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No domingo fui às Antas (1998)

Porque é que o futebol é o que é? Elementar. Porque é bom ganhar. Porque os outros corporizam o mal. Os onze que correm por nós não são o que são mas o que a nossa imaginação quer que sejam. Os apóstolos eram doze. Com o nosso sagrado coração, a conta faz-se: passamos a ser doze.

No domingo fui às Antas.

14.55 h. Carros já estacionados em cima da relva do separador. As inevitáveis mulheres gordas a venderem bandeirinhas e cachecóis. Uma mãe desvia com um safanão a miúda do calipo. Filas extensíssimas para as diversas entradas. Hão-de ser cinquenta mil. Conjuga-se o verbo palmar (se é que me entendem). 

Chegam os primeiros onze ao relvado. Assobios de estridência relativa por serem vizinhos da mesma cidade. Com os mouros já imagino gente esmigalhada, "Ides levar poucas", faces coléricas, "Meu este, meu aquele".

Chegam os nossos. "Porto, Porto, Porto és a nossa glória". Autocarro de vidros fumados. Eles a verem-nos de cima e a sentirem o que nunca vou poder saber. Talvez sintam medo de falhar.

Um rapaz chamado Paulo apoia-se na grade, chama-os pelo nome e faz-lhes um Fixe (de polegar). Nessa noite, há-de contar ao pai como ludibriou um responsável qualquer e chegou sozinho até à última barreira que o separava dos seus heróis.   

Entrei nas Antas, onde nunca tinha estado, pelas traseiras, atravessei não muitos corredores, bebi café e água à borla na sala de imprensa. Finalmente, o estádio. O campo onde vinte e dois marmanjos vão correr atrás de uma bola. A bola é redonda. O campo é um rectângulo verde. Deduções sofisticadas ensinadas nos taxis e nos cafés que cheiram a fritos. O povo instalado na bancada, um ver se te avias, cinquenta mil de povo feliz. A felicidade pode justificar tudo. Todos os Filhos Da, todas as Filhas Da, toda a animalidade expulsa com êxtase. A felicidade é uma coisa difícil e viver cansa mesmo muito.

Ainda no corredor vi passar uma anafada senhora com voltinhas de pérolas azuis e brancas enroladas ao pescoço. Cruza-se com ela um senhor que diz com um suspiro: "Vou pôr a coisinha a chorar". Juro.

A fórmula clássica, usada no Porto, substitui "a coisinha" por "a malandra". Fica então: "Vou pôr a malandra a chorar". É um eufemismo para o acto prosaico do xixi, ou pipi, como se ensina às crianças.

Ocorrem-me os cinquenta mil que estão na bancada e a quase impossibilidade de se dedicarem a actos prosaicos.

De qualquer forma, está a chover.

16.10h. Na sala arregalam os olhos às Spice portuguesas, as Tentações. A diabolização da mulher é muito mais antiga que o futebol. Imagino os homens feios que se babam com elas. Seguem pelo corredor a desejar "Merde, merde" umas às outras. Hão-de voltar no final. Também lá estavam o Emanuel (sabem, o do Pimba, pimba) e o Iran Costa que fazia uns trejeitos indescritíveis com uma cabeleira platinada (o Iran é o do "Bicho, crocodilo eu sou").

Cinco minutos depois é distribuída a constituição das equipas. Volto à bancada. Ainda não estavam os cinquenta mil.

Um corredor é ocupado por deficientes motores que nestas alturas são chamados de aleijadinhos. As carripanas estão enfileiradas junto ao arame farpado. Um deles, um senhor, olha para mim e diz-me: "Vá por cima, menina, que aqui escorrega muito." Engoli a comoção e levantei também os braços para fazer a onda.

Passou o homem das "Batatas a duzentos, Chocolates a duzentos e cinquenta [escudos]". Agarrou-se ao arame e, abanando-o, gritou: "Porto, Porto, Porto".

Dez para as cinco. O povo levanta-se para aplaudir o Pintinho. No anedotário das Antas, a única brincadeira consentida é entre Penta da Costa e Pinto da Costa.

No mesmo camarote estava o ministro Sócrates, o autarca Gomes e uns tantos conhecidos da política e do futebol. Metros adiante identifiquei pelo Boavista o Major Valentim. Não muito longe, deveriam estar as mulheres dos jogadores, que não cheguei a encontrar. Reconheci o Madger, um argelino que há dez anos marcou um golo de calcanhar e agora assiste, gordo, a um mundo que já não é seu.

O primeiro remate à baliza do Boavista é frouxo. Sustêm-se os primeiros ah’s! e ganha-se fôlego para, em uníssono, chamar o que muito bem imaginam ao guarda-redes. Filho Da. Está ao meu lado uma figura que me ilucida: o desejável é que deixe entrar a bola; como fez pela vida e impediu o gooolo, merece ser castigado. Vai daí, tem o estádio inteiro a insultar-lhe a mãe.

Anotei canções para a próxima visita: "Quem não salta é lampião, Quem bate palmas é tripeiro", "Pinto da Costa Olé Olé", "E o Benfica vai pró caralho". Timidamente também se ouvia o já clássico "Eu só quero ver Lisboa a arder".

O presidente, o Pinto, assiste impenetrável. Nem uma só vez lhe vi os braços no ar.

No primeiro golo, a menina ao meu lado levantou-se toda, com a cintura apertada e a anquinha a dar a dar.

No dia seguinte, perguntava-me uma amiga: "E tu não te empolgaste?, um estádio assim cheio tem uma força do caraças". Lembro-me de ter pensado que o futebol, como a religião, como a pátria, como o amor, alimenta-se dessa entrega abnegada, dessa fé inquestionável, dessa perpétua comunhão. Que eu saiba, a crença não é um processo racionalizável.

Fim. Apenas do jogo. Não da festa. 

Quando estava já a desfalecer de fome e cansaço, segui a procissão, espalhafatosa e profana. Comiam-se bifanas e rodopiavam latas de cerveja. Retinha a expressão dos jogadores na voltinha pelo campo, os cachecóis esticados na bancada que faziam parte do sonho.

Do outro lado da rua um homem grita para o amigo e exibe a dentuça de felicidade agitando o guarda-chuva: "Eh, ó filho da puta". Intimamente disse-lhe: "Ganhámos".

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 1998

                  

 

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