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Patrícia Muller

É a autora das novelas de maior audiência em Portugal. Podia ser uma actriz das novelas de maior audiência em Portugal. Bonita, elegante, loura. Patrícia Muller assinou Mar de Paixão, na TVI, os primeiros episódios de Deixa que te Leve, escreveu a série cómica Ele é Ela. Mudou-se para a SIC recentemente, escreve a novela da noite Rosa Fogo. Coordena uma equipa de três pessoas que escrevem com ela um ano de episódios diários.

Fala muito depressa, tem um discurso torrencial. Dir-se-ia caótica, mas vive numa casa especialmente arrumada. Estudou Comunicação Social. Passou há pouco dos 30. Diz que tem orgulho na sua biblioteca e no seu armário.

 

Personagem Patrícia Muller: como é que a apresentaríamos? Façamos de conta que é preciso passar o essencial dela a uma actriz que lhe vai dar corpo.

É uma pergunta difícil, mesmo difícil. Há a que fica aqui em casa. (Este trabalho é muito solitário e ocupa muito do meu tempo. A parte profissional é também quem eu sou.) Há a que tem um filho, sítios onde ir, a vidinha normal. Uma mina a outra. Sou uma dramática furiosa em qualquer momento da minha vida.

 

O que é que faz desta pessoa/personagem uma dramática furiosa?

Não sei. Não sei se nasci assim, se a ficção teve tanta importância que, não só definiu o meu percurso profissional, como formatou quem eu sou. Eu não brincava. Não desenhava (os meus pais são ambos arquitectos). Li tudo o que havia para ler. A construção de histórias, a definição de estereótipos de personagens, toda a maneira de encarar a realidade, entrou por via da leitura. Tinha 14 anos quando li O Primo Basílio. Achei-o erótico. Não me esqueço da Luísa, à espera do amante, com a empregada… De cada vez que vejo alguém com um grande decote, penso nos “seios arfantes” da personagem do Eça.

 

E como é a família? É fácil pensar que a dramática furiosa deriva daí também…

Tive muita sorte. A família é uma âncora importante. Pais separados. Mas exemplos de estabilidade. Sempre me motivaram a que fizesse o que queria. (Mesmo que seja uma trabalhadora independente, a recibos verdes. O trabalhinho das nove às cinco, nunca tive.) Há uma ligação constante, diária. A minha mãe vive em frente, a minha avó vive na esquina. Fazemos um triângulo.

Há uma enorme intrusão. Ambiente muito feminino.

 

Mãe cúmplice.

Muito cúmplice. Tem mais vinte anos do que eu.

 

Era fascinada pelo mundo dos adultos?, queria crescer depressa, ouvir as conversas?

Não. Não sei se alguma vez quis crescer. Ainda hoje, não quero. Detesto fazer anos. Idealmente teria sempre 26 anos. Sou avessa a mudanças. E talvez por isso a ficção.

 

Porque a controla?, controla as eventuais mudanças?

Na ficção há uma realidade que construo. Com um princípio, um meio e um fim. (Não é uma coisa muito artística. Há ideias muito boas, maneiras engenhosas, regras. Não existe a coisa da inspiração que jorra…) A ficção não se desfaz, é imutável e perene.

 

O que a angustia é o fim em aberto?

Provavelmente. A realidade bate na cara com uma força imprevisível.

 

Fernando Pessoa escreve no Livro do Desassossego: “A minha vida é como se me batessem com ela”. A ficção não bate.

A ficção é uma coisa que eu modelo. Na vida, como é que se faz isso? Acontecem-nos as coisas mais bizarras, as maiores estranhezas! Eu não tenho uma alma aventureira. Tenho um pensamento louco. O imprevisto assusta-me. Sou uma pessoa que tem os mesmos amigos há 30 anos.

 

Quer que a sua narrativa seja, não uma coisa empolgante de se ler, mas de se viver. Voltamos à personagem por onde começámos. O que escolhe para si?

