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Onésimo Teotónio Almeida

O nome que aparece nos livros: Onésimo Teotónio Almeida. Mas é o Onésimo. (Ficou com o nome mais arrevesado da lista.) Micaelense dos Açores, açoriano de Portugal, americano em casa na Brown University. Cidadão torrencial que procura espaços de liberdade, para se espraiar. Vulcão raramente adormecido. Escritor, filósofo, académico. Tem 67 anos.

Veio para as férias de Verão. Hábito ou necessidade de todos os anos. É um modo de regressar ao essencial, a uma geografia que o coloca na infância, nos anos de formação. Paragem prolongada em Lisboa. Tempo sem tempo nos Açores. O tempo do rapaz que trazia os brinquedos nas algibeiras. (Hoje transporta livros, e em casa faz pilhas, arranha-céus, Manhattans, como lhes chama, com eles. É um homem dos livros tanto quanto é da vida que não aparece nos livros. A vida que só se sente na vida. Wittgenstein falava dela, procurava-a. Onésimo, também.)

Veio num dia de Verão, de muito calor. Falámos num hotel elegante de Lisboa. Estava ligeiramente atrasado e vergastava-se como se o atraso fosse considerável. Depois falou e divertiu-se como uma lava que jorra. Imparável, portanto.

Onésimo Teotónio Almeida ensina no departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade Brown. Tem uma obra extensa. Lançou recentemente Pessoa, Portugal e o Futuro. Podia ser, senão o pretexto, o ponto de partida para a entrevista. Não foi. Fomos lá.

 

É professor na Brown, é ensaísta, escreve ficção. Tem um personagem preferido? Júlio César, Álvaro de Campos? Podemos definir o que são os personagens de ficção, e também o que faz deles heróis.

Interessam-me mais as ideias do que a literatura, onde sou um visitante e leitor por gosto. Custa-me a entrar num universo ficcional. Só leio romances quando posso lê-los sem interrupções. Para entrarmos na ficção temos de nos deixar embarcar. De qualquer modo, quer na ficção quer na não-ficção o meu desejo é entender o mundo. E tanto a ficção como a não-ficção ajudam.

 

Precisa menos de enredos e precisa mais de ideias? É conhecido como um grande contador de histórias.

Sim, pelo-me por uma boa história. O nosso quotidiano está cheio de ricas histórias que se entrecruzam e mutuamente se enriquecem. E a História fascina-me. Também gosto de autobiografias, de livros de memórias. Em ficção, quero que ela me ajude a penetrar no real. Shakespeare, por exemplo, é magnífico porque nos faz entrar no universo escuro dos seres humanos.

 

Falei em Júlio César porque imaginei que um dos seus heróis seria um personagem shakespeariano. Todos precisamos de mitos.

As pessoas que mais admiro são pessoas que conheci ao vivo.

 

Diga-me cinco. Se gosta de autobiografias e memórias vamos começar por traçar vagamente a sua a partir das pessoas que admira.

Mais do que um herói, tenho uma constelação de gente que admiro em particular. Na minha adolescência e juventude, um tio e o filósofo José Enes tiveram grande influência na minha vida. George Monteiro e Eduardo Lourenço. A Leonor, minha mulher. Nunca pensei fazer uma hierarquia.

 

Não é uma hierarquia, é uma cartografia.

Então ultrapassa os cinco. E depois não sei porque é que um será melhor que o outro. A minha avó materna foi importantíssima. O Monsenhor Lourenço, um velho professor de inglês, ensinou-me imenso com as suas histórias. Há tanto que aprendi de gente simples. E lidei com pessoas de alto nível que não me ensinaram nada de especial.

 

Há pessoas que parece que sabem o mundo a partir dos livros e não ensinam nada. E há outras, iletradas, que têm uma compreensão íntima do funcionamento da vida.

É. Aprendo de onde me chega a luz. Sou muito ligado à vida. Quando falo, frequentemente conto histórias para ilustrar uma ideia. Uma ideia abstracta, abstrusa, de repente torna-se clara com uma história, ou uma experiência da vida real.

 

Por exemplo.

Recentemente estava a falar da importância do [filósofo] Henri Bergson para Fernando Pessoa. Tentava explicar o que era o élan vital, de Bergson, no momento de criatividade do artista. E, para o público a que me dirigia, ocorreu-me o Pauleta como exemplo.

 

Como é que foi dar ao Pauleta? Mistura Filosofia e futebol.

As pessoas queixavam-se de que ele não construía jogo, mas na verdade ele estava lá à frente imensamente atento e, no momento exacto, surgia oportuno para disparar.

