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Mário Lino

“Pode parecer pretensioso, mas não me lembro de nenhuma vez em que tenha estado à beira do suicídio, da depressão, ficar em casa e não querer ver ninguém. E mais: quando tenho dificuldades, mesmo de natureza pessoal, gosto de partilhar e ter a experiência dos outros. Há uns anos, ter uma pessoa com cancro na família era um tabu. Ou um problema de droga. Ou um filho gay – não é o caso, não calhou. Não tenho a sensação que é preciso esconder, dar uma aparência. Não gosto de dar espectáculo, mas a gente não deve ter vergonha”. E nisto já está muito de Mário Lino. A criatura solar. O gregário. O tipo porreiro, pá.

Mas também é ele quando usa palavras como cercear ou coarctar. Nessa altura estávamos a falar do seu passado comunista. Ele descrevia “uma tendência muito dirigista e controleira da direcção do Partido, cada vez mais em des-sintonia com o que se passava na realidade”. Começámos por aí, como podíamos ter começado por outro lado qualquer.

A vida de Mário Lino é normal, normalíssima. Tudo é normal, normalíssimo. Nasceu em 1940. Teve um pai “muito amigo da família, que andava sempre com a minha mãe e connosco”. Viveu na Madragoa, em Angola, em Moçambique, no Técnico, nos Estados Unidos, em Moçambique – mas desta vez a construir o socialismo e a cozinhar tubarão para os amigos. Viveu no Partido e para o Partido. Escolheu ser expulso porque luta até ao fim; e preferiu a derrota a meter uma cartinha a dizer adeus para nunca mais.

Nunca se angustiou com o que vinha a seguir. Como ele diz, uma pessoa pensa assim: há tanta coisa para fazer, que alguma coisa ele há-de fazer. Nem se angustia se há turbulência no avião. Ele pensa assim: a probabilidade de o avião cair é tão pequena, porque é que há-de ser este?

Pelo meio há o Für Elise, os concertos às quintas na Gulbenkian. O Sandokan, onde está tudo o que um rapaz deve saber – como contou enquanto posava para as fotografias. E o perfil à la inspector Maigret, (de cachimbo), que leu, como leu a Miss Marple e todos os policiais.

Mas esperem, este é o Lino que todos conhecemos? O Lino que todos conhecemos, o Ministro, esteve também na entrevista. Mas esteve mais aquele que ele foi no passado, e que veio dar a este que agora é. Lamento se decepciono, mas aqui não se fala de obras públicas…

 

 

Em que momento deixou de se sentir comunista?

Não há um momento. É um processo. Há muitas questões do ideário comunista que mantenho. Estive ligado ao Partido Comunista 25 ou 26 anos.

 

Como foi a sua saída?

Foi em 1990. Um processo de expulsão, em que eu e outros camaradas estivemos envolvidos, designadamente o José Barros Moura e o Raimundo Narciso. O acto concreto que levou a isso foi uma reunião que promovemos no Hotel Roma – ficou até conhecida como A Reunião do Hotel Roma. Analisámos uma posição da direcção do partido, que nos pareceu escandalosa, de apoiar uma tentativa de golpe de Estado contra Gorbatchev. Estava envolvido um quarto elemento, o José Luís Judas, que antes de terminar o processo se desvinculou do Partido. Os outros três entendemos que devíamos levar o processo até ao fim e defender o nosso ponto de vista.

 

A palavra expulsão é estigmatizante.

É uma das medidas disciplinares, está prevista nos estatutos (julgo que) de todos os partidos. E que foi aplicada. Claro que não foi uma situação isolada. Foi um processo de conflito ideológico e político, que se foi desenvolvendo ao longo de anos, e que teve nesse acto o que para a direcção do PCP constituiu a gota de água.

 

A questão não é tanto o momento em que deixa de ser comunista, e formalmente se dá a expulsão, mas o sentimento de aquele já não ser o seu mundo. Quais foram as questões essenciais do desmoronamento?

A democracia interna do partido; numa situação normalizada do ponto de vista democrático, não me parecia que o partido devesse manter o tipo de funcionamento espartilhado [que tinha]. Outra questão tinha que ver com o pensamento dominante da direcção do Partido face aos acontecimentos na ex-URSS e noutros países do socialista real, como a República Democrática Alemã, com a queda do Muro de Berlim. Toda essa arquitectura, essa concepção leninista – como se estivéssemos a fazer uma cópia do que se tinha passado em 1917 na União Soviética – era muito difícil de alterar; ainda hoje se mantém. A terceira divergência tinha que ver com a visão do Partido face à União Europeia. Sempre teve uma posição muito negativa face à integração e à visão da Europa.