Acima de tudo, que faça sentido. Coerência. Não estou a falar de justificações foleiras para os actos. Mas de um percurso forte, lógico, válido. Que na narrativa as acções não sejam mesquinhas, pequenas. Num bom sentido. Não num sentido católico. Mas num sentido harmónico. Que se olhe e se diga: isto está no sítio certo. Há pessoas que vivem para o conflito. Eu detesto.

 

Sabe, nem que seja pela experiência profissional, que as personagens são tão mais ricas quanto mais contrastadas forem. Como é que se constrói uma personagem pela qual se tem fascínio e isso é, ao mesmo tempo, uma coisa com a qual convive bem?

Esse é o meu grande drama. Porque depois, a minha vida é como se me batessem com ela. Porque depois há o conflito entre as coisas como elas são e as coisas como eu gostaria que fossem.

Passo o dia a pensar a vida de outros que não existem fora de mim. A certa altura, penso na minha vida como se pensasse a vida de outros. Acabo por criar a minha personagem como se fosse uma personagem de ficção. Quando a vida me bate, essa personagem é confrontada com coisas absurdas. Lido mal com a surpresa. A criatividade é uma coisa incandescente, da imaturidade. A criatividade não lida bem com a contrariedade.

 

Enquanto autora, que temas dominam, mais do que tudo, as suas novelas?

As relações mãe-filha. Perdas. A morte. O amor, sim. Interessa-me mais o amor de uma mãe por um filho do que de um homem por uma mulher. A família. Ando a ler o guião do Ingmar Bergman do Fanny e Alexander, sobre os dois miúdos e a mãe, e é o tipo de universo que adoro. Porquê estes temas? Gosto de auscultar-me nas minhas relações pessoais; porque é que fiz isto e não fiz aquilo. Mas não em relação ao trabalho.

 

O amor e o sexo são omnipresentes numa novela. Não falou disso.

Amor e sexo estão relacionados com tudo. Faço uma ficha para cada personagem onde trabalho vários aspectos. A parte prática; onde nasceu, quem são os pais, o que é que fazem. A seguir, a parte emocional; que traços físicos, psicológicos. Como é que ela/ele encara o sexo?, o amor?; que experiência teve? Entra em qualquer personagem, faz parte dos ingredientes básicos. Como ainda hoje me dizia a rapariga que me arranja as unhas: “Uma novela sem triângulo amoroso não é uma novela!”.

 

Como é que se constrói uma novela? Há uma história principal, com um certo número de personagens, um conjunto de histórias subsidiárias, a correr em paralelo…

Posso concretizar a partir desta última, Rosa Fogo. A ideia surgiu-me quando li no jornal a história de uma mulher que vai desbaratando a sua fortuna com um homem que se aproxima dela.

 

Uma ideia decalcada do caso L’Oreal? Há na suposta relação de Liliane Bettencourt com aquele homem várias assimetrias (de faixa etária, de capacidade financeira). Um investimento interesseiro numa relação amorosa é um tema palpitante.

Era. Os ingredientes estão lá todos. Dramaticamente é muito complexo. Mas não basta ter ingredientes palpitantes – senão teríamos “homem matou mulher por causa de café”. Há uma velhota dona de um grande império que vê o seu mundo abalado pela entrada de um homem que se diz seu filho. Há 50 anos, de facto, ela abandonou um filho. Qualquer pessoa em casa pensa: “Isto podia acontecer-me”. Fantasioso, mas não demasiado irreal. (O caso da Maddie e do Rui Pedro comprovam-no. Imagine que o Rui Pedro, ao cabo de 20 anos, voltava para a mãe.) O cunho novela: ele não é o filho dela, é um impostor que quer o dinheiro dela.

 

Tem à partida apenas o traço grosso da novela? Os personagens ganham uma definição, um traço fino, apenas na escrita?

A base está pré-definida. Mas são muitos episódios, quase um ano no ar. Trabalhamos com 35 personagens que têm percursos que vamos delineando à medida que o tempo passa.