 

O seu livro mais recente é Pessoa, Portugal e o Futuro. Os seus objectos de investigação são Portugal e Pessoa?

Tenho dois níveis de interesses: a nível teórico, a questão dos valores e das mundividências. A nível aplicado, Portugal. O meu interesse por Pessoa adveio do seu interesse por Portugal.

 

Neste livro, mais do que de Bergson, fala da influência do filósofo Georges Sorel no poeta português. Pode sintetizar o seu contributo?

Descobri que Pessoa, tal como Sorel, são os únicos pensadores no mundo que usam um conceito de mito especial. Em vez de uma explicação do passado, situam o mito no futuro, como íman a concitar os ânimos e os desejos das pessoas de modo a operarem uma transformação social. Trata-se de uma construção e por isso Pessoa considera-se um “sebastianista racional”. Ele sabe da “verdade da mentira que criou” porque “o mito é o nada que é tudo”. São expressões dele. A minha leitura pretende ser uma reconstrução do puzzle que era a mente de Pessoa ao lançar-se na escrita de Mensagem. E ele explicou-se todo melhor do que ninguém.

 

Ao falar do élan vital e do pessimismo que impressionava Pessoa, parece falar do Portugal destes dias. É uma marca da nossa cultura, este pessimismo?

Creio que sim. Pessoa quis reagir contra o pessimismo derrotista que imperava no final da monarquia e depois no período da 1ª República. Ele não era um activista mas uma saída para o país que via de braços caídos. A sua concepção é engenhosa, brilhante mesmo. Mas não é para ser tomada à letra, como tem sido feito por gente que lê a Mensagem sem ler o que Pessoa diz dela ou sem perceber as pistas que ele deixa por todo o lado. Pessoa era um homem de ideias, um ruminante que lia tudo, mastigava e deitava fora o que não lhe interessava. Ainda assim absorvia imenso.

 

Ensina cultura portuguesa na universidade.

Não tinha nenhum treino em cultura portuguesa, excepto a que levava nos ossos quando fui para os Estados Unidos aos 25 anos.

 

Tinha estudado Filosofia.

Sim. Eu fazia doutoramento em Filosofia em Brown [University] e um grupo de professores queria criar um Centro de Estudos Portugueses. Vieram ter comigo e juntei-me a eles. Pus-me a ler tudo o que encontrava sobre o tema e comecei a identificar os temas mais recorrentes e a mitologia do nosso imaginário: os descobrimentos, a decadência, o sebastianismo, os estrangeirados, a renascença portuguesa com um pensamento muito provinciano, todo voltado para o passado como se mais nada tivesse acontecido no mundo.

 

As palavras que usa são de terra e não de mar. A ilha era um lugar de fantasia?

Quando se vive numa ilha, a ilha é tão grande como o mundo. Só nos apercebemos da pequenez dela quando saímos. Na minha segunda classe anunciaram a visita do director escolar que vinha de Ponta Delgada e eu julgava que era o Salazar do quadro na parede à minha frente.

 

Perguntava-se, quando era miúdo, o que é que existia para lá do fio do horizonte?

Sim. Fui sabendo da existência de um outro mundo lá fora. Mas adorava a minha ilha, que achava lindíssima, que era o melhor dos mundos.

 

Então sente-se basicamente açoriano?

Costumo dizer: quando fui para a Terceira percebi que era micaelense. Na Madeira, senti-me açoriano. Em Lisboa, vi que era insular. Em Espanha, reconheci-me português. Em Paris, já era ibérico. Nos EUA, europeu. Na China, achei-me decididamente ocidental. Se um dia for a Marte, hei-de sentir-me terrestre.

 

Com que é que se espantava mais na infância?

Tive uma infância feliz. Íamos muito ao mar e passear para montes de onde se desfrutavam belas vistas. Mas o mar era perigoso e só íamos acompanhados de adultos. O mar dos Açores não é para brincadeiras.

 

Teve o espanto da natureza, o impacto da natureza?

Sim. “O mundo é o meu mundo”, disse Wittgenstein. As lagoas, as montanhas deslumbrantes, os passeios e os acampamentos ficaram para sempre comigo. A antiga questão do valor intrínseco é muito séria. Um pôr-do-sol é belo porque fomos habituados a senti-lo assim, ou é mesmo belo em si? Eu, sem ninguém me ensinar, fiquei apaixonado pelo belo da natureza em meu redor. Daria panos para mangas esta questão da objectividade/subjectividade estética.

  

Nos seus diários Wittgenstein fala de como a experiência da guerra havia mudado o seu pensamento filosófico e o seu mundo. O que é que, a si, o pôs em contacto com o coração do mundo?

