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Mariza

«Eu era nomeada, mas ao meu lado estavam nomes conceituadíssimos, gente que está no meio da música há muitos anos. Pensei que podia ganhar um prémio revelação... Mas foi. Aconteceu. Agora, o que eu não gostava era que isto me trouxesse grandes responsabilidades. Eu já tenho as minhas responsabilidades: mostrar a cultura do meu povo, respeitar as pessoas que vão aos meus concertos e que tentam compreender a minha maneira de estar no fado».

Mariza, 28 anos, a nova diva do fado, a nova sensação da world music. Ela que não se considera senão um instrumento. Lotações esgotadas em digressões intermináveis. Referências elogiosas nas páginas exigentes do New York Times. O novo álbum, "Fado Curvo", tem edição nos próximos dias. O anterior, "Fado em Mim", continua a vender-se aos milhares no mundo inteiro. Prémio World Music (atribuído pela Radio 3 da BBC) para melhor artista europeia.

Os caminhos desta música do mundo começam num continente distante. Antes do mítico bairro da Mouraria, as raízes pertencem a uma terra de cor vermelha.

 

Nasceu em Moçambique, onde viveu os primeiros anos. De que modo sente essa presença africana na sua vida?

Infelizmente não tenho nenhuma recordação de Moçambique. Nem longínqua. Voltei a Moçambique quando fiz 18 anos. A guerra tinha acabado há pouco tempo e era um país em transição; não gostei nada. Gostaria muito de poder voltar a Moçambique, conhecer algumas das minhas raízes.

 

Perceber onde é que radicam as suas coisas.

Gostava muito de ver a casa onde a minha mãe nasceu. A minha mãe ainda nasceu em casa, apesar de ser nova: tem 52 anos. Eu nasci no hospital de Lourenço Marques [como Maputo então se chamava].

 

Em Moçambique o quotidiano está ainda muito impregnado da presença do fantástico. Há rituais extraordinários à volta do nascimento. O que é que a sua mãe lhe conta?

Há tradições de família, do lado da minha mãe. Quando nasce a primeira neta, durante os primeiros três meses, a avó é que cuida. A mãe fica a aprender. Eu fui a primeira neta e comigo aconteceu isso mesmo. Por isso tenho uma grande ligação com a minha avó Marta. Para ela, o que eu digo, é lei. Ela não se senta à mesa antes de eu me sentar, por exemplo.

 

Marta é um nome europeu, não é nada africano.

Mas ela estudou num colégio jesuíta, apesar de ser negra. Sabe escrever, sabe ler, é uma mulher bastante evoluída para a idade. (Tem quase 70 anos). Vive lá, mas vem visitar-me sempre que pode, no Verão. 

 

A sua avó cantava para si?

Não. Mas fazia-me todos os miminhos. Carregava-me da maneira tradicional, às costas, com um lenço amarrado. O meu avô tinha uma herdade com café, chá, tabaco, tinha pântano, ia à caça. E a minha avó, enquanto dava ordens e fazia a lida de casa, carregava-me assim, às costas. 

 

Como é que ela assiste ao seu sucesso? Que tipo de orgulho é que tem em si?

Primeiro, porque sou a sua neta. Depois, porque canto fado, e o meu avô costumava cantarolar fado. «O teu avô cantava “A Casa da Mariquinhas” e fados de Coimbra». (O meu avô estudou em Coimbra). Sente-se orgulhosa porque canto uma cultura que ela conhece, da qual sente que faz parte. Mas essas coisas dos prémios, não são muito relevantes.

 

E para si, são?

Para mim é um adjectivo interessante. Faz-me sentir muito bem, mas não me posso esquecer do caminho que estou a traçar e do que quero fazer. Às vezes estas coisas fazem com que a gente se perca...

 

É fácil perder o pé?

É. Muito fácil. Voa-se com uma facilidade... Por exemplo, quando se lê no jornal que a minha voz faz lembrar a Ella Fitzgerald nos seus melhores momentos... É fantástico saber que o Gerard Depardieu é grande fã e aparece nos meus concertos e compra os meus discos. Como saber que o Sting sabe da minha existência e responde a um convite meu.

 

Como é que se lê uma coisa dessas quando ela é escrita a nosso respeito? Como é que se fica a seguir?

Tento lembrar-me do sítio de onde venho. Venho de uma família que, depois de uma guerra e de uma revolução, teve de voltar [à metrópole] com uma mão à frente e outra atrás. Os meus pais praticamente não tinham meio de sustento. E lutaram, batalharam muito para que eu crescesse e fosse a pessoa que sou. Tenho grande orgulho nisso, no que me puderam oferecer. Fui morar para um bairro pobre, de gente pobre, mas muito orgulhosa, muito trabalhadora.