 

Essencialmente há duas dimensões nas novelas. A do sonho que distancia as pessoas da realidade. E a do reconhecimento que faz que as pessoas sintam que aquilo lhes podia acontecer. Com qual se identifica mais?

As novelas dão-nos elementos identificadores da nossa cultura. É por isso, creio, que as novelas portuguesas funcionam tão bem em Portugal. Jogo sempre com o sonho e com o espelho. Dou um upgrade na vida das pessoas, fazendo-as sentir que aquilo era possível.

 

Escreve a pensar em determinados actores? Tem algum papel decisório nisso?

Depende. Tenho tido sorte, quer na TVI quer na SIC. Chamam-me. Mas obviamente não sou eu que tenho a decisão final. É sempre a estação. Nesta novela tenho um elenco fabuloso. Tenho actores que as pessoas reconhecem muito. O cenário é importante. O que vem antes da novela é importante (se passar um telejornal é uma coisa, se passar um reality show é outra). É incrível analisar o comportamento dos produtos que assino de acordo com os meios e condições em que são apresentados.

 

A sua equipa é constituída por quantas pessoas?

Trabalho com três pessoas (Na ficha técnica aparece: uma novela de Patrícia Muller, escrita com…) Reunimos todas as semanas e fazemos um plano para cada personagem para cinco episódios. Estruturar todos os personagens, que interagem, é complicadíssimo. É um puzzle de 35 peças que estão sempre a mudar em cada episódio.

 

Quais são as suas referências? Tem na estante Nelson Rodrigues, que tinha uma alma folhetinesca, ou séries com o Mad Men. Isto aparece no que escreve?

Nelson e Tennessee Williams são os meus dramaturgos favoritos.

 

Nos dois, tudo está à flor da pele. Há um exacerbar dos sentimentos. A pulsão sexual é central.

São dramáticos furiosos! No cinema, Douglas Sirk e Fassbinder. São as minhas grandes referências.

 

Aprendeu mais sobre as pessoas nos livros ou observando à sua volta?

Para a construção de personagens? Tenho aprendido a olhar. Sobretudo desde que o meu filho nasceu.

 

Falou da caracterização física de uma personagem. Que importância teve na sua construção enquanto pessoa ser uma mulher bonita, elegante e loura?

Sou excessivamente vaidosa! Sou muito insegura, também. Nunca acho que estou bem. Tenho quilos de roupa. Vou imenso ao ginásio, tenho cuidado com o que como, com a maneira como me apresento. Tenho preocupação com o impacto que causo nos outros. A minha mãe está-me sempre a dizer que não devia vestir-me como n’ Os morangos com Açúcar. Como tenho pavor de envelhecer… Como tenho pavor da morte. Quem é que ia ao meu funeral se eu morresse? Escrevi isto uma vez num filme.

 

Apontou a morte e a perda como temas constantes das suas novelas. Quem foram as suas perdas?

O meu avô, de quem eu gostava muito, morreu quando eu tinha oito anos. Tenho muitas memórias dele. Tenho uma memória na praia. Um rapaz magoou-me nas costas. Nem me magoou muito. O meu avô, que era enorme, levantou-se, e foi comigo refilar com o rapaz. A sensação de conforto e protecção que tive… Penso nesse momento variadíssimas vezes. Não me esqueço de quando a minha mãe me disse que ele tinha morrido – estava numa cama com o meu irmãos e os meus primos. “O avô foi para o céu”. Foi um dos diálogos desta novela, a miúda não percebe como é que a mãe foi para o céu…  

 

Que pessoa era você com 26 anos?

Engravidei. Vou fazer 33 anos no mês que vem. A entrada do Manel foi a mudança mais radical da minha vida. Foi ter que ser atenta, responsável em relação a alguém. Agora já não sou eu que importo.

 

 

Publicado originalmente na revista Máxima em 2011

 

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