 

A expulsão foi um misto de alívio e de dor?

Não. Se quisesse sair do partido, tinha apresentado uma carta de demissão. Era mais simples, dava-me menos trabalho, era uma situação menos tensa. O Partido Comunista tinha um património valioso, que era de todos os militantes e do país; não era um património exclusivo da direcção do Partido. Esse património estava a ser desbaratado. Era necessário fazer evoluir o Partido por dentro. Veio a verificar-se impossível. Mas não sou de abandonar lutas. Só derrotado. Não faço as coisas por acaso. Guio-me por objectivos, por princípios. A direcção tomou a decisão que achou que devia tomar. Tão simples quanto isto.

 

Tão simples quanto isto – mas é o fim de um mundo e de um período significativo da sua vida.

Estava ainda a estudar no [Instituto Superior] Técnico quando aderi ao Partido Comunista, em 1964. Depois do 25 de Abril estive ligado a comissões de trabalhadores, sindicatos, actividade económica. Há muitos princípios que mantenho. A democracia, a liberdade, a igualdade social. As grandes consignas, adaptadas ao mundo actual, que se iniciaram com a Revolução Francesa, continuam a marcar a minha maneira de pensar e a guiar a minha acção. Muitos aspectos da vida interna do Partido têm muito valor: o companheirismo, a seriedade e rigor com que se executam tarefas, a responsabilidade, a submissão da vontade particular às decisões do colectivo. O que é preciso é que o apuramento das decisões seja feito de forma democrática – e não de forma distorcida.

 

Quem é que primeiro lhe falou da Revolução Francesa? Como chegaram a si esses valores?

Chegaram por todas as vias. Os meus pais estavam em Moçambique quando acabei o antigo sétimo ano. Vim sozinho, aluguei um quarto na rua Augusto Machado. Embrenhei-me na actividade associativa. Logo no primeiro ano passei a colaborar na Associação de Estudantes.

 

Apanhou a crise académica de 1961?

Apanhei. Em 59, foi quando fui para o Técnico. O curso requeria muita atenção e estudo, mas, ao mesmo tempo [levava] uma vida intensa do ponto de vista cultural, político, associativo. E lia muito. Sempre li muito. Trabalhava em secções, frequentava os ciclos do cineclube, o clube universitário de jazz. Havia grandes discussões entre os adeptos das correntes do Neo-Realismo [italiano] e dos Cahiers du Cinéma. Essas discussões tinham sempre um substrato ideológico. Eu gostava de Fellini ou Visconti e gostava de Ingmar Bergman ou Hitchcock. A guerra colonial foi outro momento importante. Vivi muitos anos em África.

 

Conte-me a história da sua vida em África, que tem várias fases.

O meu pai era militar. Fez uma comissão [de serviço] em Angola, entre os meus oito anos e os 14. Regressámos a Portugal, mas passado um ano e tal estava numa nova comissão em Moçambique, onde vivi dos 15 aos 17, quase 18 (quando acabei o liceu e vim para o Técnico). Tinha um contacto com os problemas, as carências, o regime colonial no seu pior – principalmente em Moçambique, onde havia uma segregação racial forte. No liceu, praticamente não havia alunos negros, nem mulatos. Embora todos fossem portugueses, as liberdades de uns eram completamente diferentes das liberdades de outros. Tudo isso desperta a nossa consciência. As lutas estudantis tiveram um peso muito grande.

 

Qual foi o seu percurso no Técnico?

Fui delegado de curso, candidatei-me a presidente da direcção do Técnico e fui eleito. Embora goste muito de ler e discutir, não sou capaz de ficar apenas nessa componente. Gosto de realizar coisas, gosto da transformação da realidade. Gosto de operar. [Esse empenhamento] levou a processos disciplinares de natureza académica – por ter promovido manifestações e greves, acções desse tipo.

 

Em 65. Coincidiu com a finalização do curso?

Esse ano foi terrível. Casei em Dezembro de 64, estive preso em 65, era presidente da Associação de Estudantes do Técnico, trabalhava. Tinha-me sido retirada a bolsa. Consegui [sobreviver] através de explicações e a trabalhar como aluno no então Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC). E tinha que acabar o curso o mais depressa possível. Fiz o último exame em Julho de 65 e no dia 8 de Agosto saiu a decisão de me expulsar de todas as universidades do país. Não teve o efeito de me interromper o estudo, que tinha acabado; mas teve um efeito: o Ministério da Educação, durante dois anos, recusou-se a passar qualquer comprovativo de que tinha acabado o curso.

