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Mário Cláudio

Na sala sente-se a fragrância que é própria dos dias de festa, ou dos dias subsequentes. Há um quadro de Silva Porto, um piano imponente, livros de pintura, outros livros. É de manhã cedo. Mário Cláudio soubera três dias antes que havia sido galardoado com o Prémio Pessoa, (o mais importante em Portugal no campo da criação artística e da investigação científica). E a notícia causara-lhe surpresa, suscitara-lhe estímulo. A sua produção recente é abundante: «Gémeos», onde reinventa a vida do escritor espanhol Goya, saiu há meses; «O Triunfo do Amor Português», onde revisita mitos como o de Pedro e Inês, tem semanas; e para breve anuncia-se um regresso à poesia.

Eis a biografia sumária de um escritor que existe escrevendo, e que a escrever se perde. E justifica. 

 

O júri que lhe atribuiu o Prémio Pessoa destacou, entre outras coisas, “a tentação biográfica”. Tenho a tentação de o biografar sucintamente, começando, por este seu fascínio.

Quando vejo uma figura biografável, sinto que, de alguma forma, essa figura me chamou. É mais uma possessão de uma figura que exige que eu a biografe do que propriamente uma busca minha. São figuras que têm alguma coisa a ver comigo, mesmo que a afinidade se manifeste por um lado mais negativo. A única coisa que depois respeito é a cronologia. Faço uma psicobiografia, uma incursão pela personalidade da pessoa, pelas atmosferas a que esteve ligada, muito mais que pelos factos verificáveis.

 

O que há de trágico, eloquente, palpitante em Guilhermina Suggia ou Goya, ou até nas pessoas da rua, para que se transformem em figuras biografáveis?

No caso da Guilhermina Suggia, foi a circunstância de ela ser, como eu, uma natureza extraordinariamente turbulenta em termos de afectos. Conheci a Guilhermina Suggia quando tinha seis anos, mas não me lembro de nada. Escrever sobre uma pessoa que conheci, mas esqueci, era desafiante.

 

Esquiva-se à sua própria biografia?

Não. Em todas essas histórias, projecto muito do que sou. Aliás, o desafio maior a que gostaria de responder, seria escrever uma autobiografia inventada. Escrever na primeira pessoa sobre uma pessoa que não existe, que não sou eu. Outro desafio seria escrever uma biografia científica com citações, referências mentais, bibliografia, de uma figura inexistente.

 

No fundo, está sempre a inventar e a descobrir outros que também estão contidos em si.

Claro. Só até certo ponto é que são outros. Um escritor nunca inventa outros. Reinventa-se nos outros.

 

Mário Cláudio é um pseudónimo. Por que é que recorre a um pseudónimo?

O pseudónimo nasceu por razões muito pragmáticas. Tinha acabado de me licenciar em Direito e comecei a advogar. Nessa fase parecia-me incompatível a actividade de advogado com a actividade de poeta – que era sobretudo o que fazia. De maneira que acobertei-me num nome falso. Não queria que houvesse uma conflitualidade nas duas figuras e optei por me esconder através de um pseudónimo.

 

Há um momento em que se pensa que todas as vidas são ainda possíveis. Ou, para si, todas as vidas são sempre possíveis?

Claro que sim, todas as vidas são possíveis até ao último minuto.

 

Podemos sempre escolher outros caminhos? Existe sempre essa liberdade suprema de se escolher a vida que se tem?

Todas as actividades de criação, quer seja através da literatura, quer seja através do teatro ou da pintura, têm de mais motivador e extasiante essa capacidade de inventar vidas constantemente novas, constantemente outras. Acho que todos os autores fazem biografias.

 

Nem que seja uma falsa autobiografia.

Podem ser biografias minúsculas, podem durar minutos ou horas. Por outro lado, também acho que a história é muito mais biografia do que história. A história é muito mais mito do que história. O mito está mais ligado às pessoas.

 

E sendo mito, permite uma revisitação contínua, é inesgotável.