 

Os seus pais instalaram-se na Mouraria, que tem uma forte tradição popular e de ligação ao fado.

Para poderem sobreviver, os meus pais ocuparam-se de um restaurante na Mouraria. Nos anos 80, se quisesse ouvir fado, só o podia fazer nos bairros típicos. Alfama, Mouraria. O fado estava muito ligado ao regime anterior. E eu, com 5 anos, comecei a cantar no restaurante! O Parque Mayer ainda estava vivo e os actores iam lá cear e ouvir fado. Jornalistas, poetas, boémios, a gente do bairro. Mandam-se bocas, bebe-se um copo de vinho, canta-se, é um ambiente muito vivo.

 

Descreva-me uma casa de fado.

Uma casa de fado, neste momento, é um local turístico. Perde-se um pouco o ambiente fadista genuíno... Quando se vai a um local, que os estrangeiros dificilmente conseguem encontrar, e se ouve amadores a cantar, o ambiente é completamente diferente. Mandam-se bocas uns aos outros...

 

O que é isso de mandar bocas?

Como é que hei-de explicar? O que tem a dizer-se, diz-se naquele momento, e ninguém fica chateado, ninguém leva a mal. Às vezes dizem-se coisas só por dizer, só para picar. Bebe-se muito vinho, come-se muito caldo verde, fala-se muito de pouco e de nada. Constroem-se poemas nessas noites.

 

Escritos nas toalhas de papel que estão sobre as mesas?

Sim. Aparece gente que canta maravilhosamente. Que canta porque gosta e não está minimamente interessada em ser conhecido. Canta porque a música lhe diz algo. Fazem-se tertúlias só com guitarra portuguesa, com a guitarra a chorar. 

 

E foi nesse ambiente que cresceu. Era a menina que assistia deliciada a este mundo dos adultos?

A minha mãe não me deixava ficar!, mandava-me subir (o apartamento era em cima e o restaurante em baixo). Mas havia umas cortinas e eu espreitava. Acontece que não via nada..., o ambiente é sempre muito escuro. Só ouvia. A primeira paixão começa com a guitarra portuguesa, com o som da guitarra portuguesa.

 

Que é um lamento, sobretudo.

É um choro, aquilo é um choro. A minha curiosidade era: o que é que a guitarra vai fazer a seguir à voz. Porque a voz chama e a guitarra responde. Ficava sempre à espera da resposta.

 

No seu canto, há um ondular permanente. Os versos não são ditos de forma oblíqua, sem ligação entre si. A passagem, a resposta, de um a outro momento, não é nunca descontínua. Essa cadência caracteriza-a enquanto cantora.

Eu acho que não sou uma cantora. Nem uma fadista. Eu sou um instrumento. Faço parte da música. E ela leva-me. Não sei ler uma nota, nunca tive aulas. Tenho agora, há muito pouco tempo. O ano anterior foi esgotante; foi preciso aprender a descansar e a potenciar o instrumento. A voz é um aparelho que se gasta com muita facilidade, que se cansa. Numa guitarra, parte-se a corda, põe-se uma corda nova, resolve-se o problema. Aqui, quando há um problema, é muito sério. E eu sou muito frágil. Mesmo fisicamente.

 

Tem perto de 1,80.

Pois é, mas sou muito frágil. Qualquer coisa e fico atacada e desritmada. Talvez tenha a ver com o ter nascido prematura, com seis meses e meio. (Agora que vou aos Estados Unidos, vou tentar perceber isso, tenho consulta marcada com um nutricionista). Com este número de espectáculos e salas esgotadas não posso dar-me ao luxo de dizer que estou doente, que estou de cama. As pessoas não têm nada a ver com isto! Então decidi aprender a proteger-me. Mas disse à minha professora que não queria aprender a colocar a voz. Coloco a voz de forma natural.

 

É como andar? Cada um tem a sua forma de andar?

É verdade. Ou respirar. Cada pessoa respira de forma diferente. Cada um sente da sua maneira, cada um coloca a voz da sua maneira. E eu aprendi a cantar na rua. Dava concertos para as vizinhas.

 

Elas ouviam-na à janela enquanto punham a roupa a secar?

Eu era pequenina, cantava e as vizinhas apareciam à janela, nas portas... E colava caricas nos sapatos com fita-cola e fazia números de sapateado ao mesmo tempo que cantava o fado!

 

Onde é que aprendia o sapateado, e as músicas?