Foi decididamente a emigração. Só entendi Portugal na diáspora, só lá me entendi (se é que me consigo entender). Ver os emigrantes no embate diário com o universo anglo-americano permitiu-me observar os conflitos de valores, de visões do mundo em acção.

Sempre me senti atraído por uma frase que ouvi a um professor – “as couves nascem do chão”. Percebi que o empirismo, aquilo que se nos mete pelos olhos dentro, foi mais forte que todas as teorias lidas nos livros, e moldou a minha visão do mundo. Sempre que um autor, Marx ou fosse quem fosse, não estivesse de acordo com a realidade que eu observava, era a realidade que triunfava na minha compreensão das coisas.

 

Retomemos a ideia de cartografia, caminhos principais e secundários, bifurcações. Quais foram os momentos decisórios, os grandes passos no mapa?

Não sabemos quais são as forças que nos movem. Somos um produto de forças genéticas e culturais (aquelas que encontramos na nossa interacção com o mundo). Sinto-me produto de ambos. Reconheço em mim muito que veio dos meus pais, da minha família, da minha educação. Ainda hoje sinto inclinações que alimentam hábitos que eu já tinha em criança. Tenho muitas semelhanças, até físicas, com o meu pai. A minha mãe notava isso. Dizia-me: “És o teu pai chapado!” Na boca dela, não era um elogio.

 

Como é que era o seu pai?

Eu em bruto. Explico-me: o meu pai não tinha mais que a terceira classe, que era o obrigatório no seu tempo. Mas não me acho nada diferente dele, nem sequer na minha maneira de ser, após tantos anos de instrução.” A polidez que tenho é apenas intelectual, a dos livros que fui acumulando. Nada mais.

 

Apesar da genética, dos constrangimentos, há coisas que são do domínio da vontade e da escolha.

É a velha questão: gosto das coisas porque elas vêm de encontro às minhas inclinações naturais ou porque a vida me moldou para gostar delas assim? Acho que somos o resultado do encontro das duas forças. Costumo dizer que fui para o seminário (aos 11 anos) com a vocação do meu tio. Ele tinha-me precedido no seminário. A minha escolha decisiva foi sair (aos 22). Há uma interacção contínua entre a inclinação natural e as experiências que a vida nos vai proporcionando. Desenvolvi isto no meu livro De Marx a Darwin – a desconfiança das ideologias (Gradiva, 2009).

 

Alguma vez considerou seriamente ficar no seminário?

Não imagina como era viver nos Açores nos anos 50 e 60, onde imperava uma religiosidade medieval. A distância geográfica e o salazarismo ajudavam a fazer dos Açores uma autêntica bolha. O Santo Cristo era o Pai Eterno. Tudo começava e acabava na religião. Mas no seminário li Mao-Tsé-Tung, que não me impressionou, e Marx, que mexeu comigo.

 

Eram padres p’ra frentex para permitir essas leituras.

Muitos dos meus professores eram magníficos intelectuais e excelentes seres humanos. Ainda hoje os admiro, apesar das diferenças ideológicas.

 

Porque é que saiu do seminário? O amor?

Era uma questão teórica ainda, isto é, não foi por causa de uma moça em particular. Pensava: “Eu não vou aguentar, não vou ser cumpridor”. O celibato começava a não fazer sentido e tivemos sérias lutas teóricas com a hierarquia. Depois vim para Lisboa e...

 

... estudou em Lisboa, na Católica.

Sim. Achei Portugal um país triste. Cinzentão. Formalíssimo. Os cafés estavam cheios de fumo, pessoas acabrunhadas. Apesar do medievalismo açoriano, o nosso comportamento era “natural”, não afectado.

 

Os seus pais estavam emigrados?

Sim. A minha avó paterna nasceu nos Estados Unidos em 1986. Com cinco anos, os pais regressaram aos Açores e ela com eles.

 

Em que momento é que os seus pais vão para os Estados Unidos?

Em 1966. Em pouco tempo, uma tia que lá estava reuniu os irmãos e a família toda vinda do Canadá, Brasil e Açores. Uma história de romance. Aqui, tudo o que era interessante era vivido à porta fechada. O que se lia, os debates políticos e os cineclubes. As pessoas nunca diziam o que pensavam, usavam complexos circunlóquios. O pensar era labiríntico. Uma vez na Católica, porque era presidente da Associação Académica, tive de ir encontrar-me com o Cardeal Patriarca. O Reitor ao ver-me reagiu: “Não pode ir em mangas de camisa!”. Fui passar as férias de 70, 71 e 72 com a família nos EUA e descobri um mundo mais vasto, sobretudo a universidade americana, que frequentei como externo.