Exactamente. A ficção é muito mais verdadeira do que a história, porque a ficção está próxima do mito, está sempre a formar-se. A história está junto ao facto, e o facto está sempre a deformar-se.

 

Vê os factos como sequências cronológicas? São o quê?

Os factos são convenções, que compendiamos, arquivamos. Não sabemos nada sobre a batalha de Austerlitz; sabemos apenas a data em que se deu, quais foram as tropas; mas não sabemos do que se passou pela cabeça do Napoleão e outros chefes militares, do que se passou pela cabeça de um único soldado. Isso é que foi a verdadeira batalha de Austerlitz, essas mentes todas a trabalhar em função de pulsões, objectivos, frustrações, aspirações.

 

Não podemos resgatar isso senão através da ficção?

Só podemos descobrir isso auscultando-nos, sentindo essas vidas em nós, deixando-nos possuir por essas vidas. Essa é a grande função da literatura. Por isso é que a literatura não tem a ver com factos, tem a ver com mitos.

 

Deixe-me voltar à casa da partida, a essa altura em que tirou o curso de Direito e chegou a advogar.

Advoguei durante um período muito curto, na Guiné, com o Joaquim [Gomes] Canotilho. Fomos colegas de curso, estávamos os dois no serviço militar, e montámos um escritório de advogados.

 

Quando é que percebeu que a sua vida não era essa e que aquilo que queria era escrever?

Percebi desde sempre. O curso de Direito não foi uma imposição, mas uma satisfação que dei à minha família. Nunca passou pela cabeça do meu pai que eu pudesse vir a ser escritor.

 

Porquê?

Nunca passa isso pela cabeça de um pai normal!

 

É a precariedade do destino?

É uma actividade aleatória. Pode funcionar ou pode não funcionar. A história está cheia de exemplos de meninos que quiseram ser artistas e cujos percursos foram cerceados pelos pais. Eu sabia que queria escrever, e foi justamente por isso que houve uma inflexão do meu percurso por essas áreas que eram incompatíveis – a escrita e o Direito. 

 

O Direito, para quem prefere o mito e a reinvenção, parece árido e factual.

Não só. Absorve tempo, se for levado a sério. Fui procurando inserções profissionais que me deixassem o tempo livre e acabei por desaguar na escrita naturalmente. Às vezes, alunos meus apresentam-me textos que escreveram e pedem-me opiniões, (se eu acho que eles são escritores). Digo-lhes sempre a mesma coisa: «Se você não puder passar sem escrever, é. Se puder, se é uma actividade que pode largar e retomar, então não é de certeza absoluta». Eu não podia largar.

 

A memória de si a escrever é antiga?

Tenho memória de mim a escrever desde que sei escrever. A escrever com grande envolvimento, a fazer redacções que deixavam os professores com alguma admiração por mim – procurava essa admiração nas redacções que fazia. A partir dos 14 anos, tenho a ideia de uma actividade que já não era escolar, mas continuada, de haver uma rotina de escrita.

 

Outra das razões apontadas pelo júri do Prémio Pessoa foi a mestria da língua. Quem são as pessoas determinantes na sua relação com a língua?

São os escritores portugueses que mantêm uma tradição de vernaculismo. Frei Luís de Sousa, Padre António Vieira e Camilo Castelo Branco.

 

Mas leu o Camilo com que idade?

O «Amor de Perdição», que era um romance de que se falava muito na minha família, li com 12, 13 anos. Lembro-me de se contar que a minha avó materna, na sua juventude, leu o «Amor de Perdição» e teve uma depressão! Vivi numa casa onde havia muitos livros e isso ajudou. 

 

Havia um lado melómano na família? Estou a pensar na convivência com a violoncelista Guilhermina Suggia.

A minha mãe foi professora de música toda a vida. Contei a história dela num livro chamado «Tocata para dois clarins».

 

A presença musical deixou marcas na cadência da sua narrativa?