Na televisão e na rádio. A rádio era uma grande companhia. O meu pai tinha o hábito, ainda tem, de desligar a televisão à hora da refeição. Ouvíamos fado – Fernando Farinha, Fernando Maurício, Carlos do Carmo, Max, Toni de Matos – e ouvíamos rádio. Aprendia as músicas pela rádio, sabia as letras todas.

 

Até quando é que viveu nesse mundo próprio que é a Mouraria? Qual é o ambiente de um bairro típico? É como se fosse uma família alargada, com as tensões e alegrias equivalentes?

É uma família com tudo o que as famílias têm. Quando se zangam, zangam!, e passados 3 dias já estão a assar sardinhas e bifanas na rua. Quando alguém está doente vão à farmácia, vão ao hospital. A minha mãe é abordada quase todos os dias «Então a nossa menina?». Sentem-se orgulhosos. A vivência de bairro é muito isso, vivem ali todos os dias uns com os outros.

 

E a cusquice?

Também. Sabe-se tudo.

 

O bairro deixou-lhe essa marca, além do cantar?

Não tenho muito o vício da cusquice. Não me interessa muito o que os outros fazem, só atrapalha... Quando estamos muito preocupados com o rabo do vizinho não olhamos para o nosso. Houve uma altura em que queria saber o que as pessoas pensavam, o que diziam. Hoje não me interessa. Se escrevem bem, se escrevem mal, se dizem bem, se dizem mal.

 

Diz-se que o fado é um estilo de música próprio de Portugal, um lamento, a saudade. Também se diz que o fado é a vida. A sua descrição do bairro é passível de ser identificada com o que é o fado, o que é a vida. 

É a minha vida. Quando se fala de fado tradicional, sei exactamente do que se fala. Quando se fala de raízes, sei do que se fala. Quando estou num ambiente fadista, sei como se comportam as pessoas, como me devo comportar. Se não tivesse crescido ali, não poderia entender. Talvez cantasse, porque é uma música que me apaixona, mas seria completamente diferente.

 

Como é que apresenta o fado aos estrangeiros? Como é que os faz entender o que aquilo é?

Lá fora, quando vão assistir a um concerto de fado é como se fossem assistir a um concerto de música clássica. Vão muito bem vestidos, com uma disposição para gostar. O que tento fazer é explicar-lhes os poemas. O meu inglês não é nada de especial..., mas vamo-nos entendendo. E tento fazer com que sejam muito participativos. Não consigo fazer um espectáculo parada, quieta. Tem que se dar, mas também tem que se receber.

 

No fundo, é como se os implicasse. Tal como acontece num ambiente de fado tradicional, em que as pessoas estão todas comprometidas umas com as outras e com aquele ambiente.

Exactamente. Tem de estar tudo com a mesma carga, na mesma linha. Assim tem acontecido em todos os espectáculos. Eu ensino-as e as pessoas cantam, batem palmas, riem. Como se estivessemos numa taberna, mas muito, muito maior. Como se estivesse a receber os meus amigos. Porque as pessoas que vão ver os meus concertos são meus amigos, estão interessadas naquilo que estou a fazer.

 

Entrega-se, e essa é a sua dádiva.

Dou-me completamente. Dou o que tenho e o que não tenho.

 

Sempre soube que ia ser cantora? No seu currículo consta que aprendeu a cantar antes mesmo de aprender a ler.

Sempre disse que ia ser cantora. Sempre. A paixão começou pela guitarra portuguesa e depois disse ao meu pai que queria cantar. O meu pai é um bocado um artista frustrado; em casa ouvimos muita música, havia sempre teatrices, fazíamos jogos cómicos, jogos de mímica. Como não sabia ler, o meu pai inventou um método: de dia ensinava-me o poema, com bonecos [desenhados] no papel que ilustravam os versos; à noite deitava-me com headphones e adormecia a ouvir a música. Então, aprendia a música a dormir e os poemas de dia, com os bonecos.

 

Quando saiu da Mouraria?

Há pouco tempo, há 6 anos. Foi para quebrar um bocadinho o laço. Como quando se nasce: é preciso cortar o cordão umbilical.

 

E como foi quebrar esse laço? Não é só o laço com os pais, é com toda uma vida.

Foi muito estranho, muito difícil. Já tinha a minha casa e ia dormir muitas noites a casa dos meus pais. Sentia falta dos amigos, sentia falta de me sentar à porta a conversar com a vizinha da frente... Já me habituei. Mas quando chego à Mouraria, ainda vou a subir a rua e já estou a gritar pela minha mãe! Há vícios que não se perdem...

 

Emociona-se quando está a voltar, quando sobe a rua?

Não é uma questão de emoção. Sinto que estou em casa. Ainda hoje vou lá. Quando tenho tempo passo lá a tarde, falo com a avó do António, que é um dos meus músicos, a quem chamo avó: «Há aqui café de cevada, queres? E pão com manteiga».

