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Mário Crespo

Mário Crespo é jornalista sénior, mas sente as inseguranças de quem teme perder o pé. Não é marinheiro, mas é junto ao mar que mais intimamente se encontra consigo. É o pivot da SIC Notícias que todas as noites, às nove, interpela os protagonistas e as histórias do dia.

Nasceu africano, tem alma nómada. Regressou a Portugal há cerca de dez anos, depois de uma temporada marcante na América de todos os sonhos e contradições. Uma tarde, no bar da SIC, conversámos sobre a sua geografia. E não demorou muito a estarmos em velocidade cruzeiro...

 

 

Começamos pela América? Foi uma experiência que mudou a sua vida?

A América foi escolhida. Havia a hipótese de abrir uma delegação [da RTP]. Eu conhecia mal a zona de Washington, mas sentia uma grande identificação de cada vez que ia lá. É uma cidade cheia de espiritualidade, por incrível que pareça – as pessoas imaginam a América de uma superficialidade imensa, e não é de todo a impressão que tenho.

 

Dê-me uma imagem, uma história que ilustre a visão que tem da América. Recentemente, impressionou-me esta história: um congressista muçulmano foi eleito para o congresso; claro que para formalizar o juramento não ia usar a bíblia, como é tradicional, porque não era da sua fé. De modo que a comissão reuniu-se e foi buscar o corão que estava na biblioteca que pertenceu a Thomas Jefferson [presidente dos EUA, autor da declaração da independência americana]. Jurou sobre o corão do Jefferson! O corão esteve 240 e tal anos à espera de ter uma utilidade prática. Isto é a América, para mim.

 

É o espírito de tolerância?

Não se pode falar de espírito tolerância num país de 300 milhões de pessoas, onde haverá, seguramente, uns milhões de intolerantes. Nós também não quantificamos isso entre nós, mas haverá certamente umas centenas de milhar de pessoas intratáveis. Quando leio os grandes tradutores do espírito americano, do Hemingway ao John dos Passos, entendo-os como um povo inspirado. Houve um período da vida americana em que, o que foi para lá, foi o melhor da Europa.

 

Mas depois, importa saber o que conseguiram fazer com isso.

O dos Passos escreveu: “A América tem de ser admirada pelo que podia ter sido”. Ou seja, o que é que eles fizeram com este imenso capital humanista? Fizeram, afinal, o paradoxo de Jefferson, que era um homem de uma grande clarividência de espírito e que tinha um batalhão de escravos numa plantação da Virgínia. Como é um regime muito aberto, o paradoxo salta sempre. Não é possível esconder nada. 

 

Como é que isso moldou o homem feito que era quando foi para lá?

Influenciou-me muito. Entre os privilégios que tive foi o de ir, já ungido da credencial, juntar-me a um grupo de elite. Até agora fui o primeiro e único português acreditado na Casa Branca. Tinha cartão para participar nos briefings, questionar presidentes, idêntico a qualquer cidadão americano. A haver um PhD em jornalismo, seria esse período.

 

Obter a credencial demorou cerca de um ano e meio. Que tipo de preparação teve de fazer?

Antes da obtenção da credencial, por exemplo, não podia faltar aos briefings, três vezes por semana, no departamento de Estado e na Casa Branca.

 

Sentiu que fazia parte de uma cúpula?

É como dizer que ouvimos a Cecilia Bartoli [alusão a conversa prévia, em que comentávamos, Mário e eu, o concerto da diva italiana na Gulbenkian]! Foi o que senti, digo-o com um despudor quase arrogante, durante aqueles sete anos: que estava a fazer qualquer coisa que não era banal. Eu questionei o pai Bush, o Clinton, o [Gerald] Ford, e com questões sobre o meu país, logo a seguir ao massacre em Timor. Tive de soletrar o nome de Xanana Gusmão. Nunca tinham ouvido falar dele.

 

O trabalho é a única senha de entrada nesse grupo de elite? As regras de admissão são diferentes das que conhecemos em Portugal?