 

Não pôde trabalhar durante dois anos na sua área?

O presidente do LNEC era o engenheiro Manuel Rocha; era uma pessoa de invulgar craveira científica, muito prestigiada. Nomeado pelo Governo. Meteu-me como engenheiro apesar de não ter o certificado; admitiu-me com base no seu conhecimento pessoal, (fez um despacho a dizer isso). Foi de uma grande dignidade. Correu riscos. O Manuel Rocha veio a ser Ministro das Obras Públicas no primeiro Governo Provisório.

 

Imagino que tenha pensado nele quando tomou posse…

Penso muitas vezes nele.

 

Que jovem é este que chega de África e tem a energia, o carisma para, desde logo, se embrenhar – foi a expressão que usou – nas lutas académicas? Ou digo de outra maneira: conte-me a história da sua vida.

Tive uma vida normal, normalíssima. O meu pai era sargento do exército, relativamente humilde. A minha mãe era doméstica e fazia trabalhos de costura para lojas que vendiam camisas e coisas assim. Às vezes, ajudava-a. Vem-me daí um certo à vontade com que hoje passo a ferro, lavo qualquer peça de roupa, coso botões. Sou o filho mais velho; éramos dois, e depois nasceram mais dois, dos mesmos pais. Competia-me ajudar e fazia isso com gosto. Lia policiais, livros de aventuras, de cowboys, de amor, e livros bons, os Padres Amaros e essas coisas que eram postas numas prateleiras por detrás.

 

Onde estavam os livros?

Em casa de amigos dos meus pais. Pedia emprestado. O meu pai tinha algumas coisas, mais sobre a guerra. Era anti-salazarista. Lembro-me bem que na Segunda Guerra era a favor dos Aliados. Ouvia-se a rádio muito baixinho porque constava que vinham uns carros que detectavam onde é que havia pessoas a ouvir a BBC. O meu primeiro envolvimento numa acção de cariz político ou social foi no liceu. Era aluno do quinto ou sexto ano e resolvi fazer um jornal de parede. Eu e outros colegas, mas eu era o director. Nessa altura falava-se, em Moçambique, de uma professora primária que batia nos alunos de forma mais violenta. Escrevi um artigo [riso] a revoltar-me contra a professora, que aquilo não eram maneiras de ensinar e não sei o quê! Foi proibido o jornal, foi o primeiro e último número. Levei dois ou três dias de expulsão.

 

Foi a sua primeira expulsão… Viriam a da universidade e a do PC.

Adapto-me muito bem ao trabalho em conjunto – não sou um individualista; mas não daquela forma arregimentada. Em que todos temos que andar vestidos da mesma maneira, dizer as mesmas coisas. A Mocidade Portuguesa não ia com os meus princípios. Andar a marchar, com uma farda, aos sábados, que coisa estúpida!, eu queria era jogar. De maneira que inscrevi-me no aeromodelismo, na esgrima, fiz teatro. Nunca me senti atraído por aquele carácter militar que se imprimia na Mocidade Portuguesa. Também em Moçambique criei um clube de Matemática – já não sei se se chamava Pitágoras ou Arquimedes. Jogava xadrez, o meu pai ensinou-me a jogar xadrez. Participei em torneios. 

 

Em todas essas coisas, do jornal de parede à Associação de Estudantes, teve um papel de protagonismo. Ainda que se integre bem num colectivo, não se submete…

Sim. Há pessoas que dizem que gostavam de ser Ministro, Presidente da República, o Melhor Jogador do Mundo de Xadrez, o Maior Pianista… Eu nunca tive essa percepção, [nunca me quis] impor dessa forma. Se no colectivo em que estou envolvido acham que eu é que tenho as condições para, exerço. Não me furto a exercer. Mas o meu propósito não é chegar ao primeiro [lugar]. Tenho o propósito de fazer bem. Por exemplo, não disse: “Vou lutar para ser presidente da Associação do Técnico”. Não é esse o encaminhamento das coisas.

 

Porque é que liderou tantas vezes?

Essas lideranças não resultam de um objectivo individual – de ser o director, o chefe… Não me fui oferecer para ser Ministro das Obras Públicas. O Primeiro-Ministro convidou-me e eu aceitei, depois de ter pensado e até de ter levantado algumas dúvidas: se seria a pessoa mais indicada. Ele achou que sim. Aceitei de bom grado e procuro fazer o meu melhor. Não me lembro de coisas importantes [para que me] tenha posto em bicos de pés.

