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Maria João Colaço - 40 anos do 25 de Abril

Maria João Colaço tem uma vida errante. Viveu dez anos nos Estados Unidos, fez mil coisas, abriu o Estoril Beach House com as filhas na costa do Estoril o ano passado. Apesar da crise, investiu neste hostel a poupança reforma e um financiamento bancário. Acredita no projecto. No 25 de Abril tinha 20 anos e todos os sonhos do mundo. Não parece ter 60 anos.

  

Pode fazer um auto-retrato?

Desagrada-me a rotina e adoro ser desafiada. Sou sonhadora, diligente e perseverante. A impulsividade, uma pequena tendência para fugir do factual e o perfeccionista são características minhas. Sou a filha mais velha de uma família médio-burguesa. A minha mãe anulou-se como mulher para seguir à risca o que lhe tinha sido ensinado: aceitar regras sem questionar, escravidão à família anulando vontades, quereres. Isto determinou muito do que foi o meu crescimento, na procura de diferentes sonhos e realidades.

 

Que é que recorda da meninice?

Recordo o leiteiro e a padeira que vinham trazer os seus produtos à porta do nosso 2º andar, as peixeiras, as mulheres que apregoavam e vendiam figos. Quando tinha nove anos morreu o meu irmão, mudámo-nos para Sintra. Relembro a liberdade de viver numa quinta, com árvores, animais, duas empregadas internas.

 

A família era privilegiada.

Era. Sentia-me revoltada por ter em casa uma rapariga a trabalhar como empregada (chamavam-se criadas) que tinha quase a mesma idade que eu. Nunca via o ordenado, que era pago directamente aos pais. Só tinha meio dia de folga por semana, o domingo à tarde. Ela tinha 16 anos e não tinha sonhos.  

 

Como eram os seus pais?, politizados?

A minha mãe acatava o que lhe era dado pelo marido, pela família e pelo Estado, sem questionar ou pôr nada em causa. O meu pai escrevia versos com uma rima camoniana contra o Governo. Apesar de ser uma pessoa muito austera e pouco carinhoso, dava-nos formação intelectual, inúmeras conversas sobre Salazar, o atraso do país, a PIDE.

 

Como é que despertou para a política?

Com a leitura comecei a formular perguntas para as quais não tinha respostas. Porque é que batalhamos numa guerra que não nos pertencia? Porque é que os nossos irmãos e amigos tinham que lutar por um território que não nos pertencia? Porque é que alguns amigos fugiam de Portugal para não ir à tropa/guerra? Porque é que nem todos tinham direito à educação, porque é que tantos miúdos tinham que deixar de estudar para ajudar os pais na sua subsistência?

 

Integrou as suas interrogações de jovem mulher num movimento, na esfera de acção de um partido?

No início dos anos 70 comecei a fazer parte de um grupo estudantil. Tínhamos vontade de mudar o mundo, queríamos combater o regime, a repressão nas faculdades, a guerra em África, o fim do analfabetismo... Íamos a Económicas imprimir panfletos que distribuíamos às escondidas, íamos a manifestações e discutíamos formas de alertar os outros colegas para a importância do associativismo estudantil.

 

Como viveu o 25 de Abril?

O 25 de Abril trouxe-nos uma grande alegria. Enfim a liberdade. Nessa noite ouvi a Grândola Vila Morena a tocar perto da meia-noite... Não imaginava o que pudesse ser. Mais tarde começámos a ouvir: “Movimento das Forças Armadas”. Foi uma festa. Todos se cumprimentavam na rua, todos tinham alguma coisa para dizer, ouvia-se muito a palavra democracia.

 

Que aconteceu à sua família?

O meu pai tinha ficado tão contente (ou mais do que eu) com os acontecimentos do 25 de Abril. Era director-geral da fábrica de chocolates Regina; nos meses que se seguiram, os trabalhadores ocuparam a fábrica e ficou sem emprego. Foram tempos difíceis, tinha 48 anos e seis filhos para sustentar. Durante dois anos esteve no Brasil, mas logo que pôde regressou a Portugal.

 

Em pleno 25 de Abril, estava na universidade. Como viveu a transição?

Estive quatro anos em medicina, curso que nunca terminei porque me apaixonei e saí de casa. Comecei a trabalhar. A pessoa com quem vivia foi convidada a ir para os Estados Unidos e acompanhei-o. Fui secretária pessoal do embaixador Vasco Futscher Pereira.