 

Ficou deslumbrado com a irreverência, a liberdade?

O espaço livre. As possibilidades oferecidas por riquíssimas bibliotecas. O diálogo sem hierarquias entre professores e alunos (uma ideia é válida venha de onde vier, de um Nobel ou de um caloiro). Gostei muito dessa horizontalidade. Falo com toda a gente da mesma maneira. Simplesmente mudo o nível de complexidade conforme o público e as situações. Senti-me em casa na universidade americana e ainda hoje sinto da mesma maneira. Adoro dar aulas a alunos do primeiro ano e a universidade promove a oferta de cursos para eles dados por catedráticos.

 

O que é que aprende em particular com os alunos do primeiro ano?

Aprendo principalmente com as perguntas que me fazem. Lêem tudo o que lhes exijo. Um livro por semana. Vêm preparadíssimos para a conversa sobre a leitura e fazem perguntas por vezes inteiramente novas para mim. Para se evoluir no pensamento, nada melhor que uma boa pergunta. Não são arrogantes, falam com grande simplicidade, abertura e boas maneiras. O sistema encoraja-os a falar.

 

Os alunos portugueses são, genericamente, menos livres? Têm medo de errar?

Eu diria que, no geral, sim. E, também no geral, não lêem. Porque não leram, têm receio de errar ao fazerem um comentário ou uma pergunta ignorante ou mal informada. Reconheço, porém, que em cada curso há sempre pelo menos dois ou três que poderiam estar em qualquer boa universidade americana. Mas a falta desse hábito de espírito crítico vem desde a escola primária.

 

Quando é que ousou perguntar?

Já no seminário. Tenho uma colecção enorme de sebentas. Tomava nota das histórias das aulas, das provocações aos professores. Com datas e tudo.

 

Porquê esse rigor memorialístico?

Não sei. Às vezes com desenhos, caricaturas. Ainda hoje faço isso.

 

Nunca foi acanhado?

Fui, em criança. Era muito bem comportado e ouvia as pessoas ao meu redor dizerem isso. Foi no seminário que desabrochei. Passei a agir como me sentia. É ainda como sou hoje. É curioso que as pessoas que só me conhecem desde a minha ida para os EUA me acham de hábitos americanos, mas quem me conhece dos meus anos juvenis repete com frequência: “Nunca melhorou. Foi sempre assim”.

 

Como é que se chama o seu irmão? Pergunto-me se terá um nome invulgar. Como o seu.

José Urbano. Tenho uma irmã Lídia, uma irmã Suzete. O meu pai era Manuel, o meu avô era Manuel. O meu pai foi buscar Onésimo porque não quis Manuel e foi pedir ao pároco da aldeia uma lista de nomes. Onésimo era o mais arrevesado. Teotónio é o nome do meu padrinho.

 

Ninguém esquece, Onésimo.

Não é bem assim. Há muita gente que não atina com o nome e acha-o esquisito. Confundem com Nemésio, que é mais próximo do léxico português. Os americanos fixam-no mais facilmente. Uma questão de hábito pois decoram logo os nomes das pessoas. Vi isso nos meus filhos. Chegados da escola a casa, nunca diziam “um menino”, ou “uma menina”... isto e aquilo. Era sempre “o Mike”, “a Joanne”.

 

Em que sentido é que se americanizou?

Na América senti-me sempre à vontade e não me foi exigido que mudasse a minha maneira de ser. Não tive de adquirir tiques que noto em Portugal nas pessoas que ascenderam na escala político-social e que reproduzem maneirismos de autocontrolo, se calhar só visíveis para quem observa de fora. Na América, para além das regras básicas de trato, ninguém impõe formas rígidas de comportamento. Dá um grande sentido de liberdade individual que, nas universidades, resulta magnificamente, facilita um espírito de diálogo e respeito mútuo.

 

Em Portugal, frequentemente, a discordância é vista como um ataque pessoal.

Sim. É uma das razões porque faço questão de, em todos os debates em que me envolvo, me circunscrever às ideias. Vou reunir várias polémicas num volume intitulado Despenteando Parágrafos onde sigo essa regra à risca.

 

Disse várias vezes, de várias maneiras, que diz o que pensa. Já pensou alguma coisa durante esta entrevista que não disse?

Não. Limito-me a responder ao que me pergunta. Tem outras?

 

Porque é que é tão torrencial?

Não sei. Sou muito açoriano, vulcânico. Mas depois fico sereno como uma lagoa, quando acabo.

