela?

Cinco anos de exclusividade com a TVI, sete de novela. Até era das actrizes privilegiadas, fazia uma, descansava outra.

 

Receava ficar com o estigma da actriz de telenovela?

Uma actriz é uma actriz. Há actrizes mais talentosas para fazer determinados papéis, trabalhar determinada linguagem. Não consigo padronizar as coisas assim, é muito redutor. O que sentia era que o meu percurso estava a afunilar com a televisão. Estava a ficar cada vez mais longe das companhias de teatro que admirava, que respeitava e com as quais gostaria de trabalhar.

 

As coisas estão ainda muito segmentadas, apesar de tudo, em Portugal.

Hoje em dia já é aceite fazer televisão. Já se aceita que um actor pague as suas contas a fazer telenovela. Coisa que há dez anos não se aceitava. Isto não quer dizer que se cruzem os caminhos. É natural que os actores se identifiquem com determinadas companhias ou com determinados realizadores.

 

Muitos actores mexem na telenovela com pinças, dizem: “Faço telenovela para pagar as minhas contas”. É uma forma de paternalismo, de escusa? Não parece ser o seu caso.

Não, não é. Aliás, não tinha necessidade nenhuma de vir a Portugal fazer esta telenovela [Mar Salgado]. Estive três anos sem receber um único convite para televisão. O meu contrato com a TVI tinha terminado. Rescindimos, não renovámos. O meu filho Dinis tinha acabado de nascer. Comecei por pensar: “Ai, vou ficar sem chão”. É muito confortável ter um contrato de exclusividade. Mas não me sentia actriz, tinha desistido de representar. Queria ver os filhos crescerem. Queria acompanhar o Ivo na jornada de construir uma produtora [de cinema] em Macau. Queria viajar, queria estudar. A não-renovação do contrato, ao mesmo tempo, foi uma libertação. Por medo ou insegurança acabamos por aceitar os projectos que menos nos agradam.

 

Como é que era a vida de novela? Como é que chega a esse estado de exaustão?

Sempre quis poder escolher. Não era eu que estava a escolher a minha vida, eram as circunstâncias. Estava a ser ultrapassada nas minhas escolhas. Nem todas as personagens em televisão são interessantes. Nem toda a gente escreve bem para televisão. Nem toda a gente realiza bem em televisão. Como em qualquer outra profissão. São 12 horas por dia. Os estúdios são fora de Lisboa, são 90 minutos num carro, todos os dias, para trás e para a frente. E as personagens são muito saturantes em telenovela. É preciso trabalhar muito para não “fazer à novela”.

 

Como é “fazer à novela”?

É fazer figurinha triste, puxar a lágrima ao olho. Assim uma coisa estereotipada. Agora somos o casal romântico, agora somos os vilões. Os personagens já estão catalogados. É muito difícil fazer bem se estivermos a fazer umas atrás das outras. Perde-se frescura.

 

Porque é que veio fazer esta novela?

Quando menos esperava; quando tínhamos avançado para uma segunda loja; quando o Ivo tinha acabado de receber subsídio para uma longa-metragem; a meio do ano escolar dos miúdos; surgiu o convite. Recebi a chamada a meio da noite. Esta coisa da diferença horária..., as pessoas esquecem-se das oito horas de diferença. Fico logo em pânico, alguém morreu, taquicardia! “Personagem certa, altura certa, a protagonista da próxima novela da SIC.” Depois de um longo namoro, comecei a ler a sinopse. Era uma novela dirigida pela Patrícia Sequeira, que para mim é a melhor coordenadora de projectos em televisão. Amiga de longa data, com quem praticamente me estreei na televisão. Quis muito representar esta personagem. Não vim porque precisava de pagar as contas.

 

Parte de si estava com medo de que se tivessem esquecido de si?

Não. Estar três anos fora, não ser chamada, haver um esquecimento... Macau é mesmo longe, não dá para vir cá passar o fim-de-semana. Esta distância, este vazio, também traz um crescimento pessoal.

 

O seu filho Martim tinha dois anos quando foi para Macau. Os filhos pesaram muito na decisão de abandonar a televisão e partir?

Queria ver o meu filho crescer. Queria viajar. Um dos privilégios de viver lá é que viajamos a cada três meses. Vamos à Tailândia, Malásia, Indonésia, Índia. Vamos ver outras pessoas, outras culturas, ouvir outras línguas. E pensamos na nossa insignificância neste universo. Se estiver fechada num T0 em Lisboa a fazer novela, e não abrir a porta para conhecer mundo, vou acabar claustrofóbica.