 

Quer contar uma história que a tenha marcado desse período?

Conheci o presidente Ronald Reagan, troquei o nome do George H.W. Bush (pai) pelo de George Shultz. “Goodnight Mr. Schutz!” Ele olhou para mim, sorriu: “I´m Bush, Schultz is coming”! Para uma rapariga de 29 anos, tudo isto era uma excitação.

Em Maio de 1982, o embaixador foi chamado a ocupar o lugar de ministro dos Negócios Estrangeiros. Convidou-me para o assessorar. Um ano depois caiu o Governo. Regressei a DC para trabalhar para um novo embaixador, Leonardo Mathias, grávida da minha primeira filha. A minha anterior ligação amorosa tinha-se dissolvido e estava agora casada com um arquitecto português.

 

O número de divórcios subiu exponencialmente nos anos subsequentes ao 25 de Abril. A uma revolução política sucedeu uma revolução nos costumes. Foi uma metamorfose completa do país.

Sim. O casamento era indissolúvel. Os meus pais estavam separados de facto desde 1972 mas só puderam concretizar o seu divórcio após 74. Eu aproveitei a revolução política para fazer a minha revolução familiar. Continuei a viver nos EUA até 1989. Tive três filhas. A Rebeca vai fazer 30 anos, a Sara vai fazer 27 e a Francisca fez 22 anos.

 

Como foi o regresso a Portugal?

Quando regressei, durante 15 anos trabalhei na indústria farmacêutica. Viajei muito. Em 2003 houve um downsizing da empresa e fizeram-me uma proposta para sair. Não tinha finalizado o meu curso superior, era mulher e ganhava muito bem. O perfil ideal, explicaram-me, era o de um homem, bastante mais novo e acabado de se formar, que iria ganhar menos de metade do meu salário.

 

Houve um tempo em que a política era uma coisa nobre, uma arma para mudar o país. Foi no tempo da sua juventude.  

Nunca senti que a política fosse uma arma nobre. A política sempre foi uma arma para ganhar ou conseguir poder próprio, poder para as elites, para as empresas. Os partidos estão condicionados pelos poderes corporativos. Há muita corrupção e enriquecimento individual. A política está subjugada ao poder financeiro. O Estado é impotente contra o poder financeiro, que condiciona as nossas vidas.

 

Está a meter tudo e todos no mesmo saco.

Acho que a engrenagem é tão poderosa que mesmo aqueles que têm a melhor das vontades ficam comprometidos.

 

Desapontou-se? Em que momento?

Sim, desiludi-me. O período de 74 a 78 foi muito conturbado. O PREC foi longo. Passámos de um partido único para um número indescritível de partidos. Todos queriam tomar rédeas da situação, ter protagonismo. Não fazia sentido juntar-me a nenhum deles. Eu lutava por um ideal, mas não tinha que estar ligada a um partido.

 

Viveu no estrangeiro.  Que coisas funcionam melhor aqui do que lá?

Uma das coisas que funcionam melhor em Portugal é o sistema de saúde. Tive uma muito má experiência. O meu marido foi de urgência para o George Washington Hospital; disseram-me que estava bastante mal mas que não podia ficar no hospital porque não tinha seguro de saúde. A privatização dos serviços sociais leva-nos a ficar cada vez mais na mão do poder empresarial, cava um fosso cada vez maior na desigualdade social.

 

Neste anos recentes, por causa da crise, estamos globalmente zangados com o país e em especial com os políticos. Também está?

Acho que estamos todos zangados com a fraca qualidade dos nossos governos. E quando falo de governos falo de políticos. Por exemplo, nunca percebi por que não se agarra no que foi feito anteriormente e se continua. São dinheiros do erário publico que são desperdiçados.

 

A zanga é tal que se ouvem pessoas dizer que “dantes é que era bom”. Viveu o antes. Qual é a sua opinião?

A maioria das pessoas que o dizem não viveram ou passaram pelo que nós passámos. Acho que quando falam no antigamente, falam da estabilidade financeira que achavam que tinham; mas não pensam que essa estabilidade só era dada a alguns.

 

Qual é a sua imagem/símbolo do 25 de Abril?

É a Grândola Vila Morena do Zeca Afonso, os cravos, a tomada do quartel do Carmo, da sede da PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso, o regresso de milhares de soldados vindos do Ultramar, o 1º de Maio.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2014

 

 

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