 

Não houve nada por que tivesse lutado, que tenha querido absolutamente?

Não por lugares, só por causas e princípios.

 

Voltando à minha pergunta: quando chega ao Técnico, tinha já esse élan? Tinha confiança em si mesmo?

Sim. Sempre fui uma pessoa confiante. 

 

Gostava de perceber porquê.

E nem sempre tive êxito nas coisas que fiz. Posso contar-lhe uma história interessante, daquelas que marcam. Como lhe disse, o meu pai era sargento do exército, tinha uma remuneração baixa, vivíamos com dificuldades. Não tínhamos água canalizada, íamos buscar água ao chafariz. Foi o meu pai que introduziu a primeira e única torneira que havia em casa. (Era sargento de engenharia e esteve sempre ligado a obras). Também não tínhamos electricidade; foi ele que montou os fios eléctricos; não havia tomadas, havia petromaxes. Nessa altura havia abono de família até…, não sei bem, mas vamos pôr: até ao segundo ano do liceu. A partir daí, tinha-se abono de família se se andasse a estudar com aproveitamento. Eu já estava no quarto ano (o actual oitavo), no Pedro Nunes (foi aquele período entre Angola e Moçambique). Chumbei.

 

Que era feito do rapaz aplicado, que gosta de ler?

Chumbei em três disciplinas, Matemática, Física e Inglês. Cinco, cinco, cinco, notas de um a vinte. Aquelas matérias não me diziam nada. A sensação que tinha, e que ainda hoje recordo, era: “Está além das minhas possibilidades”. O meu pai, que não me batia, deu-me um responso, dizendo que eu era as coisas piores do mundo. Ele andava a trabalhar e eu não fazia nada. E tinha que devolver o abono de família recebido na presunção de que eu ia passar! Sou um bocado mula e teimoso e não disse nada. No dia seguinte, disse à minha mãe: “Vou-me empregar estes três meses”.

 

Nas férias grandes.

Nós não fazíamos férias em lado nenhum. Íamos ao domingo à Costa da Caparica ou a Carcavelos. Fui ao Diário de Notícias, sozinho, ver o que havia, pá-pá-pá, respondi a vários anúncios, e arranjei um emprego como marçano numa casa chamada Mundial Filmes. O que é que fazia? Carregava caixas de alumínio com bobines e ia pô-las em Santa Apolónia. Ganhava 300 escudos por mês ou 300 escudos pelos três meses (são coisas que se esfumam). Era dinheiro.

 

Quanto é que ganhava o seu pai?

Não faço a mínima ideia. A minha mãe quis contrariar-me, mas eu fui. Comprou umas marmitas daquelas que se enfiavam [umas nas outras], e lá punha a sopa, as batatas, o bacalhau, uns croquetes, arroz. Morava na Madragoa, e ia de eléctrico às oito horas. O meu pai soube, não disse nada, e eu também não. Juntei o dinheirinho, peguei no correspondente ao abono de família que o meu pai tinha perdido, “toma lá”. O meu pai encaixou aquilo. O que sobejou, dei à minha mãe para comprar uma saia! [risos] Não comprei nada para mim.

 

Como foi o ano seguinte?

Fui repetir e deu-se uma mudança brutal. No ano anterior, eu nem entendia o que o professor estava a dizer, nem sabia como me ia safar do liceu. Mudei de professor, tive um excelente professor de matemática, e a sensação era a contrária: não percebia como é que havia alguém que não entendia! Parecia-me tão fácil, tão simples. Tive 19’s e 20’s.

 

O que é que lhe aconteceu no ano anterior?

Não sei. Irritou-me muito o discurso do meu pai. Que eu era culpado. Era verdade que ele trabalhava muito, que a minha mãe trabalhava muito, tudo para pôr o menino a estudar, e o menino tinha andado sem fazer nada!

 

Ainda antes do responso: como é que foi possível que estivesse um ano a mandriar?

Foi da idade. Catorze, 15 anos…

 

As miúdas, as miúdas…

Também é o despertar da sexualidade. Não fazia nenhum. Ia jogar matraquilhos, ia ao cinema, raspava-me das aulas, jogava à bola.

 

Como era a sua relação com o seu pai?