Recomecei uma vida lá. Chegámos a Macau de mochila às costas, uma criança de três anos e grávida do Dinis. Montámos uma casa, uma loja. Fazia muitas horas de mercearia. A única forma de conhecer o próprio negócio é atrás do balcão, a conhecer o cliente que vai comprar os produtos. Sobretudo pessoas de Hong Kong, Singapura, Taiwan e japoneses. Da facturação, apenas 15% são portugueses. E tenho uma caixa registadora!

 

E unhas?

Hoje, como vinha para uma entrevista ainda pensei pintá-las, mas deu-me a preguiça [risos]. É um personagem, chegava, vestia o avental como quem veste um figurino. Arrumar os sabonetes, forrava as prateleiras. Ao longo de três anos, claro que houve dias difíceis. Vivemos os quatro ao colo uns dos outros, e somos muito felizes assim, em tribo, mas há uma logística familiar que é mais difícil. Não me permiti que falhasse o meu projecto. Passei a viver com menos, tivemos que fazer concessões, encontrámos um equilíbrio. Esta determinação, não sei se é força se é inconsciência. Não meço o risco, não meço o medo. Perante o precipício atiro-me. Podia ter falhado a loja, podia ter arruinado o negócio. Podia não me ter adaptado àquela vida.

 

E se tudo isso tivesse acontecido?

Teria sido uma experiência de vida.

 

No fundo sabia sempre que podia voltar.

Há uma coisa que dizemos sempre um ao outro, somos muito companheiros, o Ivo e eu: “Quando não estiver bom para ti, não está bom para mim, vamos embora”. O projecto falha se ficarmos encurralados; isto é, se não estivermos felizes.

Para nós faz sentido ter duas vidas paralelas, duas cidades, duas histórias, dois momentos. E vamos sendo o condutor deste carrossel.

 

Não aparecer nas revistas, não ser reconhecida na rua, não aparecer na televisão, esse tipo de reconhecimento…

Não me faz falta nenhuma. Não sofro nada com isso. Vim sem medos. Claro que tinha um peso muito grande em cima, era a novela que ia suceder ao Sol de Inverno, que tinha tido uma audiência enorme, com a Rita Blanco e a Maria João Luís, duas actrizes de indiscutível talento e popularidade junto do público, na estação concorrente. Mas a expectativa do outro, da imprensa não me intimidava. O meu desafio era comigo mesma.

 

Tem noção da sua reputação? Mesmo as pessoas que não a vêem na novela, reconhecem-na, e ao seu talento.

Para mim não é assim tão óbvio. E de qualquer forma não é por arrogância que não dou importância, é por defesa. Se for abordada na rua não sou antipática, não faço cenas. Mas já não quero apanhar secas, já não quero perder tempo.

 

Tudo somado, esteve cá um ano. Fez uma novela, participou no filme do seu marido, fez férias. Regressa daqui a poucas semanas a Macau, à vida que está a descrever. As filmagens decorreram entre Angola e Lisboa.

As minhas sessões foram passadas em Lisboa. Não cheguei a ir a Angola. Estive muito perto da rodagem. Tinha a alcunha de driver do Ivo... Este projecto surge nas nossas vidas… digo nas nossas porque era eu que estava a ler o livro quando ele entrou em casa e me viu a ler as cartas, em voz alta. Estava grávida do Martim. Foi no ano em que o Águas Mil estreou [2008], ele andava sempre em festivais, eu a gravar novela. Um dia disse-me: “Se falasse com a Zé, isto podia dar um grande filme.” O Ivo é amigo da Maria José e da Joana [as duas filhas de António Lobo Antunes] de longa data. O projecto acompanhou-nos durante sete anos.

 

O que é que a comoveu nessas cartas?

Sou uma romântica apaixonada.

 

Adora dizer “o meu marido”...

Sim!

 

O seu pai esteve na guerra?

Não. Aquelas palavras eram de uma grandeza, transmitiam uma realidade... São cartas de amor e guerra. Ao longo das cartas vê-se o crescimento do homem, médico, escritor, a sua consciência política, o seu testemunho.

 

De um modo silencioso, subterrâneo, o projecto das cartas acompanhou-vos nos anos de Macau.