Foi determinante. Apoio absolutamente aquele conselho dado pelo Ezrda Pound a quem escreve: «A primeira coisa a fazer é ouvir». Há um elemento da escrita que se tem ou não se tem, e que quando se tem é muito musical: a capacidade de concatenar as palavras. O Eugénio de Andrade tem isso, mas há outros poetas enormes, como o Jorge de Sena, que não têm. Quando se tem isso, é talento inato, e é preciso alimentar com música. Eu acho que tenho isso, posso não ter outras qualidades.

 

É como se ouvisse uma harmonia intimamente.

É como se o texto que se escreve já estivesse escrito e a função do autor fosse apenas transcrevê-lo. Tenho muito essa sensação: não sei o que está no texto, mas tenho o ritmo, aquilo a que se pode chamar a musicalidade do texto. Isso está dentro e é preexistente ao texto. Parece um conceito muito platónico, mas tenho essa noção. Vejo a escrita como uma espécie de palimpsesto, um texto escrito sobre outro texto que já existe, mas que não é imediatamente visível.

 

É o que acontece com as suas biografias. A uma biografia factual e pré-existente, junta-se a sua reinvenção, que vai ao encontro desse existente. A sedimentação progressiva confirma isso mesmo.

Muito bem observado. É isso mesmo.

 

 

Eu situo-o sempre num tempo que é pretérito, e menos apontado para o futuro.

 Por uma razão muito simples: vou à procura de mitos. E não há mitos no futuro. Os mitos estão todos ligados ao passado. Na contemporaneidade haverá mitos, mas estão ainda em formação, não os encontro. [O meu tempo é] o presente e o passado. O passado lido à luz do presente. 

 

Quando avança para uma situação, o que tenta perscrutar são as tensões mais íntimas e o carácter trágico. Há uma atracção pelo limite, um centímetro a mais e seria a queda...

É aquilo a que se chama genericamente «pathos».

 

Os factos da sua biografia são: nasceu no Porto, cursou Direito, fez um mestrado em Londres como bibliotecário. Quanto ao mito, interessa-me saber da sua propensão para o abismo, da atracção pelo «pathos». Onde é que isto radica?

-A minha preocupação como escritor foi sempre estabelecer um equilíbrio entre aquilo que é uma expressão turbulenta, descoordenada e extremamente emotiva, e uma forma de viver que fosse o contrário disso tudo. A escrita que desejo produzir é a que vive da tensão entre essa contemplação do abismo de que falou há pouco e a linha do horizonte que é a linearidade absoluta, o plano mais apaziguado. Para traduzir isto em linguagem de estética, o que quero, no fundo, é fazer o cruzamento do barroco com o clássico.

 

Mas isso é o Mário Cláudio escritor. E a sua vida?

A minha vida não se distingue disso. A minha vida é isso mesmo. Não posso dividir a minha vida em partes. Também nunca consegui distinguir a minha actividade de professor e a minha actividade de escritor. Dar aulas é escrever, embora não com papel e tinta, através do relacionamento com os outros, é uma forma de criar novos mundos, novas pistas, novos propósitos.

 

Quando a Tereza Coelho foi entrevistar o pai do seu amigo António Lobo Antunes, dizendo que queria fazer uma biografia do escritor, ele fez o seguinte comentário: «Mas por que é que vai fazer uma biografia? A vida dele não tem interesse nenhum, resume-se aos livros». A sua vida «não tem interesse nenhum»? Tudo o que podemos saber encontra-se nos livros, cifrado?

Não, não sou esse tipo de escritor. O [Miguel] Torga, o Lobo Antunes reduziram a vida à escrita. Eles estão no gabinete e a vida deles é o gabinete. Eu não. A minha vida é sempre escrita, quer viaje, quer dê aulas, mas saio do gabinete. Tenho um contacto com o mundo muito mais aberto do que qualquer um deles. Tenho um universo de sensualidade muito vasto, gosto muito de estar com pessoas. Tudo isso faz parte da escrita, mas não me remete permanentemente para o gabinete.

 

É comovente assistir à expressão da admiração do Lobo Antunes por si, que é pública e constante.

Ele é muito fiel nisso. Eu também tenho uma grande admiração, considero-o um escritor enorme. O universo literário dele é de tal forma gigantesco que me intimida.

