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Maria de Fátima Bonifácio (sobre Portugal)

O Tribunal Constitucional é que decide sobre o que é essencial na vida de todos os dias? Esta Constituição está concebida para amarrar os pés e as mãos do presidente da República? É imprescindível um pacto de regime para dar passos em frente? Maria de Fátima Bonifácio responde que sim a todas estas questões. Dela se pode dizer que é uma historiadora que não acredita em revoluções. Acusa este Governo de não ter sabido insuflar esperança (entre outras coisas) nos portugueses. “As pessoas precisam de sonhos”, ainda que não precisem de ilusões.

Tem uma obra extensa. O último livro “Um Homem Singular – Biografia Política de Rodrigo da Fonseca Magalhães (1787-1858) foi editado em 2012 pela D. Quixote.

 

“Nasci entre brutos, vivi entre brutos, morro entre brutos” é uma frase que se atribui a Rodrigo da Fonseca. Parece uma frase desesperada para se dizer no leito de morte, sobretudo se pensarmos que nós, portugueses, somos esses brutos.

A frase é apócrifa. Não há a certeza de que ele a tenha proferido. E não a escreveu. Mas o facto de essa frase lhe ser atribuída já fala por si. O Rodrigo era muito céptico em relação às virtudes da nossa portugalidade. Achava que não existiam. Era muito céptico em relação à natureza humana. Mas convivia bem com as imperfeições do mundo e dos homens.

 

Um pessimista?

Era realista. Estava convencido da impossibilidade de alterar a natureza humana. E estava convencido de que muitos dos defeitos da sociedade em que vivia tanto decorriam da má organização política e social como dos defeitos dos homens. Tinha muito má opinião a respeito dos homens em geral.

 

E de Portugal em particular?

Se calhar dos portugueses em particular. Tinha a noção de que Portugal não era a Inglaterra, a Bélgica. Achava que havia países com regimes políticos mais civilizados do que o nosso. Também não era difícil, vivíamos numa guerra civil. A partir do fim da guerra civil com os miguelistas, até 1981 Portugal viveu num clima de guerra civil intermitente.

 

Quais eram as diferenças mais significativas entre Portugal, a Bélgica e a Inglaterra?

Aquilo em que Rodrigo mais se empenhou toda a vida: a radical incapacidade que os portugueses tinham de discutir pacífica e civilizadamente, em vez de se insultarem e de andarem à pancada. O sistemático recurso à violência política como meio de luta política deixava-o quase desesperado. Não é que achasse que devia haver unanimismo, de todo. Era um liberal, acreditava na divergência das ideias. Era completamente anti-dogmático. Mas não percebia porque é que as pessoas não eram capazes, em Portugal, de ter essa discussão civilizada, racional, livre, despreconceituosa.

 

No diagnóstico de Rodrigo da Fonseca, porque é que não conseguíamos dar esse passo?

Acabámos por dar esse passo, em grande parte graças a ele, com a Regeneração, a partir de 1851. Achava que Portugal estava infectado, como de facto estava, pelo vírus revolucionário que vinha da Revolução Francesa. A Revolução Francesa veio criar a ilusão de que todos os males se podiam resolver através da violência política, e que a revolução era um passaporte para o paraíso. A Revolução Francesa gera um revolucionarismo que perturba quase toda a primeira metade do século XIX em toda a Europa, excepto na Bélgica, a partir dos anos 30, e em Inglaterra.

 

E em Portugal?

O revolucionarismo era impeditivo de qualquer diálogo com o pólo oposto. Enquanto a crença revolucionária sobreviveu em Portugal, o diálogo entre a esquerda e a direita liberais era impossível. Todos os diferendos eram resolvidos pela via violenta.

Em 1848 toda a Europa é varrida por uma série de revoluções. É a chamada Primavera dos Povos – por isso é que se fala [agora] nas Primaveras Árabes –, que começa em Paris e alastra a todos os países. Tivemos essa revolução prematuramente na Maria da Fonte em 1846. Não houve 1848 em Portugal.