Completamente. Gosto de pensar que na minha escolha para ir para Washington havia alguma razão de mérito... Com o meu antecedente sul-africano, o inglês é um idioma onde estou à vontade.

 

Com “antecedente” refere-se ao facto de ter crescido em Moçambique e trabalhado na África do Sul?

Também estudei por períodos na Suazilândia. Trabalhei em Joanesburgo na SABC (uma daquelas estruturas coloniais que a BBC foi deixando). Foi o primeiro trabalho depois da tropa. As pessoas que me fizeram alguma marca são de lá, mantenho contacto com algumas delas, como o Alexandre Quintanilha [cientista]. Esse grupo com quem me dava contrastava com a sociedade colonial de onde eu vinha – que era muito ligeira. Esta gente, ao contrário, era muito intensa.

 

Fale-me das suas raízes.

São banais, e confusas. Crescer numa sociedade colonial, em termos formativos, não é fácil. Aquelas cápsulas de bem-estar... Levei tempo a compreendê-las. Compreendi-as na África do Sul, [depois de deixar Moçambique]. Compreendi-as agora, quando li as “Quase Memórias” do Almeida Santos. Sou filho único e perdi pai cedo. Seria sempre cedo..., mas foi naquela parte dos 18, 19 anos. Eram funcionários: o meu pai de um banco e a minha mãe professora da escola comercial.

 

Em Maputo, então Lourenço Marques, dava-se com brancos, com privilegiados. Era uma sociedade bastante estratificada.

Bastante não chega: era totalmente estratificada.

 

O que sentia, por via desses privilégios, é que tinha uma visão parcelar do mundo onde vivia?

Essa é a síntese. Recentemente conheci o Malangatana. E disse-lhe: o aspecto formativo que a sua estética me deu, durante a adolescência, foi de tal modo forte que olho para si e sinto uma quase paternidade.

 

Havia uma “culpa” pelo privilégio, por viver numa redoma protegida?

Sim, mas não estava consciente da necessidade de acção. Não me sentia confortável. Na África do Sul insisti em não ter empregados, enjeitei essa tradição colonial que nos viria naturalmente. No entanto, coexisti pacificamente durante duas décadas com um sistema para o qual devia ter despertado por alturas do liceu. Devia ter lido livros que não li, (porque não me chegaram), devia ter ouvido gente que não ouvi, devia ter falado com o Malangatana lá. Mas se calhar, ele não era o mesmo homem que é hoje, nem eu o mesmo homem que sou hoje. 

 

O que é que desencadeou a revolução, em si?

A revolução está a acontecer. Na África do Sul, onde estive desde 74 até 81, fui contactando com gente que tinha essa consciência em pleno apartheid. Ainda fui colega do Carlos Cardoso, que foi morto em Joanesburgo. Senti alguma claustrofobia, quando houve uma ou duas edições da Newsweek censuradas. Senti que tinha de vir embora. Foi um acto deliberado. Vim a Lisboa e consegui emprego na RTP.

 

Como é que se deu em Portugal, que, sendo o seu país – tem nacionalidade portuguesa –, era desconhecido para si?

Lembro-me perfeitamente do dia da chegada. Tinha 32 ou 34 anos, não sei bem, é questão de fazer as contas. Tinha mãe, não estava casado. Acabei por casar com alguém de África! Era preciso ser africano para continuar lá. Só entendemos aquela zona quando a deixamos. Hoje leio muito o Coetzee: o «Boyhood» é a África do Sul. E esta visão é a da África colonial.

 

Fale-me da inserção na realidade portuguesa.

Foi muito complexa. Interrogo-me se ela está concretizada, depois destes anos todos. Senti-me mais confortável em Washington do que aqui.

 

O que é que é tão estranho aqui?