Era uma pessoa muito severa. Não era brincalhão. Não tinha grande cultura. Não percebia nada de música clássica, nem gostava, mas adormecia a ouvir a Rádio-Difusão 2. Nós gramávamos a música porque ele adormecia! Uma vez, no liceu, houve uma aula de substituição; o professor apareceu com uma grafonola, manual, com uma campânula. Levou o disco do “Aprendiz de Feiticeiro” e explicou cada instrumento, o que estava a dizer. “Agora, lá vem o feiticeiro…”, e [faz o som de um instrumento musical]. Fiquei extasiado.

 

No fundo, estava a contar uma história com música.

Foi uma aula só. Fiquei a gostar muito de música. Mas estava a dizer: o meu pai era alentejano, não era de muitas falas, e tinha uns códigos; nunca nos íamos deitar sem pedir o beijinho e a bênção. “Pai, posso ir deitar-me?”, “Podes, meu filho”. Era assim todos os dias.

 

Mudou radicalmente no ano seguinte. O detonador dessa mudança foi a humilhação e a responsabilização?

Sim. Detesto sentir-me numa posição fraca. Não gosto de estar metido num beco sem saída. “E se não corre [de determinada maneira], o que é que faço?”. Não gosto de estar numa situação em que não consiga lutar. No ano seguinte passei com notas altíssimas mas tornei a empregar-me. Na Bacelar e Alves; vendia móveis. Esse dinheirinho foi todo para mim. Habituei-me a trabalhar. Quando vim para o Técnico e me tiraram a bolsa, não me ocorreu [perguntar]: “O que é que vou fazer agora?”. Meti-me a dar explicações e no quarto ano comecei a trabalhar no LNEC. Vivia das explicações, sem luxos, mas bem.

 

Porquê Engenharia Civil?

Sabe-se lá! Gostava de Direito, dizia que queria ser advogado. Mudei. Escolhi a alínea das engenharias por causa da Matemática. Talvez [o facto de] o meu pai estar ligado a obras e me ter falado tanta vez em obras me tenha influenciado.

 

Era um modo de progredir socialmente, fazendo um pouco do que o seu pai fazia em casa…

Pois, pois. Os meus netos perguntam: “Qual o filme de que gostaste mais?”, “E se fosses para uma ilha deserta, que livros levavas?”. Nunca tive uma fixação por querer só uma coisa. Sempre me interessei por várias. A certa altura, em Moçambique, quis aprender música. O meu pai tinha uma péssima ideia dos músicos: dizia que eram bêbedos ou tuberculosos! Nunca me deixou estudar música! Nem guitarra! No dia em que cheguei a Lisboa, fui à Valentim de Carvalho e aluguei um piano! Que pus em minha casa. Aliás, o quarto foi arranjado em função disso. A senhoria disse que desde que eu não tocasse à noite, não importava. (Era uma senhora viúva. Não, era casada. Dava-se mal com o marido. Enfim, era muito desligada do marido embora o marido vivesse lá em casa...

 

Lembra-se de todos esses detalhes…

A senhora é que mandava na casa). Aluguei um piano que me comia uma parte significativa dos mil e quinhentos escudos da bolsa. Arranjei uma professora nas Avenidas Novas. Eu tinha muito jeito para aquilo. E ia progredindo. Tocava muitas horas por dia. A coisa mais complexa que toquei foi o “Für Elise”, do Beethoven. Mas cheguei a Maio e percebi: ou passo a Matemática ou passo a piano. Deixei cair o piano. Com muita pena.

 

Só deixa cair quando tem absolutamente de fazer escolhas. E vai recuperar um projecto que está lá atrás…

Se não tivesse sido o que sou, uma carreira que não me importava de seguir era a da música. Ou pianista, ou maestro. Há coisas que não faria: não tenho jeito para pintar.

 

Lá atrás, teve algum confronto declarado com o seu pai? Dá ideia de ser um homem que não foge ao confronto. O exemplo da expulsão do PC é elucidativo.

Não fujo. E com o meu pai também. Mas nunca tivemos conflitos. Levava-me às vezes para o quartel, eu gostava de ir. Não era dado a manifestações de carinho, de afecto. Quando era miúdo sentava-me no colo dele, e no Natal comprava-nos prendas. Ter boas notas era um trunfo. Eu dizia: “Vou sair”. Não pedia para sair. Isto com 16, 17 anos.

 

Podia lá ele imaginar que ia ser Ministro…

Isso, ninguém imagina. Mandava-me comprar o “República”, ouvia a rádio contra o Salazar, nunca se manifestava. Quando foi o 25 de Abril virou muito reaccionário. Essa coisa de eu estar no PC, nunca suportou. E quando fui preso, nunca me escreveu. (Os meus pais estavam em Moçambique). Nunca falou do assunto – eu também não. Nem nunca procurou demover-me, ou perguntar-me [alguma coisa]. Nada, silêncio.