 

Não tivemos uma revolução com a dimensão das europeias, é o que está a dizer?

Houve uma revolta caricata que o governo sufocou com meia dúzia de prisões. A partir daí uma grande parte dos revolucionários portugueses chegaram à conclusão de que a via revolucionária conduzia necessariamente a um fracasso. E descobriram que a política não tinha importância nenhuma, que as Constituições eram desinteressantes, e que o segredo para a emancipação cívica e política do povo português estava no desenvolvimento económico. É aí que chegamos ao célebre fontismo. Fontes Pereira de Melo entra para o governo em 1851 juntamente com o Rodrigo. O José Estevão dizia que um quilómetro de estrada valia mais do que todos os artigos de uma Constituição.

 

É uma frase demagógica.

Posta no contexto a frase tem sentido. Levámos 15 anos à bulha por causa de artigos da Constituição. Tivemos três Constituições em 15 anos e isso não resolveu problema nenhum do país.

 

Estava a ouvi-la e a fazer uma ponte com o século XX português e com os passos que foram dados em momentos revolucionários.

A revolução em Portugal só acabou… Teve aquele interregno de Salazar, que é uma vingança do Portugal conservador e católico. Outra particularidade da história portuguesa é que toda a gente é de esquerda no século XIX. Toda a gente é progressista, não há conservadorismo. O conservadorismo desaparece com a morte do miguelismo em 34. Até ao fim da República, era tudo a competir a ver quem é que era mais anti-clerical, menos dinástico, mais republicano.

Depois de Salazar, a revolução só termina com a primeira revisão constitucional em 82. Só então a Constituição é expurgada dos elementos mais revolucionários que ainda lá estavam. É a partir daí que temos uma Constituição civil adequada ao século.

 

Ainda muito de esquerda? Essa ainda é a matriz da nossa Constituição?

Na nossa Constituição ainda está escrito que Portugal deve caminhar para o socialismo. É uma coisa anacrónica e disparatada. Eu não estou nada interessada em caminhar para o socialismo, e como eu centenas de milhar de pessoas. Aquilo está lá; também não se pode dizer que incomode muito, mas devia ser retirado. O problema da nossa Constituição não é ser de esquerda ou de direita; é a definição dos poderes dos vários órgãos de soberania que não é a mais adequada. Tenho dificuldade em aceitar a maneira como as competências e poderes do presidente da República estão definidos.

 

Nomeadamente?

A ideia que tenho (não sou constitucionalista, estou a falar como uma leiga) é a de que a Constituição está concebida para amarrar os pés e as mãos do presidente da República – coisa que verificamos todos os dias. A ideia de que intervém pela palavra é uma pura treta que nos vendem.

 

Tem, por exemplo, o poder de destituir o governo.

Só tem o poder da bomba atómica, mais nada.

 

Aí não está atado.

Não, mas exceptuando a bomba atómica o presidente da República não tem meios de inspirar, conduzir, orientar.

 

O poder efectivo do Presidente depende das suas características pessoais e da maneira como consegue andar entre os pingos da chuva?

O poder efectivo do Presidente é reduzido, independentemente dos seus atributos pessoais. Claro que pode sempre fazer como fez Mário Soares, que montou uma oposição ao governo à margem da Presidência da República, mas isso não é recomendável nem é saudável, nem é leal. É falta de fair play mas foi o que ele fez. Talvez assim se consiga ter influência. Mas é por um meio espúrio.

 

Cavaco interveio nos últimos anos, nomeadamente na saída do Sócrates.

Ele tem alguma influência. Mas se quiser ter um presidente da República que oriente, dirija, no sentido da linha geral, não tem meios para isso. Ou então tem que montar um circo, incomodar toda a gente. A coisa acaba mal. Aquilo está feito para o manter amarrado.