A RTP era um mundo estranho, e psicótico, quando cheguei. Politizadíssimo. Com alternâncias políticas disparatadas, com gente com mandatos e agendas nas quais me era impossível rever. A RTP durante muitos anos foi um modo de vida, mais nada. Havia credenciais de clubismo político que eu não tinha nem quero ter. Isso separou-me e levou-me a muita nomadização solitária.

 

Parece muito solitário, por acaso, apesar da amabilidade.

Gosto do acto social contido. Não o provoco. Aceito-o. De um modo geral gosto de pessoas. Quando digo “de um modo geral”, sou selectivo... Mas há gente que me diz muito.

 

Nos seus vários percursos, parece sempre um outsider. Mesmo aqui, na SIC Notícias, distingue-se dos outros pivots. Seja porque é mais velho do que eles, seja porque tem uma história e um estilo diferentes. Esta qualidade de outsider é já aquela que lhe é mais confortável?

Neste momento, é. Às vezes tenho dificuldade em pertencer a um grupo. Tenho a impressão que isso é consequência desta nomadização toda, que a vida, por fortúnio ou infortúnio, me pôs.

 

Gostava de perceber que relação existe entre os vários blocos da sua vida: o bloco África, o bloco RTP/Lisboa, o bloco americano, e agora o bloco SIC Notícias. São comunicantes?

Sim. Logo que comecei a ter alguma preponderância na RTP e a poder escolher os trabalhos que fazia, regressei a África. Comecei a cobrir África do Sul com um fascínio, uma intensidade... O processo de libertação do Mandela foi uma coisa magnífica. A minha génese estava ali também. Lembro-me do que escrevi na altura sobre a primeira refeição que ele tomou, na sua casa no Soweto: que vi o fumo a sair da panela, que aquele extraordinário dia estava a chegar ao fim. Também me senti compelido a acompanhar o processo de independência da Namíbia.

 

Mas é um regresso numa outra condição, com outro estatuto.

Absolutamente. Esse era o conforto. Ter um estatuto crítico e poder manifestá-lo.

 

Havia uma espécie de culpa por não ter tido “consciência” disso mais cedo, não o ter expressado mais cedo?

Não havia: há uma culpa.

 

Voltando à América: o que é que o liberalismo americano fez a este homem esquerdista?

É um esquerdismo espiritual. Não o formalizo em nenhum código ou ideário. A América: é ver [o teatro de] Tenessee Williams e entender. Há episódios, há mosaicos com que me identifico. É a minha ponte para o entendimento actual.

 

A América ajudou-o a integrar a contradição, o paradoxo que existe em si?

Ajudou-me a viver com ele, o que é diferente. A minha grande busca não é por certezas. Tenho as minhas buscas espirituais, como toda a gente. Essa ausência de certezas, quando ela acabar, eu morri.

 

O seu mote é mais o procurar do que o encontrar?

É. Mas há uma ética. Hoje consigo claramente distinguir o que é bom e o que é mau. Implica, por exemplo, tomar a decisão de dizer no Jornal das Nove que não vou mostrar a imagem do Saddam a ser executado. Não partilho execuções públicas. A partir do momento em que a mostro, “forço” pessoas a vê-la.

 

Eu não vi.

Fez esse exercício de disciplina? Eu também. O momento em que o laço é posto e se vê a cara do homem... Não vi mais, não consegui. Esse género de escolhas, que fez, que fiz, são muito importantes.

 

Porque é que regressou a Portugal, depois da América? Uma vez cá, o que se diz é que telefonou ao Emídio Rangel a pedir emprego, a dizer que tinha vontade de trabalhar.

Pedi, pedi. [Da RTP], mandaram-me vir, interromperam o processo, subitamente. Houve algum conflito editorial, houve um desentendimento administrativo. Eu ainda disse: «Olhem que tenho filhos na escola, olhem que são muito pequeninos e isto é traumático para eles...». E pronto. Viemos mesmo. Não me deram nada que fazer. O que foi muito castrador. Reduziram-me o ordenado, os meus subsídios desaparecem todos e fiquei com um base idêntica a de qualquer estagiário. Uma coisa insuficiente. Senti que tinha de fazer qualquer coisa.