Sim. Se não tivéssemos ido para Macau, se não tivéssemos inventado uma vida – inventámos a vida que queríamos ter, não nos convidaram para abrir uma mercearia –, se tivéssemos ficado à espera de um dinheiro que desbloqueasse, de uma novela ou de uma peça de teatro que não surgiu, teríamos colapsado. Fomos fazendo um verdadeiro croché ao longo destes anos. E outros projectos se seguiram, Na Escama do Dragão, uma curta-metragem que filmámos em Macau para Guimarães Capital da Cultura, com o apoio do governo de Macau. O documentário O Estrangeiro, também filmado em Macau para a RTP, quando se assinalaram os dez anos da transição. Fizemos coisas, mesmo como artistas, não só como merceeiros. E o projecto das cartas fechou um ciclo.

 

Gostava de voltar ao começo da entrevista, à bagagem. Voltar ao seu tempo de formação, em que foi vendo pessoas, aprendendo o mundo.

Ia muitas vezes com o Fernando Heitor (actor, escritor, encenador) para o Teatro Aberto. Ele é como um padrinho para mim, esteve muito próximo do meu crescimento, é padrinho do meu filho Martim. Eu ficava dias e dias a assistir a ensaios. Nunca me cansei de ver os outros representar. Depois a minha mãe trabalhou muitos anos com o Filipe La Féria. Ainda que seja visto por muitos como o encenador da revista, o primeiro espectáculo que vi dele foi What happened to Madalena Iglésias, que de revista tinha pouco.

 

E muito antes disso, encenou Pasolini.

Eu ainda não tinha idade para ir [risos]. Não gosto desse preconceito sobre um género. Cada um tem o seu tempo e o seu espaço. A minha mãe esteve muito próxima do Filipe. Não tinha babysitter e levava-me para os ensaios. Eu ficava sempre curiosa sobre como chegar àquele estado de entrega, de emoção. O mesmo com a televisão, a música.

 

Por exemplo.

Via uma cena, puxava atrás as VHS, até partirem. Scarlett O’Hara em E Tudo o Vento Levou. “Tomorrow is another day.” Ia para as escadas, sentada na minha Tara, a dizer: “Tomorrow is another day”. Tinha oito ou nove anos. A minha cantora favorita era a Édith Piaf. Não sabia falar francês mas decorei as letras. Se soubesse cantar era assim que faria. Se soubesse representar era assim que faria. Foi a puxar a Scarlett muitas vezes para trás que aprendi. A repetição sempre esteve muito presente. Repetir um olhar, repetir um trejeito, procurar a verdade daquele texto, daquela emoção.

 

O seu primeiro filme foi na Curia, tinha seis ou sete anos. É incrível pensar como tudo começou tão cedo.

Lá está, a minha mãe não tinha babysitter naquele Verão. Era chefe de produção do filme e precisavam de uma miúda. Só sabia dizer oui e non (era um telefilme francês), o realizador achou-me graça.

 

Porque é que não ia brincar para um canto, porque é que ficava a assistir?

Porque ficava fascinada. Via montar a calha do travelling e ficava fascinada com a forma como montavam a calha – até atingirem o equilíbrio. Como preparavam a luz. Há uma memória de infância que tenho muito presente – é o silêncio. O silêncio do plateau. É uma questão de respeito pelo deus do cinema, seja ele qual for. Depois achava graça aos actores, às maquilhagens, aos figurinos. Sempre gostei do lado folclórico que isto possa ter, a fantasia, o sonho.

 

A sua mãe, foi sempre a grande cúmplice?

Foi super cúmplice.

 

Não teve que se emancipar em relação a ela? Acontece muito, no meio do espectáculo, quando as crianças são precoces, haver uma mãe tentacular que toma conta. E depois é muito doloroso o corte.

A minha mãe preparou-me para ser independente, fui viver sozinha aos 18 anos. Este cordão umbilical era inevitável ser cortado para cada uma poder seguir as suas escolhas, o seu caminho. Não há ressentimentos. Era não só inevitável como necessário. Não vejo as coisas como o lado bom e o lado mau, o antes e o depois. Crescemos as duas juntas.

 

Que idade é que ela tinha quando a teve?

Vinte e poucos, 23. Foi mãe nova. Se houve algum passo que não foi o certo, seja em termos de opções pessoais, seja em termos de opções profissionais, durante a minha infância, a minha adolescência, o meu crescimento, foi porque nem uma nem outra sabia fazer melhor.