 

Tem algum vulcão de que goste muito?

Gosto mais de ver as lagoas do que os vulcões. Às vezes expludo, perco as estribeiras. É feio. Quando se chega aí, perde-se a razão, por mais razão que se tenha.

 

O que é que o faz vir por fora (para manter a metáfora do vulcão)?

Acho que o fechamento das pessoas ao óbvio, ao não reconhecimento de evidências empíricas e argumentos lógicos, se bem que na vida haja muito que ultrapasse esses domínios. Estou sempre disposto a manter uma conversação animada ou a falar a qualquer público. A minha regra é parar imediatamente se vejo pessoas dormir. Um professor americano pediu a um aluno: “Importa-se de acordar a sua colega?”. O aluno respondeu: “Eu? Acorde-a o senhor, que foi quem a pôs a dormir” [risos]. O professor, no fim da aula, viu-os passar de mão dada. Afinal eram namorados. Disse-lhe: “Com que então, a sua bela adormecida...”.

 

Disse que gosta de memórias e autobiografias. Uma autobiografia sua em meia dúzia de linhas, pode fazer? À luz deste que é hoje, que tem 67 anos, o que é que é essencial?

Sou dos Açores. Não é essencial, é existencial. Gosto muito de ser de onde sou. Os Açores são um universo imenso e vivi ali 20 anos da minha vida e regresso todos os Verões. A nossa infância e adolescência são fundamentais no processo de ver o mundo. Com 20 anos, quando vim para Lisboa, já sabia o que é que queria da vida.

 

Ainda não percebi o que é que quer da vida.

Quero prolongá-la eternamente [risos]. Sei que não tem solução, mas é uma vaga esperança que nos sustém.

 

O que é que queria da vida aos 20?

Tinha a minha personalidade basicamente formada. Não sabia exactamente o que iria ser, mas hoje reconheço que não me distanciei muito do que me entusiasmava. Escrevi um livro sobre meios de comunicação social, publicado nos Açores em 1970, onde estão expressas muitas das questões que ainda me ocupam. Claro que com a ida para os EUA aos 25 anos deu-se uma grande viragem. Mas não na minha maneira de ser profunda, apenas no modo de encarar o mundo.

 

Isso é porque os seus afectos são em língua portuguesa? Porque a sua formação foi cá?

Não por causa da língua, mas da cultura. Dou uma cadeira e escrevi já bastante sobre isso da formação dos nossos gostos. Porque é que, para a maioria dos portugueses, o bacalhau é melhor do que a comida chinesa? Cresci aqui. Não emigrei, alarguei fronteiras. Estou na América e sinto-me em casa. Mas fundamentalmente sou português, dos Açores.

 

Romance, ficção, escreve em português porque essa é a língua da sua criação.

Sim. Dou aulas em português e em inglês, escrevo ensaios em inglês. Outra coisa é criar. Falo inglês com sotaque. Toda a gente fala inglês com sotaque se aprende a língua depois da puberdade.

 

Com os seus filhos, fala um português com sotaque açoriano ou praticamente sem sotaque, como está agora a falar comigo?

Não há sotaque açoriano. Existe o sotaque micaelense, da minha ilha. O sotaque das outras ilhas não tem nada a ver. A razão porque as pessoas dizem isso é porque é o mais notório. Falo como estou aqui a falar. Falo em qualquer sítio da mesma maneira. Sou sempre o mesmo. Vou de calção para a praia e uso smoking em eventos formais, mas sou sempre o mesmo.

 

Para voltar ao lugar da partida, fale-me de um personagem que tenha criado. Ou de uma criação.

Escrevi teatro. Uma das peças chamava-se Ensaio Geral e era sobre um ensaio geral, e a bagunça que isso era. Cheio de elementos da vida real. O último livro de ficção que publiquei chama-se Quando os Bobos Uivam; são todas histórias reais. Daquelas histórias há um por cento que não é real, mas não digo qual é. Não tenho imaginação capaz de inventar histórias mais interessantes do que as que vejo acontecer.

 

Gosta dessa bagunça e desse desconcerto que a vida tem…

Não é assim tanta bagunça. Selecciono as histórias que me interessam e ilustram aquilo de que estou a falar. O chato é um indivíduo que quando está a conversar não sabe a diferença entre um facto interessante e um facto não-interessante. Alguém disse uma vez: um montão de factos sem uma única teoria, é botânica. Um montão de teorias sem um único facto, é filosofia. A sabedoria está em encontrar o meio-termo.

 

 

 Publicado originalmente no Público em 2014

 

 

 

 

 

 

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