 

Tinha cinquenta anos e estava à procura de emprego.

É. Pedi para falar com o Rangel, que não conhecia pessoalmente. Ele veio logo ao telefone. Disse-lhe: «Se houver trabalho aí, estou disponível». Almoçámos na semana a seguir. Ele era o monarca da estação com 50% de share.

 

Foi uma nova vida.

Foi. Tive imenso medo. A diferença de idades era muito grande com o meio onde fui integrado, na SIC Notícias. Tive inseguranças. Depois, as coisas correram muito bem. Gosto de trabalhar em redacções. Até gosto de redacções com máquinas de escrever.

 

As suas inseguranças tinham que ver, sobretudo, com a sua integração no meio?

Com tudo. O que é que eu vou escrever? Há que tempo que não escrevo notícias... Sabe aquele excesso de auto-censura que vai exercendo no que escreve? É difícil romper. Fui muito bem recebido aqui. Na última “Egoísta” escreve-se: “A vida é o prémio. A morte é o preço. A herança são as memórias”. Para já, a memória da exultação que tive quando o Rangel me ofereceu emprego...

 

Como é que define o seu estilo? Aquilo que vemos todos os dias às nove, é o resultado de quem é e da sua vida em bolandas?

Não sei. A partir da altura em que observa um fenómeno, ele altera-se. A partir da altura em que falo consigo, há uma espécie de teatro que não sei onde está nem onde começa. A partir da altura em que a câmara abre, ao fim de uns milhares de edições (de Jornais das Nove que vêm desde a RTP), não sei o que é que enceno. Nem o que é que sou eu. A minha mulher talvez saiba isso. Sempre disse que a maneira que tenho de não errar muito, ali, é não fazer nenhum número que não seja genuíno. 

 

Há na sua postura uma segurança e um estilo que me faz pensar nos pivots das cadeias americanas.

Deve haver muito disso... O que vi lá teve influências, claro. O modelo que fazemos às nove, aqui, é parasitado de uma coisa que já acabou (Night Line, na ABC): com duas, três histórias de fundo e um ou dois convidados.

 

Sabe que parece mais novo do que é? Não sei se é por estar numa “nova” vida, empolgante.

É capaz de ser. Não tenho preocupações com a idade.

 

Porque é que a vela é o seu hobby?

A vela não é solitária. Mas há um acto de intimidade que me agrada. Se calhar também há um acto de controlo sobre o que se passa à minha volta, de que gosto.

 

Intimidade de si para si? Intimidade com o mar?

Diria que é mais de mim para mim. O meu barco é pequeno, tenho-o desde que cheguei da África do Sul, tem 22 pés, seis metros e tal. Chama-se Take Five.

 

Também faz miniaturas de barcos, réplicas. É como fazer um puzzle, é um jogo de minúcia.

É. Gosto de objectos, de coisas associadas ao mar. Comecei a fazer réplicas em Washington. Comecei por fazer uma do Take Five. Devia estar com saudades do mar. Hoje tenho várias. Até já consegui fazer uma dentro de uma garrafa!

 

Uma palavra de eleição: intimidade ou mar?

Intimidade. Era isto que estava à espera? Mas é. Não se pode mudar nomes de barcos, mas se eu pusesse um nome a um barco, agora, chamava-lhe Nora Nora, o nome da minha mulher (Leonor). Outro muito bom é Querência. Li sobre um iate chamado Querência. Querência é o sítio na arena onde o touro se sente seguro. Os grandes matadores, (o Hemingway descreve isso), procuram descobrir onde é a querência do touro.

 

Esse lugar onde se sente seguro é na intimidade, aconteça ser no mar ou com a sua mulher?

É. São as minhas seguranças.

 

 

Publicado originalmente na Revista Selecções do Reader’s Digest em 2007

 

 

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