 

A si, doeu-lhe que não o tivesse contactado.

Encaixo bem essas coisas. Quer dizer, preferia que tivesse ido. De outras pessoas, esperaria o contrário e foram visitar-me. A minha mãe falava às escondidas e tal. Sempre naquela relação: o meu pai não queria, a minha mãe não afrontava. Talvez à noite no quarto lhe dissesse alguma coisa…

 

Bateram-lhe na cadeia? Foi torturado?

Não. Tive interrogatórios demorados, mas não do tipo de ficar dias sem dormir. Fui preso por razões que a polícia tinha mas que não eram consistentes. Ao fim de dois meses, (primeiro isolado no Aljube, depois numa cela a dois, e depois em Caxias), mandaram-me embora.

 

Viveu na clandestinidade?

Não. Mas tive ligações ao Partido durante a clandestinidade. O Partido Comunista tinha decidido criar um corpo [paralelo à] estrutura do partido, a ARA, para fazer acções armadas. Fez alguns atentados contra navios que iam para a guerra, postes da EDP, aviões… Bom, colocavam umas bombas. O meu trabalho com a ARA era de apoio a elementos que estavam na clandestinidade e que, quando montavam essas operações, ficavam na minha casa e eu conduzia-os a determinado sítio. Mas escapei. Nunca estive envolvido. Os elementos da ARA, o meu amigo Raimundo Narciso e o Francisco Miguel, foram identificados, mas nunca foram apanhados.

 

Porque é que não quis ir para a clandestinidade e viver a causa política de um modo pleno?

Fui convidado para ir, mas nunca me senti em condições de dar esse passo. Já era casado, a minha filha tinha nascido, e gostava muito da minha actividade profissional. Não me estava a ver…

 

A ter um senhor. O PC seria o senhor.

Não sei se foi esse o raciocínio. Não exercia uma suficiente atracção sobre mim. Actividade política, tive sempre. Continuei a ter. E cívica. Foi um dos meus melhores amigos quem me convidou. “Então vai lá para os Estados Unidos fazer a pós-graduação e depois voltamos a falar”. E lá fui e voltámos a falar. Mas estava a acabar o doutoramento… Pareceu-me um sacrifício muito grande e tive dúvidas que me fosse correr bem. Era um passo difícil: cortava-se com os amigos, com a família, com tudo.

 

Acabou o doutoramento? No seu CV lê-se que é mestre e que trabalhou no doutoramento. Mas não especifica em que momento ele foi abandonado.

Estive um ano e meio nos Estados Unidos, fui em 1972. Obtive todos os créditos, fiz o exame final (onde passei); tinha de fazer a tese. Regressei a Portugal para trabalhar na tese. Passado pouco tempo, um grande amigo, que era ministro da Indústria e Comércio e viria a ser Primeiro-ministro, o Mário da Graça Machungo, escreveu-me a pedir para ir para Moçambique, para ajudar a construir o socialismo. Essa atraiu-me! Eu via-me em cima de um escadote, de fato-macaco, com um martelo numa mão e uma picareta na outra a construir o socialismo! E lá fui para Moçambique de alma e coração!  

 

Este lá entre 77 e 79.

Larguei tudo! Eu estava a fazer uma tese que, do ponto de vista científico, era muito interessante. Mas era para gozo individual. Estávamos no pós-25 de Abril. Para o país, em que é que aquilo interessava? Como é que aquilo transformava o mundo? Como é que eu contribuía? Eu tinha uma actividade sindical muito forte.

 

Além de trabalhar na tese, esteve na criação do Movimento Sindical da Função Pública.

No pós-25 de Abril comecei oficialmente a trabalhar no Partido Comunista. Primeiro nesse sector, depois transitei para o sector económico. Mais tarde, fui presidente do conselho de administração da Editorial Caminho, Editorial Avante e da CDL.

 

Ideologia, no fundo.

Exactamente. Mas isso já foi depois de vir de Moçambique. A Frelimo tinha escrito ao Partido a pedir, não era que uma pessoa fosse, era que eu fosse. Fui exercer um lugar importante, uma espécie de vice-Ministro: director do gabinete de planificação. Era o responsável do planeamento de um super-Ministério, o da Indústria e Comércio. Foi um período heróico!

 

Porquê?