 

Mas qual é o seu tamanho enquanto escritor? Tem também a fama, que cultiva, de ser um autor exigente e não acessível a todos.

Sim, mas o meu universo literário tem uma vertente de afabilidade. Ele não tem contemplações. O Lobo Antunes acorda às quatro da manhã, à hora em que as pessoas são acolhidas pelos pensamentos mais terríveis, à hora em que se pensa na finitude, na morte, na angústia. Qualquer pessoa normal, acordando a essa hora e sentindo isso, vira-se para o outro lado. Ele fica a contemplar isso. (Nunca falámos sobre isto, mas inventei-o como forma de o explicar). A diferença entre nós é essa.

 

E a trivialidade e a sociabilidade são coisas que ainda têm espaço na sua vida.

A propósito do abismo e da linha do horizonte, ele não consegue contemplar a linha do horizonte. Eu procuro distrair-se, assobiar para o lado, e assobiar para o lado é olhar para o horizonte.

 

É isso que lhe possibilita ser um homem mais apaziguado e mais feliz?

Acho que sim. Gosto de dizer que o pequeno milagre que consegui foi transformar aquilo a que se chama genericamente sofrimento em várias oportunidades de sorriso. No meu caso resulta num posicionamento de carácter religioso. Uma fé que é bastante vital em mim, estruturante. O Vergílio Ferreira disse-me que eu era um homem extraordinariamente feliz porque tinha uma fé inabalável. É verdade.

 

A vivência da fé é acompanhada de uma vivência religiosa plena, ritualística?

Eu sou um católico herético. Os católicos que não são heréticos dizem: «Então não és católico», mas não me preocupo com isso. Sou um católico de formação, vocação, etc., mas com umas pinceladas de heresia. O que significa que não cumpro obrigações de catecismo, cumpro ditames interiores. Se me apetecer ir a uma missa, se me apetecer aproximar de uma mesa de comunhão depois de me ter confessado, faço-o. Se não me apetecer, não faço.

 

Leu os evangelhos como quem lê um romance?

A Bíblia, leio-a como o livro da vida. A minha tradição é judaico-cristã. O que não significa que não leia o Corão e outros livros religiosos. Todo o fenómeno religioso me interessa muitíssimo.

 

É a atracção pelo mistério, pelo indecifrável?

Claro. Suponho que os traços de heresia que existem em mim resultam da aproximação que faço a outras experiências religiosas. E também daquilo que são as minhas tendências místicas_ o caminho da mística é sempre um caminho perigosíssimo, é, justamente, o caminho que conduz às heresias.

 

Pode ser mais preciso quanto ao lugar da fé na sua vida?

Não posso conceber o meu relacionamento com os outros sem uma dimensão verticalista, sem uma relação com aquilo a que chamamos simplificadamente Deus. Não posso, são entidades inseparáveis, uma conduz à outra. É por isso que não acredito nas pessoas que começam pelo horizontalismo e dizem que assim é que se chega a Deus. A experiência da pura dádiva ao outro conduz muitas vezes à secularização e ao ateísmo. A outra não conduz a isso, nunca conduz ao voltar as costas a outro, conduz sempre à aproximação do outro, se for vivida autenticamente.

 

Gostava de saber em que é que pensou quando soube que tinha ganho o prémio. Quem é a pessoa que gostaria que o admirasse mais profundamente?

Pensei obviamente no meu pai, que já morreu.


Ele tinha orgulho em si?

 O meu pai tinha grandes reticências quanto à minha capacidade de ser um autor com alguma qualidade.

 

Ele escrevia bem?

Lia muito, gostava de escrever, mas nunca foi por aí. O meu pai morreu a ler um livro do José Gomes Ferreira, que por acaso tinha um título de alguma forma metafórico: «As aventuras de João Sem Medo». A reler. Pensei no meu pai que já morreu, acho que teria um grande orgulho nisto.

 

 

Publicado originalmente na Revista Selecções do Reader’s Digest em 2004

 

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