 

Insisto. Se ele intervém pela palavra e se o poder está na palavra…

Digo justamente o contrário, que a palavra não tem poder nenhum. Ele pode fazer uma mensagem à Assembleia da República – é uma forma de usar a palavra – e ninguém lhe liga nenhuma. Ou pode falar no 5 de Outubro. Quem é que ouve? Claro que pode mandar uns recados pelo meio do discurso do 5 de Outubro ou do Natal, e será muito citado nos jornais. Mas quem governa pode alhear-se completamente dos estados de alma e dos estados de espírito do presidente da República. E é o que faz.

 

Acha que se podem dar grandes passos sem revoluções?

Sou reformista. O Rodrigo era um reformista e um gradualista – era o termo que usava. José Estevão tem um discurso na câmara dos deputados em que diz que o problema com as revoluções é que são feitas por vanguardas. E as vanguardas descolam das caudas que as seguem. Essa cauda é triturada por quem combate a revolução e a vanguarda fica isolada e impotente.

 

Que alternativa a esse método?

Ele acha que é preferível caminhar devagar mas sem que nenhuma vanguarda se destaque e se separe do séquito, do povo português. Acha que é um método muito mais frutuoso do que o método revolucionário.

Sou reformista, não acredito em revoluções. As revoluções cometem, regra geral, crimes monstruosos, devoram os seus próprios filhos. São mais feitas para destruir do que para construir. Das revoluções contemporâneas do século XX, ou de finais do século XIX, aquilo que restou foram regimes ditatoriais ou mesmo totalitários e sanguinários.

 

1910, 1974: seria possível pôr fim à monarquia de outro modo que não matando o rei? Em relação a 74, seria possível pôr termo à ditadura sem uma revolução?

Mas em 74 não houve revolução nenhuma, aquilo foi um passeio [risos]. Estou a falar de revoluções a sério, onde morre gente, em que se luta de um lado e de outro. 74 foi a rendição do Estado Novo às mãos do Movimento das Forças Armadas. Foi a coisa mais pacífica deste mundo. Houve uma revolução no sentido em que houve uma mudança de regime, mas era uma mudança de regime que já estava madura. Aquilo que se seguiu, tirando a loucura de 74/76, e sobretudo a loucura de 75, foi uma coisa branda. Ficámos rapidamente todos amigos outra vez. Passado pouco tempo já aí estava toda a gente que tinha fugido.

 

Foi muita gente para o Brasil.

Foram precipitadamente para o Brasil. Bem sei que o Otelo disse que metia toda a gente no Campo Pequeno, mas ninguém o levou a sério. Estava doido. Mas numa revolução a sério ele não estaria doido, ele faria mesmo isso.

Quanto à monarquia, como historiadora, tenho apenas que constatar que acabou e analisar porque é que de entre as várias maneiras como podia acabar, acabou daquela e não de outra. Pessoalmente posso dizer que não vejo porque é que a monarquia tinha que ser abolida. Tanto mais que quando D. Carlos é morto já estavam convocadas eleições para Abril de 1908.

 

Não sabia que era monárquica.

Não sou, mas detesto jacobinos, e os republicanos são jacobinos. E sobretudo os republicanos do Afonso Costa e do Partido Democrático que depois se forma.

 

Ainda a frase apócrifa: “Nasci entre brutos, vivi entre brutos, morro entre brutos”. Rodrigo da Fonseca achava os portugueses brutos?

Ele não podia deixar de achar os portugueses brutos, porque a esmagadora maioria dos portugueses era analfabeta. Temos que ter sempre presente que Portugal era Lisboa. O que se passava no Porto contava vagamente se conseguisse ter reflexos e influência em Lisboa. O resto do país nem sabia quem eram os ministros. Sabiam vagamente que havia um rei.

 

Éramos brutos? Somos brutos?

Não há comparação nenhuma. Se vamos a Espanha temos a sensação de que os espanhóis são mais desenvoltos, mais descomplexados, mais audazes. Há diferenças que têm a ver com o ADN histórico dos dois povos. Mas não sei até que ponto são menos brutos do que nós. Não sei se hoje se pode falar em bruteza no sentido em que o Rodrigo falava.