Era um país que tinha acabado de atingir a independência. Tinha possibilidades imensas. Uma gente nova que chega ao poder, que toma conta de um país abandonado. Trabalhava-se muito, 24 horas por dia, num frenesim grande. Toda a gente estava imbuída do mesmo espírito, tudo convergia na mesma direcção. Havia discussões ideológicas grandes, como era natural. Havia, como na União Soviética, os fins-de-semana vermelhos – lá, julgo que se chamavam fins-de-semana de trabalho. Trabalho voluntário. Em África tudo floresce com rapidez e íamos ao fim de semana semear batatas, apanhar ervas nas ruas, ao longo do caminho-de-ferro.

 

Sentiu que a sua vida e a vida do colectivo estava nas suas mãos, nas mãos de todos?

Sim. Havia um sentimento colectivo muito forte: de quem estava num sítio, com tudo entregue a si próprio, e que tinha de fazer o seu melhor. Os períodos com dificuldades são os mais excitantes. O cônsul de Portugal vivia em Maputo num 12º andar. A maior parte das vezes não havia elevador. Cada vez que ia falar com ele subia e descia 12 andares a pé. A comida, havia racionamento: um quilo de açúcar por semana, uma barra de sabão. Convidava portugueses a almoçar lá em casa. Como gosto de cozinhar, fazia tubarão (que se salga como o bacalhau) como se fosse bacalhau à Gomes de Sá, pastéis de bacalhau, bacalhau à Brás. Fazíamos manteiga em casa, a partir das natas do leite. Só havia um bolo na pastelaria, o bolo inglês. Eu trabalhava à noite fumando cachimbo, bebendo whisky e comendo bolo inglês! Era uma coisa, pá, fantástica! E a gente a sentir de mês para mês as coisas a mudarem…

 

É como se tivesse vivido um 25 de Abril lá. Essa descrição que faz, essa exaltação colectiva, faz parte dos relatos da Revolução.

Sim, também vivi o 25 de Abril cá. Mas isto [Portugal] era uma sociedade mais avançada, mais acabada. Lá não havia nada. Havia tanta coisa para fazer que qualquer contribuição tinha um grande efeito. Fiz quase três anos e depois vim embora. Mas não faz parte da minha maneira de ser: “Estou a gostar tanto, fico por lá”. Fui por um ano, renovei por mais um, e mais um.

 

Que veio fazer para Lisboa?

Vim para o LNEC e era consultor de uma empresa de projectos. Pensei retomar a tese. Passado nem um mês, o Partido fez-me o desafio de ir tomar conta dessas empresas. Desisti da tese, saí de vez do Laboratório. Quando saí expulso do Partido, não tinha nenhum emprego, nenhum ponto de recuo. É o problema da confiança de que falava… Eu sei fazer várias coisas, alguma coisa hei-de conseguir fazer. Optei por formar uma empresa com mais duas pessoas. Ganhava-se mais dinheiro. Fiquei a trabalhar nela até 96.

 

Quando é que voltou a ter actividade política?

Envolvi-me nos Estados Gerais – aí é que conheci o José Sócrates. Tivemos algumas reuniões (como ele estava na área do ambiente); lá defendi o que é que pensava naquelas matérias. Foi uma surpresa quando em 1996 ele e a Elisa Ferreira me convidaram para presidir ao Grupo Águas de Portugal. Aceitei.

 

Porque é que foi uma surpresa?

Porque não estava à espera. Pela tal coisa: não faz parte dos meus planos trabalhar para ver se sou presidente das Águas de Portugal. [risos] Não estou a dizer que fazer de outra maneira não é legítimo ou correcto. Não é a minha [maneira]. Não é: “Agora o PS está no poder, tenho de arranjar maneira de ir para isto ou para aquilo”. Sou tentado a pensar assim: “As pessoas que me conhecem, com quem trabalho, a quem dou toda a colaboração – nunca pus condições – se acharem que há alguma coisa que posso fazer e me perguntarem e eu achar que sim, farei”.

 

A relação de trabalho com Sócrates começa, então, aí, nas Águas de Portugal.

Sim. Até que chegou ao fim. O Ministro Isaltino de Morais disse-me logo que eu não ia continuar. Explicou-me que não tinha que ver com competência, que até tinha uma excelente opinião do que eu estava a fazer, mas que a vida era assim e que eu certamente compreendia… Disse logo que compreendia perfeitamente! Que estes cargos devem ser exercidos por quem se tem confiança, também política. Nem eu próprio sabia se ia estar de acordo com a política que o Governo PSD queria para as Águas de Portugal. Naturalíssimo. Dediquei-me a trabalho de consultoria e ganhava assim a minha vida. 

 

Nunca nada o angustia?