 

E sabe-lhe bem, esse café?

Sabe muito bem. É isso que faz com que eu não voe. Com que eu não ande com o nariz no ar. As minhas raízes são pobres. 

 

Quando era mais pequena, era como? Sempre a conhecemos com esse visual exótico, esse cabelo...

Tinha o cabelo comprido aos caracóis. A minha mãe é adepta de meninas com cabelo comprido. E um dia, com 12 anos, apareci em casa com o cabelo cortado assim!

 

Como agora usa?

Não loiro, mas cortado à rapaz, sim. A minha mãe ia morrendo.

 

Deu-lhe uma tareia?

Bateu-me e foi ao cabeleireiro buscar a trança! Quis o cabelo e ainda hoje o tem guardado. Quando o voltei a cortar, agora, também o fiz às escondidas!

 

Aos 12 anos já cantava nas colectividades. Foi cantando sempre. Tinha a noção de que estava a iniciar um percurso?

Nunca tive essa noção, nem nunca quis.

 

Ganhava dinheiro?

Comecei a ganhar dinheiro mais tarde, quando fiz bandas de funk e de rock e comecei a cantar nos bares, com os meus 15 anos.

 

Deixou de estudar com 18 anos. Nunca quis ir para a faculdade?

Não. A minha mãe queria. Acabei o 11º e a minha mãe começou a dizer que só faltava um ano... Comecei a sentir-me muito triste. Sou uma pessoa que não pode viver triste. Não consigo fazer coisas de que não gosto. Por exemplo, se não gostar de si, não consigo falar consigo. E tenho de ser verdadeira comigo própria, não consigo cantar uma coisa de que não gosto.

 

Um fado é um coração aberto?

Não. O fado é uma alma despida. E às vezes é muito difícil mostrar. Porque a alma chora, tem feridas, tem mazelas, e dói.

 

Quais são as suas dores? São sobretudo as que resultam da saudade? No início da nossa conversa dizia-me que nem queria olhar para a lista infindável de concertos, para o tempo que ia estar fora.

Não quero. Não quero imaginar trabalho. Quero imaginar prazer. Uma digressão deixa-me sempre com saudades de casa. Hoje tive um sonho agitadíssimo. Acordei várias vezes para me tentar situar. Não me lembrava em que casa estava. Mas a minha forma de cantar não tem a ver com saudades de casa. Eu sou um transporte para as palavras. Quando leio um poema e me identifico com ele, é muito fácil cantá-lo. Porque as palavras têm um significado. Ainda não escrevo. Talvez um dia o faça. Ainda não me sinto com bagagem suficiente. Bagagem de vida. Têm de me acontecer mais coisas. Boas e más.

 

Têm-lhe acontecido muitas coisas na vida?

Significantes, só têm acontecido boas. O que me vai fazer crescer como fadista são coisas más.

 

Há essa marca da dor no fado. Nem que seja a dor amorosa.

Que ainda não tive.

 

Não sei se é casada.

Sou.

 

O seu marido acompanha-a?

Sim. É o meu manager. É um grande profissional e antes destas coisas acontecerem já trabalhávamos juntos. Isto tudo parte da cabeça dele.

 

«Isto tudo» significa a internacionalização?

Sim. Ele imaginava isto tudo. Eu nunca imaginei. Vai fazendo as coisas, sem me dizer..., e depois aparecem feitas. São pequenos presentes.

 

É uma forma de a cortejar.

É. Acho que fica ainda mais feliz do que eu.

 

Todas as pessoas à sua volta sentem orgulho em si: o seu marido, o seu pai, a sua mãe, o bairro, o país...

O país, será?

 

Ao contrário de outras fadistas da nova geração, o seu sucesso acontece também em Portugal. Tem orgulho em si?

Tenho. Mas não é orgulho em mim pelas coisas que me acontecem. É orgulho na pessoa que sou. E tento todos os dias orgulhar-me.

 

De que é que se orgulha mais? O que é que pode ser motivo de orgulho?

Tenho orgulho em ser verdadeira. Muito orgulho no meu bairro. Muito, muito orgulho em ser portuguesa. Não sabe a sensação que é, no final de um concerto, estar toda a gente de pé e eu sentir-me orgulhosa por transmitir a cultura do meu país, por poder dizer que sou portuguesa.

 

Agora que o fado ocupa a totalidade da sua vida, ainda sente o prazer furtivo de espreitar, de participar na boémia do bairro?

Oh, sim. Cheguei ontem e fui logo para a fadistina!

 

 

Publicado originalmente na revista Selecções do Reader’s Digest em 2003

 

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