 

Qual era o sentido?

Ele queria dizer que as pessoas eram ignorantes, analfabetas. Coisa curiosa: dizia que quando uma pessoa era individualmente interrogada, dificilmente sabia dizer o que é que convinha mais para a sua vida ou para a organização do país. Eram muito raras as pessoas que tinham uma noção prestável sobre esse assunto. Mas que o povo no seu conjunto, quando interrogado, mesmo através do voto – e as eleições deixaram de ser fraudulentas a partir do Rodrigo –, tinha um instinto que não se enganava.

 

Instinto?

Talvez o povo reconheça instintivamente de que lado está o seu interesse. E talvez hoje, e estou a pensar em Portugal, o povo reconheça instintivamente quais são as possibilidades, onde é que está o limite para além do qual não vale a pena tentar. Se assim não fosse, os partidos PCP ou BE teriam votações esmagadoras. Não têm porque as pessoas sabem que estão a vender sonhos. Se o governo do país fosse entregue ao BE, o melhor que tínhamos a fazer era desatar a rir à gargalhada ou emigrar rapidamente.

 

Surpreendeu-a o crescimento significativo do PCP nas últimas eleições?

De maneira nenhuma. O crescimento não é bem um crescimento. É uma recuperação de câmaras que o PCP tinha perdido, no Alentejo (Évora, a mais emblemática de todas).

 

Encara-o como um voto de protesto?

Houve uma recuperação autárquica do PCP que encaro como um voto de protesto. Vamos ver o que se passa em eleições legislativas. Não creio que se passe a mesma coisa. O BE perdeu o único autarca que tinha, apesar do seu discurso inflamado. Quem os oiça, dá ideia de que se governassem não tínhamos que apertar o cinto, não tínhamos que fazer sacrifícios. A Europa subscrevia a nossa dívida, mutualizava a dívida. Facilidades, alegria, flores e passarinhos. O povo sente, mesmo pessoas pouco instruídas têm noção de que isto é uma conversa do Além. Não é uma conversa deste mundo onde temos os pés.

 

As pessoas precisam de sonhos e de esperança.

As pessoas precisam de sonhos, mas não precisam de ilusões. As pessoas precisam de sonhar coisas possíveis, que podem vir a ser feitas um dia.

 

Qual é o papel da esperança em momentos como este que atravessamos? Não é o mesmo que ilusões e sonhos.

O papel da esperança é importante. Se pensássemos que íamos viver nesta apagada e vil tristeza per saecula saeculorum [eternamente], e não tivéssemos uma esperança mais ou menos fundada de que de alguma maneira, mesmo que demore algum tempo, isto há-de dar uma volta positiva, tornar-se-ia muito difícil suportar a situação presente.

 

Esse é um dos principais problemas com que este Governo tem que lidar, a desesperança dos portugueses?

Este Governo não soube insuflar esperança nenhuma nos portugueses. E não estou a falar de fazer propaganda. Não tem a ver com prometer mundos e fundos nem fazer promessas do Além. Mas este governo fez finca-pé em ostentar uma dureza, e até em matar qualquer ilusão ou esperança. Não percebo porquê. É um exercício um pouco sádico que revela muito pouca consideração pelos portugueses, pelas pessoas que estão a passar pelos sacrifícios. Passos Coelho tem tentado emendar um pouco a mão, mas nitidamente não é o jeito dele. Durante os dois primeiros anos comportou-se sistematicamente de uma forma um pouco acintosa. É um erro político.  

 

Aumentar os impostos e cortar a despesa são os dois caminhos usados para equilibrar as contas. Dois anos e meio depois elas não estão propriamente equilibradas. Mas não são só os problemas reais, quantitativos que estão em jogo. Ter um horizonte de futuro é um ingrediente seriamente considerado quando se analisam as revoluções?