Não sou dado a angústias. Penso muitas vezes: se estiver numa sala de cinema, às escuras, a sala cheia, e alguém grita “fogo”, e começa toda a gente a correr, o que é que eu faço? Tenho a certeza que não corro, não grito e não faço nada que não seja pensado. É muito difícil entrar em pânico.

 

Nunca perdeu o controlo?

Uma vez estive quase a afogar-me e [risos] perdi o controlo. Foi uma das vezes em que fiquei com a sensação: agora é que não tenho nada para fazer. Sei nadar mal e atrapalho-me. Posso nadar onde há pé sem pôr os pés no chão, mas se sei que não há pé fico apreensivo. Fico apreensivo mas não entro em pânico. Não me dá para gritar, ou chorar, ou agarrar-me a qualquer coisa. Sou muito racional.

 

O que é curioso é que a sua área é a hidráulica. E essa situação em que perdeu o controlo foi a nadar…

[gargalhada] Agora, há coisas que não me meto a fazer: “Não quer aproveitar para fazer jumping jump?” Nem pensar nisso!

 

A imagem que as pessoas têm de si é que é um pândego. De ser mais visceral do que racional.  

Também é verdade. Assim como não tenho o melhor livro ou a melhor paisagem ou a melhor cidade que visitei, também não há acontecimento que mais me marcou. Sou engenheiro e podia ter sido pianista; não tenho dúvida que não seria pior.

 

Significa que vai aos concertos da Gulbenkian e não sente tristeza por não ter tido aquela vida?

Não. Penso que gosto muito de música. Que com aquilo me sentiria bem.

 

Decidiu-se pela Matemática.

Não me angustia ter que decidir. Se é preciso cortar com uma coisa, corto. Não tenho arrependimentos, [ou uma sensação] de perda. Chateia-me mais pensar que não decidi bem. Não sou dado a estados de alma. Esta actividade, aqui, é muito intensa; eu durmo muito bem, como bem, não tenho pesadelos. Quer dizer, [gargalhada] estou satisfeito comigo próprio!

 

É determinado. Não teme nunca as consequências?

Não temo as consequências mas preparo-me para as afrontar, e conto com elas. Uma pessoa aceita vir para o Governo e sabe que isto vai ter consequências. Para a família, para uma quantidade de coisas. “Afrontas as consequências ou não? Afronto”. A partir daí, ninguém me ouve dizer: “Ai, estou muito cansado, ai, se eu soubesse…”. Eu já sabia. Em pormenor, no concreto, não sabia se era assim ou assado. Agora, que ia ser difícil?, isso já sabia, não vale a pena lastimar depois.

 

Falemos, por fim, do cachimbo. Quando é que o cachimbo apareceu na sua vida?

Aos 18 anos. O meu pai fumava cigarros. Não era suposto fumar-se em casa, à frente dos pais. Já no Técnico fumei uns cigarros, dois ou três meses. Eh, pá, aquilo não me satisfazia. Um dia, fumei cachimbo e gostei do sabor, do cheiro.

 

Tem um lado ritualístico.

Tem. Ocorre frequentemente: estou a pensar, a trabalhar, “como é que vou resolver este problema?”. Pego no cachimbo, começo a carregar…, este ritual ajuda-me a reflectir.

 

Que relação tem com o objecto? Neste caso, com os vários objectos.

Fumo cachimbos da marca Peterson. Gosto da madeira que utilizam, do design, da forma como se penduram na boca.

 

Gosta de o tocar? Há nisto um lado fetichista.

Talvez, talvez. Nunca fumo em jejum nem no quarto. Fumo desde que tomo o pequeno-almoço até ir deitar-me. Permanentemente. Ando sempre com 10, 12 cachimbos na pasta. As peças essenciais são duas: o escovilhão e o calcador.

[vai à secretária e mostra]

 

O escovilhão limpa e desentope. O calcador tem uma parte que mais parece um objecto de perfuração.

Nos aeroportos, “mostre lá”, pensam que é um canivete. Tenho os cachimbos da pasta, um em casa, outro no carro, outro na casa da Ericeira. Se um dia me esqueço da pasta e fico sem cachimbos, fico inquieto.

 

Toca-o como se fosse uma extensão do seu corpo.

Talvez. Nunca pensei nisso.

 

Quase o acaricia. Não pega nele de modo desligado. Fá-lo com segurança, hábito e uma certa volúpia. 

É. Há uma afectividade pelo cachimbo. E gosto de escolher. É uma peça bonita, pá, não é?

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2009

 

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