 

Quando é que se reconciliou com isso? Parece um discurso muito arrumado, pacificado.

Não sei determinar. Os passos foram sendo dados naturalmente. Somos muito família. Falamos muito alto. Adoramos estar à mesa. Sei que tive uma infância diferente, e sobretudo uma adolescência diferente, porque comecei a trabalhar cedo. Os Jornalistas, a primeira série que fiz, tinha uns 15 anos.

 

Porque é que fez, era preciso ganhar dinheiro?

Porque gostava de representar. E na altura havia poucas crianças a fazê-lo.

 

Estava a tentar perceber até onde é que o dinheiro condicionou a sua vida.

Nada. Tinha uma conta onde fui depositando e aos 18 anos levantei o dinheiro e fui a Nova Iorque. Ver espectáculos, comprar roupa, coisas de adolescente. Aos 16 podia convidar a minha melhor amiga para jantar. E às vezes chegava o Inverno e não tinha que ficar à espera do Natal, se quisesse comprar umas botas, comprava.

 

Aos 18 anos, montou uma empresa de produção com a sua mãe, Magníficas Produções. Sempre a trabalhar em televisão, paralelamente. Abandonou o projecto.

Os anos foram passando e não queria mais fazer Confissões de Adolescente. Queria fazer o Tchekhov, o Pinter, o Shakespeare. E não fazia sentido continuar a pagar para trabalhar. No fundo, fazia uma novela, ganhava dinheiro e investia numa peça de teatro. Fechámos a produtora e seguimos com as nossas vidas. As Confissões de Adolescente eram vistas como um teatro pobre, jovem, comercial. Num percurso dito sério, isto não poderia fazer parte dos meus espectáculos. Hoje em dia estou mesmo em paz com isto. Não me ofende sequer uma piadola sobre as Confissões de Adolescente ou sobre o La Féria. O percurso de vida, aquele que tive, não tenho vergonha. E vergonha de quê?

 

O que é que fazia na Grande Noite, programa de La Féria na RTP, gravado ao vivo no Politeama?

O primeiro papel que fiz foi a Marisol, uma espanholita de castanholas e vestido de bolas. Dizia: «Marisol soy yo, estoy en el cárcere por la maldita cocaina!». Maldita Cocaína era a peça que o Filipe ia produzir a seguir.

Nunca mais me esqueci das dores de barriga antes de entrar em cena. Não me esqueço também da garganta seca, da falta de ar. E das palmas. Não tenho qualquer memória da última vez que recebi um aplauso, lembro-me da primeira vez. Não estamos à espera.

 

Tinha que idade?

Nove. Entrei, as pessoas bateram palmas, calei-me, e depois disse a frase. O meu avô assistiu. “Como é que sabias que tinhas que ficar em silêncio, que com as palmas as pessoas não te ouviam?” Não sabia. Fiz intuitivamente. Ou porque passei muitos anos a ver os outros receberem palmas.

 

Já mostrou aos seus filhos algumas imagens desse período, criança em cima dos palcos?

Não. Às vezes conto-lhes coisas que fiz e ficam maravilhados. Ficam baralhadíssimos quando as pessoas querem tirar fotografias comigo. Em Macau isso não existe, sou uma pessoa anónima. (O Dinis, a primeira vez que chegámos à praia, disse: “Mãe, encontrámos o Mar Salgado!”. [risos]) É bom saberem o que estou a fazer, que quando não estou em casa estou ali [a gravar]. Mas gosto que tenham as histórias deles, as vidas deles, os amigos deles.

 

Eles sim, têm a vida pequeno-burguesa que imaginou que seria bom ter?

Não, coitados, são uns freaks, uns pequenos selvagens. Começaram a viajar muito cedo, em caravanas, a trepar às árvores, a fazer caminhadas. São felizes assim.

 

Nunca os levou num colchãozinho para um camarim como a sua mãe fez.

Não, nunca os levei para o teatro nem para as gravações. Não gosto. E não foi preciso.

 

Agora vai regressar. Logo se vê por quanto tempo.

Sim. Esta vinda a Portugal foi importante. Há assim um mito de que sou muito cara ou muito difícil, mas não é verdade. No próximo ano, tenho vontade de integrar um projecto do Teatro do Bairro. E de voltar a trabalhar com a SIC. Em Janeiro que vem começamos uma longa-metragem. Foi o que fiz hoje: imprimi o guião. É o começar a trabalhar.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2015

 

 

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