É impossível enunciar uma teoria que lhe permita deduzir em que circunstâncias é que há revoluções. Assim como não há nenhuma teoria geral do desenvolvimento. Se houvesse, não havia países subdesenvolvidos. Às vezes há uma gota de água qualquer, é quase inexplicável, que põe as pessoas em movimento.

 

Não querendo fazer futurologia...

Não vai acontecer nada. Pelo que vejo, nada me faz supor que venha aí uma revolução nos anos mais próximos. Pode inclusive renascer a fé revolucionária, que está extinta, mas não está excluída. E se as pessoas acreditarem que a revolução lhes resolve o problema, é possível. A sua pergunta é muito pertinente, mas a minha convicção é de que não vai haver nenhuma convulsão. Mesmo à esquerda. O PCP é ele próprio um travão. O PCP nunca consentirá em nada que não controle.

 

É conservador?

Bastante conservador. Se fosse o Bloco no lugar do PC já não diria a mesma coisa. Mas como o Bloco está a desaparecer… Provavelmente desaparece nas próximas legislativas, com grande benefício do país.

 

A ausência de alternativas ajuda a justificar isso que é a sua impressão?

Totalmente. É o factor principal que determina uma certa resignação. Na Europa não há alternativas. A Europa ainda agora repetiu que Portugal tem que cumprir direitinho o programa de endividamento até ao fim. Já não falta muito até Julho [de 2014]. E depois haverá uma coisa que não se vai chamar “memorando de entendimento” mas que vai ser muito parecido. Ninguém pense que vamos voltar ao forrobodó que era antes.

Cá dentro as coisas só mudariam, e talvez venham a mudar – não estou a falar em nenhuma convulsão revolucionária –, à força, se a Europa nos obrigar. Se a Europa disser na avaliação que só temos a próxima tranche se fizermos isto, isto e isto. “Se despedirem não sei quantos funcionários públicos, se diminuírem não sei mais quanto as pensões.”

 

E para isso seria preciso fazer um pacto de regime?

Sim. É aí que quero chegar. O PS não se coliga nem à esquerda nem à direita e não entra em combinações com este Governo. Mas no dia em que a Europa não mandar a tranche e não houver dinheiro para pagar salários, para pagar pensões, para pagar operações no Hospital de Santa Maria nem no Hospital de São José, garanto-lhe que os partidos se entendem. Sentam-se mesmo à mesa, fazem um pacto de regime e mudam a Constituição. E o Tribunal Constitucional deixa de governar Portugal como está a fazer.

 

Acha que é o Tribunal Constitucional que neste momento decide sobre aquilo que é essencial na nossa vida?

É. É inconcebível que o Tribunal Constitucional aprove ou reprove medidas que me parecem eminentemente governativas, que são do foro do órgão executivo.

 

Mas se os seus princípios, segundo o Tribunal Constitucional, violam a Constituição…

Por isso é que tem que se mudar a Constituição.

 

Isso é outro problema.

Mas por isso é que vejo este cenário. Vai faltar dinheiro, os partidos vão ser obrigados a sentar-se a uma mesa, e a fazer uma revisão constitucional e a rever as funções do Tribunal Constitucional. De outra maneira a Europa não nos manda dinheiro e não somos capazes de nos financiar nos mercados.

 

Por que razão o Governo apresenta orçamentos com princípios que sabe, ou pressente, que vão ser chumbados pelo Tribunal Constitucional? Da segunda vez era inevitável o chumbo.

Era. Mas eles têm que arranjar dinheiro de qualquer maneira e estavam a ver se passava. Estão no papel deles.

 

O papel deles é atirar o barro à parede?

Não sei o que é que lhes vai na cabeça. Sabem tão bem como eu que aquelas medidas vão ser chumbadas. Ou que a probabilidade de serem chumbadas é enorme. Talvez o Governo esteja a querer com isso mostrar que é mesmo preciso rever a Constituição.

 

Empatar, ganhar tempo, é outra possibilidade?

Não. Não vejo o que é que lucram em ganhar tempo. Pelo contrário, só perdem.

 

Vão iludindo a Troika e as revisões.

A Troika não é iludível, só se deixa iludir enquanto quiser. A Troika também se deixou iludir na Grécia durante um certo tempo.

 

Mesmo que o FMI tenha dito “mea culpa, mea culpa” em relação à Grécia e também em relação a Portugal.

O FMI diz: “Fizemos as contas mal, usámos os multiplicadores errados e nunca pensámos que as nossas medidas fossem tão recessivas”. Mas depois exigem [resultados] como se não tivessem dito nada. Só se fosse a Christine Lagarde é que lhe podia responder a essa pergunta. É um mistério.

 

Estava a dizer que o Tribunal Constitucional é quem tem governado o país.

Há um certo exagero nesta frase, mas a verdade é que o TC tem a faca e o queijo na mão. Pode paralisar o Governo. Custa-me aceitar a ideia. Estamos em circunstâncias especialíssimas. As virtudes ou os defeitos do TC não podem ser vistas à luz de critérios que seriam aplicáveis se estivéssemos numa situação de normalidade.

 

Gostava de voltar à falta de soluções alternativas. Disse que na Europa não há essas soluções.

Não acredito. Não acredito que a Merkel vá defraudar o seu eleitorado. Pode abrandar agora um bocadinho aqueles sonhos das mutualizações das dívidas.

 

Não acredita que parte da dívida, pelo menos, tem que ser perdoada?

Sim. Mas isso não é mutualização da dívida. Há uma parte da dívida que vai ter que ser perdoada se cumprirmos este memorando direitinho até ao fim, como temos estado a cumprir – ainda que os resultados não sejam fantásticos (pelo contrário, são muito fraquinhos). Para a Europa conta mais o cumprimento estrito do que é acordado do que os resultados.

Não vejo que possamos pagar a dívida que temos. O peso dos juros dessa dívida é esmagador, impede qualquer redução séria do défice. A Europa compreenderá isto. Mas vai obrigar-nos a fazer tudo by the book. O Tozé Seguro pode dizer e gabarolar-se de que vai a Berlim e que fala com A e com B, e que vai a Bruxelas e fala com C. Pode falar à vontade. Até pode falar sozinho em casa que o efeito é o mesmo.

 

Pacto de regime, a existir: com estes líderes, com outros?

Não sei. As gerações de políticos com fibra acabaram. Agora só há políticos de plástico que vêm das “jotas”. Nunca tiveram contacto com a realidade, nunca trabalharam. Todo o trabalho que fazem é arranjar emprego e benesses uns para os outros e subir no aparelho. Subir no aparelho faz-se arregimentando grupos de pessoas dependentes à volta. Cada aspirante a líder ou a figura importante do partido rodeia-se de um séquito de dependentes.

 

Quer Passos quer Seguro vêm daí. Um pacto com Rui Rio e António Costa, faria diferença?

Faria. Não estou a ver como, mas em política as coisas podem mudar quando menos se espera. Não tenho nenhuma dúvida de que um pacto entre Rio e Costa seria muitíssimo melhor para o país do que um pacto entre Seguro e Passos. O Passos é muito impreparado, viu-se pela quantidade de erros calamitosos que já fez, pela maneira como gere o país e pela atitude. O Seguro é nulo. Um pacto entre duas nulidades muito parecidas… mas se não puder ser de outra maneira terá que ser com estes.

 

Pelo menos até Julho do próximo ano…

Estamos financiados pela Europa.

 

Até aí não prevê alterações políticas substantivas? Depois é que pode haver mexidas, por causa da necessidade de assistência?

Há um desafio que ainda temos pela frente. Há certas medidas muito dolorosas cuja execução será avaliada na próxima vinda da Troika. Das duas uma: se não conseguirmos fazer cumprir as exigências da Troika daqui para a frente, alguma coisa tem que acontecer.

 

Quer se chame segundo resgate, quer se chame assistência cautelar, que não é a mesma coisa, uma delas é inevitável? Não há resultados, e é muito pouco o tempo para recuperarmos.

Acabar o memorando de entendimento e voltar alegremente para os mercados e recuperar completamente a nossa soberania financeira e política, é das tais ilusões que não vale a pena ter.

 

O problema do défice não é novo. Basta olhar, de novo, para o século XIX...

A verdadeira oposição era o défice. Os governos caíam porque não conseguiam fazer face ao défice. A direita tendia mais a ir pela via do aumento dos impostos.

 

E equilibrava as contas?

Não. A progressão do défice português ao longo do século XIX é um coisa [terrível]. Fizemos bancarrota em 1851 e em 1891.

 

E em 1891, demorou-se quase 20 anos a negociar como é que a dívida ia ser paga.

Eram outros tempos. Isso hoje era impossível.

 

Como é que alguém está 20 anos a negociar o pagamento da dívida? Ainda estamos a pagar essa dívida e os juros?

Acabámos há uns quatro anos.

 

A dívida e o défice são os problemas crónicos de Portugal?

A dívida, o défice e a falta de crescimento económico, ou o crescimento económico insuficiente, são os grandes problemas de Portugal. Na primeira metade do século XVII já havia quem escrevesse sobre o atraso de Portugal. No fundo só fomos grandes no século XV e no XVI. E depois efemeramente do princípio do século XVIII com o ouro e os diamantes do Brasil. Mas estafou-se tudo com Mafra e a Patriarcal.

 

Voltamos à desesperança.

Gostava imenso de ser mais optimista mas para isso teria de mentir.

 

Rodrigo da Fonseca tinha, apesar desta bruteza que nos caracteriza, um optimismo em relação à espécie humana e nomeadamente em relação aos portugueses. Procurava consensos e conseguia-os. Para isso era importante não ser um homem dos partidos?

Sim. Rodrigo sempre se gabou de que só pertencia à nação e a ele próprio. Era da Maçonaria, mas era impossível fazer política sem ser da Maçonaria, quer se fosse de direita ou de esquerda. Nunca foi chefe de partido, nunca esteve filiado em partido nenhum, nunca se deixou arregimentar por partido nenhum. Foi sempre extremamente independente. Mas tinha muitos – aquilo que se chamava na época – amigos.

 

Apesar de ser um contexto completamente diferente e de se tratar de personalidades diferentes, ocorre-me Rui Moreira, vencedor das últimas eleições autárquicas. Pode ser uma via, os portugueses começarem a votar em pessoas que não as dos partidos porque deixaram de se rever nos partidos?

É uma via com um potencial limitado. Com potencial bom, como foi o caso do Rui Moreira, que foi exemplar. Foi uma grande bofetada numa certa maneira de fazer política partidária viciada como a que o Menezes representava.

 

Porquê limitado?

Porque, por mais voltas que se dê, em última análise, uma democracia parlamentar precisa de partidos. Comporta independentes mas dentro de certos limites; não pode substituir os partidos por independentes, porque se não tem uma bagunça que ninguém se entende e não consegue ter uma democracia parlamentar. 

 

E aí vêm os perigos dos totalitarismos, não?

O perigo do caos, e do caos sabe-se lá o que sai.

 

Para terminar uma pergunta mais aberta. Como é que nos descreveria, aos portugueses?

É uma pergunta a que não gostaria de responder. É uma pergunta que permite todo o tipo de especulação arbitrária. Há quem diga que eles têm medo de existir – ainda gostava de saber porquê. Há quem diga que são muito fura-vidas e adaptáveis. Talvez um sociólogo possa responder. Há uma coisa que posso dizer: trabalhamos pouco e somos muito desorganizados. Quando vamos lá para fora e somos integrados em estruturas que nos disciplinam e nos organizam, funcionamos maravilhosamente.

 

Então o problema é que não temos boas estruturas que nos organizem.

Não temos. 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2013

 

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